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O Cinema de invenção e as imagens do centro de São Paulo"

por Diniz Antônio Gonçalves Júnior *



A Boca do lixo e o cinema

A "Boca do Lixo" paulistana se situa no bairro de Santa Efigênia, e foi assim batizada pela crônica policial devido ao tradicional bate-bolsa ao longo de umas vinte quadras entre as avenidas Rio Branco e Duque de Caxias.

Os distribuidores de filmes estrangeiros se estabeleceram lá desde o começo do século por causa da proximidade com a ex-rodoviária e o entroncamento ferroviário. Esta região foi um dos principais pontos de prostituição de São Paulo e um dos locais de grande aglomeração de mendigos e alguns malandros famosos, de uma época em que a "malandragem" ainda tinha seu charme. Estes personagens míticos do centro da cidade serão vivenciados em diversos filmes do chamado Cinema marginal ou Cinema de invenção, principalmente na década de 70. Os bares localizados na Boca do Lixo, como o "Soberano", citado no livro "Essa Rua chamada Triunfo" de Ozualdo Candeias ocupavam um importante papel, pois serviram de ponto de encontro de diversos cineastas, que queriam subverter o cinema tradicional.


Cinema de Invenção: O Paideuma Poundiano

O poeta e crítico Ezra Pound criou uma interessante forma de classificar os escritores: diluidores, mestres e inventores. Diluidores seriam aqueles artistas que tentam repetir modelos consagrados em suas obras e acabam simplificando-as, mera cópia mal feita. Mestres são aqueles que conseguem atingir um virtuosismo em seu trabalho servindo como paradigma e os inventores, artistas que estão à frente do seu tempo, subvertem o consagrado, inventam novas formas e modos de fazer. Joyce, Maiakóviski, Rimbaud, Cage, são exemplos de inventores, artistas que apontam para o futuro e quebram linearidades. Pound utiliza o termo "Paideuma" para definir uma escolha sincrônica das melhores obras de todos os tempos, o legado cultural a ser deixado para a humanidade. Esta escolha pode deixar de lado autores consagrados de obra mediana para incorporar autores considerados menores, mas que possuem alguns textos onde conseguiram avançar na linguagem, indo além do seu tempo. Esta seleção não se pautará pela sucessão temporal das obras como as classificações diacrônicas tradicionais, mas pelo lampejo criativo que independe da época da obra. Uma obra do século X em diálogo com uma do século XX, apresentando similaridades. Este método analítico pode ser usado não apenas na literatura, mas também em outras formas artísticas, como no cinema.


O Cinema de Invenção ou cinema marginal

Encontramos algumas controvérsias para definir o grupo de cineastas que freqüentavam a Boca do Lixo no final da década de 60 e começo da década de setenta. O pesquisador Fernão Ramos define-os como cineastas marginais, no sentido literal da palavra "margem", cineastas que atuam à margem do sistema (Embrafilme etc.) e apresentam como temáticas principais: o submundo urbano, os excluídos, os renegados pela sociedade. Eles não possuem muitos recursos para filmar, logo, tem de improvisar tentando sanar as deficiências técnicas com a criatividade.

Jairo Ferreira, um dos realizadores e pensadores deste cinema, prefere denominá-los filmes de invenção, tomando de empréstimo a definição de Ezra Pound. Esta classificação é mais interessante, pois não se liga tanto a época da produção dos filmes e não é tão reducionista quanto a definição "cinema marginal". Jairo Ferreira começa seu texto lembrando dos geniais cineastas russos do começo do século como Eisenstein, Dziga Vertov, dos expressionistas alemães como Fritz Lang, dos brasileiros Mário Peixoto e o seu paradigmático filme "Limite". Estes cineastas, para Jairo Ferreira, são inventores, e dialogam intertextualmente com o cinema realizado na Boca do Lixo num eixo sincrônico e atemporal. Tentaremos definir a seguir alguns dos principais cineastas inventores da Boca do Lixo e suas principais obras.


