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UM
DIÁLOGO POSSÍVEL ENTRE CINEMA E EDUCAÇÃO
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por
Ana
Beatriz Iumatti ** e Laura Battaglia ***
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Este
texto aborda algumas questões que a educação
contemporânea nos impõe, levando em consideração
a importância que a relação entre os indivíduos
adquire no processo de formação de cada um. O artigo
foi elaborado a partir de pensamentos sobrevindos aos filmes Ser
e Ter* e Elefante*. (maio/2004)
O acaso, fortuito ou não, trouxe simultaneamente ao Brasil
dois filmes instigantes para quem trabalha, ou mesmo se interessa,
por assuntos de educação. Trata-se, primeiro, do documentário
francês Ser e Ter, dirigido por Nicolas Philibert, que durante
um ano escolar registrou o cotidiano de uma sala de aula do interior
da França, apreendendo as relações entre o
professor e seus alunos e destes entre si. É uma sala de
ensino primário, mas que comporta três diferentes estágios
ao mesmo tempo. O segundo filme, Elefante, retrata ficcionalmente
algumas situações cotidianas em um dia escolar, num
colégio no interior dos Estados Unidos, em que dois adolescentes
provocam um verdadeiro horror, matando 13 alunos e um professor.
Trata-se do "massacre" de Columbine, ocorrido em 1999,
que anteriormente já servira de inspiração
para um filme de Michael Moore (2002, Bowling for Columbine - "Tiros
em Columbine") que retratou o fascínio norte americano
por armas de fogo e a facilidade com a qual se tem acesso a elas,
naquele país.
O que nos interessa sobre estes dois filmes? Interessa-nos resgatar
algumas questões sobre o processo de educação,
destacando como ponto relevante o fato de que ela se dá dentro
de um contexto mais amplo que a aquisição de conteúdos,
pois comporta necessariamente as relações entre indivíduos.
A ESCOLA E SEU PAPEL SOCIAL
A instituição escolar tem como papel social o ensino,
isto é, a transmissão de conhecimentos, acumulados
historicamente e recentes, que fornecem qualificação
para o trabalho. Mas também faz parte de suas funções
contribuir para a educação, isto é, preparar
para a cidadania e participar do desenvolvimento de cada indivíduo.
Embora isto pareça óbvio, na prática muitas
vezes vemos uma tentativa infrutífera de que o ensino se
dê à revelia das relações, com exigências
de conteúdos e comportamentos que, sem levar em consideração
os agentes envolvidos no aprendizado, acabam por excluir o aluno,
ou mesmo o professor, deste processo. Se por um lado a educação
não é tarefa exclusiva da escola (mas de toda sociedade),
ela é imprescindível para que a transmissão
de conteúdos seja possível e efetiva.
Tanto professores, quanto alunos, pais de alunos e a sociedade,
esperam algo da escola. O aluno espera saber, aprender; o professor
espera poder transmitir um saber; os pais esperam que a escola contribua
com a formação de seus filhos; a sociedade espera
que suas gerações futuras possam estar aptas para
perpetuar ou melhorar as condições de vida. E é
no entrelaçamento destas quatro posições que
é possível a educação.
O FUNCIONAMENTO DA ESCOLA
Como qualquer instituição, a escola desenvolve suas
atividades ancorada na dialética entre as relações
e necessidades individuais e coletivas. Quaisquer que sejam os métodos
de ensino, as escolas só funcionam amparadas por leis que
lhe são próprias e que norteiam as ações
de todos os seus atores (alunos, professores, funcionários
e pais). Compreende-se aí o próprio método
de ensino, a forma de avaliação, os comportamentos
e relações entre os indivíduos, a forma de
aceder ao conhecimento, as atividades desenvolvidas, o horário
de funcionamento da escola, entre outros. As regras retratam, enfim,
como uma coletividade funciona e como quer que suas relações
sejam intermediadas e seus impasses resolvidos. São elas
também, que legislam sobre a desigualdade de funções,
obrigações e direitos de cada grupo, em que lugares
e papéis são distintos para cada um.
