Psicanálise e
Cinema: um enunciado. Destaco a conjunção aditiva e contida
nele. Inicialmente somos remetidos a indicar prováveis relações
entre os dois campos, aproximá-los em certas nuanças de contigüidade,
de vizinhança. Somos constantemente convidados a alinharmo-nos a
um imperativo dos nossos tempos, o imperativo da globalização.
Globalizar os diferentes campos do conhecimento, da cultura, da(s) língua(s),
do dizer; enfim, posicionarmo-nos desde um certo desprezo pela singularidade,
pelo que é exclusivo de um campo, de uma prática. Se não
somos universitários, somos mestres, cada vez mais embaraçados
e empenhados numa só verdade, numa síntese universitária
de tudo. Não traria a ideologia da globalização um
certo ideal de verdade única? Se sim, ou estamos em consonância,
filiados a ela, ou marginais, dejetos fora do dito todo. O susto é
que parece que não haverá meio-termo.
Psicanálise e Cinema. Escolho, por conseguinte, um caminho menos
associativo no tema; suponho duas práxis que podem sim, estabelecer
contatos entre si, mas somente na posição de excentricidade,
onde uma interpela a outra "desde fora" e nunca numa posição
complementar. Portanto, leio o e de nosso enunciado como quem lê uma
diferença, condição apriorística para a diversidade
que respeito no tema, diversidade, aliás, que jamais deveríamos
nos atrever a dar conta.
No entanto tudo o que é marcado pela dessemelhança pede algum
ordenamento, mesmo que só para que se estabeleça diálogo,
transmissão, apenas como efeito de estilo, de laço, que une
artificialmente o que não é igual. O laço é
exatamente o que se fará aqui: um filme como "pré-texto"
para que algo possa ser dito. Portanto, é da palavra que falo, palavra
como laço de sentido e como instrumento fundador da práxis
psicanalítica.
Mas diriam alguns, o Cinema não se organiza prioritariamente em imagens?
No início, por uma série de contingências, o cinema
elaborou no seu mutismo a possibilidade de ser arte. É sabido que
muitos o defendiam, livre dos paradigmas da fala, condição
para que seu "purismo" se manifestasse. Pregavam que as imagens
convidariam o espectador a uma possibilidade ímpar de abstração
criativa, em busca de uma língua universal, não submetida,
desse modo, a equívocos e ao arbitrário do signo. O Cinema
Mudo, no entanto, não foi uma escolha; tratava-se, antes de tudo,
de uma deficiência tecnológica, mas que, mesmo assim, promoveu
um ideal. Ao pretender-se uma língua universal pela via única
da imagem, não se aproximaria de um ideal místico? Hipótese
que considero plausível, já q eu é disso que os místicos
querem nos convencer quando afirmam que as suas experiências
o gozo místico não se traduzem em palavras e sim numa
dita linguagem imagética, única e direta com o transcendental,
sem intermediação da língua.
Mas isso foi uma metáfora e , como sabemos, o cinema sem palavras
não prevaleceu, mesmo porque era evidente que sua estrutura narrativa
sempre esteve presente, não só pelas legendas entremeadas
nos filmes, mas como elemento inerente ao movimento seqüencial das
imagens. Que a palavra não seja emitida, ouvida, não significa
que não opere, que não esteja.
O silêncio de palavras do Cinema Mudo, dessa maneira, sempre fez dizer.
Não aquilo que estava dito, mas exatamente "aquilo tudo"
que é impossível de dizer, que está na estrutura da
linguagem e que a obra de arte é tão boa testemunha. Isto
é, toda manifestação artística demanda crítica,
pede posicionamento de olhos, ouvidos, bocas, convida um esteta que a decifre
além dela, pois em si mesma não se esgota, não transmite
integralmente. Aí está a sua própria lacuna e, assim,
a sua alteridade.
Por conseguinte, quem almeja que a obra de arte faça cessar a linguagem
negando a sua existência anterior, crê numa ordem mística,
num endereçamento sem palavras, num laço apenas com UM, por
exemplo, com Deus. E todos sabemos o quanto é "loucura"
querer (?) sair da linguagem.
