O fenômeno cinematográfico que se desenvolveu
no Rio de Janeiro a partir dos anos 40 é um marco. A produção
ininterrupta durante cerca de vinte anos de filmes musicais e de chanchadas,
ou a combinação de ambos, se processou desvinculada
do gosto do ocupante e contrária ao interesse estrangeiro Paulo
Emílio (Gomes, 80, 92)
No dia 16 de outubro de 1941 nascia a Companhia cinematográfica
de maior longevidade do cinema brasileiro. Nos seus 21 anos de atividade,
a Atlântida produziu 66 filmes (sem contar com “Assim
era a Atlântida”, de 74) num ritmo contínuo e com
boa resposta de bilheteria.
No início da década de 40 o cinema brasileiro
passava por um momento de recesso após a eufórica criação
dos estúdios da Cinédia, Sonofilmes e da Brasil Vita
Filme. A Cinédia alugou os seus estúdios para as filmagens
de “It’s All True”, de Orson Welles; a Brasil Vita
Filme, de Carmen Santos, ainda estava envolvida com a produção
de “Inconfidência Mineira”, iniciada em 36, e só
concluída 12 anos depois; a Sonofilmes paralisa as suas atividades
após o incêndio em novembro de 1940.
Buscando dar continuidade a sua atividade como diretor,
iniciada na Sonofilmes, Moacyr Fenelon se junta aos irmãos
Paulo e José Carlos Burle para a fundação da
Atlântida Companhia Cinematográfica do Brasil S.A., que
ainda contou com o apoio do conde Pereira Carneiro, proprietário
do Jornal do Brasil. Segundo o seu manifesto de inauguração,
a Atlântida nasce com o intuito de contribuir para o desenvolvimento
da indústria cinematográfica brasileira e propõe
o desenvolvimento do cinema nacional como alavanca do progresso do
país. “No Brasil, o cinema ainda representa muito menos
do que deveria ser e, por isso mesmo, quem se propuser, fundado em
seguras razões de capacidade, a contribuir para seu desenvolvimento
industrial, sem dúvida estará fadado aos maiores êxitos.
E também prestará indiscutíveis serviços
para a grandeza nacional .” (VIEIRA, 87, 154).
A princípio foram produzidos cinejornais. Com
a experiência adquirida no cinejornal “Atualidades Atlântida”,
a companhia produz o primeiro longa, o documentário “IV
Congresso Eucarístico Nacional de São Paulo” (1942),
que era exibido juntamente com o média “Astros em Desfile”
(1942), de José Carlos Burle. “Astros em Desfile”
apresentava números musicais com Luiz Gonzaga, Emilinha Borba
e Quatro Ases e Um Coringa, entre outros, já prenunciando a
fórmula que combinava música e cinema e que faria o
sucesso da Companhia.
O primeiro sucesso da Atlântida foi um filme
baseado na história daquele que seria um dos seus maiores astros:
Grande Otelo. O roteiro era inspirado numa reportagem de Joel Silveira
e Samuel Wainer publicada em Diretrizes, baseada em dados biográficos
da vida de Otelo. Segundo o depoimento do diretor do filme, José
Carlos Burle, “Moleque Tião”(1943), narra a história
de um garoto pobre do interior de Minas Gerais que sonhava ser artista.
Atraído pela notícia de uma Companhia Negra de Revista
que vinha fazendo sucesso, Tião viaja para o Rio de Janeiro
onde se consagra após muita luta e persistência. O filme
perdeu-se e não existe nenhuma cópia. José Sanz
destacou “a introdução de alguns elementos do
neo-realismo italiano, como por exemplo a filmagem em locações
e o privilégio de uma ambientação mais pobre
, identificada com classes trabalhadoras” (VIEIRA, 87, 155).
Nos próximos quatro anos a Atlântida
irá se consolidar como a principal produtora do país
emplacando 12 filmes, entre eles “Tristeza Não Paga Dívidas”(1944),
de José Carlos Burle. Neste filme atuam juntos pela primeira
vez Oscarito e Grande Otelo, estes dois atores formarão a dupla
de comediantes mais famosa do cinema brasileiro e serão lembrados
para sempre como uma marca da Atlântida. Entre 43 e 47 são
produzidos filmes como “Não Adianta Chorar”(1944),
de Watson Macedo, e “Gol da Vitória” (1946), de
José Carlos Burle, que abordam temas populares como o futebol
e comédias musicais. Mas em “Este Mundo é um Pandeiro”
(1947), de Watson Macedo, a chanchada ganha a forma definitiva que
fará o sucesso da Companhia. Neste filme Macedo mistura os
elementos que serão a base das chanchadas: a paródia
ao cinema hollywoodiano e a abordagem bem humorada dos problemas sociais
do país, tudo isso aliado a números musicais.
