Alemanha,
1931. M., O vampiro de Düsseldorf, o primeiro filme falado
do diretor austríaco Fritz Lang, teve possivelmente como
argumento um fato real. A idéia surgiu quando o diretor
tomou conhecimento sobre um assassino de crianças, Peter
Kürten, que por volta de 1925 cometeu 10 crimes na cidade
de Düsseldorf. Inicialmente, à película foi
dado o nome "Os assassinos estão entre nós",
mas, como o ultra-conservador Marechal Hindermburg estava no poder,
julgou desonra para a Alemanha "poderosa", conservar
o título. O filme reflete, claramente, o clima de terror
que predominava na Alemanha, na época da ascensão
do nazismo. No período, o cinema alemão entrava
em decadência, já notada nos últimos anos
do cinema silencioso. Entretanto, alguns filmes como o Anjo azul,
A ópera dos três vinténs, Senhoritas de uniforme
e M., o vampiro de Dusseldorf são exceções.
Rodado quase exclusivamente no estúdio, M revela o então
ator de teatro Peter Lorre (1904-1968 - embora já tivesse
participado de outros filmes, anteriormente), o homem de olhos
esbugalhados, um dos maiores vilões do cinema. Seu papel
é o de um assassino que abusa e mata meninas.
Os recursos sonoros utilizados por Lang chamam a atenção,
por sua quase perfeita adequação à narrativa.
O que ele fez, foi utilizar o som pré-gravado como "raccords"
(ligações) entre as seqüências. Mais
ainda, dotou o personagem de um elemento musical que o identifica
como o assassino. A música empregada por Lang, um leitmotiv
(um motivo que, recebendo na primeira apresentação
determinado sentido, em todas as repetições torna
a lembrar esse sentido, personagem, situação, sentimento
ou objeto) foi tirado de Peer Gynt, Suíte I Op. 46, última
parte, O castelo do rei, do compositor norueguês Edvard
Grieg (1843-1907), "um trecho de um impressionismo musical
de grande efeito", como escreve Stoecklin. (s.d., 98).
Em 23 de janeiro
de 1874, Ibsen escreveu a Grieg para que musicasse a cena para
sua peça teatral, Peer Gynt. "A impressão deveria
ser selvagem, no entanto é estranha. As variações
trepidantes de ritmos chocantes, envoltas em harmonias cheias
de sabor, são vivamente realçadas por uma divertida
orquestração". (Stoecklin. s.d.98)
Para realizar
M, o vampiro de Dusseldorf, o primeiro filme sonoro a estudar
a mente humana, Lang revisou vários casos policiais em
busca de inspiração. Muito rigoroso consigo mesmo,
internou-se por oito dias em hospital psiquiátrico para
documentar aspectos da psiquiatria criminal. Simultaneamente,
estudou aspectos da técnica moderna de investigação
do crime, resultando num filme ao mesmo tempo documental, porque
revela a situação da Alemanha na época, e
de dimensão humana, no monólogo dedicado a Peter
Lorre. Por outro lado,o diretor empregou pessoas das zonas underground
de Berlim, resultando na prisão de várias,no final
da produção.
SINOPSE
Dusseldorf
passa por um momento crítico. Assassinatos em série
assustam os moradores da cidade. Meninas são abordadas,
seviciadas e mortas por um homem que desafia a polícia.
À busca de pistas, qualquer pessoa pode ser o procurado
e, por vezes, inocentes são acusados.
A polícia
vasculha a cidade enquanto os mafiosos, tendo como chefe o poderoso
Schränker, montam uma "tropa" composta por mendigos
e trapaceiros. O propósito é encontrar o assassino,
antes da polícia. Assim, estariam livres para promover
seus "negócios"
Um cego, vendedor
de balões, tem contato com o assassino. Ele o reconhece
através da melodia que o homem assobia. Alertado, um dos
componentes da "tropa" escreve com giz um M (Mörder=
assassino) na palma da mão, marcando o facínora
nas costas. Após uma grande perseguição,
os mafiosos capturam o "vampiro" e o submetem a julgamento.
Num monólogo, considerado um dos mais expressivos do cinema,
o assassino diz ser vítima de seus instintos. Sentença:
morte. Entretanto, o réu quer que o entreguem à
polícia. "São mais condescendentes". A
polícia invade o recinto e o salva da morte.