Mas, mesmo assim, com o surgimento da fala no Cinema as reações
apareceram. A palavra retiraria dele o status de manifestação
artística denotando, na concepção de alguns, uma ausência
de solidariedade entre Cinema e Fala. Esta "sujaria" o ideal da
imagem pura, que comunica por si. Essa concepção purista subtrairía
do Cinema aquilo que na obra de arte supostamente nos inquieta: o conflito
no estabelecimento da posição de sujeito e objeto, de quem
é olhado. Algo similar a isso está na seguinte pergunta: A
obra de arte interpreta ou pede interpretação?
Que fiquem os estetas, cineastas e semiólogos com o encargo de formulação
da resposta, pois o que aqui interessa marcar é a inevitabilidade
da arte na linguagem, mesmo que por uma relação de excentricidade.
O curioso é que, na atualidade da produção cinematográfica,
a essência dessa discussão retorna. Esse retorno aparece exatamente
na articulação entre imagem e palavra. Critica-se, quixotescamente
ou não, a indústria do entretenimento, da mera distração
banal. Não vem ao caso agora discutir a validade dessa consideração,
e sim, marcar o seu cerne: a oposição entre Imagem e Palavra.
Antes a palavra invadiria a imagem; no momento, por vezes, a queixa se inverte.
Recentemente, o ator e diretor francês Gerard Depardieu, numa entrevista
a uma televisão de seu país, criticava a indústria
cinematográfica que, a seu ver, priorizava o requinte da imagem,
dos efeitos especiais, desvinculando disso qualquer sentido poético.
Construía uma nítida analogia entre o produto industrial e
"produção em série" também da palavra,
que apareceria mascarada, "congelada", longe de qualquer possibilidade
de autoria. O ator, o diretor e até os roteiristas estariam posicionados
desde a prioridade da imagem, e não dos diálogos, por exemplo.
A meu ver, o que Depardieu apontava não era simplesmente a luta maniqueísta
entre Imagem e Palavra, mas sim, a desvitalização desta última.
Em suma, a Palavra estaria alijada do seu poder de decifração,
de produção de novos sentidos, enfim, de seu caráter
simbólico.
Mas não seria essa discussão, de certa forma, a mesma que
travamos no nosso "mal-estar na cultura" atual? Não estaríamos
presenciando, em mais de um nível, a desqualificação
da fala no que diz respeito a sua possibilidade de nomear, promover diferenças,
incidir sobre o imaginário e o real? Estamos, sem dúvida,
neste final de século, incumbidos somente de mensagens simples, da
clareza absoluta. Uma época que não suporta nenhuma demanda
que não seja linear. Assistimos perplexos o avanço de sistemas
discursivos impregnados por uma ética asertiva-autoritária
que impõem-se nitidamente como instrumentos contra-subjetivos. Basta
atentarmos para o retorno de políticas fascistas na Europa, por exemplo,
e o crescimento desenfreado de seitas religiosas fundamentalistas que reordenam
a máxima da palavra de Deus como única propiciadora da verdade,
impassível de interpretação.
É aqui que lanço o estatuto da palavra como propiciador de
ética. Essa proposição "Psicanálise
e Cinema"- tomo-a escolhendo um filme que é, repito, um "pré-texto"
que viabilize a relação da Psicanálise com sua estrutura
fundamental: a Linguagem. Seleciono "O Carteiro e o Poeta" do
diretor Michael Radford, porque o absorvi numa perspectiva de homenagem
à palavra. E é isso uma homenagem que os poetas
e, quiça, os psicanalistas, fazem quando desaprisionam das palavras
seus sentidos preestabelecidos, retirando-as do código inercial da
língua.
