David Mamet, antes
de se tornar conhecido como diretor de cinema, havia ganho quatro
Tonys (o Oscar do teatro) e já era um escritor consagrado:
entre outros, é autor de roteiros como os de O Destino Bate
à sua Porta (1981), O Veredito (1982) e Os Intocáveis
(1987).
Conhecido por sua grande capacidade de trabalho, nos últimos
dois anos Mamet lançou Deu a Louca nos Astros (um dos títulos
em português mais infelizes dos últimos anos: ficou parecendo
nome de comédia pastelão), escreveu o roteiro do anti
militarista Whistle, dirigido por Sidney Lumet e fez Catastrophe,
um curta baseado num texto de Samuel Beckett; também está
finalizando Heist - que dirigiu e roteirizou - um policial
com Gene Hackman, previsto para ser lançado ainda neste ano.
Para quem admira o trabalho desse excepcional autor de filmes, roteiros
e peças que perfazem um conjunto coerente de idéias
humanistas - na maioria das vezes com uma qualidade poucas vezes alcançada
por outros dramaturgos e cineastas de hoje - a atual fase de grande
produtividade de Mamet é uma da melhores notícias para
quem gosta de cinema feito com arte e não com explosivos. Em
seu último filme, State and Maine - desculpem o nome
em inglês, mas, como foi dito acima, não dá para
manter o título desrespeitoso que arranjaram por aqui , em
se tratando do filme que é - Mamet dá o seu recado e
um apoio importante na campanha para que o trabalho dos roteiristas
seja oficialmente reconhecido e respeitado pelo sistemão hollywoodiano.
Ninguém melhor do que ele - um dos mais brilhantes roteiristas
atualmente em atividade - para falar do assunto. No filme, não
por acaso, o roteirista (Philip Seymour Hoffman, a cada trabalho,
mais brilhante) acaba sendo a peça chave para resolver os inúmeros
problemas que uma equipe de filmagem está enfrentando para
realizar um drama de época. E, sobretudo, luta (com sucesso)
para manter íntegra a sua alma e intacta a sua dignidade de
escritor. Na verdade, o personagem é quase um manifesto de
Mamet contra a exploração que Hollywood e sua ditadura
do "box office" impõe à criatividade
dos roteiristas . Também não por acaso, manifestou-se
justamente no momento em que os sindicatos de atores e escritores
se preparavam para uma greve contra os grandes estúdios.
Ao chegar no vilarejo de Waterford, Vermont, para filmar "The
Old Mill", o diretor (William H. Macy, como sempre, ótimo)
descobre que o velho moinho da cidade, centro da trama, havia sido
destruído por um incêndio há 40 anos. A partir
daí, o filme mostra, com humor refinado e diálogos afiados,
tudo que pode acontecer nos bastidores de uma filmagem, desde os ataques
de estrelismo da atriz principal (Sarah Jessica Parker ), o envolvimento
do astro pedófilo (William Baldwin) com uma garçonete
menor de idade ainda mais depravada do que ele (Julia Stiles), até
os transtornos que a realização de um filme podem trazer
para uma pequena cidade. De fato, são estes subplots que armam
o filme, quase sem uma história principal: Mamet, como marca
de sua obra, está muito mais interessado nas questões
ligadas à ética, ao poder do dinheiro e nas críticas
corrosivas à sociedade americana . State and Main -
o cruzamento de duas ruas principais da cidadezinha de Vermont - traz
um Mamet cada vez melhor. O diretor, aos 53 anos, está no auge
de sua arte de produzir roteiros inteligentes com diálogos
afinadíssimos (a rapidez com que alguns deles acontecem deixam
as legendas, às vezes, comendo poeira) e sabe, como poucos,
escolher os atores para viver seus personagens.
Tivemos a oportunidade de entrevistá-lo no Festival de Sundance,
quando ele falou sobre sua carreira, preferências e métodos
de trabalho. Leia alguns trechos do seu pensamento:
Além
de dirigir filmes e peças, você também faz roteiros
para Hollywood, onde a coisa é completamente diferente. Como
é isso?
