Homenagens à vitalidade de uma lendária produtora


por Myrna Silveira Brandão*



A Produtora Shochiku é certamente um dos estúdios mais antigos do mundo. Ao completar 110 anos de existência, vem recebendo homenagens e retrospectivas em vários festivais mundiais: após exibição de títulos do seu acervo no último Festival de Cannes, outras homenagens estão previstas, entre elas no 43º Festival de Nova York, com uma mostra de 35 filmes.

Para avaliar a importância dessas mostras – além do fato de que decorrido todo esse tempo, a produtora ainda estar em franca atividade – basta lembrar nomes que passaram por seus estúdios e a contribuição de suas produções para a história do cinema como um todo e para o japonês em particular.

Sinônimo da história da produção cinematográfica do Japão, a Shochiku foi a casa de nomes como Yasujiro Ozu, Kenji Mizoguchi, Shohei Imamura, Hiroshi Shimizu, Keisuke Kinoshita, Masaki Kobayashi, Noburu Nakamura, Kon Ichikawa, Hiroshi Inagaki, Kaneto Shindo e Yoji Yamada, entre outros.

Produziu igualmente os filmes da chamada Nouvelle Vague japonesa – caracterizada por filmes com temas dinâmicos, modernos e sensuais – realizados principalmente por Nagisa Oshima, Yoshishige Yoshida e Masahiro Shinoda

Um século de Renovação

Desde o início dos anos 20, quando o cinema do Japão ainda era bastante desconhecido no Ocidente, a Shochiku Kinema já era uma das cinco produtoras responsável praticamente por toda a produção de títulos japoneses.

Inovadora desde o seu início, a Shochiku, já naquela época, procurava modernizar a filmografia do Japão principalmente em seus aspectos estético narrativos, que ainda estavam muito atrelados à tradição dos teatros Kabuki e Noh.

Lembre-se também que, nessa época, pouquíssimas atrizes atuavam em filmes japoneses, pois eram julgadas pouco capazes de transmitir emoções.

A partir dos anos 20, a Shochiku passou a usar em seus filmes padrões e idéias hollywoodianas, inclusive incluindo um grande número de atrizes, que adotavam – ou procuravam adotar – as técnicas das suas colegas americanas para expressar as emoções e sentimentos de seus personagens. Ainda seguindo os métodos vindos do ocidente, a Shochiku construiu estúdios em Tóquio e, sob a orientação de George Chapman e Henry Kotani rompeu, na prática, com os antigos padrões cinemáticos japoneses. Como era de se esperar, a reação contra os novos métodos implantados pela Shochiku foram objeto de fortes críticas e resistências, sobretudo na indústria cinematográfica nipônica.

Não levou muito tempo, no entanto, para que essa mesma indústria passasse a adotar os padrões renovadores implantados por ela. O sucesso da fórmula shochikiana tornou-se avassalador, sobretudo após o estrondoso sucesso do revolucionário Rojo no Reikon (Soul on the Road) de Minoru Murata, de 1921, que rompia com as arcaicas montagens lineares e, influenciado pela nova estética narrativa de D.W.Griffith em Nascimento de uma Nação (1915) e Intolerância (1916), mostrava ações paralelas para contar sua história.

Em setembro de 1923, no auge do crescimento da indústria cinematográfica japonesa, quando Tóquio foi praticamente destruída pelo grande terremoto Kanto, a tragédia contraditoriamente serviu como estímulo para que uma grande onda de renovação surgisse na capital, inclusive na sua arquitetura.

As grandes produtoras cinematográficas japonesas aprofundaram as mudanças de seus métodos e conceitos e, mais uma vez, a Shochiku liderou a modernização.

Yasujiro Ozu (1903-1963) foi o grande mestre do cinema japonês dessa época. Nos seus 53 filmes, a maioria produzida pela Shochiku, Ozu mostrou uma galeria de personagens do cotidiano aparentemente simples, mas na verdade riquíssimas em emoção. Algumas de suas obras primas farão parte da retrospectiva em como The Only Son (1936), Late Spring (1949) e Tokyo Story (1953).

Além de Ozu muitos outros clássicos de diretores que passaram pela lendária produtora estão na mostra como os filmes de Kenji Mizoguchi, Nagisa Oshima, Yoji Yamada, Shohei Imamura, bem como de cineastas mais recentes como Takeshi Kitano e Hsiao-hsien Hou, também selecionado para o festival com Best of Our Times



Publicado em 22/08/05