Há certamente no filme vetentes políticas, sociais, matrizes
identificatórias que se endereçam a nossa reflexão;
no entanto, centralizo seu enredo por escolha nas relações
de amor que se viabilizam no encadeamento da fala; amor entre dois homens
(Neruda e Mário). É surpreendente como o personagem Mário,
logo no início da trama, inaugura uma demanda de reconhecimento por
parte do poeta, que o coloca em franca abertura à poesia. Daí,
destaco algo que me parece fundamental no encadeamento do enredo: Mário
o carteiro desconfia da diferença entre falar no sentido
da mera emissão de palavras (como modo servil de utilizar-se da língua
materna), e dizer. É como se anunciasse: "Falo, mas demando
dizer.", o que nos autoriza a enxergar uma posição tal
do personagem, como aquele que sabe que a palavra, nos seus deslizamentos,
sinuosidades, sempre diz a mais. Com as palavras, há um texto a ser
confeccionado, diversificado do imperativo de simplesmente repetir a língua.
Essa desconfiança que Mário sustenta, endereça implicitamente
ao poeta como um saber suposto. Mas essa suposição que recai
sobre a pessoa do poeta, só aconteceria como ponto de engate, pois
a transferência "intersubjetiva" que salta aos olhos, só
pode ser considerada na vertente imaginária, já que o que
está em jogo é a suposição de que o poeta, sabendo
fazer uso das palavras, sabe dizer o que quer. Assim, não é
necessariamente a pessoa do poeta que fascina Mário, e sim, suas
palavras.
O carteiro diz: "Com a poesia eu posso conquistar as mulheres. Como
se torna um poeta?" Entre poesia e mulheres há algo não
exposto na gramática da frase, mas que seria exatamente a raiz, a
razão de ser do apego do carteiro ao poeta: "Como se é
homem?" Vale lembrar um dos comentários anteriores do mesmo
personagem que pode ajudar na resignificação da frase: "Por
ser poeta, deve ser um homem rodeado de mulheres". Seria possível
afirmar que os significantes poesia e homem executariam um pareamento de
significação. Assim, Poesia surgiria como um desdobramento
do significante Homem, que o poeta incorporaria desde a suposição
que Mário lhe faz.
Há algo de fundamental nesse contexto: a relação entre
homem e mulher fica exclusivamente mediada pela linguagem. É como
se o carteiro pudesse dizer: "Só a metáfora atinge a
mulher". Nesse ponto me apóio no ensino de Jacques Lacan e chamo
atenção para isso. Lacan propõe a inexistência
da relação sexual em conseqüência dela não
se inscrever na ordem dos significantes; não há palavra que
represente o sexo. O amor é que entraria na cadeia significante fazendo
suplência exatamente à relação sexual que, portanto,
nunca poderia ser simbolizada. Diz Lacan:
"O que faz agüentar-se a imagem, é um resto. A análise
demonstra que o amor, em sua essência, é narcísico,
e denuncia que a substância do pretenso "objetal" é
de fato o que, no desejo, é resto, isto é, sua causa, e esteio
de sua insatisfação, se não de sua responsabilidade.
O amor é impotente, ainda que seja recíproco, porque ele ignora
que é apenas o desejo de ser UM, o que nos conduz ao impossível
de estabelecer a relação dos..A relação dos
quem? dois sexos"(Seminário "mais, ainda"-
1972-73, p.14).
A meu ver, é essa a apropriação essencial de Freud
quando revela que a sexualidade é um tabu inexorável e que
nenhuma sexologia dará conta; algo que não pára de
insistir, de não se inscrever e que a palavra não podendo
abarcá-la, só a representaria. Freud, inicialmente, aponta
para o hiato entre a fala e o sexo, aponta portanto, o paradoxo fundamental
do nascimento da Psicanálise: a palavra desencontrada do desejo.
Mas, por outro lado, Freud sempre soube que a posição de escuta
do analista faria surgir no outro a trama desse descompasso. A histérica,
nessa vertente, nos conta a história "permanente" do desejo
sempre aquém ou além, e não podemos esquecer que é
ela com seu discurso que questiona o próprio sexo a
co-fundadora da psicanálise.
