KUBRICK: PERFECCIONISTA DO IMPERFEITO

por Cid José Machado dos Santos Junior
Orientador: Prof. Dr. Carlos Eduardo de Moraes Dias


CAPÍTULO III
OS MÉTODOS DE UM PERFECCIONISTA

"Depois de cinco tomadas, qualquer pessoa no mundo consideraria minha filmagem boa. Depois de catorze, seria quando até eu a consideraria perfeita. Mas depois de trinta, eu estava entrando em um novo domínio. Eu estava realmente consciente onde este pé ou aquele dedo estavam. Era fantástico."
(Garret Brown, inventor e operador do Steadycam em "O Iluminado")

"Ele [Kubrick] nunca tinha medo de voltar a um cenário ou locação e mudar as coisas à sua volta. Ele não mostraria sequer um único fotograma se não estivesse contente com o resultado."
(Larry Smith, diretor de fotografia em "De Olhos B
em Fechados")

Com o passar do tempo, Stanley Kubrick foi desenvolvendo um método próprio de fazer cinema. Sua necessidade por controle aumentava, assim como o intervalo entre suas produções. Seu padrão de exigência definiu uma marca, como um selo de qualidade que determinava um estilo (estética) e temática próprios: "Um Filme de Stanley Kubrick".

A devoção de Kubrick ao cinema o fez se autoexilar de seu país, em busca do lugar que permitisse uma produção mais barata e que lhe oferecesse liberdade total. Equipes pequenas, mão-de-obra barata, cenários e estúdios mais baratos e que suprissem as necessidades de cada produção, filmagens em locações. Sua casa no interior da Inglaterra servia a seus propósitos cinematográficos: era onde fazia toda a pesquisa, pré-produção e parte da pós-produção. Muitas vezes era o local onde as equipes comiam. Os numerosos cômodos estavam repletos de câmeras, computadores, aparelhos de som, revistas, discos, livros, fitas de vídeo, mapas, fotografias e tudo o mais que pertencesse a este universo. Seu amigo e jornalista Alexander Walker o definiu como: "...um artista medieval vivendo sobre sua oficina."

O modo de vida do diretor implicava uma filosofia de trabalho que surpreendia seus colaboradores, sendo a característica mais marcante sua utilização do tempo. Assim como os escritores, os pintores e os artesãos, Kubrick apostava na qualidade do tempo como ferramenta que permite o aperfeiçoamento do trabalho. Ele se dava o tempo que achava necessário para realizar uma obra que fosse criativa e inovadora. Era um dos poucos cineastas (senão o único) que chegava ao set sem idéias pré-concebidas de como realizar uma cena , parava e questionava a equipe: "como fazer isso de um modo que nunca foi feito antes? Tal coisa é realista, mas é interessante?" Aprendia como seria um filme no próprio processo de fazê-lo.
Outra característica digna de nota era a preocupação exacerbada do diretor com relação ao sigilo envolvendo seus projetos. Todos os membros da equipe do filme, dos atores aos carpinteiros, assinavam um termo que os proibia de divulgar qualquer informação sem o prévio consentimento do diretor, que escrevia as frases que poderiam ser reproduzidas para a imprensa a respeito do filme.

Devido à singularidade dos métodos de Kubrick, analisaremos as principais etapas da produção de um filme, ressaltando as características específicas dos métodos de trabalho do cineasta.


PESQUISA

Foi o ponto de partida da maior parte de suas obras. Ao contrário da maioria dos diretores de Hollywood, Kubrick fazia pessoalmente toda a pesquisa necessária. Quando ele se via mergulhado em um assunto ao nível da obsessão, tinha uma idéia a respeito da temática de seu próximo filme. Telefonava para especialistas de diversas áreas passando horas colhendo as informações que queria (Michael Herr definiu um período de sua colaboração no roteiro de Nascido Para Matar como: "...uma ligação telefônica de três anos com intervalos."). Durante sua pesquisa para um projeto de filme sobre Napoleão, que não foi realizado, Kubrick encomendou um contêiner com centenas de livros sobre o general francês.

