A Boca do lixo e o cinema
A "Boca do
Lixo" paulistana se situa no bairro de Santa Efigênia,
e foi assim batizada pela crônica policial devido ao tradicional
bate-bolsa ao longo de umas vinte quadras entre as avenidas Rio Branco
e Duque de Caxias.
Os distribuidores
de filmes estrangeiros se estabeleceram lá desde o começo
do século por causa da proximidade com a ex-rodoviária
e o entroncamento ferroviário. Esta região foi um dos
principais pontos de prostituição de São Paulo
e um dos locais de grande aglomeração de mendigos e
alguns malandros famosos, de uma época em que a "malandragem"
ainda tinha seu charme. Estes personagens míticos do centro
da cidade serão vivenciados em diversos filmes do chamado Cinema
marginal ou Cinema de invenção, principalmente na década
de 70. Os bares localizados na Boca do Lixo, como o "Soberano",
citado no livro "Essa Rua chamada Triunfo" de Ozualdo Candeias
ocupavam um importante papel, pois serviram de ponto de encontro de
diversos cineastas, que queriam subverter o cinema tradicional.
Cinema de Invenção: O Paideuma Poundiano
O poeta e crítico
Ezra Pound criou uma interessante forma de classificar os escritores:
diluidores, mestres e inventores. Diluidores seriam aqueles artistas
que tentam repetir modelos consagrados em suas obras e acabam simplificando-as,
mera cópia mal feita. Mestres são aqueles que conseguem
atingir um virtuosismo em seu trabalho servindo como paradigma e os
inventores, artistas que estão à frente do seu tempo,
subvertem o consagrado, inventam novas formas e modos de fazer. Joyce,
Maiakóviski, Rimbaud, Cage, são exemplos de inventores,
artistas que apontam para o futuro e quebram linearidades. Pound utiliza
o termo "Paideuma" para definir uma escolha sincrônica
das melhores obras de todos os tempos, o legado cultural a ser deixado
para a humanidade. Esta escolha pode deixar de lado autores consagrados
de obra mediana para incorporar autores considerados menores, mas
que possuem alguns textos onde conseguiram avançar na linguagem,
indo além do seu tempo. Esta seleção não
se pautará pela sucessão temporal das obras como as
classificações diacrônicas tradicionais, mas pelo
lampejo criativo que independe da época da obra. Uma obra do
século X em diálogo com uma do século XX, apresentando
similaridades. Este método analítico pode ser usado
não apenas na literatura, mas também em outras formas
artísticas, como no cinema.
O Cinema de Invenção ou cinema marginal
Encontramos algumas
controvérsias para definir o grupo de cineastas que freqüentavam
a Boca do Lixo no final da década de 60 e começo da
década de setenta. O pesquisador Fernão Ramos define-os
como cineastas marginais, no sentido literal da palavra "margem",
cineastas que atuam à margem do sistema (Embrafilme etc.) e
apresentam como temáticas principais: o submundo urbano, os
excluídos, os renegados pela sociedade. Eles não possuem
muitos recursos para filmar, logo, tem de improvisar tentando sanar
as deficiências técnicas com a criatividade.
Jairo Ferreira,
um dos realizadores e pensadores deste cinema, prefere denominá-los
filmes de invenção, tomando de empréstimo a definição
de Ezra Pound. Esta classificação é mais interessante,
pois não se liga tanto a época da produção
dos filmes e não é tão reducionista quanto a
definição "cinema marginal". Jairo Ferreira
começa seu texto lembrando dos geniais cineastas russos do
começo do século como Eisenstein, Dziga Vertov, dos
expressionistas alemães como Fritz Lang, dos brasileiros Mário
Peixoto e o seu paradigmático filme "Limite". Estes
cineastas, para Jairo Ferreira, são inventores, e dialogam
intertextualmente com o cinema realizado na Boca do Lixo num eixo
sincrônico e atemporal. Tentaremos definir a seguir alguns dos
principais cineastas inventores da Boca do Lixo e suas principais
obras.
Comentários sobre o cinema paulista da Boca do Lixo
Entre os principais
cineastas da Boca do Lixo paulistana podemos citar alguns nomes de
extrema relevância que retrataram as várias facetas de
São Paulo, como Ozualdo Candeias, Rogério Sganzerla
e Carlos Reichenbach. Ozualdo Candeias retratou no seu filme "A
margem" as populações marginalizadas que viviam
próximas a Represa Billings. Um retrato duro e cruel da realidade
de uma cidade que quer ser chamada de moderna, mas não tem
uma política social eficiente. O cinema de Candeias é
direto e primitivo, conseguindo um resultado singular em condições
precárias de produção. Rogério Sganzerla,
em seu filme "O bandido da luz vermelha", conseguiu criar
um dos principais e mais inquietantes filmes da cinematografia brasileira.