Mas o que é a fala? Podemos defini-la como um alicerce de palavras
disponíveis e comuns a todos nós a línguam sobre
a qual se funda. Essa língua preexiste ao sujeito. Ela provém
do Outro e caberia a cada sujeito encontrar nela apoio e lugar, a fim de
equacionar uma disparidade: seu ser e seu corpo. A fala já supõe
um outro que venha completar a sua falta a ser, posto que é da sua
estrutura se faltante. Por essa razão, a fala já subentende
o desejo e, ao mesmo tempo, a castração, pois implica um buraco
em que cada locutor espera em vão a palavra precisa (do Outro) que
corresponderia a seu desejo (estrutura do diálogo do Amor?). Portanto,
a fala alude ao desejo, como condição e única via,
mas não o explicita.
Dessa maneira, temos duas noções importantes: uma estrutural
aliada à linguagem e solidária no campo da verdade, e outra
num nível de sentido, que a fala exerce se apropriando singularmente
da língua e promovendo o que poderíamos nomear como verdade
particular. Nos diz Lacan, que a posição particular da fala
será de produzir sentido, portanto essa condição articula
fala ao desejo, que é o único sentido possível. Mas
esse sentido é desencontro, porque se endereça ao sentido
sexual, dito anteriormente como impossível de se conectar todo em
palavras. A metáfora, então, situaria no ponto preciso em
que o sentido se produz a partir de um mal-entendido fundamental: a relação
sexual. O que é da ordem da impossibilidade de inscrição,
aparece como metáfora. No filme, o carteiro se pergunta do seu próprio
sexo, e é para isso que chamo atenção: a pergunta já
é em si metaforizada. Cito novamente Lacan:
"Trata-se de metáfora. Para o que é de gozo, é
preciso colocar a falsa finalidade como respondendo ao que é apenas
pura falácia de um gozo que seria adequado à relação
sexual. A este título, todos os gozos não são mais
do que rivais da finalidade que haveria se o gozo tivesse a mínima
relação com a relação sexual" (Seminário
"mais, ainda"- 1972-73, p. 153).
Numa abordagem mais literária, poderia se dizer que a "transferência"
se instala com a poesia, que enlaça a linguagem sem o mandamento
de contornar um objeto específico, dar conta verdadeiramente dele.
Alain Badiou, filósofo, sugere que o poema não é uma
comunicação; ele é apenas um dizer, uma declaração
que tem em si mesma a sua fonte de autoridade. Assim, a singularidade daquilo
que se declara num poema não se insere em nenhuma das categorias
da compreensão clássica, não tendo compromisso nenhum
com a "língua do consenso".
A trama do personagem Mário nos convida também a evidenciar
que a língua que está na sua pergunta é a língua
que a psicanálise encontra no arsenal do seu dispositivo: a língua
"transferencial". O carteiro institui um saber no Outro a respeito
de sua própria pergunta, que, pelo menos numa vertente mais geral,
é o axioma do laço transferencial analítico: o discurso
produzindo o Outro, lugar de endereçamento da própria castração
e, dessa forma, lugar suposto de saber daquilo que falto. Uma provocação:
a falta, então, não seria um conceito em psicanálise,
mas uma suposição clínica do analisante.
O poeta não responde como analista (mesmo porque só um analista
sabe se ocupar ou não esse lugar), mas, de toda a forma, exerce função
de não-tamponamento quando convida o carteiro a produzir as próprias
metáforas, viabilizar a aproximação entre a sua demanda
e seu suposto objeto.
Defendo que a psicanálise deveria estar interessada na estrutura
da poesia, na sua estética, não par imitá-la, mas para
melhor reconhecer o estilo lingüístico de cada um que formula
um pedido de cura (suponho aí uma analogia entre estilo e topologias
clínicas).
Mas como se endereça a palavra ao psicanalista? Mais do que nunca,
a cultura aprimora-se em fincar normalizações mais consistentes
em todos os âmbitos. O que seria isso, desde o ponto de vista da palavra,
se não a tentativa de retirar-lhe valor de juízo, de atribuição,
endereçá-la a um Outro linear, desmetaforizado!? A palavra
está em crise; anuncia-se profeticamente o fim da literatura, da
poesia, da filosofia e até mesmo da psicanálise. Há
uma proposta no ar: aproximar a palavra da tecnologia, globalizando. A retórica
e o discurso estético estariam com os dia contados. Mas há
um paradoxo aí, pois ao mesmo tempo em que a palavra vive sua crise,
é elevada a um patamar fálico, fetichista, sem precedentes;
isto é, esta linguagem do politicamente correto, por exemplo, abafa
todas as possibilidades da singularidade da fala, só lhe restando,
assim, coincidir com a imagem do objeto que se supõe desejado. Enfim,
o que se diz é um sonoro não às metáforas.
