Depois do sucesso obtido com Felizes Juntos, um filme de amor entre
gays, Kar-wai retorna às telas com o drama romântico
Amor à Flor da Pele, ambientado nos anos 60. Desta vez, é
uma história delicada e envolvente de um homem e uma mulher
casados que se apaixonam, mas não conseguem - ou não
se permitem - consumar o seu amor. Cada gesto, cada olhar dos dois
é cheio de paixão e desejo, mas o filme em nenhum momento
explicita envolvimento sexual entre os personagens.
O casal é vivido por dois grandes astros do oriente. Tony Leung
- prêmio de melhor ator em Cannes - e Maggie Cheung, que é
casada com o diretor francês Olivier Assays. Leung volta a trabalhar
com Kar-wai depois de Felizes Juntos, quando interpretou um dos protagonistas
do casal homossexual do filme.
Em Amor à Flor da Pele, ele é Chow Mo-Wan, um jornalista
, e Maggie vive Chan, uma secretária. Os dois se conhecem quando
sublocam quartos em apartamentos vizinhos. Um dia, Chow convida Chan
para irem a um café e juntos acabam se certificando que sua
mulher e o marido de Chan estão tendo um romance. Como os amantes
estão sempre viajando, marido e esposa traídos passam
cada vez mais tempo juntos e o envolvimento entre os dois é
inevitável.
O filme é falado em cantonês e inicialmente seria filmado
em Beijing. Mas, antes de dar licença para as filmagens, as
autoridades chinesas exigiram conhecer o roteiro do filme; como Kar-wai
nunca usa roteiro, a locação teve que ser mudada para
Macau.
Lançado nos Estados Unidos no Festival de Nova York, Kar-wai
disse que o filme foi a experiência mais difícil de sua
carreira: "Eu tinha o desafio de contar uma história que
em última análise envolvia apenas duas pessoas, disse
o diretor, revelando que por ter começado as filmagens em meio
à última crise econômica asiática, teve
uma série de problemas com a partida de alguns membros da equipe,
além daqueles com a censura. "Após fazer o filme,
estávamos física e financeiramente exauridos",
resumiu.
Os protagonistas tentam o tempo todo esconder o seu amor. Kar-wai
diz que esta é a razão de ter procurado sempre colocar
a câmera atrás de uma cortina, de um móvel, ou
de um objeto qualquer : "o filme é sobre um casal que
quer afastar seu segredo dos olhos de qualquer observador. Mas eu
queria que a audiência também fosse de bservadores",
explicou.
Na verdade, querendo ou não, o filme de Kar-wai acaba por deixar
no espectador uma certa sensação de voyeurismo: a maior
parte das cenas de Amor à Flor da Pele acontece em apartamentos,
restaurantes mal iluminados, cantos de ruas, quase sempre em ambientes
fechados. "Eu queria passar uma coisa muito íntima, lugares
pequenos, como se os personagens procurassem se esconder neles",
justifica, acrescentando que no final do filme sentiu necessidade
de mudar a perspectiva para alguma coisa diferente, totalmente voltada
para o lado espiritual, em amplos espaços abertos, como forma
de libertar sentimentos longamente aprisionados pela culpa.
É nesse momento que Chow se dirige a um templo milenar, as
ruínas de Angkor, na Cambodia, para confessar o seu segredo
. Segundo a tradição, se uma confidência for sussurrada
para dentro de um buraco das paredes do templo e logo depois tampá-lo
com barro, o segredo ficaria guardado ali para sempre. "Anghor
e seus templos era o espaço que eu precisava; por isso o filme
termina lá", contou.
Apesar de uma certa tendência à estetização
dos sentimentos, Kar-wai consegue harmonizar sons e imagens, estas
muito valorizadas pela fotografia de Christopher Doyle. A trilha sonora
também é um dos pontos altos do filme. Ela inclui o
belo "Tema de Yumeji", que mesmo tocado diversas vezes,
em nenhum momento se torna tedioso.
Os boleros cantados por Nat King Cole, é claro, acrescentam
qualidade e romantismo à trilha. Segundo Kar-wai , nos anos
60 ouvia-se muita música latina em Hong Kong : "As canções
do filme eram muito populares nos restaurantes e bares naquela época
. A música, para mim, é som e estado de espírito;
mas a razão principal de ter escolhido Nat King Cole foi porque
ele era o cantor preferido de minha mãe", confessou.
* Carlos Augusto Dauzacker Brandão é membro do Centro
de Pesquisadores do Cinema Brasileiro.
Data de publicação: 30/04/2001