As origens do cinema
Qualquer marco cronológico que se elega como inaugural para o nascimento
do cinema será sempre arbitrário, pois o desejo e a procura
do cinema são tão velhos quanto a civilização
de que somos filhos. Segundo Arlindo Machado, as histórias do cinema
pecam porque são em geral escritas por grupos (ou por indivíduos
sob sua influência) interessados em promover aspectos sociopolíticos
particulares; tornando-se ou história de sua positividade técnica
ou a história das teorias científicas da percepção
e dos aparelhos destinados a operar a análise/síntese do
movimento, cegas entretanto a toda uma acumulação subterrânea,
uma vontade milenar de intervir no imaginário.
Assim, o que a sociedade reprimiu na própria história do
cinema, ou seja, o mundo dos sonhos, do fantasmagórico, a emergência
do imaginário e o que ele tem de excêntrico e desejante,
tudo isso, enfim, que constitui o motor mesmo do movimento invisível
que conduz ao cinema; fica reprimido na grande maioria dos discursos históricos
sobre o cinema.
A história técnica do cinema, ou seja, a história
de sua produtividade industrial, pouco tem a oferecer a uma compreensão
ampla do nascimento e do desenvolvimento do cinema. As pessoas que contribuíram
de alguma forma para o sucesso disso que acabou sendo batizado de "cinematógrafo"
eram, em sua maioria, curioso, bricoleurs, ilusionistas profissionais
e oportunistas em busca de um bom negócio. Paradoxalmente, os poucos
homens de ciência que por aí se aventuraram caminhavam na
direção oposta de sua materialização. Ao mesmo
tempo, esses mesmos homens vão também inspirar menos o espetáculo
cinematográfico do que a arte moderna: os futuristas, como se sabe,
utilizaram a cronofotografia para cantar as belezas do movimento e da
velocidade.
Por outro lado, porém, ilusionistas como Reynaud e Méliès
e industriais ansiosos por tirar proveito comercial da "fotografia
animada", como Edison e Lumière, estavam mais interessados
no estágio da síntese efeturada pelo projetor, pois era
somente aí que se podia criar uma nova modalidade de espetáculo,
capaz de penetrar funda na alma do espectador, mexer com os seus fantasmas
e interpretá-lo como "sujeito". Nem é preciso
dizer que foi essa a posição que prevaleceu entre o público,
esse público inicialmente maravilhado com a simples possiblidade
de "duplicação" do mundo visível pela máquina
( o modelo de Lumière) e logo em seguida deslumbrado com o universo
que se abria aos seus olhos em termos de evasão para o onírico
e o desconhecido ( o modelo de Méliès) que durante todo
o século XIX fascinaram multidões em estranhas salas escuras
conhecidas por nomes exóticos como Phantasmagoria, Lampascope,
Panorama, Betamiorama, Cyclorama, Cosmorama, Giorama, Typorama etc, nas
quais se praticavam projeções de sombras chinesas e até
mesmo fotografias, fossem elas animadas ou não. O que atraía
essas massas às salas escuras não era qualquer promessa
de conhecimento, mas a possibilidade de realizar nelas alguma espécie
de regressão, de reconciliar-se com os fantasmas interiores e de
colocar em operação a máquina do imaginário.
O que se pode afirmar com certa segurança é que o cinema
foi "inventado" na base do método empírico de
tentativa e erro, tendo sido necessários ajustes ao longo de pelo
menos duas décadas de história, seja regulando a velocidade
de projeção ou a quantidade de fotogramas por segundo, ou
ainda a quantidade de projeções de cada fotograma na tela,
de modo que nem o movimento resultasse "quebrado" aos olhos
do espectador, nem o intervalo vazio, perceptível.
O cinema trabalha com uma ilusão de movimento, pois o que ele faz
é congelar instantes, mesmo que bastante próximos, já
que o movimetno é o que se dá entre esses instantes congelados,
e é isso justamente que o cinema não mostra. Assim, a ilusão
cinematográfica opera com um movimento abstrato, uniforme e impessoal.
No limite, o cinema sugere que o movimento poda ser constituído
de instantes estáticos. Hoje diríamos que o olho, via de
regra, não distingue entre um movimento diretamente percebido e
um movimento aparente, artificial ou mecanicamente produzido, mesmo porque
não se pode pressupor a artificialidade dos resultados com base
na artificialidade dos meios, acrescentando ainda que o cinema nos oferece
imediatamente um "imagem-movimento", uma imagem em que os elementos
variáveis interferem uns nos outros e cujo recorte temporal congelado
pelo obturador é já um "corte móvel".
A
questão levantada por Arlindo Machado, não é decidir
se o movimento que o cinema manipula é verdadeiro ou falso para
sua compreensão como fenômeno cultural , mas avaliar o
que ocorre quando um movimento "natural" é decomposto
em instantes sucessivos para ser depois recomposto na sala escura. Que
espécie de metamorfose atravessa o material entre esses dois
momentos, convertendo a realidade estilhaçada em fantasmas que
retornam para atormentar os vivos? Se a percepção do movimento
é a síntese que se dá no espírito e não
no mecanismo do olho, o cinema deve ser entendido também como
um processo psíquico, um dispositivo projetivo que se completa
na máquina interior.
