1. Morfologia
1.1. Campo
Aquilo que a câmera vê. No espaço, o campo tem a forma
de uma pirâmide com o vértice no centro da objetiva.
1.1.1. Quadro
O retângulo resultante da projeção da pirâmide
sobre uma superfície plana, seja o filme, seja a tela de projeção.
1.1.2. Ângulo de visão
A medida do ângulo formado pelo vértice da pirâmide,
em graus. O ângulo de visão varia em função
da distância focal da objetiva e das dimensões da janela
sobre o filme. Como o quadro é retangular, os ângulos de
visão horizontal, vertical e diagonal são sempre distintos.
Uma objetiva é classificada em função de seu ângulo
horizontal: chama-se "normal" quando este mede cerca de 40 graus,
"tele" quando é menor e "grande angular" quando
é maior.
1.1.3. Ponto-de-vista e câmera subjetiva
O local do espaço em que se encontra o vértice da pirâmide.
Quando reproduz o ponto-se-vista de um personagem, chama-se câmera
subjetiva.
1.1.4. Eixo (quebra de)
Distingue-se eixo visual da câmera de eixo dramático. O eixo
visual é o próprio eixo geométrico da pirâmide,
a direção para a qual a câmera está apontada.
O eixo dramático, estabelecido pela relação entre
dois personagens que se olham frente a frente, por exemplo, é fundamental
para situar o espectador espacialmente. A quebra de eixo, nome que se
dá ao salto do ponto-de-vista de um lado para o outro do eixo dramático,
pode confundi-lo, portanto deve ser usada com cuidado. Equivale a mudar
repentinamente a câmera que transmite um jogo de futebol para o
outro lado do campo: o torcedor que assiste pela TV pode pensar que um
gol marcado foi contra, pois não sabe mais para qual lado joga
cada time.
1.1.5. Profundidade de campo
A dimensão do campo no sentido do eixo de visão. Em ótica,
diz-se do intervalo entre o ponto mais próximo e o mais distante
cujas imagens podem ser vistas com nitidez. Em linguagem cinematográfica,
refere-se à visão simultânea de ações
que se desenrolam a diferentes distâncias a partir do ponto-de-vista
(ver "Plano").
1.1.6. Off
Diz-se de toda ação que se desenrola fora do campo, mas
que pode ser percebida seja pelo som, seja pelos seus efeitos visíveis
causados nos elementos em campo.
1.2. Plano
O enquadramento do objeto filmado, com a dimensão humana como referência.
Atenção: conforme o contexto, o termo plano pode ter outro
significado (ver "Sintaxe").
1.2.1. Plano geral (PG)
Abrange uma vasta e distante porção de espaço, como
uma paisagem. Os personagens, quando presentes no PG, não podem
ser identificados.
1.2.2. Plano de conjunto (PC)
Um pouco mais próximo, pode mostrar um grupo de personagens, já
reconhecíveis, e o ambiente em que se encontram.
1.2.3. Plano médio (PM)
Enquadra os personagens por inteiro quando estão de pé,
deixando pequenas margens acima e abaixo.
1.2.4. Plano americano (PA)
Um pouco mais próximo, corta os personagens na altura da cintura
ou das coxas.
1.2.5. Primeiro plano (PP)
Enquadra o busto dos personagens.
1.2.6. Primeiríssimo plano (PPP)
Enquadra apenas o rosto.
1.2.7. Plano de detalhe (close-up)
Enquadra e destaca partes do corpo (um olho, uma mão) ou objetos
(uma caneta sobre a mesa).
1.3. Posição de câmera
1.3.1. Plongée/Contra-plongée
Câmera posicionada em nível mais ou menos elevado do que
o objeto enquadrado, respectivamente (em francês: plongée
= mergulho). Também conhecido como câmara alta e câmara
baixa.
1.4. Movimentos
1.4.1. Panorâmica (pan)
Rotação da câmera em torno de seu eixo horizontal
(para cima e para baixo) ou vertical (para um ou outro lado).
1.4.2. Chicote
Uma panorâmica muito rápida.
1.4.3. Traveling
Deslocamento da câmera. Pode ser para frente (in), para trás
(out), para cima, para baixo, para os lados ou combinado.
