Enquanto os soldados alemães, com seus 'belos cabelos', suas
'faces bronzeadas' e seus 'olhos de gelo' ampliavam os domínios
da Alemanha nazista, o desejo e a prática homossexual eram
varridos do território ariano com a mesma truculência
eficiente que condenaria os judeus europeus, os doentes mentais e
os ciganos. A capital alemã fora, até a ascensão
de Hitler, não apenas a 'Berlim Imoral' - título de
um guia alternativo publicado em 1930: tratava-se da 'Metrópole
Gay' da Europa e sede da primeira organização do mundo
a combater a intolerância sexual.
No mês de maio de 1897 o médico alemão, judeu
e homossexual Magnus Hirschfeld e três amigos criavam, em Berlim,
o Comitê Científico Humanitário, um tipo de resposta
à prisão de Oscar Wilde, ocorrida na Inglaterra, dois
anos antes. Wilde fora condenado após um escandaloso affair
que envolveu o nome do Lorde Alfred Douglas. Diante do juíz,
o escritor inglês diria uma célebre frase, cuja expressão
até hoje identifica o amor homossexual: "o amor que não
ousa dizer seu nome... é belo, extraordinário, e constitui
a mais nobre forma de afeto... por ele é que me vejo sentado
neste banco... o mundo furta-se à ele e não o entende"
(apud Costa, 1992:47).
No entanto, 'o amor que não ousa dizer seu nome' seria intensamente
vivido em Berlim, conhecendo seu apogeu nos anos 20 até sua
completa marginalização a partir da chegada de Hitler
e dos nazistas ao poder. O aparecimento do Wissenschaftlich-humanitäre
Komitee-WhK não era, em absoluto, um fato isolado. Especialmente
durante a República de Weimar, a liberalidade da vida sexual
na metrópole germânica acabará convertendo-se
num mito, tão antológico pelo seu grau de depravação
quanto pelo seu glamour. Como diria o escritor inglês (e gay)
Christopher Isherwood (1)
:"Berlim meant boys" ("Berlim significava rapazes").
O cenário lesbiano berlinense, detalhado por Adèle Meyer
no livro Lila Nächte, faria a Nova Iorque dos anos 70 parecer
qualitativa e quantitativamente inadequada, diz Richard Dyer (1990).
Interessados podiam adquirir guias específicos (inclusive dirigidos
para turistas 'heterossexuais'), que detalhavam a rica vida noturna
gay e lésbica. Haviam locais de encontros para casais homossexuais,
revistas, romances e até mesmo um teatro: o Theather des Heros
(1921-1924). Diversas organizações gays e lésbicas
mantinham ligações com outros movimentos contemporâneos,
como o feminista e os chamados 'Lebensreformbewegungen' (estilo de
vida), a exemplo de vegetarianos, nudistas e pacifistas. No campo
da política estes núcleos estiveram particularmente
próximos do socialismo, mas não deixaram de flertar,
em alguns momentos, com o próprio nazismo (Dyer, 1990:9).
2 O 'AMOR QUE NÃO OUSA DIZER SEU NOME' NAS TELAS DO CINEMA
"Essa hostilidade dos inferiores [os assassinos, os carrascos
fascistas, os linchadores], outrora cuidadosamente cultivada e alimentada
pelos superiores laicos e espirituais, à vida que neles se
atrofiou e com a qual se relacionam, homossexual e paranoicamente,
pelo homicídio, essa hostilidade foi sempre um instrumento
indispensável para a arte de governar. A hostilidade dos escravizados
à vida é uma força inexaurível da esfera
noturna da história. (...) Os que na Alemanha louvavam o corpo,
os ginastas e os excursionistas, sempre tiveram com o homicídio
a mais íntima afinidade, assim como os amantes da natureza
com a caça"
Adorno; Horkheimer-Interesse pelo Corpo/Dialética do Esclarecimento
(1985)
"Nem sempre os homens morrerão em silêncio (...)
Se a fome leva alguns à letargia e ao desânimo irremediável,
ela conduz outros temperamentos à nervosa instabilidade da
histeria e a um louco desespero". A previsão sombria feita
pelo economista J.M. Keynes, acerca das conseqüências do
Tratado de Versalhes para a derrotada Alemanha, concretizou-se em
pouco mais de uma década (2).
A histeria e o desespero - somada à humilhação
- iria gerar uma força destrutiva sem precedentes na história
da humanidade. A República de Weimar nasce ao término
da Primeira Grande Guerra e finda com a ascensão dos nazistas
ao poder (pelo voto eleitoral, lembre-se).
Instabilidade política, efervescência cultural e liberalidade
sexual: não por acaso, as duas obras explicitamente homossexuais
da história do cinema mundial nasceriam nos primórdios
e no ocaso de Weimar. Entre estes dois marcos, a cinematografia alemã
contabilizou uma vasta lista de abordagens gays e lésbicas
secundárias; senão efetivas, abertas a uma interpretação
homossexual, como a obra de F.W. Murnau, cineasta gay, diretor de
Nosferatu e A Última Gargalhada que notabilizou o grande ator
alemão - também gay - Emmil Jannings. No entanto, nenhuma
obra foi tão clara e diretamente centrada na temática
como Anders als die Andern - Diferente dos Outros (1919) - e Mädchen
in Uniform - Senhoritas em Uniforme (1931).
Tampouco, as demais abordagens mostraram tamanha simpatia à
causa homoerótica: muitas enfocaram situações
ou personagens de forma depreciativa e estereotipada, para além
da recorrência do que chamaremos de 'lógica do crime
e castigo'. Ainda hoje, assistimos a filmes que não romperam
com a 'solução trágica' (de fato, punitiva) para
'resolver a problemática homossexual' (3)
- uma tradição da qual mesmo os filmes Anders e
Senhoritas não deixam de ser exemplos pioneiros. De qualquer
forma, exceto pela cinematografia alemã, serão poucas
as imagens em torno da homossexualidade na produção
mundial do período.
Em território germânico, diversas obras - de forma secundária
- já se ocupavam de uma nascente 'visibilidade' da temática
homossexual. Michael (1924) narra a trágica história
de amor entre um pintor e seu modelo e protegido; Der Fall des Generalstabd-Oberst
Redl (1931) gira em torno do escândalo sexual que envolveu um
coronel do império austro-húngaro e, ao menos um dos
diversos filmes que resgataram a memória de Frederico, o Grande,
intitulado Fridericus-Rex-Zyklus (1922) fez menção à
sua orientação sexual (que os filmes sobre Ludwig II
ignoravam).
Dyer também lembra que uma personagem lésbica em A Caixa
de Pandora (1928), de Georg Wilhelm Pabst, e um personagem gay em
Sexo Algemado são centrais para o enredo de ambos os filmes,
produzidos em 1928. De fato, uma seqüência do já
clássico filme de Pabst mostra a personagem Lulu (Louise Brooks)
dançando com a Condessa Geschwitz (Alice Roberts) sob o olhar
nada satisfeito de um dos seus inúmeros admiradores. Estas
imagens são consideradas como a cena lesbiana inaugural da
história do cinema. O frisson em torno da Condessa interpretada
por Roberts, não se deve apenas ao fato de ter sido a primeira
personagem homossexual claramente desenvolvida pelo medium (Murray,
1996:170). Ela também entrou para o imaginário 'GLS'
por contracenar com Brooks, um dos maiores ícone (homos)sexuais
do cinema mudo. A mítica atriz norte-americana, que resumiu
magistralmente a natureza de Hollywood ("pestiferous disease";
i.é, doença pestilenta) filmou ainda com Pabst Diário
de uma Perdida (1929) que também apresenta o que os Gay and
Lesbian Film Studies costumam chamar de 'tensão homoerótica'
(4).
Em dois dos filmes alemães de Fritz Lang, em torno do célebre
vilão "Mabuse", personagens gays fazem parte do que
Dyer (1990:07) chama de "general ambience of decadence"
(5):
são eles Mabuse, o Jogador (1922) e O Testamento do Dr. Mabuse
(1933). Outras obras mantiveram as referências mais ambíguas,
como A Mocidade de um Homem (1919), sobre um hermafrodita - presumivelmente
gay; La Garçonne (1925), baseada num livro explicitamente lésbico,
mas abrandado para as telas e Das Bildnis des Dorian Gray (1917),
aberto - como o romance homônimo de Wilde - à interpretações
homoeróticas.
Acrescente-se a este rol, toda uma cinematografia que - se não
ofereceu imagens mais ou menos explícitas acerca da homossexualidade
- notabilizou-se pelo seu apelo gay e lésbico: nas histórias
de travestismo, as estrelas femininas passavam a maior parte do tempo,
como notou Dyer (1990:08), disfarçadas de homens e envolvidas
(amorosamente) com uma mulher. Tal trama, quase sempre 'inocente',
incluiu títulos como Jugend und Tollheit (1912); Exzellenz
Unterrock (1920); Dona Juana (1927) e O Violonista de Florença
(1927). Uma variante desta temática manteria sua popularidade
sob o regime nazista: Oito Garotas num Barco e Ich für Dich,
Du für Mich (1934) evocaram a intensidade e força dos
vínculos femininos. A psique masculina seria celebrada em O
Caminho para a Força e a Beleza (1925), cujos dez primeiros
minutos encenam uma arena grega: jovens atletas, semi-nus, treinam
lutas; outros, reunidos em círculos, ouvem seus mestres.
Estas obras são possíveis num contexto em que a cinema
germânico apresentava uma abertura geral em termos do tratamento
da sexualidade. Os chamados 'Aufklärungsfilm' (filmes de esclarecimento)
tomavam para si a tarefa de abordar problemáticas sociais;
na verdade - majoritariamente - questões sexuais. Dois clássicos
do período, A Caixa de Pandora e O Anjo Azul testemunharam
o poder da (bis)sexualidade feminina, encarnado em atrizes de irresistível
apelo como Louise Brooks e Marlene Dietrich. (Enquanto isso, uma também
sensual - e certamente, bem menos ambígua - Leni Riefenstahl
chamava a atenção do público masculino e tornava-se
objeto de desejo do líder nacional-socialista, Adolf Hitler).
Uma inequívoca pornografia 'heterossexual' também encontrava
enorme receptividade.
A campanha para a abolição do Parágrafo 175 não
chegou a ter êxito completo, apesar dos vários livros
publicados - entre os quais o Anuário para Tipos Sexuais Intermediários
e do abaixo-assinado em prol dos direitos de homossexuais. Mais de
seis mil assinaturas foram coletadas, incluindo as de médicos
e personalidades da época, como August Babel, líder
do Partido Social-Democrata. Todavia, entre fins da década
de 20 e início dos anos 30, os esforços em prol da tolerância
sexual darão lugar à retomada da mais violenta repressão
- à esquerda e à direita. Na União Soviética
liderada por Stalin, a concepção bolchevique de uma
'revolução sexual' dá lugar à defesa de
um padrão familiar rigorosamente tradicional (senão
burguês). A prática homossexual é vista como uma
'perversão fascista'.
Os verdadeiros fascistas julgarão o homossexualismo ou 'qualquer
desvio da sexualidade procriativa intramarital' - como um ato de 'bolchevismo
sexual' (Fry& MacRae, 1983:87-90). Em maio de 1933, sob o comando
de Joseph Goebbels, Ministro da Cultura e da Propaganda, tem início
em Berlim a 'queima de livros' considerados 'não-alemães'
ou 'pouco-germânicos'. O Instituto comandado por Hirschfeld
seria um dos primeiros alvos de nazistas e entusiásticos estudantes
berlinenses.
"Apesar da esquerda alegar que os nazistas eram em grande parte
homossexuais, a posição hitlerista era claramente contra
esta forma de sexualidade. Quando, em 29 de junho de 1934, uma disputa
pelo poder no seio do nazismo ocasionou o assassinato de Ernst Röhm
e outros líderes da SA., conhecidos pelas suas práticas
homossexuais, acabaram os últimos resquícios de qualquer
tolerância da homossexualidade na Alemanha" (Fry &
MacRae, 1983:90).
De forma mais radical, no entanto, para milhares de vítimas
anônimas (homens, em sua maioria), o regime hitlerista significou
- a exemplo do caso judeu - uma irrevogável condenação
à morte. A exemplo de outras 'perversidades', o 'bolchevismo
(homo)sexual' seria varrido da Alemanha, que Hitler sonhou transformar
na mais bela e poderosa capital do mundo ocidental.
3 O DESTINO DO 'TERCEIRO SEXO' NO TERCEIRO REICH
'É claro que, em nossas sociedades, o extermínio dos
homossexuais, como o dos judeus e dos ciganos, em nome da pureza racial,
é, no momento, impensável; mas a desqualificação
moral, por todos os meios, substitui a exclusão pelo triângulo
rosa e o Lager. (...)Farei notar que, depois da guerra, os sobreviventes
do triângulo rosa foram os únicos a não ter benefícios
das reparações que foram dadas aos outros deportados.
É uma omissão terrivelmente significativa"...
Pier Paolo Pasolini (6)-
As Últimas Palavras do Herege
Anders als die Andern (1919) e Mädchen in Uniform (1931) são,
respectivamente, os primeiros filmes gay e lesbiano produzidos pelo
cinema mundial. Entre as datas de sua produção, Berlim
mostrara ser mais do que a 'capital homossexual' da Europa: ainda
que tenha começado tardiamente, o cinema germânico viveria
seu apogeu exatamente sob a efervescência sócio-cultural
e artística da República de Weimar. Ambos os filmes
foram banidos pelo regime nazista e muitos de seus participantes -
cineastas, consultores, atores e atrizes acabaram fugindo do país,
ameaçados pela política homofóbica e eliminacionista
do III Reich (7).
Este foi o caso de Erika Mann, filha do escritor Thomas Mann. A atriz
(segundo suas próprias palavras "amplamente lésbica
por inclinação"), que já participara de
Senhoritas em Uniforme montou, em 1935, um cabaré satirizando
os nazistas. Foi ameaçada com a perda da cidadania e ao ser
declarada 'inimiga pública do Terceiro Reich', acabou arranjando
um casamento de conveniência para conseguir o passaporte inglês.
Os detalhes da história são deliciosos: Erika pediu
ao escritor gay Christopher Isherwood que a desposasse. Ele se negou,
com medo de que seu amante alemão sofresse represálias.
Mas Isherwood propôs que o poeta gay W.H. Auden assumisse a
tarefa. O candidato responderia com um telegrama que dizia apenas
"deliciado".
Após o casamento, Auden quase não teve contato com Erika,
por quem acabou, de fato, ficando encantado. Nos EUA, os dois escritores
ingleses visitaram a família Mann e posaram para uma foto encomendada
pelo jornal Times. O fotógrafo perguntou qual a relação
de Isherwood com os Mann e Thomas, prontamente, respondeu em alemão
"cafetão da família". Todos, exceto o fotógrafo,
entenderam a expressão. (Garber, 1997:420-1).
Differente dos Outros é, conforme a expressão de Dyer
(1990) "arqueologia". Da obra original só foram preservados
20 a 30 minutos de projeção numa cópia de má
qualidade que escapou dos nazistas por ter sido apresentada, durante
um curto período, numa União Soviética então
liberal em questões sexuais. A época de seu lançamento,
o filme ocupou um dos maiores cinemas de Berlim; mereceu ampla cobertura
da imprensa, com críticas em geral favoráveis e foi
um sucesso de público. Mas a polêmica foi imediata: a
polícia proibiu sua exibição em Viena, Munique
e Stuttgart e, apenas um ano após sua estréia, era banido
pela censura germânica.
O Dr. Hirschfeld, 'consultor médico' oficial da obra (provável
co-roteirista) e um dos personagens da história (representando
a si próprio) faria, em 1927, uma segunda versão de
Anders, intitulada Gesetze der Liebe ou The Laws of Love, cujas cópias
foram destruídas durante o ataque nazista ao Instituto (Murray:1996:385).
O relato criado para defender a causa do 'Terceiro Sexo' e a supressão
do famigerado Parágrafo 175 era, de fato, uma ousadia para
a época, ainda que também tenha repisado alguns estereótipos
e preconceitos em torno ligados à homossexualidade masculina.
4 EM TORNO DE UMA DELICADEZA MALDITA
Em 1930, Marlene Dietrich protagonizava no filme Morocco dirigido
por Josef von Sternberg nos Estados Unidos, uma cena emblemática
para a história do homoerotismo no cinema. Vestida de fraque
e cartola, a musa do cinema atira uma flor para uma mulher da platéia
e, em seguida, a beija nos lábios, durante um número
musical no cabaré marroquino (8).
Um ano depois, na Alemanha que Dietrich abandonaria definitivamente,
o filme Senhoritas em Uniforme invadia as telas com uma ardente e
inequívoca história de amor entre duas jovens mulheres,
numa obra celebrada não apenas pela militância lesbiana,
mas pelo movimento feminista contemporâneo.
