A filmografia
de Ingmar Bergman pode ser vista a partir de três dilemas: a
infância, o amor e a história. Dos três elementos,
o terceiro é o menos visível. O primeiro foi o mais
explorado de maneira consciente. O segundo poderia ser definido mais
como a falta de amor ou as sucessivas tentativas de conquistá-lo.
Bem, é sob esta ótica que se vai ler a obra de Bergman
neste artigo. Não toda ela, mas especialmente seu filme Morangos
Silvestres (Smultronstället, 1957). Este filme ajunta a totalidade
da problemática bergmaniana. Desde o problema da infância,
do amor e da história, até o de Deus. Tema tão
presente em o Sétimo Selo (Det Sjunde Inseglet, 1956) e que
retorna em Fanny e Alexander (Fanny Och Alexander, 1982).
História
Já no início
dos anos 60 Jörn Donner tratou do substrato cultural, histórico
e político dos filmes de Ingmar Bergman. Seus temas não
poderiam ser tratados numa outra época ou numa outra sociedade.
Em primeiro lugar pela própria incapacidade do diretor adaptar-se
a outra realidade. Liv Ulmann conta em seu livro Mutações,
a estranheza dela mesma e também de Bergman em relação
ao comportamento norte-americano (Liv Ulmann foi esposa de Bergman
e uma de suas maiores atrizes, ao lado de Ingrid Thulin e Bibi Anderson).
Em segundo lugar, o cinema é ao mesmo tempo arte e indústria,
e em nenhum lugar fora da Europa Ocidental e, talvez, especialmente
fora da Suécia, um diretor poderia contar, inicialmente, com
a dependência da burocracia estatal e com a independência
do imediatismo do mercado.
A Suécia do pós-segunda guerra estava dividida entre
o projeto de construção do seu Welfare State e a culpa
diante do silêncio e da "neutralidade" de muitos diante
do nazismo. Também não se explicaria o peso e a densidade
dos diálogos na obra bergmaniana sem a tradição
teatral sueca e nórdica em geral, de Strindberg ou Ibsen, e
sem a tradição cinematográfica de Viktor Sjöström,
por exemplo.
A produção de uma sociedade avançada, no aspecto
material, permitiu a concentração incisiva nos problemas
mais angustiantes e existenciais do homem moderno.
Entretanto, a história só nos importa na medida em que
é filtrada por indivíduos. Para Bergman, esses indivíduos
não são alegorias, mas símbolos, encarnações
concretas de situações históricas de vida e até
de classe. Suas anotações prévias aos textos
que serviram de base a Cenas de um casamento (Scener ur ett Äktenskap,
1973) e Vida de Marionetes (Ur marionetternas liv, 1980) são
bastante explícitas a esse respeito. No primeiro caso ele diz:
"Johan e
Marianne sã filhos de convenções bem precisas,
e formados dentro da ideologia da segurança material. Jamais
consideraram os princípios burgueses em que vivem, como restritivos
ou falsos. Organizam-se dentro de um padrão de vida que estão
dispostos a transmitir para os descendentes. Suas atividades políticas
anteriores são mais uma confirmação dessa idéia
do que uma contradição".
Este filme, produzido
para a televisão sueca, não escapou a certos exageros
acerca do comportamento de Marianne. De tal sorte que parte de suas
reações pareceu até mesmo a Liv Ulmann (a atriz
que a interpretou) um tanto inverossímil. A reclamação
de Liv Ulmann, em entrevista a David Outerbridge, procede, mas para
Bergman o mais importante era levar os personagens ao paroxismo. Em
Vida de Marionetes, ele ressalta isto melhor:
"Por que
surge uma reação de curto-circuito numa pessoa totalmente
bem adaptada e bem estabelecida?".
Em Face a face
(Ansikte mot Ansikte, 1975), Bergman escreve:
"Desta maneira,
começou a personagem principal do nosso filme a tomar forma:
um ser humano bem integrado na sociedade, capaz e disciplinado, uma
profissional bem conceituada na sua carreira, bem casada com um talentoso
colega, e rodeada daquilo que se pode chamar as coisas boas da vida.