ANÁLISE
O letreiro
da produtora Nero Film se apresenta, acompanhado por "No
castelo do rei". A música tocada nas cordas, em pizzicato
(modo especial de tocar os instrumentos de corda, deixando o executante
de usar o arco, para ferir as cordas com os dedos) e nos sopros,
soa numa dinâmica quase imperceptível, delicada e
ao mesmo tempo amedrontadora. À medida que as imagens surgem,
a dinâmica intensifica e o andamento, de inicio quase lento,
acelera gradativamente.
A sombra de
um homem se delineia na tela e, sobre ela, o M distorcido, fazendo
lembrar uma cena do Gabinete do Dr. Caligari, filme de Robert
Weine. Aqui, o desenho da letra, representa o expressionismo alemão,
do qual Fritz Lang é um dos maiores expoentes. Por baixo
da letra, o nome da película: M, O vampiro de Dusseldof.
Os créditos desaparecem, porém a música continua
e, ao longe, ouve-se uma voz infantil: "um, dois, um dois;
vem o homem com a machadinha para fazer sua carne em picadinho".
Em câmera
alta o espectador vê uma roda de meninas, brincando. O tema
é a onda de assassinatos que amedronta a cidade. Assim
que as imagens surgem, a música desaparece, priorizando
a voz infantil. A câmera deixa o local, fazendo uma varredura
para alcançar o andar superior de um conjunto de apartamentos
de classe baixa (câmera baixa). Do alto, uma senhora grita,
reprovando as crianças e impondo que se calem. A brincadeira
cessa por instantes, para ser retomada em seguida (ouve-se a voz
de uma criança).
No interior
de um dos apartamentos, duas mulheres conversam. Uma delas diz
que é melhor ouvir a voz das crianças, pelo menos
sabe que estão próximas. Cansadas do trabalho, envelhecidas
pela falta de recursos para o sustento, trocam idéias.
Uma entra em seu apartamento e a câmera mostra seu trabalho:
é lavadeira. O olhar da mulher alcança o relógio-cuco
batendo às 12 horas. É hora de preparar o almoço
para a pequena Elsie, sua filha. Simultaneamente, ouve-se o badalar
do sino anunciando o final das aulas.
Em seqüências paralelas, o espectador vê ora
a mãe da menina, ora a criança e o assassino.
Saindo da
escola, um guarda de trânsito ajuda Elsie a atravessar a
rua. Já do outro lado da calçada, ela bate uma pequena
bola. Ouve-se o ruído do brinquedo em contato com o solo.
Ela pára à frente de um poste e joga a bola sobre
o cartaz pregado ao mesmo. É oferecida uma recompensa para
quem encontrar o assassino de meninas. Sobre o cartaz se projeta
a sombra de um homem usando um chapéu. "Que bola bonita.
Como você se chama?" O espectador sabe que esse é
o "vampiro" e, de uma certa maneira, quer prevenir a
vítima.
A mãe
de Elsie olha, novamente, para o relógio. A menina está
atrasada. Ao ouvir crianças subindo as escadas, pergunta
pela filha. Ninguém a viu. Ao comprar para Elsie, um balão
de um cego, o assassino, de costas para o público, assobia
o tema de Grieg.
Até
aqui, Lang não mostra o rosto do "vampiro". Ele
fornece certas pistas ao espectador. Apresenta sua sombra, deixando
claro que o homem se esconde atrás de um sobretudo e chapéu;
sua voz é nítida, calma e até suave; o homem
assobia uma melodia, o leitmotiv, representante dele mesmo.
A mãe
de Elsie olha para baixo e vê os vários lances da
escada. Apesar de ser o primeiro filme falado de Lang, o emprego
do som é quase perfeito. Eisner comenta: "Com raro
domínio, Lang utiliza o som em contraponto com a imagem:
esta é valorizada pelo som" (1985:223). "Elsie,
Elsie, Elsie". A mãe chama pela filha. O nome de menina
é ouvido em várias gradações dinâmicas.
Michel Chion
explica: "Há aqui, uma ligação sonora
movendo-se, primeiramente, do simples para a confusão e
da confusão para o simples". (Apud Altmann.1992:109)
Possivelmente,
a reverberação explica o cansaço da mulher
ou ainda, segundo Chion "a voz torna-se mais distante e progressiva
na reverberação" (1992:211).
As cenas seguintes
mostram o tempo passando: o olhar da mulher focalizando o relógio,
as variações dos minutos; a bola solta no gramado;
o balão enroscado e depois desprendendo-se do fio de eletricidade
(sinalizando o assassinato da criança). Possivelmente,
com o balão se desprendendo e voando, Lang quis mostrar
a trajetória da alma de Elsie: abandonando o corpo.
Edições
especiais de periódicos são distribuídas
na cidade (câmera alta). Por outro lado, o assassino, de
costas, escreve uma carta à polícia desafiando as
autoridades:
"ainda não acabei".O espectador mais atento percebe
que o assassino, em determinado momento, escreve fora do papel,
deixando algumas letras gravadas na madeira.
O "vampiro"
está irado porque os jornais não publicaram suas
cartas anteriores. Mais uma pista apresentada por Lang: o homem
fuma, freneticamente Uma multidão se aglomera à
frente das notícias impressas e coladas às paredes.
Alguém pede que seja lido o texto, uma vez que poucos podem
se aproximar e as letras são miúdas. A voz de um
homem comunica que um novo assassinato foi cometido. Aqui, Lang
trabalha a voz do homem que lê a notícia, com a cena
paralela, onde alguns homens ouvem a continuação
do que estava sendo transmitido na cena anterior. Assim, com um
mesmo som, o diretor liga as duas cenas.
"No entanto,
ele está entre nos". Falsas acusações
são apontadas. Qualquer um pode ser o "vampiro".
No periódico estão instruções para
que todo cidadão esteja atento a qualquer pista que possa
identificar o assassino. As digitais encontradas na nova carta
dirigida à polícia, não podem identificar
o assassino porque foram manipuladas por várias pessoas.
O chefe de
polícia explica ao Ministro os passos que estão
sendo dados: todos os cantos estão sendo vasculhados: albergues,
estações de trens, ruas mal afamadas. Lohmann, o
temido chefe da polícia, fala ao telefone explicando os
procedimentos das buscas. Em outra tomada, policiais vasculham.
Aqui, Lang usa o som da voz de Lohmann com a cena seguinte, mostrando
como as buscas estão sendo efetuadas. Cães policiais
também participam. Surgem algumas pistas. Um pedaço
de papel amassado contendo restos de doces. Possivelmente, é
assim que as meninas são atraídas. Porém,
as pistas são desencontradas.
O sindicato
dos trapaceiros toma a dianteira, tentando encontrar o assassino.
Eles precisam agarrá-lo antes da polícia, assim
poderão "trabalhar" tranqüilamente. O esconderijo
dos malandros é invadido por policiais e Lohmann faz uma
vistoria nos documentos de quem lá se encontra. Aqui, Lang
aborda a realidade social alemã. Lohmann representa o poder
nazista com atitudes que remetem à maneira dos filiados
ao Nacional Socialismo, o partido de Adolf Hitler.
Schränker,
o chefe dos bandidos e seus comparsas usam chapéu, sobretudo,
bengala e luvas pretas, roupagem elegante do quadro nacional socialista.
Seu discurso remete ao de um orador nazista: " Ele( o assassino)
precisa de-sa-pa-re-cer". "O tema da necessidade do
desaparecimento dos micróbios, os elementos funestos que
decompõem o corpo social, é ordinariamente consagrado
em 1931, nos discursos de Hitler e de Himmler e seus acólitos,
no delírio nazista anti-semita", comenta Marie (1989:79).
Schränker demanda a morte de M, usando os mesmos termos dos
nazistas, quando falavam da "desinfecção"
dos germes que infectavam a Alemanha:os judeus. Na verdade, o
termo judeu não aparece no filme, ele está subentendido.
Schänker,
chefe dos bandidos, promove uma reunião onde explica a
necessidade de encontrar o "vampiro", antes da polícia.
"As batidas diárias atrapalham as nossas atividades.
As caixas da organização estão vazias".
Paralelamente, Lang mostra uma outra reunião, agora com
a cúpula policial. Cenas alternadas são mostradas;
ora a polícia, ora os bandidos. Na verdade, o que diferencia
uma dos outros, é a vestimenta. O espectador pouco observador
ficará confuso, não percebendo tratar-se de dois
grupos, tão perfeita se colocam as alternâncias.