Na busca de locações para "Barry Lyndon", o cineasta despachou equipes para que fotografassem mansões do século XIX que fossem próximas à casa dele. Para obtenção de um cenário realista em "O Iluminado", o desenhista de produção viajou por todo os Estados Unidos documentando os detalhes dos hotéis.

Em "2001- Uma Odisséia no Espaço", consultou empresas do mercado e agências do governo para saber suas previsões de como seriam seus produtos e serviços no futuro. Também entrevistou as maiores mentes nos campos da ciência e da religião para que respondessem questões que surgiam durante a escrita do roteiro.

ROTEIRIZAÇÃO

Um fato curioso, notado pelo crítico Richard Schickel da revista TIME num artigo de 1975, era a incapacidade do diretor de inventar uma estória original a partir de suas próprias experiências ou fantasias. No mesmo artigo , o diretor revela que a criação da ficção o fascina e a considera: "... uma das capacidades humanas mais fenomenais." E como não possuía esta facilidade precisava fazer um "trabalho de detetive - descobrir acerca de coisas com as quais não tenho experiência direta". Por isso o cineasta passou a utilizar a adaptação literária como prática constante, buscando obras que tivessem afinidade com seus pontos de vista e que servissem de matéria-prima para realizar sua versão cinematográfica. O diretor preferia os romances que detalhavam o interior das personagens aos romances de ação e procurava criar o equivalente visual de tudo o que achava estimulante nos livros.
Para tanto, Kubrick contou com a colaboração de diversos roteiristas e escritores, muitas vezes os próprios autores dos livros. O único livro que o diretor adaptou sozinho foi "Laranja Mecânica". No caso de "Barry Lyndon", Kubrick utilizou o livro diretamente como roteiro de continuidade.

Na fase inicial do roteiro, Kubrick geralmente convidava o colaborador para uma reunião em sua casa para que pudessem discutir as possibilidades da estória. Muitos dos roteiristas afirmaram que esta conversa se transformava numa longa sabatina, na qual alguns chegavam à exaustão mental. O ritmo intelectual do diretor impressionou a todos, levando o escritor Arthur C. Clark , colaborador em "2001- Uma Odisséia no Espaço", a concluir que: "...a obsessão lhe dava energia."

Aparadas as arestas iniciais, os roteiristas passavam a trabalhar à distância, que era diminuída pelas freqüentes e longas ligações do diretor. Assim que a parte do colaborador estivesse concluída, Kubrick editaria o material à sua maneira e mais tarde, durante as filmagens, chegaria a reescrever seqüências inteiras.


DIREÇÃO DE FOTOGRAFIA

Stanley Kubrick iniciou sua vida profissional como fotógrafo da revista Look. E foi justamente a fotografia que despertou seu interesse pelo cinema, chegando a filmar pessoalmente seus três curtas e os dois primeiros longas. Portanto, o nível de exigência do diretor nesta área desafiava o mais preparado dos profissionais. Durante sua passagem por Hollywood, o cineasta entrou em árduos conflitos com dois veteranos: Lucien Ballard em "O Grande Golpe" e Russel Metty em "Spartacus".

É possível observar nos filmes de Kubrick uma consistência visual e um estilo definido: a composição simétrica do enquadramento denota clara estilização, a tendência a centralizar as personagens principais (notadamente nas célebres cenas em que realiza movimentos de acompanhamento de personagem com a câmera), preferência pelas lentes extremamente grande-angulares, algumas cenas feitas com câmera na mão (filmadas pelo próprio diretor), dentre outras características.

Kubrick sempre esteve em sintonia com os avanços tecnológicos, sendo um dos primeiros a utilizar fotos instantâneas como referência para monitorar a iluminação, a utilizar o Steadycam, o sistema de video-assist, os modelos de câmeras mais leves da Arriflex, as unidades de iluminação portáteis da Lowell, para citar alguns exemplos.