É o desmoronamento rápido e chocante desse caráter
excepcional e seu doloroso renascimento que eu tentei descrever".
Amor
A falta de amor
está vinculada a inúmeros filmes de Bergman e à
sua própria vida. Nenhum resumo poderia ser melhor do que uma
única narrativa do personagem Viktor, de Sonata de Outono (Herbstsonate
ou Hostsonat, 1978):
"Quando
eu perguntei a Eva se ela queria se casar comigo, ela endireitou-se
e disse que não me amava. Eu perguntei se ela amava outra pessoa.
Ela disse que era incapaz de amar".
O filme Trölosa
(Infiel), de Liv Ulman (com roteiro de Bergman) tem várias
seqüências explicitamente autobiográficas. A fuga
de David e Marianne para Paris. O sexo. A decepção.
A infinita capacidade de destruição mútua de
um casal. O abandono da filha à luta feroz dos adultos. Basta
ler sua autobiografia, Lanterna Mágica, e ver um autor teatral
em fuga com a amante para... Paris.
Em Morangos Silvestres a falta de amor está resumida em uma
cena terrível. Isak Borg amou Sara, mas ela casou-se com outro.
Depois de velho, ele é levado por um homem em seu sonho. Param
diante de uma clareira na floresta. Lá está sua uma
mulher num ato sexual. O homem diz:
"Muitos esquecem
uma mulher que morreu há trinta anos, alguns guardam um doce
retrato fugidio, mas você pode lembrar esta cena em sua memória.
Parece estranho? Terça feira, primeiro de maio, 1917. Você
estava exatamente aqui, e ouviu e viu precisamente o que aquele homem
e aquela mulher fizeram".
Como muito bem
notou Jörn Donner, a importância da cena não está
no ato, mas nas palavras da mulher. Ela planeja ir para casa e contar
tudo ao marido. Ela já sabe o que ele irá dizer:
"Pobre garota,
eu sinto tanta pena de você. Exatamente como se fosse um deus.
E eu irei chorar e direi: você tem realmente pena de mim. E
ele dirá: eu sinto uma pena terrível de você e,
então, eu chorarei mais e perguntarei se ele pode me esquecer,
e ele dirá: você não deveria pedir para esquecer
você. Eu nada tenho a esquecer, mas ele não sentirá
nenhuma de suas palavras porque ele é completamente frio...".
A posse de sua
mulher por outro homem já importa pouco. Isak é frio.
A combinação de "Is" (gelo) e "Borg"
(fortaleza) foi apenas uma coincidência, como acentuou o próprio
Bergman em seu livro Imagens. Como se estivesse morto. Uma das primeiras
cenas do filme é seu sonho. Ele se vê num caixão.
Depois se prepara para viajar de Estocolmo até Lund, onde receberá
o título de Doutor Honoris Causa em uma universidade. Esta
cerimônia parece extremamente fúnebre. A sua mãe
também é fria. O seu filho também é frio
e deseja morrer. Qual a origem dessa frieza? No filme a mãe
de Isak sente frio no ventre. Isto remete a uma passagem autobiográfica
de Bergaman: "Eu tinha a impressão de que certas crianças
nasciam de úteros frios". A chave explicativa é,
portanto, a infância.
Infância
O princípio
de Morangos Silvestres é, de fato, a infância.
Victor Sjöström, o grande diretor e ator sueco, tinha 78
anos quando atuou em Morangos Silvestres. Em 1916, durante uma crise
na vida pessoal, Sjöström resolveu viajar de bicicleta por
partes do país que ele sabia que tinha vivido na infância.
Esta viagem coincide com o papel desempenhado agora por ele, aos 78
anos de idade. Todavia, o próprio Bergman, em entrevista a
Björkman, Sima e Manns, dá a explicação
sobre a origem do roteiro:
"Um dia,
era de manhã cedo, peguei a estrada para Dalécarlie.
Saí de Estocolmo às 4 ou 5 horas. Uma hora depois, aproximadamente,
eu estava em Uppsala. (...). Vovó morava na rua Nedre Slottsgatan,
número 14, em frente ao Skrapan, a escola, vocês sabem.
Era um edifício muito velho e ela tinha um apartamento imenso.