Realmente é uma mesa maior do que a que eu costumo sentar.
Mas Hollywood, com aquela agitação toda, tem um lado
interessante e que traz muitos elementos e idéias para o meu
trabalho.
É você
quem escolhe os atores para os seus filmes?
Sou eu mesmo. Uma das vantagens de fazer filmes de baixo orçamento
é poder escolher com quem você vai trabalhar. Não
tenha dúvidas: trabalhar com quem você gosta e admira
é meio caminho andado para o sucesso de um filme.
As pausas e
inflexões do seu texto são fundamentais para o ritmo
e a ênfase do que você quer dizer. É difícil
fazer isso?
Numa peça, as pausas marcam o ritmo do diálogo enquanto
que num filme é preciso fazer outra coisa qualquer para marcar
o ritmo do trabalho. Na peça você faz uma pausa, no filme
você pode fazer um corte. No cinema o importante é o
visual e não o verbal, como é o caso do teatro.
Você parece dosar perfeitamente textos mais para o lado intelectual
(Oleana) com outros dirigidos mais para o grande público (Os
Intocáveis). Isso
é difícil ou vem naturalmente?
Vem naturalmente. Não há muita dificuldade em escrever
pensando em atingir apenas uma determinada audiência. Saber
o que cada uma prefere vem com a vivência incorporada pelo escritor.
Você
é muito conhecido como escritor de teatro, mas quando você
faz um roteiro para cinema a construção não parece
ser muito diferente . Pode falar sobre isso?
Eu comecei muito cedo no showbusiness. Como disse anteriormente, pude
aprender como fazer as coisas chegarem às audiências
de uma forma que seja agradável para elas. Na verdade, o importante
é entender o meio para o qual se está escrevendo, seja
teatro, cinema ou televisão.
Você
tem preferência entre o teatro e o cinema? Não. Eu gosto
de ambos. O que eu não gosto é de fazer a mesma coisa
o tempo todo. Como você vê os seus roteiros sendo dirigidos
por outros diretores?
Tenho tido muita sorte com os cineastas que vêm transformando
meus roteiros em filmes, como foi o caso de James Foley em Sucesso
a Qualquer Preço e Michael Corrente em American Buffalo.
Não sei se comigo dirigindo teria conseguido um resultado tão
bom.
Quando American
Buffalo foi filmado houve uma disputa muito grande por ele. Você
era amigo de ambas as partes interessadas. Como lidou com isso?
Existe um poeta americano que escreveu muito sobre a corrida do ouro
no Yukon e no Alaska. Num dos poemas ele diz que "não
há nenhuma lei de Deus ou dos homens que chegue ao norte de
10 mil dólares".
Woody Allen
escreve tendo Nova York como fonte de inspiração. Você
tem essa mesma relação com Chicago. O lugar influencia
tanto assim o trabalho?
Claro. São duas culturas realmente diferentes. Nova York é
um porto. É muito governada pela geografia. Lá o comércio
é importantíssimo. Chicago é uma cidade industrial.
A influência dessas coisas é inevitável e aparece
no trabalho que a gente faz. Além do que, goste ou não,
Chicago é o lugar onde eu nasci (risos).
O seu estilo
de trabalho tem se transformado numa espécie de adjetivo -
mametiano - para definir o trabalho de outras pessoas. Você
tem consciência disso?
Na verdade, procuro fazer o meu trabalho pensando somente nele. Sinceramente,
não tenho muita consciência se isso que você está
dizendo pode acontecer com o trabalho de algumas pessoas.
Você
tem planos de escrever uma autobiografia?
Uma biografia, como tal, não. Mas eu já tenho muitos
ensaios que são em parte autobiográficos, como The
Old Neighborhood, por exemplo.
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Myrna Brandão é presidente do Centro
de Pesquisadores do Cinema Brasileiro