Dess
perspectiva, não existe uma história do cinema que começa,
por exemplo, em 1895, mas uma história das imagens em movimento
projetadas em sala escura, que remonta a meados do século XVII,
com a generalização dos espetáculos de lanterna
mágica. O cinema, tal como o entendemos hoje, não seria
senão uma etapa dessa longa história. Os intelectuais
do século XIX supunham que o cinema seguiria a fotografia na
sua função de "registro" documental, mas foi
que aconteceu foi o contrário. O novo sistema de expressão,
assim que ganhou forma industrial, impôs-se esmagadoramente como
território das manhas do imaginário, mantendo-se fiel
aos seus ancestrais mágicos pré-industriais.
As
primeiras projeções e suas leituras
O cinema que se constitui a partir do cinematógrafo de LeRoy,
Edison, Paul, Skladanowsky e dos Lumière, reunia várias
modalidades de espetáculos derivadas das formas populares de
cultura, como o circo, o carnaval, a magia e a prestidigitação,
a pantomima, a feira de atrações e aberrações
etc, formando um mundo paralelo ao da cultura oficial, que se baseia
no princípio do riso e do prazer corporal; é um mundo
"invertido", que possibilita permutações constantes
entre o elevado e o baixo, o sagrado e o profano, o nobre e o plebeu,
o masculino e o feminino. A essas formas de expressão típicas
das camadas mais desfavorecidas da população Bakhtin dá
o nome de realismo grotesco: elas compreendem um sistema de imagens
em que o princípio material e corporal (comer, beber, defecar,
fornicar) comanda o espetáculo e em que abundam os gestos e as
expressões grosseiras.
No
início, os filmes foram exibidos como curiosidades ou peças
de entreato nos intervalos de apresentações ao vivo em
circos, feiras ou carroças. Essa forma de difusão permaneceria
viva em zonas suburbanas ou rurais, em pequenas cidades do interior
e em países economicamente atrasados até os anos 60. Nos
grandes centros urbanos dos países industrializados, porém,
a exibição de filmes muito cedo se concentrou em casas
de espetáculos de variedades, nas quais de podia também
comer, beber e dançar, conhecidas como music-halls na Inglaterra,
café-concerts na França e vaudevilles ou smoking concerts
nos Estados Unidos.
O cinema era então uma das atrações entre as outras
tantas oferecidas pelos vaudevilles, mas nunca uma atração
exclusiva, nem mesmo a principal. A própria duração
dos filmes (de alguns segundos e não mais do que cinco minutos)
impedia que se pensasse em sessões exclusivas de cinema nos primeiros
anos de cinematógrafo. O preço cobrado pelo ingresso não
podia funcionar como mecanismo de seleção do público,
pois era ainda muito baixo e coincida de ser o mesmo dos vaudevilles.
Nos primeiros dez anos de comércio do cinema não se havia
ainda desenvolvido um conjunto de técnicas e procedimentos de
linguagem apropriados para a elaboração de uma narrativa
visual que fosse suficientemente autônoma a ponto de se poder
dispensar a "explicação" de um apresentador.
O
público dessas casas era constituído principalmente pelas
camadas proletárias dos cinturões industriais, os imigrantes
constituíam o público principal das salas de exibição,
pois o desconhecimento da língua inglesa interditava o teatro
e outras formas de espetáculos baseadas predominantemente na
palavra a essas multidões originárias a maior parte delas
da Europa Central. Malgrado constituir um sistema predominantemente
proletário, que se distinguia nitidamente das formas "elevadas"
de cultura da burguesia e da classe média, esse primeiro cinema
não refletia necessariamente as aspirações da camada
mais politizada da classe operária do século XIX, a camada
organizada em partidos e sindicatos.
No período que vai de 1895 (data das primeiras exibições
públicas do cinematógrafo dos Lumière) até
meados da primeira década do século seguinte, os filmes
que se faziam compreendiam registros dos próprios números
de vaudeville, ou então gags de comicidade popular, contos de
fadas, pornografia e prestidigitação. Os catálogos
dos produtores da época classificavam os filmes produzidos como
"paisagens", "notícias", "tomadas de
vaudeville", "incidentes", "quadros mágicos",
"teasers"(eufemismo para designar a pornografia) etc.
Assim , o cinema dos primórdios ia buscar nos espetáculos
populares não apenas inspiração e os modelos de
representação, mas até mesmo os seus figurantes:
basta lembrar que a equipe que trabalhou no célebre Voyage dans
la lune (1902), de Méliès, era constiutída por
acróbatas do Folies Bergère, cantoras de vaudeville e
dançarinas do Théâtre du Châtelet. E no que
diz respeito mais propriamente ao conteúdo, os primeiros filmes
não só davam exemplos abundantes de cinismo e perversão,
como ainda ridicularizavam a autoridade, invertendo os valores morais.