No longo corredor, tinha um banheiro com as paredes forradas de veludo.
Os aposentos eram grandes, havia relógios de parede que tocavam,
tapetes enormes, e móveis imponentes. O interior não
tinha mudado desde que minha avó mudou para lá, recém-casada.
Era um pouco a reunião do mobiliário de duas famílias
burguesas, com quadros da Itália, esculturas e palmiers.
Era lá que eu morava, de tempos em tempos, quando era pequeno,
e este meio me marcou fundo.
Em suma, neste dia, chegando em Uppsala, me veio subitamente a idéia
de dar uma volta no número 14 da rua Slottsgatan. Era no outono,
o sol começava a se mostrar atrás da Catedral e os relógios
soavam 5 horas. Eu entro no pequeno pátio, que era recoberto
de pedra redonda, subo as escadas e no momento em que pego o puxador
da porta de serviço, que tinha ainda um vidro despolido colorido,
digo a mim mesmo de repente: imagine um pouco, você abre a porta,
e o que você vê, a velha Lalla, a velha cozinheira, com
seu grande avental. Ela está preparando a sopa de aveia, como
ela fez tantas vezes quando eu era pequeno. De um golpe só
podia abrir a porta da minha infância".
Ora, Morangos
Silvestres é a viagem de um velho num único dia entre
Estocolmo e Lund. E, ao mesmo tempo, conta os sonhos que ele tem durante
a viagem. A volta à infância. Sua história. A
história de um bacteriologista envolto numa tradição
que é apresentada pelo diretor como fúnebre, morta,
de um país que já não mais existe. Entre a infância
e a coroação de sua história de vida, medeia
a amada que não se casou com Isak. Enfim, entre a história
acabada e a infância nostálgica, um amor perdido para
sempre.
Bibliografia
Estas referências
bibliográficas são breves e sumárias. Não
foi possível fazer uma pesquisa acurada dos inúmeros
estudos sobre o cineasta sueco. A bibliografia limita-se aos poucos
livros que há na biblioteca pessoal do autor, todavia não
especializada em cinema. Alguns outros livros citados existem em português
(pela editora Nórdica) e não aparecem nesta bibliografia:
O Ovo da Serpente, Sonata de Outono e Fanny e Alexander.
Ingmar Bergman.
Cenas de um casamento. Rio de Janeiro: Nórdica, s.d.p. Sétima
edição.
Ingmar Bergman. Face a face. Rio de Janeiro: Nórdica, s.d.p.,
126 p. Terceira edição.
Ingmar Bergman. I quattro film. Sorrisi di uma notte d´estate.
Il settimo sigillo. Il posto delle fragole. Il volto. Torino: Einaudi,
1961, 311 p.
Ingmar Bergman. Imagens. São Paulo: Martins Fontes, 2001, 441
p.
Ingmar Bergman. Lanterna Mágica. Rio de Janeiro: Ed. Guanabara,
1988, 292 p. Terceira edição.
Ingmar Bergman. The magic Lantern. London: Penguin Books, 1988, 312
p.
Ingmar Bergman. The marriage scenarios. Scenes from a marriage. Face
to face. Autumn sonata. New York: Pantheon Books, 1983, 407 p.
Ingmar Bergman. Vida de Marionetes. Rio de Janeiro: Nórdica,
1980, 145 p. Segunda edição.
Carlos Armando. O planeta Bergman. Belo Horizonte: Oficina de Livros,
1988, 342 p.
David Outerbridge. Liv Ulmann sem falsidades. Rio de Janeiro: Nórdica,
1979, 95 p.
Jörn Donner. The films of Ingmar Bergman from Torment to All
these women. New York: Dover, 1972,276 p.
Liv Ulman. Opções. Rio de Janeiro: Nórdica, 1985,
239 p. Terceira edição.
Liv Ulmann. Changing. New York: Bantam Books, 1978, 307 p.
Stig Björkman et. Al.O cinema Segundo Bergman. Rio de Janeiro:
Paz e Terra, 1978, 245 p.
Tino Ranieri. Ingmar Bergman. Firenze: La Nuova Itália, 1974,
121 p.
* Lincoln Secco, Historiador.