Muito
se falou sobre o "renascimento" do cinema nacional, ganhamos
prêmios internacionais, concorremos ao Oscar... tudo dentro do
novo ar de modernidade", de avanço cultural... discursos
tão ao gosto do dobrada FHC/ Weffort.
Passados alguns anos, fica o gosto da ressaca, da noite mal dormida...
a lição de que não bastam prêmios e incentivos
fiscais para tornar o cinema brasileiro forte, presente. Os cineastas
devem ter aprendido esta lição: não basta fazer
filmes, tem que criar meios para exibi-los, cavar espaços entre
"blockbusters" como Star Wars e Titanic.
Além das enormes dificuldades para encontrar espaços de
exibição, o cinema brasileiro cometeu um pecado ainda
maior: caiu na mesmice, no discurso fácil, Global. A maioria
dos filmes da nova safra, com honrosas excessões, mantém
as fórmulas do cinemão clássico, esquecendo que
existe, sim, vida além de Hollywood.
E esta vida além de Hollywood não existe apenas na França
e Inglaterra, existe também no Irã, na China, no Japão,
na Argentina. Como ilustração, vale o resgate de uma história
recente:
Maio de 1998, Festival de Cannes, dois filmes de diretores dinamarqueses
são apresentados: Festen (Festa de Família, de Thomas
Vinterberg) e Idiotern (Os Idiotas, de Lars Von Trier), com os respectivos
subtítulos de Dogma 1 e Dogma 2. Em meio à confusão
comum a este festival, pouca atenção foi dada a eles,
apesar de Festen receber o Prêmio do Júri (dividido).
Julho de 1999: Festa de Família (Festen) já saiu de cartaz
nos cinemas brasileiros, com um saldo bastante positivo, Os Idiotas
(Idiotern) está há semanas em cartaz e Mifune, de Soren
Kragh- Jacobsen estréia com o subtítulo de Dogma 3. Todos
colecionaram prêmios pelos festivais por onde passaram.
Assim, rapidamente, no pequeno universo do cinema mundial a frase "Dogma
95" torna-se corrente, dividindo opiniões.
Este movimento não seria nenhuma novidade em um mundo onde a
existência de vanguardas ainda fosse a realidade, provavelmente
seria até chamado de "conservador" e "alienado",
muito embora com uma estética bastante próxima à
Nouvelle Vague e ao Cinema Novo. Entretanto hoje este movimento traz
ao cinema um "ar fresco" uma "recuperação
da inocência perdida", usando as palavras do seu maior expoente,
Lars Von Trier.
O ponto de partida do Dogma 95 (ou Voto de Castidade) seria um conjunto
de "10 mandamentos", a serem fielmente seguidos, formulados
em 13 de março de 1995, que vêm desde a proibição
da incorporação de objetos e cenários até
a vedação da produção de som em separado,
do uso de câmera fora da mão, do preto e branco, da iluminação
especial, dos filmes históricos ou de gênero, dos trabalhos
óticos e de filtros etc...
À primeira vista estes dogmas assustam ou geram risos e denúncias
de "golpe de marketing, todavia não se pode ficar
alheio a eles, principalmente após assistir seus filmes : nos
fazem lembrar a quantidade de dogmas que incorporamos ao longo da história
do cinema e nos abrem a perspectiva da retomada de um cinema simples,
distante da banalização de sentimentos, ações
e imagens impostas pelo cinemão americano. Resumindo: clamam
por um tipo de reação ante à passividade individualista
presente no cinema mundial.
Dogma 95 é uma retorno a um tempo em que o cinema era feito com
histórias bem construidas, simples, contemporâneas (portanto
extremamente complexas) e um essencial trabalho de atores, sem quaisquer
mascaramentos tecnológicos, sonoros ou visuais.
Muitos cineastas levantaram-se contra este movimento, considerando-o
limitador da atividade de criação, no que estão
cobertos de razão. O que incomoda, entretanto, é estes
mesmos cineastas, combatendo as novas regras propostas esqueceram dos
velhos e duros dogmas que vêm engessando o cinema, entre eles:
não se faz filmes com baixo orçamento, sem alta tecnologia
e sem as velhas fórmulas de roteiro.
Velhas fórmulas e altos orçamentos bastante presentes
no embriagamento da onda do "renascimento do cinema brasileiro",
que hoje já demonstra não ter passado de uma marola. O
principal foi esquecido: para quê renascer? Para quê cinema
brasileiro?
Talvez quem melhor tenha definido recentemente a importância do
cinema para um país foi, por incrível que pareça,
o produtor Luiz Carlos Barreto: "o cinema é um espelho...
ninguém pode viver sem um espelho que o reflita."
A conferir:
No cinema e quando forem lançados em vídeo:
Dogma 95: Os Idiotas (Idiotern, de Lars Von Trier- Dinamarca), Festa
de Família (Festen, de Thomas Vinterberg- Dinamarca) e Mifune
(de Soren Kragh- Jacobsen- Dinamarca).
Cinema brasileiro: Dois Córregos (Carlos Reichenbach)
*Luciana
Rodrigues é graduada em direito e cinema, cursa pós-graduação
no CTR-ECA.