Embora as leis contemplem o que rege a dinâmica coletiva,
é fundamental que cada membro da escola possa ter um espaço
para expressão de sua individualidade, tendo tido acesso
prévio às regras que a comandam. Do lado do professor,
a forma como ele ministra cada aula e lida com cada aluno, deve
lhe ser própria. Do lado do aluno, esta mesma individualidade
está presente no processo de aprendizado: o interesse maior
por uma ou outra disciplina, a facilidade ou dificuldade para lidar
com os diferentes conteúdos, o ritmo de aprendizado, são
exemplos de que a subjetividade não é mera coadjuvante
no processo de aquisição de conhecimento.
ENSINAR E APRENDER: LUGARES DISTINTOS
Os lugares de direitos e deveres de alunos e professores não
são os mesmos e, mais do que isto, não podem ser os
mesmos.
Logo nas primeiras cenas do filme Ser e Ter, a posição
do professor se faz marcar por sua presença na porta da escola,
recebendo os alunos e cumprimentando-os e sendo cumprimentando por
cada um. As crianças tratam-no invariavelmente por 'senhor',
como uma espécie de respeito, mas que poderíamos também
entender como uma simples obrigação.
Por outro lado, nas primeiras cenas do Elefante, vemos um adolescente
que chega à escola atrasado (porque antes precisara cuidar
de seu pai, completamente bêbado). A conseqüência
é que um inspetor, na obrigação de sua função,
chama a atenção do aluno por causa deste atraso, mas
não se ocupa com sua causa. Segue-se uma cena silenciosa
em que aluno e inspetor nada dizem. (Obrigações estão
presentes nas duas situações e refletem, reproduzem
a maneira como cada um daqueles grupos sociais se organiza. Em qualquer
instituição as regras existem e devem ser cumpridas,
em nome da convivência entre os indivíduos. Isto se
dá, ainda que para grupos alheios a uma dada sociedade, não
se identifiquem com aquela forma de agir e pensar).
Os lugares dos adultos e das crianças no processo de aprendizado
não são os mesmos. O professor tem, de saída,
duas peculiaridades que o distinguem das crianças e/ou adolescentes
a quem vai ensinar. Primeiro pressupõe-se que ele seja um
adulto, alguém que já passou pelos processos elementares
de vida, que deveriam lhe garantir certa autonomia para escolher
e agir, arcando com as conseqüências aí implicadas.
Segundo, como professor, teve uma formação que lhe
garantiu o conhecimento (de conteúdos e formas) para ensinar.
O professor escolheu sua profissão e preparou-se para atuar
nesta função.
O professor no filme Ser e Ter dá seu depoimento sobre a
escolha profissional: ele frisa que ser mestre foi fruto de um envolvimento
pessoal, profundamente enraizado em sua vida. Já na infância
manifestava vontade de ser professor, ensinando os primos e amigos
nas brincadeiras de escolinha. Como filho de imigrante espanhol,
agricultor, ser professor representava para ele e para a família,
uma ascensão social. A dedicação à sua
"vocação" não se fez de um momento
a outro, mas foi construída desde a infância, visando
sustentar um trabalho bem sucedido. Antes de ser uma escolha profissional,
foi uma escolha de sujeito, marcado por uma história.
Em contraponto, a criança, e mesmo o adolescente, estão
em processo de formação. Ainda que eles tenham, desde
a mais tenra infância, vontades e poder de escolha, não
têm poder de decisão, que são limitados pela
idade, pela dependência a outros e pelo desenvolvimento ainda
em curso. Uma criança pode, por exemplo, escolher com qual
jogo quer brincar e pode fantasiar situações adultas
através da brincadeira, simulando ser mãe de um bebê,
ou dirigir um caminhão.
Mas ela não pode ainda ter dimensão do ato e da conseqüência
de ter um filho, ou de rumar estrada afora na boléia de um
caminhão. O tempo de vida que lhe dê uma dimensão
conseqüente do meio social mais amplo a que pertence (além
daquele familiar e imediato), além da imaturidade neuro-fisiológica
são os fatores limitantes para que possa decidir por sua
vida.