Ele fez citações a Orson Welles, Godard e a outros cineastas
importante. Filme-citação, recria cenas de filmes consagrados
de uma maneira criativa e utiliza locução radiofônica
policial, conseguindo um resultado inusitado. Segundo o cineasta João
Callegaro, "o cinema da boca do lixo é um cinema cafajeste",
que aproveita 50 anos de cinema americano e não se perde nas
elucubrações intelectualizantes do Cinema Novo. Os filmes
da Boca do Lixo podem ser feitos com negativos riscados, fotografia
suja, erros de continuidade, trafegando na precariedade. A câmera
sentindo atração pelo abjeto, pela avacalhação.
A estética do lixo, utilizando sobras de um sistema internacional
dominado pelo primeiro mundo. A primeira vez que foi citado o termo
"Cinema da Boca" foi na revista Manchete, que definia este
movimento como sendo "cafona tropicalismo brasileiro". No
manifesto do cinema cafajeste, João Callegaro defendia que
o valor de um filme deveria ser contabilizado na bilheteria nas semanas
de exibição e abandonar as idéias intelectualizantes
do Cinema Novo da classe média semi-analfabeta. Os cineastas-inventores
da Boca do Lixo, apesar de criticarem o Cinema Novo, como fez Callegaro,
têm em diversos momentos influência dele. A frase "Uma
câmera na mão e uma idéia na cabeça"
veio do Cinema Novo e também define o Cinema Marginal ou de
Invenção. O cineasta Ivan Cardoso, um dos mais importantes
diretores do Cinema Marginal ou de Invenção, homenageou
Glauber com seu filme "Meia- Noite com Glauber". Ivan traçou
um paralelo entre as obras de Glauber, de Zé do Caixão
e de outros cineastas, demonstrando haver alguma similaridade entre
os filmes.
Observações
Finais
A Boca do Lixo
serviu como ponto referencial tanto por sua localização
estratégica (lá se encontravam as produtoras e distribuidoras
de cinema) quanto pela variedade das pessoas que por lá circulavam,
compondo um mosaico da população brasileira. Um lugar
ao mesmo tempo decadente e inspirador. Aqueles jovens cineastas acreditavam
no sonho de criar um cinema artesanal com poucos recursos e idéias
interessantes. Carlos Reichenbach disse: "Na impossibilidade
de fazer o melhor, devemos fazer o pior". Estava querendo mostrar
que não havia recursos para grandes produções,
e quando fala do pior não se refere a obras ocas, mas a filmes
transgressores que rompam a divisão clássica entre obras
de bom gosto e de mau gosto. Nem tudo que foi feito naquele movimento
pode ser considerado "genial", mas encontramos filmes extremamente
interessantes e idéias originais como: a locução
policial e as diversas citações de Godard a Orson Welles
do filme "O bandido da luz vermelha", de Rogério
Sganzerla; o primitivismo brutalista de José Mojica, que recria
lendas e cria um personagem genuinamente nacional, que é o
"Zé do Caixão"; o filme "Demência",
de Carlos Reichenbach, que cria um "Fausto" paulista utilizando
a imagem de um industrial falido em busca da inocência perdida.
Numa carta que Glauber mandou a Jairo Ferreira, ele elogiou o amor
ao cinema e o conhecimento que este apresentou, incentivando-o a continuar.
Este fato comprova que apesar de algumas divergências estéticas
entre os dois movimentos, o Cinema Novo influenciou o Cinema Marginal,
e Glauber se dirige a Jairo Ferreira como um mestre se dirige aos
seus pupilos mais inteligentes e criativos. Jairo Ferreira dedicou
um capítulo do seu livro "Cinema de Invenção"
a Glauber, mostrando orgulhosamente a carta que havia recebido. A
vontade de realizar, independentemente dos problemas do caminho, é
inerente aos dois movimentos. O que interessa é o impulso criativo
e a força vital, que os impede de ficar longe das câmeras.
Bibliografia
- Fernão Ramos - Cinema Marginal (1968/1973) a representação
em seu limite - editora brasiliense, 1987;
- Jairo Ferreira - Cinema de Invenção - editora Limiar.
São Paulo 2000;
- Ezra Pound - ABC da literatura, tradução de Augusto
de Campos e José Paulo Paes. Editora Cultrix, São Paulo;
- Ozualdo Candeias - Uma rua chamada triunfo. 2001 (Não consta
informações sobre a editora).
* Diniz Antônio Gonçalves Júnior cursa o 8o semestre
de PP na FAAP, publicou dois textos na revista Sígnica, uma
revista digital de poesia. o endereço é: http://signica.vila.bol.com.br
É um dos
colaboradores do site de poesia artéria 8 que está em
fase de construção e contará com as participações
de Augusto de Campos , Arnaldo Antunes , Omar Khoury entre outros.
publicado
em 08/12/02