O tema central do filme - o amor entre mulheres - é solenemente
ignorado pelas duas obras referenciais sobre o cinema (e o Expressionismo)
alemão, De Caligari a Hitler. Uma História Psicológica
do Cinema Alemão, e A Tela Demoníaca (1988) . Kracauer
prefere ler Senhoritas de um ponto de vista estritamente político
e, sem dúvida, tradicional. Lotte Eisner realça sua
singularidade enquanto um 'trabalho feminino'. Se ambos os enfoques
são válidos, o lesbianismo evidente do filme não
é incidental: de várias maneiras é justamente
o que possibilita a afirmação de seu anti-autoritarismo
e feminilidade (Dyer, 1990:27-8). Inspirada numa peça teatral
da poeta lésbica Christa Winsloe, dirigida por Leontine Sagan
e com um elenco exclusivamente feminino,
Senhoritas será o primeiro de uma longa lista de filmes de
temática lesbiana situados em colégios internos.
Mädchen retrata a vida num internato e expõe (este é
único ponto que interessa à Kracauer) "os devastadores
efeitos do prussianismo [autoritarismo] sobre uma sensível
jovem". A diretora da escola encarna a figura da autoridade.
De "natureza terna e imaginativa", a novata Manuela (Hertha
Thiele) "implora por compreensão e encontra dura eficiência".
Apenas uma professora se mostra simpática: Fräulein von
Bernburg, interpretada pela atriz Dorothea Wieck. "Manuela percebe
a afeição não declarada da Senhorita von Bernburg
por ela e responde com uma paixão que envolve seu reprimido
desejo de amor" (Kracauer, 1988, p. 265).
"Depois de um espetáculo teatral em homenagem à
diretora esta paixão reprimida explode". Manuela, "num
estado de frenesi" rompe os limites da norma: "deixa escapar
seus íntimos sentimentos pela amada professora e desmaia".
Contra uma ordem da escandalizada diretora, von Bernburg conversa
com Manuela, mas só consegue aumentar a angústia da
menina. "[Ela] se acredita abandonada pela mulher que idolatra
e tenta o suicídio. Está prestes a se jogar do alto
da escadaria mas é contida pelas colegas" (1988:265).
De fato, escapa à Kracauer que o gesto é contido inclusive
por Fräulein von Bernburg, que assim assume uma clara posição,
finalmente subversiva (na expressão um tanto piegas de Dyer,
"in the name of love"). Um pouco antes deste clímax,
Fräulein enfrentara a autoritária Diretora com um discurso
irretocável em prol do amor lésbico: "O que você
chama de pecado eu chamo de o grande espírito do amor que possui
milhares de formas" (Dyer, 1990:29).
"É preciso que eu faça com que tudo aquilo que
me aconteceu tenha acontecido para o meu próprio bem. A cama
dura, a comida repulsiva, as cordas ásperas que transformamos
em estopa até que nossos dedos fiquem amortecidos de dor, as
tarefas servis com que devemos começar e encerrar cada dia,
as ordens dadas sempre num tom áspero que parece necessário
à rotina, o uniforme horrível que faz do nosso sofrimento
algo ridículo de se olhar, o silêncio, a solidão,
a vergonha - cada uma dessas coisas eu me vi obrigado a transformar
numa experiência espiritual. Não há um só
ato que avilte o corpo que eu não deva tentar transformar numa
forma de espiritualização da alma" (1982:63).
Esta passagem
foi escrita por uma célebre vítima do preconceito e
da intolerância sexual - este racismo disfarçado que,
como notara Pasolini, nunca deixou de latejar "sob a camuflagem
das reformas medíocres". Oscar Wilde teve a vida pessoal
(e a produção artística) irremediavelmente abalada
pela condenação por 'crimes de natureza sexual'. Ele
escreveria, na prisão de Reading, sua obra póstuma De
Profundis; de fato, uma carta - ainda apaixonada - à Lorde
Douglas. A convicção (ou a esperança) sugerida
pelo escritor inglês jamais pode ser compartilhada pelas milhares
de vítimas anônimas que pereceram - sob maus tratos e
punições infinitamente mais cruéis - em nome
da 'saudável' pureza e perfeição ('heterossexual')
da 'raça eleita', liderada por Adolf Hitler.
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