O grande herói do período, reverenciado por um número
incontável de pequenos filmes, é o tramp (vagabundo, andarilho),
de que Chaplin seria uma espécie de reencarnação,
quase 20 anos depois, com seu personagem Carlitos.
Nos music-halls e café-concerts, era bastante comum um gênero
de filmes conhecido como tableaux vivants(ou poses plastiques, dependendo
do local), que mostrava basicamente mulheres em maiôs colantes
ou em trajes sumários, congeladas em gestos provocantes. A reação,
entretanto, contra-atacava com todo furor. Uma onda de moralidade levou
o governo americano, na virada do século, a proibir a maior parte
das películas destinadas aos quinetoscópios.
Nos Estados Unidos, particularmente, onde a guerra ao cinematógrafo
chegou a um nível insuportável, os industriais que investiam
no setor e a pequena burguesia, que realizava os filmes na condição
de fotógrafos, cenógrafos, roteiristas e diretores, sentiram
que o cinema precisava mudar. Esses homens todos perceberam rapidamente
que a condição necessária para o pleno desenvolvimento
comercial do cinema estava na criação de um novo público,
um público que incorporasse também a classe média
e os segmentos da burguesia. Essa nova platéia não apenas
era mais sólida em termos econômicos, podendo portanto
suportar um crescimento industrial, como também estava agraciada
com um tempo de lazer infinitamente maior do que o dos trabalhadores
imigrantes.
A busca de um novo público leva ao desenvolvimento de uma nova
linguagem e os realizadores vão buscar no romance e no teatro
o modelo capaz de conferir legitimidade ao cinema. Com tal modelo, impõe-se
a narrativa e a linearidade no cinema praticado a partir de então.
Prova disso é que o diretor David W.Griffith levou à tela
nada menos do que um pelotão de escritores como Shakespeare,
Dickens, Eliot, Cooper, Henry et, pois era preciso dar legitimidade
ao cinema, superar a reação e os preconceitos das classes
mais ilustradas, aplacar a ira dos conservadores e moralistas e sobretudo
inscrever o cinema no universo das belas-artes.
O primeiro gênero "elevado" a ser tentado pelo cinema
foi o chamado film dart, cujo modelo e rubrica foram dados pela
França.. O gênero nasceu em 1908, com a estréia
em Paris do primeiro filme da companhia Films dArt - Lassassinat
du duc de Guise. Esse gênero de filme deixava claro que o cinema
não tinha ainda conseguido se impor como forma dramática
autônoma no sentido erudito do termo, e da eloqüência
de outras formas expressivas(sobretudo o teatro), as quais eram apenas
transplantadas na sala escura. David W.Griffth, com seus dramas psicológicos
de fundo moral, realizados no período em que esteve a serviço
da Biograph, apontaria para a direção de maior sucesso.
Conforma avançava a primeira década do século,
as fantasias, os delírios, as extravagâncias dos primeiros
filmes entram em declínio e são aos poucos substituídos
por um outro tipo de espetáculo, mais doméstico, preocupado
com a verossimilhança dos eventos, seriamente empenhado em se
converter no espelho do mundo para refletir a vida num nível
superior de contemplação. O naturalismo começa
a se impor então como uma espécie de ideologia da representação,
a fábula legitimada pela mimese.
Não se trata de dizer que os vícios e os delírios
do cinema do cinema anterior desaparecem para dar lugar à fábula
transparente de fundo moral. Eles continuam a freqüentar a tela,
porém, agora enquadrados numa perspectiva salvacionista: é
preciso representar o mal, já que a mimese implica um compromisso
com as aparências, ou como disse o próprio Griffth "é
preciso mostrar a face escura do pecado para fazer brilhar a face iluminada
da virtude". O cinema trabalha com um componente erótico
e perverso em relação ao qual mesmo o sermão protestante
acaba funcionando como um estímulo, embora pelo avesso. Há
um pecado original que atrela o cinema ao prazer do olhar, ao voyerismo
sádico; para redimir-se desse pecado, a geração
de Griffth opera a ascese, transforma a encenação do mal
em escola da temperança.
Bibliografia recomendada:
MACHADO, Arlindo Pré-cinemas & pós-cinemas.
Campinas/SP:Papirus, 1997.
SABADIN, Celso Vocês ainda não ouviram nada. A barulhenta
história do
cinema mudo.São Paulo: Lemos Editorial, 1997.
COSTA, Flavia Cesarino. O primeiro cinema. São Paulo: Scritta,
1995.
XAVIER, Ismail O Discurso Cinematográfico: A Opacidade
e a Transparência. Paz e Terra: RJ, 1977.
* Este
texto foi baseado no livro de Arlindo Machado Pré-cinemas
& pós-cinemas. Campinas/SP: Papirus, 1997.
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Carla Miucci Ferraresi é produtora e pesquisadora de documentários;
é bacharel em História e Ciências Sociais, e doutoranda
em História Social (FFLCH/USP).