Estreiou, no mês de novembro, em muitas salas de cinema, inclusive em espaços destinados a blockbusters, o filme TOLERÂNCIA, de direção do gaúcho Carlos Gerbase.
Cinéfilos brasileiros esperaram com grande ansiedade este último longa da Casa de Cinema de Porto Alegre após quase vinte anos desde o penúltimo. Vinte anos, diga-se de passagem, absolutamente ricos em termos de audiovisual, como por exemplo em curtas- metragens de altíssima qualidade, programas televisivos, campanhas vitoriosas para o PT, apoio a jovens cineastas gaúchos.
A Casa de Cinema de Porto Alegre foi formada por cineastas gaúchos em 1988, fazem parte dela, atualmente, Carlos Gerbase, Giba Assis Brasil, Jorge Furtado, Ana Luiza Azevedo, Luciana Tomasi e Nora Goulart.
O roteiro de TOLERÂNCIA teve sua primeira versão no ano de 1995 e, apesar da incontestável qualidade técnica e artística deste grupo gaúcho, foram necessários três longos anos de luta para captação de recursos. As filmagens aconteceram nos meses de junho e julho de 99 e a finalização, de agosto a dezembro do mesmo ano.
TOLERÂNCIA chama a atenção, antes de tudo, pelo roteiro bem construído, por seus personagens que parecem de fato ter saído do nosso cotidiano mas em nada é banal, como nosso cotidiano também não o é. E, apesar da grata surpresa de ouvir sotaques regionais sem falsificações, sua trama poderia se desenrolar em qualquer parte do país.
Diversos elementos lembram filmes recentes, como DE OLHOS BEM FECHADOS, de Stanley Kubrick e BELEZA AMERICANA, de Sam Mendes, possuindo uma técnica impecável, grande montagem, ótima fotografia, direção de arte, interpretações e diálogos redondinhos, além de fazer um mix bem equilibrado de violência, sensualidade, suspense, humor e romance. Sexo, drogas e rock'n roll da melhor qualidade. Seus personagens são bonitos, alegres, chiques e modernos. Nós já vimos este filme: casal harmonioso, classe média, com estabilidade profissional, com ótima vida sexual, bons pais, amorosos, cheirosos... sabemos que algo vai surgir para abalar este equilíbrio... "conseguirão Júlio e Márcia sobreviver aos obstáculos que os maldosos roteiristas colocarão em seus caminhos?"
Mas se TOLERÂNCIA é tão deja vu assim, por que dar tanto destaque? Porque, ao contrário do que parece é um filme extremamente revolucionário e nada convencional.
Ao assisti-lo não pude deixar de pensar na atualidade de seus temas e não me refiro simplesmente à questão do relacionamento dos protagonistas ou da análise das gerações.
FIM DAS UTOPIAS
"O que nos atormenta é essa antecipação de todos os resultados, a disponibilidade de todos os signos, de todas as formas, de todos os desejos. Já não que temos esperança de realizar novas, vivemos a sensação de utopias realizadas. Só nos resta realizá-las, numa simulação indefinida, vivemos na reprodução indefinida de ideais, de fantasmas, de imagens, de sonhos que doravante ficaram para trás e que, no entanto, devemos reproduzir numa espécie de indiferença fatal..." (Jean Baudrillard, SIMULACROS E SIMULAÇÃO)
O ex- fotógrafo Júlio (Roberto Bomtempo) e a advogada Márcia (Maitê Proença) se conheceram quando jovens em um acampamento sem- terra. Sonharam juntos pelo fim das injustiças, lutaram juntos, tiveram uma filha, adquiriram certa estabilidade financeira. Hoje em torno dos 40 anos já abandonaram sua militância política e, algumas vezes, conseguem tratar de forma cínica e utilitarista suas antigas utopias, como quando Márcia utiliza-se dos conflitos no campo para livrar seu cliente de uma condenação por homicídio. Em fim de milênio suas posturas libertárias se resumem a uma pretensa e possível liberdade na escolha de outros parceiros, tudo em nome da VERDADE e da sinceridade. Entretanto, quando esta hipótese se torna uma realidade, com a aproximação de uma "lolita" amiga da filha do casal e de um cliente da advogada, mais uma vez eles vão se deparar com a imensa distância entre o que acreditam e o que praticam.
SIMULACROS
"...É também o afundamento da realidade no hiper realismo, na duplicação minuciosa do real, da preferência a partir de outro meio reprodutivo- publicidade, vídeo, fotografia, de meio em meio que real de volatiza, torna-se a alegoria da morte, mas também se reforça ao lado de sua destruição, transmuta-se em real para real, fetichismo do objeto perdido- não mais o objeto de representação, mas arrebatamento de recusa e de sua própria exterminação virtual: hiper- real. Hoje, é toda realidade cotidiana, política, social, sexual, histórica, econômica, etc. que incorporou desde logo a dimensão simuladora do hiper realismo; já vivemos na alucinação "estética" da realidade..." (Jean Baudrillard)
TOLERÂNCIA poderia se chamar SIMULACRO, ou PÓS- MODERNO, pois trata , e muito, da simulação, da perda do real. É o simulacro cinema, falando sobre simulações, de ideais, de imagens, de situações, a própria trama é uma simulação, onde uma aparente vingança pode ser um ato de amor, ou uma aventura policial pode ser um manifesto sobre a condição humana.
Márcia simula que um simples caso de homicídio tem proporções políticas, incorpora um discurso dos sem- terra para libertar seu cliente. Júlio, que antes fotografava a realidade no campo, hoje retoca, por computação gráfica, fotografias de mulheres nuas para uma revista masculina, simula bundas, apaga as marcas do real. Ambos simulam um comportamento libertário. Os gaúchos da Casa de Cinema de Porto Alegre simulam se tratar apenas de um triller ou um romance, estão, na verdade, fazendo um tão sonhado cinema popular, sem o medo do erotismo, do humor, do mistério. Entretanto, em nome deste "popular" não abriram mão de críticas profundas e incisivas e, quando mostram o ceticismo e o cinismo atuais, em nada parecem corroborar com eles.
* Luciana
Rodrigues é graduada em direito e cinema, cursa pós-graduação
no CTR-ECA.
Data de publicação: 10/12/2000