Quando a tecnologia disponível não era suficiente para satisfazer suas exigências técnicas, o diretor pesquisava e com o auxilio de empresas especializadas montava o equipamento que necessitava. Foi o caso de sua parceria com a empresa Cinema Products que adaptou câmeras para usos específicos. O mais surpreendente foi o pedido de Kubrick para adaptar lentes de satélite numa câmera antiga para que pudesse trabalhar com baixos níveis de luz pois estava determinado a filmar cenas noturnas no interior de mansões do século XIX somente com a luz de velas, em "Barry Lyndon".


DESENHO DE PRODUÇÃO

A autoridade e a presença constante de Kubrick em todas as áreas da produção facilitou a integração entre as mesmas, gerando resultados interessantes em cada um de seus filmes. A união dos trabalhos do desenhista de produção, do diretor de fotografia e do cineasta em "Dr. Fantástico" serviu de referência para a comunidade cinematográfica, da estilização da Sala de Guerra (com sua fotografia contrastada e luzes embutidas) à precisão militar do interior do avião B-52 (Ken Adam, o desenhista de produção havia sido piloto da RAF durante a Segunda Guerra Mundial). Mas a relação entre Adam e Kubrick era delicada pois o desenhista trabalhava de modo intuitivo e o diretor questionava tudo, exigindo uma razão para cada detalhe. O próprio diretor mandou mudar as cores das bombas nucleares três vezes.

Já em "2001- Uma Odisséia no Espaço", o maior desafio foi a criação da centrífuga, uma espécie de roda gigante que representava o interior da nave Discovery em tamanho natural e que girava 360 graus. Todo o interior foi meticulosamente revestido com módulos de cenário que foram soldados à base giratória. Cerca de doze projetores de cinema foram instalados no interior da centrífuga para gerar as imagens das telas dos painéis da nave por retroprojeção. O artefato chegava à velocidade máxima de 3 milhas por hora e pesava 30 toneladas, girava com luzes, câmeras e todo tipo de equipamento junto.

Em "O Iluminado", O desenhista de produção Roy Walker viajou tirando fotos e medidas de hotéis que serviriam de base para a construção dos cenários do Overlook Hotel. Como Kubrick gostava de liberdade para mover a câmera pelo cenário sem a interrupção das luzes tradicionais de cinema, que geralmente ficam sobre pedestais, o conceito de fotografia foi totalmente integrado ao cenário: abajures foram adaptados com lâmpadas especiais e a fiação foi toda instalada como numa construção real. Estas medidas foram tomadas tendo em vista a utilização da Steadycam.

As duas últimas ousadias do diretor se deram justamente na incursão no plano real, duas cidades que ele resolveu recriar na Inglaterra: a Hue do Vietnã e a Nova Iorque dos Estados Unidos. Para recriar as batalhas urbanas em Hue, o cineasta encontrou um bairro industrial decadente prestes a ser demolido. Kubrick pôde demolir prédios de maneiras específicas, construindo o cenário com a destruição controlada. Para completar o ambiente, selecionou uma espécie de palmeira e importou um carregamento de sessenta delas, complementando com duzentas árvores artificiais. Para recriar Nova Iorque o diretor mandou uma equipe para fotografar e medir as ruas e calçadas da cidade. Mandou trazerem até os postes de luz originais.


EFEITOS ESPECIAIS

Indubitavelmente, a contribuição de Stanley Kubrick no campo dos efeitos especiais alterou o rumo do cinema de ficção. Em "2001- Uma Odisséia no Espaço" ele desenvolveu novas técnicas que inspiraram toda uma geração de diretores dentre os quais George Lucas, Steven Spielberg, James Cameron e Ridley Scott. E foi com este trabalho que ganhou o único Oscar em seu nome.

