Antes de mais nada, tenha o leitor em conta de que Capitães de
Abril narra uma história de amor. Nada mais estranho, dirão
alguns, pois não há Revolução que se levante
sem uma grande declaração de amor ao seu país,
ao seu povo e, sobretudo, à liberdade. E, não fosse tudo
isso, falamos certamente do dia mais importante da trajetória
do Portugal moderno.
Entretanto, o filme de Maria de Medeiros pode ser melhor compreendido
se cotejado com um outro: Bom povo português, exibido em São
Paulo, pela TV Cultura, há alguns anos. Ambos propõem
uma memória da revolução dos cravos. O primeiro,
preso ao dia 25 de abril, revela a generosidade dos oficiais que derrubaram
uma ditadura de quase meio século. Não é por outro
motivo que seu herói é o capitão Salgueiro Maia
(aquele que não quis o poder). O outro, à moda dos documentários
russos dos anos 20 e 30, subverte o seu próprio gênero,
dando um tom cômico aos personagens, distorcendo a realidade aparente
para revelar a subjacente. Afinal, como dizia o velho Marx, se essência
e aparência fossem idênticas toda a ciência seria
supérflua.
Bom povo português não se fixa num dia, mas num processo.
No fim, vemos outro herói do 25 de abril, o major Otelo Saraiva
de Carvalho, assistindo ao poder que sonhara distribuir ao povo voltar
às mãos dos profissionais. Não por acaso, este
filme foi praticamente banido de Portugal. Seu herói é
o povo português, indiferente quase aos acontecimentos da superfície
política na sua eterna e recorrente vida cotidiana. É
no mínimo incômodo mostrar o rosto de Otelo, este anti-herói
que arriscou tudo pela revolução e, anos depois, foi condenado
a 15 anos de prisão... Talvez não menos incômodo
seria o filme de Maria de Medeiros se os expectadores soubessem das
perseguições sofridas pelo Capitão Maia depois
de abril... A historiografia (e talvez eles mesmos) preferiria vê-los
como pólos antagônicos.
O filme de Maria de Medeiros, embora não fale diretamente de
Otelo (que estava, com outros oficiais, no posto de comando da Pontinha,
controlando todas as ações do 25 de abril com o codinome
Óscar) mostra o que os une. Fala do que ligou todos os capitães:
não a política, mas o sentimento. Sua história
procura ser fiel aos acontecimentos. Desde o momento em que os chaimites
param no sinal vermelho (pois a revolução respeitou as
leis!) até o momento em que dois capitães são confundidos
com pides (agentes da antiga polícia salazarista), embora essa
história realmente tenha acontecido com Otelo e não com
Maia...
Mas não deixa de ter o olhar particular da autora, como ela mesma
o confessa, no filme, através da menina que declara seu eterno
amor ao herói Salgueiro Maia. E da mulher que, na condição
de diretora, apostou nas palavras de ordem das mulheres portuguesas,
estas já tão mitigadas após décadas de repressão.
Não estamos, por certo, muito distantes do Maio de 68, de modo
que a Paris da possibilidade, a Eutópia dos reprimidos, já
era anunciada logo no primeiro diálogo do filme, na noite anterior
à Revolução. Momento emblemático deste dia,
viria a ser o flagrante deste mesmo casal, ao ser surpreendido fazendo
amor dentro de um chaimite. Talvez a imagem mais próxima para
a explosão revolucionária registrada por Maria de Medeiros
tenha sido a resposta de Goethe à revolução de
julho de 1830, na França: "O vulcão explodiu, tudo
está ardendo, não haverá mais negociações".
E este é um grande evento de uma outra história "ficcional"
que encontramos no filme. A da guerra que uniu e desuniu um homem e
uma mulher. Encanta e deixa um sentimento de perda. Mas ela serve para
falar de outro sentimento: a revolução por si só
foi um ato de amor numa sociedade que reproduz a solidão. Foi
a busca de valores autênticos onde eles não existem. Mas
de fato eles existiram por alguns meses em Portugal. Talvez, como diz
o herói do filme, apenas para que os inimigos se tornassem menos
visíveis.
Data de publicação: 13/01/2001
* Lincoln Secco é doutorando em História Social pela FFLCH-USP
** Marisa M. Deaecto é doutoranda em História Econômica
pela FFLCH-USP