Comentários sobre o cinema paulista da Boca do Lixo

Entre os principais cineastas da Boca do Lixo paulistana podemos citar alguns nomes de extrema relevância que retrataram as várias facetas de São Paulo, como Ozualdo Candeias, Rogério Sganzerla e Carlos Reichenbach. Ozualdo Candeias retratou no seu filme "A margem" as populações marginalizadas que viviam próximas a Represa Billings. Um retrato duro e cruel da realidade de uma cidade que quer ser chamada de moderna, mas não tem uma política social eficiente. O cinema de Candeias é direto e primitivo, conseguindo um resultado singular em condições precárias de produção. Rogério Sganzerla, em seu filme "O bandido da luz vermelha", conseguiu criar um dos principais e mais inquietantes filmes da cinematografia brasileira. Ele fez citações a Orson Welles, Godard e a outros cineastas importante. Filme-citação, recria cenas de filmes consagrados de uma maneira criativa e utiliza locução radiofônica policial, conseguindo um resultado inusitado. Segundo o cineasta João Callegaro, "o cinema da boca do lixo é um cinema cafajeste", que aproveita 50 anos de cinema americano e não se perde nas elucubrações intelectualizantes do Cinema Novo. Os filmes da Boca do Lixo podem ser feitos com negativos riscados, fotografia suja, erros de continuidade, trafegando na precariedade. A câmera sentindo atração pelo abjeto, pela avacalhação. A estética do lixo, utilizando sobras de um sistema internacional dominado pelo primeiro mundo. A primeira vez que foi citado o termo "Cinema da Boca" foi na revista Manchete, que definia este movimento como sendo "cafona tropicalismo brasileiro". No manifesto do cinema cafajeste, João Callegaro defendia que o valor de um filme deveria ser contabilizado na bilheteria nas semanas de exibição e abandonar as idéias intelectualizantes do Cinema Novo da classe média semi-analfabeta. Os cineastas-inventores da Boca do Lixo, apesar de criticarem o Cinema Novo, como fez Callegaro, têm em diversos momentos influência dele. A frase "Uma câmera na mão e uma idéia na cabeça" veio do Cinema Novo e também define o Cinema Marginal ou de Invenção. O cineasta Ivan Cardoso, um dos mais importantes diretores do Cinema Marginal ou de Invenção, homenageou Glauber com seu filme "Meia- Noite com Glauber". Ivan traçou um paralelo entre as obras de Glauber, de Zé do Caixão e de outros cineastas, demonstrando haver alguma similaridade entre os filmes.


Observações Finais

A Boca do Lixo serviu como ponto referencial tanto por sua localização estratégica (lá se encontravam as produtoras e distribuidoras de cinema) quanto pela variedade das pessoas que por lá circulavam, compondo um mosaico da população brasileira. Um lugar ao mesmo tempo decadente e inspirador. Aqueles jovens cineastas acreditavam no sonho de criar um cinema artesanal com poucos recursos e idéias interessantes. Carlos Reichenbach disse: "Na impossibilidade de fazer o melhor, devemos fazer o pior". Estava querendo mostrar que não havia recursos para grandes produções, e quando fala do pior não se refere a obras ocas, mas a filmes transgressores que rompam a divisão clássica entre obras de bom gosto e de mau gosto. Nem tudo que foi feito naquele movimento pode ser considerado "genial", mas encontramos filmes extremamente interessantes e idéias originais como: a locução policial e as diversas citações de Godard a Orson Welles do filme "O bandido da luz vermelha", de Rogério Sganzerla; o primitivismo brutalista de José Mojica, que recria lendas e cria um personagem genuinamente nacional, que é o "Zé do Caixão"; o filme "Demência", de Carlos Reichenbach, que cria um "Fausto" paulista utilizando a imagem de um industrial falido em busca da inocência perdida. Numa carta que Glauber mandou a Jairo Ferreira, ele elogiou o amor ao cinema e o conhecimento que este apresentou, incentivando-o a continuar. Este fato comprova que apesar de algumas divergências estéticas entre os dois movimentos, o Cinema Novo influenciou o Cinema Marginal, e Glauber se dirige a Jairo Ferreira como um mestre se dirige aos seus pupilos mais inteligentes e criativos. Jairo Ferreira dedicou um capítulo do seu livro "Cinema de Invenção" a Glauber, mostrando orgulhosamente a carta que havia recebido. A vontade de realizar, independentemente dos problemas do caminho, é inerente aos dois movimentos. O que interessa é o impulso criativo e a força vital, que os impede de ficar longe das câmeras.


Bibliografia

- Fernão Ramos - Cinema Marginal (1968/1973) a representação em seu limite - editora brasiliense, 1987;
- Jairo Ferreira - Cinema de Invenção - editora Limiar. São Paulo 2000;
- Ezra Pound - ABC da literatura, tradução de Augusto de Campos e José Paulo Paes. Editora Cultrix, São Paulo;
- Ozualdo Candeias - Uma rua chamada triunfo. 2001 (Não consta informações sobre a editora).


* Diniz Antônio Gonçalves Júnior cursa o 8o semestre de PP na FAAP, publicou dois textos na revista Sígnica, uma revista digital de poesia. o endereço é: http://signica.vila.bol.com.br

É um dos colaboradores do site de poesia artéria 8 que está em fase de construção e contará com as participações de Augusto de Campos , Arnaldo Antunes , Omar Khoury entre outros.

publicado em 08/12/02