No início de sua carreira em Hollywood, em "Glória Feita de Sangue", o diretor já demonstrava sua exigência ao técnico de efeitos especiais Erwin Lange pois queria que as explosões dos morteiros no campo de batalha fossem realistas. Lange passou horas experimentando novas técnicas até chegar a um resultado que o diretor aprovasse. Só na primeira semana de filmagem gastou cerca de uma tonelada de explosivos.

A realização dos efeitos de "2001" foi um desafio aparte. Para manter as múltiplas atividades em andamento sob controle, uma empresa européia de sistemas organizacionais foi contratada. A sala principal da produção que centralizava as informações foi apelidada de "Controle da Missão". A animação dos modelos de naves espaciais consistia em trabalho artesanal, quadro-a-quadro, e totalizaram com as outras cenas de efeitos 16 mil passos separados para obter 205 cenas que envolveram efeitos especiais. Mas o grande salto seria dado na realização da seqüência final: o Portal Estelar. Para obter o efeito dessa viagem dimensional, o especialista em efeitos especiais Douglas Trumbull (que trabalhou mais tarde com Lucas, Scott e Spielberg) utilizou uma técnica conhecida por cineastas experimentais, na qual a câmera é mantida com o disparador aberto por longo tempo enquanto imagens são gravadas diretamente no celulóide num fluxo contínuo e não quadro-a-quadro. Trumbull montou a câmera sobre uma estrutura que comportava painéis gráficos móveis, que eram controlados por computador. O novo sistema foi batizado de Slitscan.

Mais tarde, em "O Iluminado", Kubrick manteve uma equipe só para filmar a cena em que uma onda de sangue sai pela porta de um elevador. Um dos atores que participou do filme relatou que ouviu comentários nos bastidores de que levou cerca de um ano para que conseguissem uma tomada que satisfizesse o cineasta.


DIREÇÃO DE ATORES


A maneira de se obter a performance desejada de um(a) ator(iz) é absolutamente relativa. Não existe fórmula. São diversos os métodos de interpretação, sendo alguns deles até antagônicos. Cada ator tem um grau de sensibilidade e uma maneira específica de atingir essa emoção. Portanto, cada personagem a ser desenvolvida inicia-se da estaca zero.

Kubrick distinguia muito bem estas varáveis e abordava cada ator e atriz de maneira diferente. O exemplo mais explícito deste aspecto se deu no set de filmagem de "O Iluminado": o diretor conversava calmamente com Jack Nicholson, construindo a personagem em colaboração; já com Shelley Duvall Kubrick gritava e criticava o tempo todo, tentando extrair uma personagem angustiada e assustada de uma atriz tranqüila e gentil (provavelmente ele não teve outra saída pois a característica mais lembrada pelos colaboradores que trabalharam com o diretor é de que ele nunca levantava sua voz, sempre mantinha um tom suave).

O cineasta não gostava de dar muitas indicações aos atores, pois gostava de ser surpreendido pela performance, por alguma improvisação. Ele dava um longo tempo para que os atores desenvolvessem suas personagens durante o período de ensaios. Mesmo durante as filmagens era dado todo o tempo necessário ao ensaio de cada cena antes de rodar.

O processo de filmagem de Kubrick era muito diferente da prática da indústria cinematográfica norte-americana. O padrão de exigência do diretor podia render apenas uma cena ou um plano num dia de filmagem. Certo dia em "Barry Lyndon", toda a equipe formava uma grande caravana em busca de locações interessantes, os atores estavam maquiados e vestidos, todo equipamento preparado para rápida montagem. Rodaram o dia inteiro dentro das peruas e não filmaram nada.