O ano de 1947 será decisivo para a disseminação
das chanchadas. Neste ano Luís Severiano Ribeiro Jr. –
dono de uma cadeia de cinema, uma empresa de distribuição
e um laboratório para processamento dos filmes – torna-se
sócio majoritário da empresa e consolida a penetração
das chanchadas e comédias musicais da Atlântida no mercado
interno e garantiu a perpetuação desses filmes por mais
de uma década.
Com a integração dos setores de produção,
distribuição e exibição, repetindo o modelo
instaurado na “bela época”, só que desta
vez com um viés estritamente comercial e voltado para o mercado,
as chanchadas da Atlântida atravessam a década de 50
lotando salas e mantendo uma produção constante inédita
no cinema brasileiro. No entanto, Severiano Ribeiro não tinha
qualquer intenção de contribuir para a industrialização
do cinema brasileiro. Com o domínio do setor de exibição,
o empresário tinha interesses em comum com as distribuidoras
americanas, de quem exibia filmes sem investir na produção
com público e retorno garantido.
Para entendermos a entrada de Severiano Ribeiro na
Atlântida devemos voltar ao ano de 1946, quando o presidente
Eurico Gaspar Dutra assina o decreto 20.943, que amplia a reserva
de mercado para os filmes brasileiros. Segundo o decreto os cinemas
são obrigados a exibir anualmente, no mínimo, três
filmes nacionais por ano. Assim, Severiano entra na produção
de filmes visando produzir seus próprios filmes para cobrir
a reserva e auferir o maior lucro possível. Para isso, a Atlântida
não fez uso da isenção de impostos para a importação
de equipamentos e material cinematográfico, conseguidos pelo
Sindicato Nacional da Indústria Cinematográfica em 1949;
manteve as precárias condições técnicas
dos estúdios; a produção era artesanal, para
se ter uma idéias das condições, os filmes eram
revelados no próprio estúdio e enrolados à mão,
enfim, a Companhia permaneceu trabalhando com reduzidas equipes técnicas,
mantendo a improvisação como “regra” de
produção.
Dentro dessa política de redução
de custos e produção voltada para o mercado, a Atlântida
produziu nos anos Severiano Ribeiro (47-62), 51 filmes, uma média
de 3,4 filmes por ano, justamente o número suficiente para
o cumprimento da reserva de mercado estabelecida em 1946. Diante deste
quadro, bem distante do manifesto elaborado pelos seus fundadores,
Moacyr Fenelon abandona a Atlântida e produz, de forma independente,
oito filmes fora da Companhia entre os anos 1948 e 1950. Fenelon teria
que esperar até 1952 para inaugurar o seu próprio estúdio
– Flama Filmes – com um filme de sucesso talhado para
o carnaval: Tudo Azul, que foi recentemente restaurado pelo o Centro
de Pesquisa do Cinema Brasileiro.
No final da década de 50 o país passa
por um momento de mudanças, a política dos “50
anos em 5” de Juscelino Kubitscheck abriu o país para
o capital e a cultura estrangeira acelerando o desenvolvimento industrial;
o neo-realismo italiano influencia o cinema brasileiro que começa
a se voltar para temas que abordam a denúncia social, o que
seria uma prévia do Cinema Novo; os Congressos de Cinema de
52 e 53 despertam uma consciência maior a respeito dos problemas
que assolam o cinema brasileiro e a necessidade de um cinema industrial
com o apoio do Estado. No entanto, a Atlântida permanece repetindo
as mesmas fórmulas sem mostrar capacidade de renovação
e com o esgotamento do filão das chanchadas e do filme musical
a Companhia paralisa as suas atividades em 1962.
Em 1974, o diretor Carlos Manga, que dirigiu alguns
dos maiores sucessos da Companhia - “Matar ou Correr”
(54), “Nem Sansão Nem Dalila” (54), “O Homem
do Sputinik” (59) – dirigiu “Assim era a Atlântida”,
um documentário com trechos dos principais filmes produzidos
pela Companhia.
* Sandro Santana é mestrando do Programa Multidisciplinar de
Pós-Graduação em Cultura e Sociedade da FACOM/UFBA.
BIBLIOGRAFIA
GOMES, Paulo Emílio Salles. Cinema: Trajetória no Subdesenvolvimento.
Rio de Janeiro: Paz e Terra/Embrafilmes, 1980.
SANZ, José. Ritrattto sincero dell’Atlantida. In: Il
Cinema brasileiro. Gênova, Silva Editore, 1961.
VIEIRA, João Luiz. A Chanchada e o Cinema Carioca IN: RAMOS,
Fernão (Org.) História do Cinema Brasileiro, São
Paulo: Art Editora, 1987.
Data de publicação: 14/10/2005