DA HIPNOSE AO ABISMO MORAL


por Pablo Martins


A polêmica - desde Os Idiotas este é o terreno predileto de Lars Von Trier. Não é por acaso que as opiniões sobre sua obra oscilam entre o repúdio e a idolatria.

Lars Von Trier é um mestre da hipnose. Lembremos de Europa, seu segundo longa. Neste filme a hipnose desponta no início e no fim da projeção. Uma voz em off induz o espectador a um universo fictício e a imagem e o som o reforçam. Nos outros filmes que se seguiram percebemos procedimentos análogos (como a tela preta do início de Dançando no Escuro). A hipnose, segundo algumas definições, é marcada pela sugestão e por suscitar um estado intermediário entre a vigília e o sono. Sugestão, eis a palavra chave. Lars Von Trier propõe ao espectador um jogo, um local a imaginar, um lapso da imaginação dos seus personagens. Paulatinamente, instila-se uma ilusão imbuída de um tênue controle, embora crescente e desenfreada nas suas conseqüências.

Não se trata de um cinema ilusivo, nos moldes do cinema clássico, mas, distintamente, de uma narrativa cuja sugestão ilusiva permeia a dramaturgia, os personagens e o próprio ato de assistir ao filme. O cenário de Dogville (ou a sua ausência) é uma clara reiteração dessa característica. Ali se apresenta Dogville - uma cidade pacata. Ali o espectador deve ver, imaginar ou supor Dogville. Trata-se de um jogo aberto. O mesmo que permeava a imaginação da personagem de Ondas do Destino ou, do grupo de amigos que se fingia de Idiota, ou, ainda, da mútua desconstrução e representação da ilusão propiciada pelo gênero musical como ocorre em Dançando no Escuro. A regra é simples: o diretor nos convida a acreditarmos em algo que ele explicita como ilusório.

Dissolvido o cenário de Dogville, os mais óbvios elementos cinematográficos (o som, a imagem, a narração em off) também estão drástica e sutilmente dispersos. Não se trata de uma separação espaço-temporal, mas de cunho intelecto-sensorial (a continuidade é perturbada, mas não abolida). O diretor solta pistas e o espectador as completa mentalmente. Entre a escrita (o grifo) e a representação daquilo que ela representa vislumbra-se o abismo da imagem (mis-en-scène x mis-en-abîme). Em última instância, Dogville é um filme que prescinde da imagem - a imagem na sua acepção centrífuga: a transposição mental para o locus fotográfico. Apenas os personagens, os figurinos e os principais objetos cênicos surgem visualmente ao espectador. Não há paisagem. O resto não passa de letras brancas escritas num fundo preto. O signo visual, portanto, está depurado ao extremo.

Toda essa hipnose, metodicamente urdida por Lars Von Trier, almeja inocular feridas; extirpar cicatrizes. Trata-se de um cineasta da crueldade, pois o jogo induz o espectador a uma inevitável violência moral (como se o ápice da hipnose fosse a revelação do horror). E, ressalta-se, a moral é seu o campo privilegiado.

Comparemo-lo com Luis Buñuel - o cineasta par excellance da (a)moralidade. Ambos diretores são estetas da culpa. A ausência de 'paredes' e o jogo do visível/invisível com a convivência forçada de Dogville lembram, inclusive, O Anjo Exterminador. Há, entretanto, uma diferença entre esses dois autores: se o imaginário cosmogônico do mestre espanhol possui uma clara referência católica, o pano de fundo de Lars Von Trier, por sua vez, é permeado por um simbolismo de cunho protestante. As conseqüências dessa comparação (entre religiões) são inúmeras, mas é a partir delas que nos aproximamos do retrato dos EUA ensejado por Lars. O estoicismo, a ética do trabalho, o controle e a lógica da acumulação de capital são características, historicamente, oriundas da revolução simbólica, ética e moral desencadeada por Lutero. Dançando no Escuro e Dogville escancaram o reverso dessa moral. Enquanto a culpa católica soa ridícula, porque metafísica (no sentido da dualidade de mundos), a protestante revela-se ingrata porque demasiadamente pragmática. E aí emerge toda a crítica aos EUA - país que levou os preceitos protestantes às últimas conseqüências.

Desde Ondas do Destino temos uma constância no tipo de personagem feminina erguida por Lars: aquela que se martiriza para ser aceita em determinada comunidade. E o código para tanto é a própria participação no jogo moral. Em Os Idiotas, deve-se 'pirar'. Em Ondas do Destino, reina o comportamento da boa esposa ideal. Em Dançando no Escuro, há o imperativo da ética do trabalho. Em Dogville, enfim, Grace quer simplesmente ser aceita pela comunidade. Eis o desafio de todo estrangeiro, (i)migrante ou exilado: ser aceito por uma moral alheia. E para tanto não há muita escolha; transita-se, facilmente, entre o moral e o imoral. Em Dogville, cidade-fábula desse dilema, são os próprios moradores que jogam Grace nessa zona cinzenta. Aparentemente inútil para Dogville, Grace torna-se o receptáculo de tudo aquilo que está além do controle moral. E são violentos - todos - os instintos (quando) reprimidos. Entre o moral e o imoral emerge a mais humilhante das violências - a simbólica.

Além do desafio da aceitação, as protagonistas de Lars Von Trier são impelidas ao sacrifício. O convite à ilusão, feito do diretor ao espectador, é acompanhado, pari passu, por uma crescente crença da protagonista em alguma missão (e talvez o dinamarquês Carl T. Dreyer seja uma das maiores influências de Trier). Da ilusão, passamos à fé. Trata-se de uma metamorfose em busca de alguma salvação. Por outro lado, é essa própria moral - mesmo sublimada pela fé - que esmaga essas personagens. Basta lembrar da pena de morte de Selma. Basta remeter à Joana D´Arc.

Grace se assemelha mais a Medéia do que às personagens da última trilogia. Ela marca um corte radical, uma última e feroz negação da moral que não à aceita - o afã de manter a dignidade. Isto não impede um macabro sadismo. Em Dogville, aliás, depois da vigilância alcança-se a punição. E este terreno está prenhe de sadismo. A discussão de Grace com Jason, o pequeno garoto, quando Dogville 'mostra seus dentes', é a própria dissolução da moral em sadismo.

O último capítulo de Dogville representa uma guinada, e apresenta um questionamento: quem usa e como se usa o poder. O diálogo entre Grace e o gangster é elucidativo nesse ponto. E a ingenuidade, típica das protagonistas de Trier, dessa vez, transforma-se em vingança. Todo o dilema moral é resolvido por outro ato de moralidade, bestial e profundamente humano.

Dogville veio para polemizar. Um misto de distanciamento brechtiano com cinema ilusivo. Um cinema político. Uma atitude política. Político, sim, por ferir o cerne da moral protestante. Altivo, Lars Von Trier desdenha o mesquinho ciclo do jogo moral e parece clamar por algo que esteja para além do homem. Ele sabe, contudo, que nada encontrará. Nada.


publicado em 04/03/2004