O mais temido e famoso artifício do diretor era a numerosa repetição de takes. Nenhum ator saiu ileso deste processo que podia variar de uma média 30 a um máximo de 140. Kubrick se defendia dizendo que os atores não se preparavam o suficiente, que só decorar a fala era pouco. Em seu conceito os atores começavam a render a partir vigésimo take, quando não estavam mais conscientes do que diziam. E aguardava também o elemento surpresa, o algo mais - uma variação do "instante mágico" de Cartier-Bresson - que acreditava que viria através da repetição indefinida.
Apesar da fama de controlador obsessivo, com atores como Peter Sellers, Jack Nicholson e Lee Ermey, Kubrick deixava a improvisação fluir, assistindo de camarote as surpreendentes performances. A relação com Sellers foi a estrutura dorsal de "Dr. Fantástico", segundo Vicentt LoBrutto: "Como em Lolita, Kubrick permitiu que Sellers (grande improvisador) primeiro explorasse [a cena] de um modo desenfreado , e então o diretor selecionava momentos e falas de suas improvisações para reescrever a cena, moldando o fruto da inspiração." Podemos chamar o processo de uma "liberdade vigiada".

MONTAGEM


Michael Herr, mais uma vez, fez uma interessante observação: "[para Kubrick] ritmo é estória assim como personagem é destino." Como profundo conhecedor do cinema, o diretor adaptava seu estilo ao tipo de estória que queria retratar. Buscava a harmonia entre forma e conteúdo. E a montagem era para ele a fase decisiva (como fã de Orson Welles, Kubrick gostava de parafrasear o mestre dizendo que a organização da cena vinha da fotografia, a interpretação do teatro, os diálogos da literatura mas a especificidade do cinema vinha da montagem).

Basta notar os diferentes ritmos de seus filmes: as durações longas e contemplativas dos planos de "2001" e "Barry Lyndon" e o ritmo cinético e anárquico de "Laranja Mecânica".

Quando não estava tocando algum projeto específico, o diretor costumava gravar seus comerciais de tv preferidos e remontá-los, só para exercitar a linguagem.


TRILHA SONORA / MUSICAL


O estilo do uso que Kubrick fez com a música também influenciou muitos. Um grande exemplo dessa influência foi a utilização do trecho da ópera "As Valkirias" de Richard Wagner durante a cena de bombardeio a uma vila de vietcongs em "Apocalypse Now" de Francis Ford Coppola. O contraste entre cenas dramáticas ou de conteúdo polêmico e música de valores mais "nobres" e eruditos ou divertidos e populares, esta mudança de contexto e significado com um ponto de vista crítico, tornou-se uma característica indelével do cineasta.

Em seus primeiros filmes trabalhou com o compositor também jovem Gerald Fried, com quem dividia a paixão pela música percurssiva (Kubrick havia sido baterista de uma banda de jazz na escola). Mas com o passar do tempo foi dando cada vez menos importância para a criação de música original, principalmente após o sucesso das elegantes cenas espaciais ao som de "Danúbio Azul" de Johann Strauss e o poder épico de "Assim Falou Zaratustra" de Richard Strauss. Gostava de pesquisar músicas de todos os estilos, constituindo uma invejável discoteca e uma coleção de diversos tipos de aparelhagem de som, ambos sendo constantemente atualizadas. Um método que costumava utilizar com atores consistia em tocar uma música específica para estimular uma reação e criar um clima favorável no set (somente em cenas sem diálogo, logicamente).

Contratava os compositores para fazerem versões ou variações de músicas que havia selecionado nas pesquisas, fato que o impediu de trabalhar com grandes compositores como Bernard Herrmann, que recusou trabalhar em "Lolita" ao perceber que o diretor queria uma versão orquestrada de uma música popular.

A utilização de músicas populares chegou ao auge em "Nascido Para Matar", no qual a seleção das músicas da época do combate ocupavam pouco mais que a metade do tempo da trilha incidental.

O ecletismo musical do diretor pode ser conferido também na trilha de sua última obra, "De Olhos Bem Fechados".

Com relação ao tratamento sonoro, podemos destacar a utilização dos microfones de lapela, que o diretor preferiu pois eliminava a presença do boom, aumentando a liberdade de movimento da câmera pelo cenário.

