Segundo destaca Lary May, no ano em que Screening Out the Past foi publicado,
um fato sem precedentes ocorreu na América: um ex-astro de cinema
tornou-se presidente dos Estados Unidos. Como sugerido por este ensaio,
isto não deveria ser surpresa ao se considerar a conexão
entre política e Hollywood, evidenciada ao longo de toda a década
de setenta. A eleição de Ronald Reagan foi o resultado
lógico de uma tendência persistente que misturou poder
cívico e indústria cinematográfica, política
e cultura popular.
O estudo das relações entre cinema e poder cívico,
no entanto, veio através de uma inesperada convergência
de interesses. Como é comum a historiadores, o pesquisador e
autor deste livro chegou a esse assunto através de outras questões
derivadas de investigações anteriores.
Tentando compreender como os conceitos populares de família e
papéis sexuais evoluíram na era moderna, o autor procurou
estudar a indústria cinematográfica como uma nova e influente
maneira de entretenimento que emergiu com a queda do Vitorianismo. Logo
ficou óbvio que as mudanças sexuais se sobrepunham as
alterações culturais mais amplas e os produtores do novo
teatro tornaram-se agudamente conscientes de que esse poderia ser um
tema a ser explorado por eles.
A revolução moral não apenas formava o tema central
de inúmeras produções, mas também as salas
de exibição palacianas, o star system, as revistas para
fãs e a corporação Hollywoodiana combinaram-se
de forma a transpor o imaginário das telas para vida cotidiana
de suas platéias.
Ainda a título da pesquisa prévia do autor, estas revelações
levantaram algumas questões perturbadoras, uma vez que não
havia referências a elas na literatura acadêmica disponível.
Estúdios de cinema forneceram alguns artigos excelentes, biografias
importantes e relatos sobre a indústria cinematográfica,
mas seus autores tendiam a isolar estes assuntos entre si, analisando-os
com frequência separadamente da experiência popular. Acertadamente,
estes autores observaram que o cinema continha mais que um reflexo da
realidade, mas eles ignoravam a interdependência entre forma e
conteúdo, criatividade e sociedade. Eles ignoravam o fato de
que a existência contínua da indústria cinematográfica
exigia uma relação empática e tangível com
os valores das platéias.
Há· pouco tempo, alguns historiadores começaram
a transcender as divisões artificiais do academicismo e agregar
aos seus estudos os movimentos causados pelas mudanças sociais
Tais esforços, entretanto, não ofereceram uma análise
independente dessas mudanças nem deram novas evidências
de uma necessidade de se reinterpretar a ascensão da indústria
cinematográfica. Todavia, a abundância de novos materiais
publicados demonstra que uma relação dinâmica e
essencial entre os criadores de filmes americanos e espectadores existe
e que essa ligação oferece uma compreensão básica
de como os filmes eram criados. Talvez a arte popular em geral, mas
certamente a arte feita pelos cineastas norte americanos tem sido uma
empresa cooperativa entre os artistas e seu público, entre aqueles
que criam imagens e dão forma à cultura popular e aqueles
que escolhem quais formas resistirão.
Outra dificuldade encontrada era compreender a estrutura institucional
mais ampla onde tal criatividade acontecia. Se os estúdios trabalhavam
em um contexto estreito, os acadêmicos, estudando a emergência
da cultura e a comunicação de massa, erraram ao vê-la
como passiva frente à sociedade. Escritores de linha liberal
viam o assunto da problemática sobre a moderna cultura popular
primariamente, como uma resposta às necessidades individuais
de evasão; os filmes eram considerados desvinculados dos assuntos
da vida cotidiana. Por outro lado, autores trabalhando de acordo com
a metodologia marxista, intensamente interessados em como o capitalismo
superava suas crises periódicas, reforçavam o poder dos
grandes negócios como geradores de fantasias cujo objetivo era
controle social.
Nenhuma destas interpretações faziam sentido frente as
pesquisas do autor, que mostravam que produtores e seus patrocinadores
viam o cinema como um dos mais importantes dentre os recém emergidos
meios de lazer informal, como uma forma de inserir novas demandas na
economia. Sob sua óptica, o fundamental é que os filmes,
durante os seus primeiros anos, não eram entretenimento puro,
nem simples mecanismos de manipulação controlados pelos
industriais do cinema. Ao contrário, esses filmes eram importantes
expressões independentes de desejos folclóricos canalizados
para um ambiente de lazer radicalmente transformado.
Outra preocupação essencial da autor é ressaltar
que, quando observado em um contexto que inclui os criadores e a preparação
de uma instituição popular, esta experiência fornece
também uma diferente visão da política do século
vinte. Os novos meios de lazer interagiam com a revolução
na vida sexual que, por sua vez, inseria os assuntos reformistas da
época; uma descoberta que fez o autor rever os principais ensaios
que influenciavam os historiadores da era Progressista. O primeiro passo
foi constatar que as investigações anteriores, aparentemente
separadas, estavam amarradas entre si. Sociólogos contemporâneos
utilizaram-se de métodos inovadores para demonstrar que houve
uma mudança mensurável na moral das classes médias
urbanas entre 1900 e 1920. Mas, como destaca Lary May, a convergência
desta mudança em assuntos ligados a poder ainda permanecia obscura.
Por exemplo, a ativa comunicação e as relações
próximas entre líderes civis e cineastas, principalmente,
as que dizem respeito a revolução sexual, eram superficialmente
estudadas. Temendo que a ascensão de impérios industriais
abalassem a ordem moral tradicional, acreditava-se necessário
combater essa ameaça. No entanto, em 1920, a urbanidade havia
erguido uma nova cultura suportada por todas as modernas instituições
de lazer, esporte, nightclubs, música popular, parques de diversão,
que incluíam cinemas, a fim de regenerar os conceitos populares
de progresso e sucesso da classe média.
O autor esclarece que o resultado foi uma profunda alteração
na identidade americana, iniciada na virada do século. O cinema
foi um elemento chave neste processo, auxiliando a promover a substituição
de uma democracia de produtor para uma democracia de consumidor. Centralizada
em grandes cidades, a revolução cultural tinha uma vida
independente. Claro, as elites tentaram controlar o processo, mas apesar
de seus esforços, os cineastas ajudaram a reorientar o individualismo
democrático de um modo organizado e criaram modelos para lazer
que ajudaram a dissipar os temores de ruptura social. Apesar da promessa
de uma vida mais rica ser frequentemente distorcida ao extremo, a maior
necessidade era a geração de satisfação
pessoal para conter uma sociedade quase sempre alienante e burocrática.
Devido ao fato de o consumismo ter suprido os ideais da política
econômica, os produtores tentaram unir seus produtos à
tradição democrática através de políticos
que serviam à indústria. Os líderes políticos
frequentemente aceitavam, esperando relacionar seus programas de governo
às aspirações populares sustentadas pela mídia,
suas instituições de lazer e personalidades. Muito desta
simbiose vinha sendo um elemento obscuro que veio a se esclarecer em
1980. Na campanha presidencial daquele ano, Ronald Reagan prometeu regenerar
o sonho americano moderno de consumo e crescimento econômico,
um sonho que ele representou várias vezes, por mais de vinte
anos, nas telas como um astro de cinema. A realidade política
e artística por detrás desta síntese vem frequentemente
nos iludindo, mas este estudo sugere que elas vem sendo uma poderosa
e permanente parte de nossa cultura desde a virada do século.
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Carla Miucci Ferraresi é produtora e pesquisadora de documentários;
é bacharel em História e Ciências Sociais, e doutoranda
em História Social (FFLCH/USP).