É por esta imaturidade que os pequenos estão submetidos
ao mundo dos adultos, ao qual almejam atingir. Uma criança
que, por exemplo, por algum motivo tenha dificuldades de relacionamento
ou desempenho numa determinada escola, pode (e deve) manifestar
suas preferências e eventualmente ser trocada de instituição,
mas ela não terá o poder de decidir se vai ou não
estudar: nesta ou naquela escola, ela terá que se submeter
a determinações externas, sociais.
As crianças desconhecem muitos dos conteúdos do mundo
mais amplo e não têm poder legal para algumas decisões.
Mas, esta imaturidade não pode ser confundida pelo adulto
como uma incapacidade. Pelo contrário, o que a criança
tem de mais precioso - e que muitas vezes é negligenciado
pelos adultos - é a curiosidade por saber mais sobre este
mundo que desconhece, é a condição de ser um
sujeito desejante e por isto ser capaz de atuar e construir conhecimento
a respeito do mundo. Estas condições são aquelas
que lhe permitem ter vontade de aprender e se posicionar ativamente
diante do que aprende.
Temos, então, de um lado os que têm os conteúdos
e a vontade de ensinar e de outro, os que não sabem e querem
aprender. (Isto soa a um ensino ortodoxo e tradicional do século
XIX!! E poderia ser, se não acrescentássemos aí
uma questão fundamental que é a subjetividade daqueles
que estão envolvidos). O professor, para ensinar efetivamente,
precisa reconhecer no aluno este desejo de aprender e precisa antecipar
suas capacidades de aprender, mesmo que elas ainda não sejam
evidentes - veremos isto mais adiante. É a subjetividade
que sustenta o desejo por aprender e por ensinar. Subjetividade
que significa particularidade, isto é, o lugar que cada um
ocupa na sociedade porque tem uma função social, uma
história de vida particular, um desejo que lhe é próprio.
Desigualdade não quer dizer ser mais ou menos, valer mais
ou menos; ela simplesmente significa que cada um está em
um lugar diferente e a partir daí pode se posicionar e se
relacionar.
O LUGAR DO PROFESSOR E DO ALUNO
A desigualdade é fundamental, porque subjetivamente a criança
precisa reconhecer na ação do professor o desejo que
ele tem de ensinar, para que possa identificar-se com ele e querer
aprender. Neste movimento de identificação a criança
se descobre desejante de conhecer o que o outro sabe.
No filme Ser e Ter aparece o seguinte diálogo, aproximado:
aluno: - O professor dá ordens e nós devemos obedecer.
professor: - Eu dou ordens e vocês obedecem, não é
mesmo?
aluno: - Quando eu crescer quero dar ordens como o senhor.
professor: - Quando vocês crescerem poderão dar ordens
para seus filhos, poderão se tornar professores. O que vocês
querem ser quando crescer?
O que podemos pensar deste diálogo? Pensemos em algumas objeções:
Quem garante que este professor é o modelo ideal para uma
criança? Não será autoritário da parte
dele que se ponha como este modelo ideal?
Não, ele não é o modelo ideal para aquelas
crianças, porque ninguém seria este modelo ideal,
se pensarmos nos conteúdos que ele porta consigo! Sim, é
autoritário se colocar neste lugar pois é a imposição
subjetiva de um adulto diante de uma criança. Mas não
encerremos a análise aí. Existe neste diálogo
duas funções importantes e mesmo fundamentais para
a relação de aprendizado. A função de
identificação opera uma lógica em que, de um
lado a criança quer ser alguém - não importa
o quê; de outro, existe um adulto que lhe antecipa a capacidade
de ser alguém ou algo - também não importa
o quê. Nesta lógica o que importa é a atribuição
de lugares e capacidades, é a abertura para um porvir e não
o conteúdo, já que este pode ser transformado, trocado
por outros.
A função de identificação é fundamental
para despertar na criança o desejo de querer ser ou tornar-se
algo futuramente. O modelo ideal não é o professor
- conteúdo - mas o lugar que ele ocupa como alguém.
Querer ser abre espaço para querer saber. Do contrário,
se estes lugares não são marcados desta forma, se
estes desejos não se colocam, o professor não reconhece
na criança alguém ávido por saber e esta não
reconhece em seu professor um mestre que lhe assegure o lugar de
aprendiz.
A CONSTRUÇÃO DOS LUGARES
Os lugares não estão dados de saída. São
relações que se estabelecem a partir da posição
que o professor adota diante do aluno.
Mas o que fazemos com a frase mais do que difundida "O professor
também deve aprender com o aluno"? Significa que ele
deve ser como o aluno? Em que medida são iguais? O professor
aprender com o aluno deve ser uma conseqüência e não
o ponto de partida! Uma criança só tem algo a ensinar,
quando, primeiro, nela se reconhece uma possibilidade de aprender,
de agir anterior à sua demonstração de aquisição
de conhecimento. Guardemos esta pergunta para respondê-la
mais adiante.
Tomemos uma situação, por exemplo, um bebê que
ainda não anda. Qualquer pediatra responde à pergunta
dos pais sobre a idade adequada para que ele ande, com evasivas
do tipo: cada um anda em um tempo. Não depende, portanto
só de uma maturação biológica, senão
de algo mais.
Este mesmo bebê que nunca andou, um dia se põe de pé
segurando-se num sofá ou na perna de alguém. Ele pode
ter à sua volta algumas manifestações que lhe
serão conseqüentes: os adultos podem ficar indiferentes
à sua ação e aí pouco importa o que
ele faz; os adultos podem entrar em pânico e dizer "Meu
Deus, cuidado! Ele vai cair e se machucar!" e aí a criança
desiste da sua pequena conquista e se arrasta de gatinhas por mais
uns meses; por fim, ela pode ter, destes adultos, a aposta de que
ela pode ir além. Neste momento um olhar, um chamado antecipa
sua conquista e diz "Vai!" e a criança anda, mesmo
que depois de dois passos se veja novamente estatelada no chão.
A partir deste chamado desejante do outro - de que a criança
é capaz de realizar coisas que ainda não conhece -
que a criança passa, ela própria, a desejar aquilo
que o outro deseja. Pelo reconhecimento antecipatório de
sua capacidade, vindo do outro, ela realiza as suas competências
que até então eram só possibilidades.
É deste desejo, desta aposta, que se trata na relação
ensino-aprendizagem. É o professor quem porta o fio invisível
do desejo que o outro saiba e que sustenta a transformação
das possibilidades da criança em capacidades. O professor
aprende com o aluno, quando este o surpreende através da
utilização de um conteúdo, de uma estratégia
que não era esperada. Mas ele aprende também, quando
pode perceber no aluno, a manifestação de sua subjetividade.
A FUNÇÃO DO PROFESSOR: LIMITE TÊNUE ENTRE
PRESENÇA E AUSÊNCIA
Tomemos mais um exemplo do filme Ser e Ter. Num determinado momento,
uma criança de pré-primário pergunta (quase
afirmando) ao professor que é possível "contar
(números) sem parar".
O professor atento a esta indagação, instiga a criança
e demonstrar o que sabe (no caso, contar umas poucas dezenas de
números) e em seguida desafia-o, auxiliando-o, a prosseguir
na contagem, até que este consegue chegar a 1 bilhão!
No início a criança fica maravilhada de descobrir
que é possível ir além do que sabe e chega
a associar a contagem dos números à contagem das notas
de dinheiro. Ele vai além no conhecimento dos números,
mas vai além também no emprego dado a estes números.
Cumpriu-se aí a função do professor.
No entanto, para olhares atentos, a cena do filme revela mais uma
situação: uma vez que a criança atingiu seu
objetivo de entender algo mais de seu mundo, ela está momentaneamente
saciada de saber. Mas o professor à revelia do aluno e também
maravilhado com seus progressos, insiste na sua "função
de professor", até o limite em que a criança
lhe dá várias dicas de que esta função
já se cumpriu. Primeiro, diante da insistência, o aluno
lhe diz que não é mais possível contar - este
"não" revela que ele já sabe que pode contar,
mas que não quer mais seguir naquele jogo -, mas o professor
ignora seu alerta e insiste. Aí a criança denuncia
ao professor que ele não está atento aos outros alunos
(enquanto insiste em massacrá-lo com suas mesmas perguntas)
e que estes iniciaram uma briga num outro canto da sala. Neste momento
o professor perdeu sua função, garantida no ato inicial,
e o aluno tentou "ensinar-lhe" algo: muitas vezes o professor
não pode ir além do que uma criança agüenta
e este mesmo professor deve se dedicar a um determinado aluno quando
ele necessita sua ajuda, mas também deve estar atento ao
conjunto da classe.
Há um momento em que a função do professor
é fundamental e há um outro momento, em que a criança
precisa ser deixada só com seus pensamentos para que possa
se apropriar deles, formular suas hipóteses e avançar
no conhecimento. A função do professor se faz, portanto,
na sua presença inicial e na sua ausência posterior.
A este tempo de elaboração o professor deve estar
sempre atento. Ele pode ter uma visão correta do aluno e
de seu processo de aprendizado, mas precisa permitir que este mesmo
aluno, a seu tempo, assimile os conteúdos aprendidos. A passagem
de uma situação a outra é sutil, mas fundamental.
Nesta mesma linha, vemos a adequação deste mesmo professor
quando chama a mãe de uma aluna, para lhe falar das dificuldades
de aprendizado da filha. Escuta atentamente esta mãe e, junto
com ela, estabelece relações hipotéticas entre
o as dificuldades do processo de aprendizado o a história
familiar. Neste momento ele cumpre uma função importante
que é de escutar a família (que conhece a criança)
e de dizer que há uma dificuldade da aluna em aprender e
que esta dificuldade vai além do âmbito escolar. Ele,
portanto, se faz presente e dá abertura para que mãe
e filha pensem e elaborem quais seriam estas dificuldades. No entanto,
no afã de responder à dificuldade da criança,
que recai sobre ele no dia-a-dia da escola, ele formula uma hipótese
para estas dificuldades - que é sua e não da criança
- e impõe este "saber" à aluna. Ele continua
se fazendo presente, quando deveria, neste momento, estar ausente.
Da mesma forma que no exemplo anterior, vemos no olhar da menina
e no seu mutismo, que o que o professor lhe diz como motivo de suas
dificuldades, não tem o menor sentido. A insistência
do professor acentua o comportamento de esquiva da aluna.
Nas duas situações há um acerto: o professor
identifica a vontade de aprender do aluno e a dificuldade de aprender
da outra aluna. Mas há um erro: ultrapassa os limites, tentando
impor sua subjetividade ao outro, sua leitura do mundo e assim interrompe
seu papel de ajudar a criança.
Querer saber demais sobre o outro é impor-se autoritariamente,
é querer atribuir sua própria subjetividade ao outro.
Da mesma forma, não querer saber nada sobre o outro também
se revela inapropriado: é não atribuir ali, a presença
de um sujeito. No filme Elefante vemos esta segunda situação
retratada em uma aluna que não cumpre a norma de usar o uniforme
nas aulas de educação física. A professora
não percebe, ou ignora, que ali há uma questão
que perturba a aluna e, ao invés de falar-lhe com calma,
em particular, ela dá por resolvida a questão quando
"comunica" a garota que aquela situação
não pode continuar. Faz isto numa troca de aulas, no meio
do corredor. Este não querer saber nada, não falar
nada que diga respeito ao aluno deixa-o entregue às suas
próprias dificuldades, sem ajuda alguma.
A QUESTÃO DA AGRESSÃO E SEUS POSSÍVEIS
DESENLACES
A palavra tem valor, desde que seguida de uma ação
coerente que a confirme. A exigência de respeito tem que ter
mão dupla pois, ainda que os lugares de cada um sejam diferentes,
o respeito de um a outro deve ser o mesmo.
É este respeito também que garante a responsabilização
do aluno por seus atos e a apropriação da regra. No
filme Ser e Ter temos mais um exemplo sobre isto.
O professor ensina a matéria aos mais velhos, enquanto os
pequenos colorem um desenho. Jojo está distraído e
não consegue terminar sua tarefa, interrompendo-a várias
vezes. Ele olha ao redor, boceja e deixa cair coisas no chão.