Apesar de trabalhar apenas como mão-de-obra em "Spartacus", Kubrick não conteve seu padrão de exigência. O relato de Don Rogers, o gravador de som na pós-produção do filme, é revelador: "Foi demorado. Stanley é um verdadeiro perfeccionista, um perfeccionista exigente. Ele quer tudo exatamente perfeito. [levou] Nove meses! Foi o mais longo show que trabalhei em toda minha vida."


DIVULGAÇÃO E DISTRIBUIÇÃO


Apesar de trabalhar como diretor-produtor em dois filmes bem sucedidos até o final da década de 60, Kubrick só conseguiu a liberdade que almejava ao se associar à Warner Bros., que lhe deu controle total sobre seus filmes. "Laranja Mecânica" foi seu primeiro teste no mercado de promoção de filmes. O diretor montou uma equipe para analisar os dados referentes às bilheterias das salas de cinema dos Estados Unidos e de outros mercados. Depois de analisar as salas que rendiam mais com filmes no estilo do seu, Kubrick traçou um plano de lançamento que foi rejeitado pelo chefe executivo da Warner. O cineasta redobrou suas energias e fez uma pesquisa de mercado tão intensa quanto suas pesquisas de pré-produção, indicando que o estúdio estava fazendo o filme perder dinheiro na Europa, usando como referência as bilheterias de "2001" no mesmo mercado. Marcou uma reunião e apresentou os dados aos executivos, e ameaçou tirar o filme das mãos da Warner se nada fosse feito. Uma disputa interna pelo cargo de chefe executivo facilitou a vida do diretor. O executivo que havia rejeitado o plano de Kubrick foi despedido e o diretor foi apresentado num encontro anual do estúdio como um gênio que combinava senso estético com a responsabilidade fiscal.

No início, Kubrick lançava seus filmes de forma mais lenta, criando o efeito do boca-a-boca para aumentar os ganhos. Mas o tempo foi passando e o mercado foi mudando. O efeito filme de verão estava se solidificando e a necessidade de ganhar dinheiro rápido em várias salas simultaneamente tornou-se uma arma para a sobrevivência. Tal estratégia foi utilizada para vender seus filmes a partir de "O Iluminado".

Diferentemente da maioria dos diretores de cinema, que viajam para descansar e deixam os filmes nas mãos dos estúdios, Kubrick acompanhava todo o processo de pós- produção. Fiscalizava e assistia todas as cópias que seriam distribuídas para as salas de exibição, tendo rejeitado várias vezes a qualidade da imagem ou a mixagem do som.

Quando chegava o momento de fazer uma premiére, o diretor manejava o projetor pessoalmente, certificando-se do foco e controlando o nível do som. Além deste cuidado, mantinha seus amigos e colaboradores como fiscais de qualidade pelo mundo, controlando sempre que possível a qualidade da projeção de seus filmes.


CONSIDERAÇÕES FINAIS


Nossa jornada informativa nos mostrou o jovem cineasta em busca da emancipação profissional, o diretor maduro que lançou seu olhar clínico sobre os impulsos destrutivos que nos separam e o artista quase artesão que dedicou sua vida a desenvolver métodos de trabalho meticulosos afim de dominar seu ofício.

Três faces de um mesmo homem que nos fez caminhar por estranhos labirintos cinematográficos, nos quais trazia à luz um mundo que queríamos esconder, ou ignorar.

Como pudemos averiguar, a investida de Stanley Kubrick no universo trágico do homem se deu através de técnicas inovadoras e métodos exigentes.
Portanto, ao confrontar a temática do diretor (caracterizada pela imperfeição humana) com a sua metodologia (definida como perfeccionista), perceberemos que uma paradoxal coesão entre ambos aspectos se manifesta na figura de Stanley Kubrick através da obsessão.

Se interpretarmos a obsessão como um defeito, teremos uma imperfeição. Uma vez comprovada a personalidade perfeccionista do diretor teremos Kubrick: Perfeccionista do Imperfeito, o que nos leva a um último comentário sobre um dos principais assuntos que o diretor discutia com o colaborador Garret Brown: a perfeição e o seu caráter ilusório.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS