Falar sobre a herança da Vera Cruz hoje, passado meio século
de sua fundação, nos obriga a lembrar as vicissitudes
e as mazelas que propiciaram o surgimento e o desaparecimento dessa
" fábrica dos sonhos" como bem definiu Maria Rita E.Galvão
(1). Trata-se de refletir sobre o panorama econômico-cultural
que serviu de contexto para que uma nova burguesia urbana paulista,
empenhada em superar a vocação provinciana, fomentasse
um sistema de produção cultural até certo ponto
democratizante e liberal, e que se opunha aquela burguesia cafeeira
para a qual a valorização da cultura tinha mera função
aristocratizante.
Desde a década de 20, São Paulo passava por transformações
de todas as naturezas: econômicas, sociais, administrativas e
principalmente culturais. Seu semblante não era totalmente conhecido
pois ainda se formava, apoiado, por um lado na influência do modelo
civilizador e modernizador da Bélle Epoque européia
particularmente a francesa e de outro numa sólida herança
cultural, advinda das nossas raízes coloniais. A cidade de São
Paulo era então caracterizada por um cosmopolitismo marcado pelos
tensionamentos advindos da coexistência de diferentes temporalidades,
onde conviviam lado a lado nas produções e reproduções
da vida cotidiana, o arcaio e o moderno, o novo e o velho, configurando
diversos ritmos sociais que imprimiam à cidade uma feição
heterogênea.
Em meio a esse panorama, imagens de cunho futurista alinham-se ao longo
de inúmeros textos de propaganda de uma São Paulo moderna,
propondo equivalências objetivas entre a cidade, a modernidade
e uma nova cultura. Numa sobreposição otimista e freqüentemente
acrítica, destacam-se as visões da cidade tentacular,
da cidade em crescimento, da cidade industrial, da cidade, enfim, moderna,
à qual não falta nenhum dos atributos exteriores que definem
o processo de modernização acelerado desde o inicio do
século XX (2). Se o Rio de Janeiro era a capital política,
São Paulo configura-se nitidamente como a construção,
avessa aos velhos cenários e aos velhos costumes do Brasil oitocentista
e rural. Assim, a cidade encontra expressão em imagens fortemente
conotadas com a modernidade, com seus ritmos, com sua efervescência,
constituindo uma visão prospectiva.
Em consonância com o projeto de construção da modernidade
paulista pelas suas elites intelectuais e sua emergente burguesia industrial
está o nascimento de instituições culturais - o
TBC Teatro Brasileiro de Comédia, o Museu de Arte Moderna
e a Cia Cinematográfica Vera Cruz - que materializam essa concepção
de cultura cosmopolita e urbana que correspondia à representação
da sociedade paulistana. Nesse contexto, a Vera Cruz aparece como a
grande promessa de um novo cinema nacional, que deveria obedecer a lógica
da indústria cinematográfica hollywoodiana, exprimindo
através da qualidade técnica de seus filmes a prosperidade
das novas tecnologias de lazer, propiciando assim, o abandono do atraso
tecnológico e artístico que marcava até então
as produções nacionais e inaugurando uma nova fase na
produção cinematográfica: a realização
de um cinema "sério".
Nesse sentido, a Vera Cruz foi o corolário do processo de modernização
e marcou uma nova fase de realizações do cinema nacional,
forjada no seio do projeto estético-cultural hegemônico
da burguesia industrial paulistana, reunindo todos os precedentes para
a confecção de um "bom cinema": era moderna
e equipada com as últimas novidades tecnológicas, possuía
um quadro de funcionários e colaboradores estrangeiros e experientes,
era dotada de um rigor técnico nunca visto antes; possuía
um star-system nacional nos moldes de Hollywood, contava ainda com distribuidoras
norte-americanas a Colúmbia e a Universal -, com a colaboração
de escritores renomados para a confecção de seus roteiros,
que eram compostos por histórias de temas nobres e melodramáticos
que tão bem caracterizava as produções hollywwodianas
desde Griffith; além de uma diversificação de gêneros
que incluía desde dramas, adaptações literárias,
musicais e documentários.
As produções assinadas pela Vera Cruz marchavam em direção
diametralmente oposta às realizadas na época pela Atlântida;
enquanto esta era baseada nas chanchadas carnavalescas, desenvolvia
temas como o samba, o futebol e as favelas, fundadas em argumentos popularescos,
produzia filmes de consumo fácil e de baixo orçamento
que deslindava uma "cultura menor" aos olhos da elite paulistana,
oferecendo um Brasil mulato que não correspondia às aspirações
estéticas dessa elite; aquela se esforçava em produzir
um cinema "sério", caracterizado por um rigor técnico
e baseado nos dramas pequeno-burgueses que tão bem caracterizou
o surgimento do melodrama na narrativa cinematográfica.
Porém, a inviabilidade do empreendimento comercial apesar
do sucesso artístico e de público - põe a Vera
Cruz a mercê do governo, sendo ela a primeira vítima da
gestão do Estado nos negócios do cinema. O mercado cinematográfico
mostrou a impossibilidade de sobreviver numa estrutura que não
remunera, na devida proporção, a produção.