"É um problema patológico que, possivelmente,
foi tratado em hospital. Quando não mata é uma pessoa
que não faz mal a uma mosca". Como encontrar outras
pistas? Vistoriar hospitais psiquiátricos, manicômios,
pedir ajuda a associações sociais; analisar lista
de doentes que tenham tendências patológicas idênticas
às do "vampiro", são considerações
do grupo de policiais. Por outro lado, os bandidos buscam parceria:
a Associação dos Mendigos.
Lang, para
mostrar os dois grupos trabalhando simultâneamente, faz
um travelling (uma varredura) dos policiais verificando o que
foi encontrado durante as buscas, ao grupo dos bandidos, jogando
baralho, enquanto esperam por Schränker. Seguem-se cenas
paralelas ligadas por certos gestos: os malfeitores levantam-se
e ao sentar, é focalizado o grupo dos policiais.
Desta forma,
Lang mostra como os dois grupos trabalham o mesmo tema, o que
denota uma preocupação de ambos os lados, porém
com objetivos diferentes: o grupo dos policiais quer acabar com
a onda de crimes; o grupo dos malfeitores quer, também,
encontrar o assassino, mas para poderem "trabalhar"
sem a interferência da polícia. Interessante observar
como o diretor focaliza um restaurante popular e, faz uma varredura
com a câmera baixa, para depois subir. Em seguida, mostra
o andar superior do prédio, local onde os bandidos organizam
suas reuniões. Cabe aqui uma pequena pergunta: será
que Lang quis mostrar o local, acima do restaurante, como um reduto
dos malfeitores ou usou uma estratégia como ligação
de cenas paralelas? Talvez, a reunião não ocorra
no edifício do restaurante, mas sim em outro local.
Os bandidos
distribuem tarefas. São organizados, usam mapas e demarcações.Um
realejo. Uma forma de atrair crianças e possivelmente encontrar
pistas. Todos os homens acompanhados por meninas são meticulosamente
observados. Lohmann pede que sejam observados: mesas de madeira;
tipos de papel para carta; dados sobre internados em manicômios,nos
últimos cinco anos, devem ser analisados; endereços
procurados.
Pela primeira
vez o espectador vê o assassino de frente, porém
a uma certa distância. Ele sai de sua casa. Chega um policial.
O rosto do procurado, em close, é focalizado, comendo pacatamente
uma maçã. Em cena paralela, o policial entra no
apartamento de Becker e procura, na mesa de madeira, vestígios
das cartas enviadas à polícia. O olhar do investigador
percorre a sala e se detém na cesta de lixo. Vasculha o
cesto encontrando uma possível pista.
Becker, o
vampiro ( a câmera está colocada dentro da loja)
olha brinquedos expostos na vitrine. O reflexo dos brinquedos
está estampado na vitrine e, de uma certa maneira, não
permite que o espectador veja o homem, por completo. Porém,
seu rosto é enquadrado de tal forma que o reflexo o coloca
como em uma moldura de porta-retrato. Através de um espelho-moldura
o homem vê, enquadrada, a estampa de uma menina. Sua fisionomia
muda. Pensativo, coloca a mão no queixo. Larga seus braços
ao longo do corpo. Sua expressão é a de uma pessoa
que não pode ir contra seus instintos. Tem de submeter-se
a eles. A câmera o focaliza de costas, de perfil. O homem
respira fundo e assobia o tema de Grieg.
Crianças
olham a vitrine. Brinquedos se movem. Uma espécie de flecha
se movimenta de baixo para cima. Possivelmente, com o movimento
da flecha, Lang estaria mostrando a que espécie de abuso
as meninas eram submetidas. Em outra parte da vitrine, outro brinquedo
se move, girando como se não tivesse fim. Com esse movimento
o diretor estaria colocando a posição do assassino:
ele é acometido por instintos perversos (a necessidade
de matar), caindo num poço sem fundo. Em cena paralela,
o policial em casa de Becker.
A menina passa
de uma vitrine para outra onde estão expostos livros. Nesse
exato momento, a música de Grieg soa. Começa lenta
e acelera, ligeiramente. A menina corre de encontro à sua
mãe. Imediatamente cessa o assobio. Lang providenciou a
música de Grieg, não apenas como representante do
assassino, mas sim como representante dos instintos do homem.
Isso fica evidente, quando seus instintos assassinos se manifestam,
ele assobia a melodia, inicialmente mais lenta para, assim que
cresce a "vontade" de matar, acelerar. Entretanto, frustrada
a investida, a música cessa.