O professor atento a isto, pergunta como anda seu desenho e lembra-o
de que se ele não concluir a tarefa antes do recreio, deverá
ficar em sala de aula até terminá-la. Quando chega
a hora do recreio Jojo sai da sala com os outros, mesmo sem haver
terminado sua tarefa. O professor o chama e retoma com ele seu compromisso
com sua tarefa na escola. Nesta cena desenvolve-se (aproximadamente)
um diálogo:
professor: - Por que vem à escola?
aluno: - Para brincar.
professor: - Para que mais?
aluno: - Para trabalhar, para escutar o professor.
professor: - Para que você está aprendendo o seis?
aluno: - Para aprender a contar, não é mesmo?
professor: - Você sabe contar até quanto?
aluno: - Até seis
professor: - E depois do seis vem o que?
aluno: - O oito. Não, o sete. (...)
professor: - Você terminou o desenho?
aluno (depois de alguma relutância): - Não.
professor: - Quando você vai terminar o desenho?
aluno: - Depois.
professor: - Depois quando?
aluno: - Amanhã.
professor: - Mas você está aqui hoje. Amanhã
não pode ser. Você prometeu que terminaria sua tarefa.
Lembra disto?
aluno: - Sim.
professor: - Então deve cumprir sua tarefa.
Se o professor tivesse se poupado de todo diálogo e simplesmente
exigido o cumprimento da regra, continuaria no seu papel de professor.
Quando ele dá espaço para falar e escutar sobre o
descumprimento das ordens, ele indica que há uma postura
de compromisso perante elas e permite, eventualmente, a subjetivação
e apropriação destas regras. A regra ajuda a organizar
as ações. É a partir de um compromisso firmado
consigo mesmo que a criança poderá estender este compromisso
a outras situações.
Outra situação de Ser e Ter, se dá quando Olivier
e Julien, alunos mais velhos, brigam durante o recreio. Eles estavam
brincando de pegador e Olivier foi pego por Julien e outros alunos.
Olivier fica com muita raiva e a descarrega batendo nos menores.
Em seguida, volta-se para Julien e atraca-se com ele. O professor
chama os dois para conversar e esclarecer aquela situação
que precisará ser resolvida. Coloca que a rivalidade entre
os dois vem acontecendo já há algum tempo e pergunta
a Olivier o que tem em Julien que o incomoda tanto. Olivier responde
que ele freqüentemente o xinga. O professor então coloca
para Julien que ele acabou por magoar Olivier com suas palavras.
Coloca também para Olivier que ele não deveria ter
batido nos menores, uma vez que eles não tinham nada a ver
com aquela situação. Convoca os dois para pensarem
no exemplo que estarão dando aos menores resolvendo suas
dificuldades agredindo um ao outro.
Existem várias nuances implicadas nesta situação.
Primeiro, poderíamos pensar na questão da identificação:
é por reconhecer a importância da função
da identificação (que não está presente
só na relação do professor com o aluno, como
já citado acima) que o professor teme que os menores poderiam
se espelhar nos alunos maiores, e tomar a situação
de deslocamento da agressão como modelo. Isto geraria uma
série de conflitos subseqüentes e sem controle. Esta
atitude do professor, de proteção dos outros alunos
que não estão diretamente envolvidos na briga, indica
que ele sabe quais poderiam ser as conseqüências de um
ato violento sem fala que o signifique. A escolha da via de resolução
pela conversa e pelo esclarecimento, dá a possibilidade que
cada sujeito se coloque e possa refletir sobre sua posição
e a do outro. É só pelo reconhecimento da sua individualidade
e da do outro, que as relações são possíveis.
De outra forma, o que temos é a imposição autoritária
do que tem mais poder sobre os demais.
Já no filme Elefante, presenciamos uma cena em que um aluno
é agredido pelos demais em sala de aula. O professor que
explicava sua matéria na lousa, não vê, ou ignora
o que se passa ali, bem debaixo de seus olhos. É justamente
este aluno que horas mais tarde comete o massacre, atirando em seus
colegas e professores. Se isto se passou na realidade ou se simplesmente
foi um recurso do diretor para justificar o ato do aluno, pouco
importa. O que importa é que nesta cena ilustra-se um fato
que percebemos em várias situações: quando
um ato não é seguido de palavras que o signifiquem,
simbolizem e dêem limites à ação desrespeitosa
com o outro, este ato tende a se repetir, agora de forma mais intensa.