As clínicas chamadas "de Saúde Mental" têm
um representante à altura desse ideal prático: a Psiquiatria
Biológica que prima por reduzir a palavra ao corpo desconsiderando
o conflito vital do corpo humano com o seu desejo. É essa a tentativa:
nada pode abalar a estabilidade da língua e o homem "voltaria"
a ser completamente decifrável, sem enganos.
Em completa oposição situa-se, entre outros, o discurso psicanalítico,
pois imprime a sua ética exatamente na noção do sujeito,
mas não o sujeito como algo similar ao Ser da filosofia clássica.
Esse sujeito psicanalítico não tem substância, nem fundamentos;
é uma "invenção" do dispositivo analítico,
comprometido que está com os efeitos da linguagem. Esse sujeito está
em relação à linguagem, mas não como agente,
e sim como efeito dela.
Portanto, não há sentido ontológico na fala, como propõe
Lacan. O significante não produz nada além de efeito de sentido,
não definindo nenhuma relação com o Ser. No entanto,
não é porque se fala que necessariamente há efeito
de sentido e, portanto, de sujeito; a linguagem não exprime por natureza
o sujeito. A evidência disso se dá, por exemplo, quando o psicanalista
procurado por alguém que lhe formula um pedido de cura. Inicialmente
esse pedido não quer dizer muita coisa, pois sabemos que nem toda
demanda de cura redunda numa demanda de análise. Muitas vezes, pela
própria estrutura de um determinado sintoma, o querer curar-se passa
à revelia do querer tratar-se. Alguém pode dizer: "Conserte
o meu sintoma, mas não mexa comigo".
Aquele que procura um analista não é um sujeito a priori;
é freqüente que, inclusive, peça a colaboração
do analista para buscar o ser na própria fala, que considera como
sua essência, a qual acredita ter perdido ou adoecido. Portanto, quem
chega geralmente evidencia, entre outras coisas, que está sintomaticamente
preso à sua fala, conseguindo extrair dela pouco sentido; é
desse modo que o discurso neurótico se aproxima da ética discursiva
da religião, pelo excesso de significação que imprime
aos seus ditos. Esse excesso invariavelmente produz demandas que se aliam
à noção unificadora de "A Verdade", à
medida que se apóia na crença da recuperação
de uma unidade perdida.
Grosso modo, o sintoma é isso: um nó, um edifício de
significantes amarrados à pobreza de sentido. Não seria a
falta de compreensão em relação ao sintoma que deflagraria
o sofrimento, como querem algumas psicologias, e sim, o que há de
excessivo nele; paradoxalmente, uma excessiva ausência de sentido.
Retorno: não é porque se fala que há sujeito. Embora
a própria estrutura da língua convide a seu aparecimento,
ele só se produza como efeito do distanciamento entre o que se fala
e o que se quer dizer. É nesse hiato que o analista é instalado.
Recordo a frase de Mário no filme: "Com a poesia eu posso conquistar
mulheres". É no hiato, na oposição entre a palavra
Poesia e a palavra Mulheres que se inscreveria um outro significante, Homem,
por exemplo; mas não entendo aí Homem como atributo, como
substância ou como palavra preestabelecida, e sim como um efeito da
frase, efeito do próprio dito gramatical.
