A
polêmica - desde Os Idiotas este é o terreno predileto
de Lars Von Trier. Não é por acaso que as opiniões
sobre sua obra oscilam entre o repúdio e a idolatria.
Lars Von Trier
é um mestre da hipnose. Lembremos de Europa, seu segundo
longa. Neste filme a hipnose desponta no início e no fim
da projeção. Uma voz em off induz o espectador a
um universo fictício e a imagem e o som o reforçam.
Nos outros filmes que se seguiram percebemos procedimentos análogos
(como a tela preta do início de Dançando no Escuro).
A hipnose, segundo algumas definições, é
marcada pela sugestão e por suscitar um estado intermediário
entre a vigília e o sono. Sugestão, eis a palavra
chave. Lars Von Trier propõe ao espectador um jogo, um
local a imaginar, um lapso da imaginação dos seus
personagens. Paulatinamente, instila-se uma ilusão imbuída
de um tênue controle, embora crescente e desenfreada nas
suas conseqüências.
Não
se trata de um cinema ilusivo, nos moldes do cinema clássico,
mas, distintamente, de uma narrativa cuja sugestão ilusiva
permeia a dramaturgia, os personagens e o próprio ato de
assistir ao filme. O cenário de Dogville (ou a sua ausência)
é uma clara reiteração dessa característica.
Ali se apresenta Dogville - uma cidade pacata. Ali o espectador
deve ver, imaginar ou supor Dogville. Trata-se de um jogo aberto.
O mesmo que permeava a imaginação da personagem
de Ondas do Destino ou, do grupo de amigos que se fingia de Idiota,
ou, ainda, da mútua desconstrução e representação
da ilusão propiciada pelo gênero musical como ocorre
em Dançando no Escuro. A regra é simples: o diretor
nos convida a acreditarmos em algo que ele explicita como ilusório.
Dissolvido
o cenário de Dogville, os mais óbvios elementos
cinematográficos (o som, a imagem, a narração
em off) também estão drástica e sutilmente
dispersos. Não se trata de uma separação
espaço-temporal, mas de cunho intelecto-sensorial (a continuidade
é perturbada, mas não abolida). O diretor solta
pistas e o espectador as completa mentalmente. Entre a escrita
(o grifo) e a representação daquilo que ela representa
vislumbra-se o abismo da imagem (mis-en-scène x mis-en-abîme).
Em última instância, Dogville é um filme que
prescinde da imagem - a imagem na sua acepção centrífuga:
a transposição mental para o locus fotográfico.
Apenas os personagens, os figurinos e os principais objetos cênicos
surgem visualmente ao espectador. Não há paisagem.
O resto não passa de letras brancas escritas num fundo
preto. O signo visual, portanto, está depurado ao extremo.
Toda essa
hipnose, metodicamente urdida por Lars Von Trier, almeja inocular
feridas; extirpar cicatrizes. Trata-se de um cineasta da crueldade,
pois o jogo induz o espectador a uma inevitável violência
moral (como se o ápice da hipnose fosse a revelação
do horror). E, ressalta-se, a moral é seu o campo privilegiado.
Comparemo-lo
com Luis Buñuel - o cineasta par excellance da (a)moralidade.
Ambos diretores são estetas da culpa. A ausência
de 'paredes' e o jogo do visível/invisível com a
convivência forçada de Dogville lembram, inclusive,
O Anjo Exterminador. Há, entretanto, uma diferença
entre esses dois autores: se o imaginário cosmogônico
do mestre espanhol possui uma clara referência católica,
o pano de fundo de Lars Von Trier, por sua vez, é permeado
por um simbolismo de cunho protestante. As conseqüências
dessa comparação (entre religiões) são
inúmeras, mas é a partir delas que nos aproximamos
do retrato dos EUA ensejado por Lars. O estoicismo, a ética
do trabalho, o controle e a lógica da acumulação
de capital são características, historicamente,
oriundas da revolução simbólica, ética
e moral desencadeada por Lutero. Dançando no Escuro e Dogville
escancaram o reverso dessa moral. Enquanto a culpa católica
soa ridícula, porque metafísica (no sentido da dualidade
de mundos), a protestante revela-se ingrata porque demasiadamente
pragmática. E aí emerge toda a crítica aos
EUA - país que levou os preceitos protestantes às
últimas conseqüências.
Desde Ondas
do Destino temos uma constância no tipo de personagem feminina
erguida por Lars: aquela que se martiriza para ser aceita em determinada
comunidade. E o código para tanto é a própria
participação no jogo moral. Em Os Idiotas, deve-se
'pirar'. Em Ondas do Destino, reina o comportamento da boa esposa
ideal. Em Dançando no Escuro, há o imperativo da
ética do trabalho. Em Dogville, enfim, Grace quer simplesmente
ser aceita pela comunidade. Eis o desafio de todo estrangeiro,
(i)migrante ou exilado: ser aceito por uma moral alheia. E para
tanto não há muita escolha; transita-se, facilmente,
entre o moral e o imoral. Em Dogville, cidade-fábula desse
dilema, são os próprios moradores que jogam Grace
nessa zona cinzenta. Aparentemente inútil para Dogville,
Grace torna-se o receptáculo de tudo aquilo que está
além do controle moral. E são violentos - todos
- os instintos (quando) reprimidos. Entre o moral e o imoral emerge
a mais humilhante das violências - a simbólica.
Além
do desafio da aceitação, as protagonistas de Lars
Von Trier são impelidas ao sacrifício. O convite
à ilusão, feito do diretor ao espectador, é
acompanhado, pari passu, por uma crescente crença da protagonista
em alguma missão (e talvez o dinamarquês Carl T.
Dreyer seja uma das maiores influências de Trier). Da ilusão,
passamos à fé. Trata-se de uma metamorfose em busca
de alguma salvação. Por outro lado, é essa
própria moral - mesmo sublimada pela fé - que esmaga
essas personagens. Basta lembrar da pena de morte de Selma. Basta
remeter à Joana D´Arc.
Grace se assemelha
mais a Medéia do que às personagens da última
trilogia. Ela marca um corte radical, uma última e feroz
negação da moral que não à aceita
- o afã de manter a dignidade. Isto não impede um
macabro sadismo. Em Dogville, aliás, depois da vigilância
alcança-se a punição. E este terreno está
prenhe de sadismo. A discussão de Grace com Jason, o pequeno
garoto, quando Dogville 'mostra seus dentes', é a própria
dissolução da moral em sadismo.
O último
capítulo de Dogville representa uma guinada, e apresenta
um questionamento: quem usa e como se usa o poder. O diálogo
entre Grace e o gangster é elucidativo nesse ponto. E a
ingenuidade, típica das protagonistas de Trier, dessa vez,
transforma-se em vingança. Todo o dilema moral é
resolvido por outro ato de moralidade, bestial e profundamente
humano.
Dogville veio
para polemizar. Um misto de distanciamento brechtiano com cinema
ilusivo. Um cinema político. Uma atitude política.
Político, sim, por ferir o cerne da moral protestante.
Altivo, Lars Von Trier desdenha o mesquinho ciclo do jogo moral
e parece clamar por algo que esteja para além do homem.
Ele sabe, contudo, que nada encontrará. Nada.
publicado
em 04/03/2004