Palavras substituem atos - e isto não é simplesmente
um dito popular. No próprio exemplo de Julien e Olivier,
as agressões já vinham se arrastando e se intensificando,
até o momento em que se tornaram limites da relação
entre eles.
É no intuito de desfazer este rompimento de relação
que o professor nomeia e os faz nomear tudo o que se passou. Atos
isolados e não compreendidos, caem no vazio de significação,
mas nem por isto, deixam se de fazer presentes. É desta falta
de significação que decorrem as ações
violentas.
O filme Elefante retrata isto magistralmente, porque o silêncio
e a solidão de cada um dos atores impera, nos deixando atônitos.
O sentido de cada ação não se articula às
demais, evitando que se possa prever as causas e as conseqüências
de reações tão violentas. Cada um permanece
no seu mundo, perdendo uma das características mais importantes
do ser humano: a relação com outros que permite que
cada subjetividade se coloque.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Se partirmos do pressuposto de que a educação engloba
a relação entre pessoas podemos, no filme Ser e Ter,
localizar claramente o estabelecimento de relações
a partir das quais se desenvolve todo processo de ensino e aprendizagem.
Ele não se dá apenas para garantir a transmissão
de conteúdos, mas também para dimensionar e atribuir
significados para as ações daqueles ali envolvidos.
No filme Elefante, o que se percebe é ausência de relações.
Toda relação envolve a presença de palavras
efetivas e neste filme há silêncio. Percebe-se a presença
das regras institucionais, mas não dos indivíduos
como seres de diálogo. Faltam as palavras para relacionar,
dimensionar e dar significados às ações protagonizadas
por seus personagens.
Certamente a ação que culminou no extermínio
de 13 alunos e um professor não aconteceu ao acaso. Isto
que chamamos de "acaso" nos questiona porque ele irrompe
como um torvelinho que revolve a aparente calmaria e devasta as
edificações mais sólidas. A partir dele é
preciso (re)questionar, desde o começo, quais são
as implicações de cada um. Ações violentas
são precedidas de pistas, atitudes e pensamentos que no filme,
hipoteticamente, aparecem no fascínio dos dois adolescentes
pelos jogos de vídeo game e na obsessão em torno da
questão das armas (sem contar numa breve alusão a
Hitler e ao homossexualismo). Deve-se culpar, porém, a indústria
do vídeo game e do acesso às armas pela atitude dos
meninos? Não que estas questões não devam ser
pensadas, mas elas, isoladamente, não as respondem, porque
se assim fosse, como explicaríamos os tantos milhares de
jovens que têm acesso às mesmas coisas e que, nem por
isto, praticam tal ato? Nenhuma ação está dissociada
de um significado e da subjetividade da pessoa que a pratica. No
entanto, quando esta mesma pessoa, criança ou adolescente,
não consegue extrair de suas relações significados
que a façam repensar suas atitudes e posições
subjetivas, resta o ato. Um ato que aparece como aterrador porque
revela uma assustadora ausência de sentido e relação.
E o Homem é um ser de sentidos e relações.
A educação tem por uma de suas bases a relação
entre os seres humanos. Fazem parte da forma como o Homem se relaciona,
tanto a solidariedade, quanto a agressão. Mas nem um nem
outro podem, em ato, ser tomados como absolutos, em si, pois aniquilam
a relação: qualquer excesso por parte um indivíduo
significa que ele é só presença, enquanto seu
possível interlocutor é só ausência.
* Ser e
Ter (Être et Avoir) - documentário francês,
dirigido por Nicolas Philibert em 2002, 104 minutos.
* Elefante (Elephant) - filme norte americano, dirigido
por Gus van Sant em 2003, 81 minutos.
** Ana Beatriz Iumatti - psicóloga pela PUC, colaboradora
da REde SACI.
*** Laura Battaglia - psicóloga (USP) educacional e clínica
e mestre em psicologia pela USP.
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