Nas entrevistas preliminares em psicanálise joga-se com muitas coisas
(diagnóstico, indicação e contra-indicação
do tratamento, etc.), mas maneja-se prioritariamente à possibilidade
do sujeito se delinear. O analista joga com um vetor de marcar o mal-entendido
da fala retirando-se do paradigma da compreensão, marcando os desvios,
os entraves dos ditos do candidato à análise, para que possa
fazer perceber e efetuar nele um deslocamento com palavras, um efeito metonímico
e metafórico, exatamente para que o sentido apareça. É
nesse hiato entre o dito (enunciado) e uma posição que toma
aquele que fala em relação a seu próprio dito, que
se efetua o dizer (enunciação).
Retomando a nossa frase: "Com a poesia eu posso conquistar as mulheres".
A frase toda é dito. Se o falante produz uma posição
em relação a ela, produz um dizer, por exemplo, Homem, que
não é concretamente o sujeito da frase, mas sim, um efeito
de sujeito. Essa é uma das questões do chamado momento da
Entrada em Análise: trata-se aí, então, de fazer diferenciar
o dito do dizer, sendo essa possibilidade aquela que aponta o processo analítico
de subjetivação. A articulação de sujeito ao
significante aconteceria exatamente como efeito de um distanciamento que
se efetiva entre o falante e sua palavra.
Para isso, é como se o candidato à análise tivesse,
com a ajuda do analista, de abrir mão do discurso retórico,
aquele mesmo discurso que se agarra somente ao dito como a arte de bem-dizer,
a arte de convencer; teria que suspender a inflexão de verdade em
relação a seu discurso. Se a retórica do neurótico
permanece tentando "convencer" o analista que é unicamente
o seu dito que importa, um ato falho, só como exemplo, será
sempre um mero engano pois só a decisão de subjetivar-se em
relação a ele, dar-lhe-ia algum sentido. Se o lapso é
só um engano pela boca do analisante, ele o é mesmo, pois
não há nada que o defina anteriormente, nenhum sentido aparece
se alguém não se implica nele. Uma interpretação
de um ato falho sem esse posicionamento de sujeito só se daria desde
a ética psicológica, que geralmente impõe saber independente
da formulação de um sujeito. Um analista, a priori, nada teria
a dizer.
É uma oposição a esse estilo retórico do discurso
(geralmente o estilo do início de uma análise), que aponto
o discurso estético, como aquele que colocará ênfase
nos próprios signos, nas palavras. Chamo aqui a estética do
dizer exatamente essa postura que permite que a palavra seja questionada,
estilizada, por outra palavra. Seria esse distanciamento entre o signo fixo
da língua (o significado) e um deslizamento constante dessa fixidez,
que atribuiria sentido.
A posição estética desacreditaria da fala como uma
unidade autônoma, da mesma forma como o faz o esteta diante de uma
obra de arte. A Estética apareceria como mais um recurso que a Psicanálise
interpelaria, como já fez com a Fisiologia, com a Arqueologia, com
a Lingüística, com a Antropologia Estrutural e com a Matemática.
Para terminar, a estética do dizer marcaria o sujeito como nada,
já que ele não é signo, mas permitiria uma postura
singular em relação à fala, à medida que favorece
o perguntar-se a respeito dela. Essa possibilidade faria mancar a linguagem,
instaurá-la subjetivamente como faltante.. E se não há
falta, há sujeito de fato, não analítico, em oposição
ao sujeito criacional que aqui defendo como da ordem da estética.
Referência Bibliográficas:
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MILLER, Jacques-Allain. "Seminário do Campo Freudiano".
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SOUZA E SILVA, M. Cecília P. de e KOCH, Ingedore Villaça.
Lingüística Aplicada Portugês: Morfologia. São
Paulo: Cortez, 1995.
1. Texto originalmente publicado em O Desejo em cena, cinema e pensamento
"psi".- São Paulo, Companhia Ilimitada, 1998. O livro é
resultado de um ciclo de palestras realizado em 1997 pela Associação
Livre Instituto de Cultura e Psicanálise.
2. Psicanalista com formação pelo Instituto Sigmund Freud
e Psicólogo formado pela PUC/SP. Membro cartelizante da Escola Brasileira
de Psicanálise Seção São Paulo e coordenador
de leitura em grupos de estudos formativos em Psicanálise. Exerce
sua atividade clínica no município de São Paulo.