por
Maria Thereza Azevedo*
Uma gota d'água
dimana na tela; páginas de livros sucedem-se dando lugar a outras
páginas; papéis voam de diversos pontos para múltiplas
direções. Estas imagens contidas no filme A última
tempestade, de Peter Greenaway, são três fragmentos de
movimento, que relacionados ao acaso, podem indicar uma possibilidade
de percurso, sem mapa, pelo labirinto arquitetônico do filme.
Vou tentar visualizar, através do movimento de cada uma destas
três imagens, o desenho de uma possível leitura. Aqui,
o espectador-leitor é considerado como aquele que faz parte do
provável desenho, da possível forma mutante e mutável,
que surgirá da interação entre o observador e a
obra observada. Neste caso, o espectador não é aquele
que assiste e espera, é um decifrador e prestidigitador, decifra
participando da construção da poética. É
a partir do diálogo e interação com as formas sugeridas
no filme, que surgirão outras formas.
Nesta aberrante leitura, uma maneira de ver através de um palimpsesto,
uma tentativa de enxergar a forma do todo, através de partes,
como se no fragmento do plano estivesse contido o grande movimento,
em consonância com as estruturas mentais do decifrador.
O filme é tratado aqui como um desenho arquitetônico, um
labirinto em meandros, que se organiza com a participação
do outro. "Nós e labirinto tornam -se a imagem estrutural
do próprio saber: um saber aberto, interdisciplinar, em movimento,
sempre sujeito ao risco da perda de orientação".
(1)
O mapeamento do labirinto será feito através dos três
nós de imagens, que, em movimentos independentes giram em torno
de sua própria órbita e se intercruzam em pontos diferentes.
A gota que cai é como uma chamada inicial, um bater na porta
do inconsciente, para que seja aberta uma fenda, uma passagem para o
mundo mental, o mundo dos sonhos, da memória. Gota que bate na
água e reverbera em círculos concêntricos como ondas
de transmissão. "Existe uma forma subjacente que permite
comparações e parentescos. Uma forma. Ou seja, um princípio
de organização abstrata dos fenômenos, que preside
ao seu sistema interno de relações" (2).
No início do percurso decifratório, a passagem por intravisão,
para o fluir do inconsciente, a água movimenta-se em meandros,
em cursos indeterminados e imprevisíveis. "O universo impreciso,
do indefinido, do vago, mostra-se pois rico de sedução
para a mentalidade contemporânea". (3)
Os processos de conhecimento 'as vezes percorrem caminhos labirínticos,
metaforizando as estruturas mentais. Neste universo fragmentário,
multíplice, diverso e irregular, não se anda em linha
reta. É nas bifurcações do caminho que se encontram
as possibilidades de expansão, num processo em que decifrar é
construir espaços.
O psicólogo russo L.S.Vygotsky, ao elaborar a sua teoria do conhecimento,
percebeu o cérebro humano em movimento, cujo desenho vai sendo
amoldado à medida do seu desenvolvimento. Para ele, o processo
de aprender e conhecer, se dá em interação com
os outros e com o mundo, ou seja, em expansão.
Se as formas de percepção são formas de conhecer
e apreender e se as estruturas do pensamento estão em mutação,
esta vertente do cinema contemporâneo, com sua multíplice
forma, cheia de passagens, como no filme A última tempestade
de Peter Greenaway, cria um espaço para que o espectador tome
parte da construção.
"Por cognitivo
significa todas as operações mentais implicadas na recepção
o armazenamento e processamento da informação: percepção
sensorial, memória, pensamento, aprendizagem"(4)
O cérebro e o filme em expansão criam novas estruturas.
Não falo só do movimento que ocorre dentro da estrutura
do filme, mas do movimento que esta estrutura pode desencadear. Estas
formas podem gerar outras formas combinadas com a formas mentais daquele
que participa do jogo. O espectador de Peter Greenaway aciona memória,
atenção, percepção em altas voltagens para
conhecer.
Aberta a passagem com a gota d'água, o segundo movimento é
a consulta ao arquivo da memória, o passar das páginas
do livro, movimento que se repete nos 24 livros que Prospero, o personagem,
carrega em sua bagagem.
É a busca intencional pelo que está contido na memória-bagagem,
do filme, na memória do homem e na memória individual
de cada decifrador. No percurso da decifração, a memória
é como mapa em meandros com muitas ilhas e portos, localizados
em várias épocas, em muitos lugares.
No terceiro movimento, as páginas aleatoriamente soltas, desenham
no ar muitas linhas que partem de vários pontos para múltiplas
direções. A multiplicidade, a irregularidade, a desordem
que gera, a incerteza o imprevisível, redimensionam-se.
Onde podemos chegar com estes três movimentos, girando cada um
em órbitas diferentes? Os círculos concêntricos
reverberadores da gota da água, expandem-se para os lados; as
páginas que passam, expandem-se para dentro; e as páginas
que, aleatórias voam em múltiplos sentidos, em diversas
linhas, expandem-se para fora.
Neste trajeto, são muitas as possibilidades de leitura, de sentido
e de participação do outro na construção
de uma poética em expansão, depende das combinações
que forem engendradas e dos olhos que observam.
Notas
1. CALABRESE, Omar, Idade neo-barroca Sâo Paulo: Martins Fontes
, 1987 pag 152
2. idem,idem pag 14
3. Idem, idem pag 171
4. ARNHEIN, Rudolf Arte e percepção visual. Introdução
s/n
Bibliografia
ARNHEIN, Rudolf - Arte e percepção Visual - São
Paulo: Pioneira - 1980
CALABRESE, Omar - A idade Neobarroca - São Paulo: Martins Fontes
1987
CONNOR, Steven Cultura Pós-moderna São Paulo: Edições
Loyola 1989
DELEUZE, Gilles - Imagem Tempo - São Paulo:Braziliense - 1983
PARENTE, André - org, Imagem Máquina -Rio de Janeiro:
Editora 34 1993
VYGOTSKY, L. S. - Pensamento e Linguagem-São Paulo: Martins Fontes
1993
* Maria Thereza
Azevedo é doutoranda em Artes. Realizadora audiovisual. Entre
os vídeos: Ojos que miran, Imagens da Cidade, O trabalho, Palácio
da Memória. Professora no curso de Cinema da FAAP, da ECA/USP
e do curso de Radio e TV da Unimep.
Data de publicação: 01/04/2002