O assassino
olha para a vitrine. Nada conseguiu. Seu olhar focaliza um bar.
Dentro, a câmera não permite que o rosto de Becker
seja visto. Pede um conhaque. Fuma. Assobia Grieg, indicador de
que seu instinto assassino esta presente. Com as mãos ele
tampa os ouvidos para não ouvir o que está em seu
ouvido interno. Será Grieg?
O cego que
vende balões reconhece a música que o homem está
assobiando. É a mesma que ouviu quando a menina Elsie foi
assassinada. Desesperado, o homem sai em busca de alguém
para contar o que reconheceu. Encontra um dos mendigos encarregado
de vigiar. O homem corre em direção à música.
Ela cessa. Ressoam os passos do mendigo. Seu olhar vê o
"vampiro" comprando doces para uma criança. O
assassino olha para os lados, para certificar-se de que ninguém
o está vendo. Para susto do espectador, Becker tira um
canivete do bolso. A lâmina brilha. É para descascar
uma fruta e oferece-la à criança. Tomando de um
giz, o mendigo desenha na palma da mão a letra M (mörder).
Esbarra propositalmente no assassino, marcando-o e indicando-o
como tal. A menina adverte Becker, mostrando a letra gravada em
suas costas. Desesperado, ele procura uma saída.
Em cena paralela,
Lohmann ouve o relatório sobre a vistoria em casa de Becker.
Ariston, a marcado do cigarro. Ele já ouviu algo parecido.
"A- ris-ton". Na mesa da casa do "vampiro",
a constatação de fragmentos de lápis vermelho
no batente da janela. Paralelamente, os malfeitores também
encontraram o assassino e o perseguem. A comunicação
gestual substitui a palavra. Assobios são elementos de
comunicação. A câmera alta mostra o homem
correndo e seus perseguidores em seu encalço. Contraponteiam
o ruído dos passos apressados de Becker, contra os ruídos
lentos dos passos dos mendigos. O assassino, desnorteado, busca
um esconderijo. Um policial passa. O som das botas na calçada
ressoa. Silêncio. A buzina de uma viatura corta o silêncio.
As badaladas do relógio de um edifício de escritórios,
anunciam o final do expediente. Os trabalhadores saem e as vozes
de conversas paralelas provocam dissonâncias. Uma buzina
de carro.
Percebe-se
como, em pequeno trecho, Lang utiliza uma grande quantidade de
ruídos descrevendo em som, o que está acontecendo.
Em cena paralela, em casa de Becker, os policiais aguardam a chegada
do homem. Em outro lado, Becker entra no edifício. Um assobio,
o sinal. O olho da câmera mostra: a porta aberta, indicando
a entrada dos malfeitores no prédio e, em plano geral,
o ambiente. Com uma faca, Becker tenta tirar a fechadura de uma
porta: o guarda a fechou. Ruídos. A faca quebra. Uma britadeira
para abrir um buraco no chão e penetrar no andar inferior.
A estratégia dos trapaceiros.
Becker tenta
desentortar um prego. Alguém ouve o ruído e imediatamente
comunica aos demais. Assim como a música de Grieg denunciou
M, assim também o ruído o denuncia. Música
e som apontam o assassino: uma, como quem ele é e, o outro,
onde se encontra.
O vigia aproveita a distração dos bandidos e aciona
o alarme. Eles têm cinco minutos para agarrar o "vampiro",
antes da polícia chegar. Outro assobio. Todos fora do edifício,
levando Becker. Apenas Frank, o homem da britadeira ,foi esquecido.
A polícia quer saber quem os malfeitores estavam procurando.
Na delegacia,
o inspetor quer respostas. Uma armadilha: "afinal, o roubo
foi grande". Como o inspetor nada conseguiu, pede ajuda à
Lohmann. No relatório da invasão do prédio,
Lohmann encontra algo. Tomadas em flash -back mostram o vigia
amarrado, policiais amordaçados, enquanto Lohmann , na
delegacia,comenta certas coincidências. Aqui, Lang mostra
duas situações ligadas pela voz do inspetor: as
imagens em flash-bach e a voz, no presente.
"Levaram
um homem". A chave do mistério. Frank não quer
ser tachado de assassino, portanto confessa a busca do assassino
de crianças, pelos trapaceiros. Lohman fuma seu charuto,
desenfreadamente. De costas para Frank , charuto na boca, símbolo
de autoridade, Lohmann simula tranqüilidade. Porém,
ao ouvir quem os trapaceiros encontraram, deixa o charuto cair.