1.4.4. Zoom
Alteração gradual, dentro de um mesmo plano, do ângulo
de visão. Chama-se zoom-in quando este diminui e zoom-out quando
aumenta.
1.4.5. Traveling + zoom
Combinação dos movimentos descritos acima, normalmente em
sentidos inversos.
2. Sintaxe
2.1. Plano
É a unidade significante mínima do filme. Entende-se por
plano o trecho contínuo de filme contido entre dois cortes consecutivos.
Atenção: não confundir plano com tomada, que
é a ação de filmar um plano. Em uma filmagem, podem
ser feitas várias tomadas de um mesmo plano, das quais apenas uma
será aproveitada.
2.2. Cena
Pode ser composta por um ou mais planos. São agrupados em uma mesma
cena os planos que têm uma continuidade temporal e espacial entre
si.
2.3. Sequência
Pode ser composta por uma ou mais cenas. Define-se pela continuidade da
ação.
2.3.1. Plano sequência
Uma sequência sem cortes.
2.3.2. Montagem paralela
Montagem intercalando planos de sequências que se desenrolam simultaneamente,
mas em espaços diferentes, normalmente convergindo para um encontro
no final.
2.4. Relações entre planos
2.4.1. Campo/contra-campo
Alternância de planos orientados no mesmo eixo dramático,
mas em sentidos opostos. Ver "Eixo (quebra)".
2.4.2. Plano autônomo
Exibe uma ação que corre paralelamente às demais,
sem encadeamento causal com o plano anterior e nem com o seguinte.
2.4.3. Efeito Kuleshov
Justaposição de planos com o poder de criar uma nova significação,
inexistente nos planos isolados. O termo foi criado a partir de um experimento
do cineasta russo Lev Kuleshov (1899-1970) em que um mesmo plano de
um ator (Mosjoukine) com expressão neutra era alternado com planos
carregados de diferentes significações afetivas (criança
= "ternura"; mulher num caixão = "tristeza";
prato de sopa = "apetite"), que "contaminavam" a
interpretação dos espectadores, fazendo-os acreditar que
sua expressão havia mudado. O poder do Efeito Kuleshov foi bastante
superestimado nas décadas de 20 e 30 em função
da valorização da montagem em detrimento de outros elementos
da linguagem cinematográfica por parte de outros teóricos
e cineastas russos como Sergei Eisenstein e Dziga Vertov.
3. Estilística (figuras de linguagem)
As mais importantes são:
3.1. Elipse
Supressão de um intervalo temporal e/ou espacial, que fica subentendido.
3.2. Metonímia
Recurso em que o todo é representado pela parte, o grupo pelo indivíduo,
a causa pelo efeito, etc.
3.3. Gradação
Variação gradual ascendente (clímax) ou descendente
(anticlímax) na intensidade dramática.
4. Dramaturgia
4.1. Ação
É o elemento central da dramaturgia (em grego: drama = ação).
É ação tudo aquilo que pode gerar uma reação
da parte de outros personagens. Neste sentido, os ocupantes dos assentos
um ônibus lotado que permanecerem sentados a partir do momento em
que entrar no veículo uma velhinha de muletas estarão desempenhando
uma ação dramática que não depende de nenhuma
ação física.
4.2. Personagem
É qualquer ser humano, animal ou ente inanimado ao qual sejam atribuídas
características humanas (prosopopéia), capaz de desempenhar
espontaneamente uma ação.
4.3. Conflito
A oposição das ações de diferentes personagens.
4.4. Peripécia
Inversão repentina no sentido da evolução dramática,
causada pela mudança de intensidade das forças conflitantes
(no futebol: "virada"). Em um drama, podem ocorrer inúmeras
peripécias encadeadas.
4.5. Desenlace
Resolução do conflito levando à situação
final, depois que uma das forças antagônicas sobrepuja a
outra.
* Roteiro para seminário realizado no curso Multimídia e
Intermídia I do prof. Prof. Arthur Matuk - ECA/USP 05/11/1997.
** Fabio Durand
é graduado em Cinema e Vídeo pela ECA/USP e atualmente trabalha na TV
USP.