A lógica da divisão da receita era a mais perversa possível,
pois destinava cerca de cinqüenta por cento aos exibidores, que
nada investiam na produção, enquanto a outra metade era
dividida entre o distribuidor aproximadamente quinze por cento-
e o produtor, no caso a Vera Cruz, ficava apenas com o valor que lhe
cobria as despesas.
Apesar do fracasso comercial a Vera Cruz provou que o cinema brasileiro
podia conquistar o público interno, comprovando seu sucesso através
das bilheterias, que a cada nova estréia traduzia a eficiência
dos investimentos em publicidade e lançamentos. O reconhecimento
dessa produção se deu tanto em âmbito internacional,
com a premiação de vários filmes da Vera Cruz em
renomados festivais internacionais como o de Cannes (O Cangaceiro em
1953), o Leão de Bronze em Veneza, o Urso de Prata em Berlim,
a láurea do OCIC em Punta del Este e em Havana (Sinhá
Moça em 1953), quanto no nacional, com os prêmios Saci
e do Governo do Estado, que reconheciam em suas produções
um cinema respeitável e de qualidade, impresso pelo primor técnico
e constituído pela narrativa melodramática.
A herança que a Vera Cruz nos deixou pode ser encontrada ainda
hoje, após cinqüenta anos, no celebrado cinema publicitário
paulista, praticamente fundado pelos técnicos estrangeiros trazidos
para compor o quadro de funcionários da Cia, formados no ideal
do rigor tecnológico fomentado pelos seus modernos laboratórios.
Além disso a Vera Cruz propiciou o aparecimento de uma geração
de cineastas importantes para o país, destacando-se aí
entre outros Lima Barreto.
Foi também mérito da Vera Cruz a criação
do que podemos chamar de um novo gênero cinematográfico,
o dos filmes de cangaço, preconizados pelo O Cangaceiro (1953),
de Lima Barreto, além da difusão, ainda hoje, no cinema
nacional, do imperativo técnico enquanto uma das premissas básicas
para a realização, por si só, de um cinema de qualidade,
traduzindo o que se chama de "cinema bem feito".
Reverberações dessa concepção chegam até
nossos dias em produções mais recentes como O Quatrilho,
O que é isso companheiro? ou Central do Brasil que, conformados
dentro da estética do imperativo técnico apostam nela
como a principal arma para se fazer um cinema de respeito, fazendo uso
de todos os ingredientes que compunham a velha fórmula, aliás
atualíssima, da Vera Cruz: filmes bem feitos do ponto de vista
técnico, utilizando recursos modernos e até certo ponto
inovadores, temas que perpassam o universo do melodrama privado, dos
problemas pequeno-burgueses e de valores fechados numa consciência
universal.
A Vera Cruz deixa então, lugar para se começar uma outra
história, onde prosperaria o neo-realismo brasileiro e o sonho
de outro cinema, o Novo, que contesta seus valores e a considera conservadora,
mas ainda assim a encara como a única grande referência
de cinema brasileiro até então.
(1) GALVÃO, Maria Rita Eliezer - Burguesia e Cinema: o caso Vera
Cruz. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,1981.
(2) FABRIS, Annateresa O Futurismo Paulista. São Paulo:
Perspectiva,1994.
Principais filmes da Cia Vera Cruz:
Caiçara
Lançamento: 1/11/1950
Direção: Adolfo Celi
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Sinhá
Moça
Lançamento: 11/5/1953
Direção: Tom Payne
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Ângela
Lançamento: 15/8/1951
Direção: Abílio P. de Almeida e Tom Payne
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Uma
pulga na balança
Lançamento: 15/4/1953
Direção: Luciano Salce
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Terra
é sempre terra
Lançamento: 4/4/1951
Direção Tom Payne
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Família
lero-lero
Lançamento: 15/9/1953
Direção: Alberto Pieralise
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Sai
da frente
Lançamento: 25/6/1952
Direção Abílio Pereira de Almeida |
Esquina
da Ilusão
Lançamento: 15/7/1953
Direção: Ruggero Jacobbi
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Nadando
em dinheiro
Lançamento:27/20/1952
Direção: Abílio Pereira de Almeida
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Luz
apagada
Lançamento: 2/12/1953
Direção: Carlos Thiré
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Tico-tico
no fubá
Lançamento: 21/4/1952
Direção: Adolfo Celi
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Candinho
Lançamento: 25/1/1954
Direção: Abílio Pereira de Almeida
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Veneno
Lançamento: 26/11/1952
Direção: Gianni Pons |
Na
senda do crime
Lançamento: 24/3/1954
Direção: Flamínio Bollini Cerri
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Appassionata
Lançamento: 10/9/1952
Direção: Fernando de Barros |
É
proibido beijar
Lançamento: 2/6/1954
Direção: Ugo Lombardi
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O
Cangaceiro
Lançamento: 20/1/1953
Direção: Lima Barreto |
Floradas
na Serra
Lançamento: 6/10/1954
Direção: Luciano Salce
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Carla Miucci Ferraresi é produtora e pesquisadora de documentários;
é bacharel em História e Ciências Sociais, e doutoranda
em História Social (FFLCH/USP).
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