Pede um momento; sai para refrescar a cabeça debaixo da
torneira do banheiro. Retorna, dono da situação.
Na antiga
destilaria, Becker está em poder dos malfeitores. Carregado
à força, depara-se com um público silencioso,
de olhar acusador. O olhar do assassino percorre a audiência.
Gritos. "Quero sair". O espectador vê Becker em
close. Schränker o acusa. O único direito do assassino
é morrer.
Aqui, Peter
Lorre interpreta um dos monólogos mais representativos
do cinema. Ele é um homem prisioneiro de sua mente, não
tem escolha. Tem que obedecer o que as vozes mandam. Não
se lembra de nada, apenas se dá conta do que fez, quando
lê o noticiário.Nele há uma força que
o impele a agir. " Não suporto ouvir as vozes".
Como doente, impossibilitado de se controlar, é uma ameaça
à sociedade. Para a sua doença,não há
cura. O assobio anuncia a invasão da polícia. "
Em nome da lei, você está preso".
Algumas considerações
se fazem necessárias.
A FUMAÇA
Lang envolve,
certas cenas, em densa nuvem de fumaça. A fumaça
cria um ambiente de stress. Todos os fumantes (em M) usam o cigarro
como apoio para momentos difíceis. Assim, Becker fuma freneticamente
quando escreve a carta aos policiais e quando está no bar,
após frustrada investida. Por outro lado, Schënkar
e seus comparsas também fumam, envolvendo o ambiente em
uma grande nuvem de fumaça. Lohmann é um grande
fumante. O cinzeiro, de onde emana a fumaça, mostra que
o homem usa o cigarro como meio de amenizar o stress. O charuto
que leva à boca é o símbolo do poder; ele
domina a situação. Antes de ouvir a confissão
de Frank, as baforadas do charuto escondem o rosto de Lohamnn
não permitindo que o espectador veja a insegurança
em que o policial se encontra.
RUÍDOS
Em M, Lang
emprega ruídos como forma de expressão tão
ou mais significativas que a própria palavra. Isso fica
claro em cenas como : em bairro mal-afamado, algumas pessoas andam.
O silêncio é aterrador, porém os passos ressoam,
preenchendo o vazio sonoro. Uma prostituta esbarra em um homem,
provocadoramente. Ele segue seu caminho. Novamente, o som de passos
na calçada. São os sapatos da mulher. Em câmera
alta, vê-se dois homens saltando de um carro em movimento.
Eles terão de vigiar a porta de um edifício onde
se encontra o esconderijo dos malfeitores. Caminham de um lado
para o outro, a princípio lentamente, para depois, nervosos,
acelerar os passos. Gestos substituem palavras. Outro carro, em
alta velocidade, entra no beco freando bruscamente ao chegar à
porta. Outros homens saltam, rapidamente. Um assobio: o sinal.
Em outra cena:
o vagabundo corre para saber onde se encontra o homem que assobia
tal música. Silêncio. Apenas seus passos ressoam.
"Lang seduzido pelas possibilidades de expressão do
som, chegou muito naturalmente aos contrapontos visuais e sonoros"
(Eisner: 1983:223). A imagem é valorizada pelo som.
"No auge do som, ressoa diante do júri dos bandidos
o grito estridente de Lorre, clamando que fora impulsionado por
uma força invisível. É o ponto mais alto
desta escala trágica, melopéia em que som e imagens
se fundem num indestrutível contraponto". (Eisner:
1983:224)
Lang, em M,
o vampiro de Dusseldorf, compõe uma sinfonia de ruídos
e silêncio.
BIBLIOGRAFIA
ALTMAN, Rick.
Sound theory and sound practice,Routledge, Londres, 1992.
CHION, Michel
EISNER, Lotte. A tela demoníaca, S. Paulo, Paz e Terra,
1985.
KRACAUER, Sigfried. Theory of film, New Jersey, Princeton University
Pres, 1997.
MARIE, Michel. M le maudit, Pris, Éditions Nathan, 1989.
STOECKLIN, Paulo. A vida de Grieg, S. Paulo, Atena Editora, s.d.
*Rosinha Spiewak Brener é Doutora em Comunicação e Semiótica pela
PUC/SP