Os Alicerces da Hollywood Clássica
D.W. Griffith, produtor de todos os grandes sucessos da Biograph, revolucionou
a arte cinematográfica e lançou as modernas técnicas
da sétima arte. Entre as inovações introduzidas
por ele e hoje geralmente seguidas pelos mais modernos produtores estão
os planos médios e close-ups, os grandes planos gerais como aqueles
vistos em Ramona, zigzags de câmera, elementos de suspense, o
fade-out, planos fechados na expressão dos atores, colocando
a atuação cinematográfica em um patamar conhecido
como verdadeiramente artístico.
Neste contexto, Griffith (1875-1948) pôs um anúncio de
página inteira no New York Dramatic Mirror para marcar sua saída
da famosa companhia Biograph e seu ingresso na recém fundada
Mutual, em 19132 . Poucos reconheceriam, então, o severo teatrólogo
que, ao ver um filme pela primeira vez em 1905 declarou que "qualquer
homem que apreciasse tal coisa deveria ser baleado" e que ao ter
sua adaptação da Tosca rejeitada, atuou no filme Rescue
From an Eagle's Nest de Porter em 1907 (como Lawrence Griffith) só
para escapar da miséria.
Esse começo torna todas as contribuições de Griffith
ainda mais memoráveis; de fato, são sem paralelos na emergência
de qualquer forma de arte. Nos 450 singulares filmes dirigidos ou supervisionados
por ele entre 1908 e 1913, Griffith moldou os elementos básicos
da produção cinematográfica, na linguagem e sintaxe
que serviria ao cinema por mais de meio século. Nas palavras
de Erich von Stroheim, que passou de figurante a assistente de direção
sob Griffith, ele "colocava beleza e poesia num tipo de entretenimento
vulgar e de mau gosto". Durante uma boa parte desse período,
Griffith esteve completamente inconsciente de que transformava a expressão
cinematográfica. Paradoxalmente, o "pai da técnica
cinematográfica" não era um inovador. Ele intuitivamente
refinava e propagava os métodos cinematográficos existentes,
aos quais ele agrupava conceitos da arte Vitoriana, da literatura e
do teatro, a fim de contar suas estórias de um modo mais eficiente.
Cinco anos depois após seu "debut" como diretor, Griffith
tornara-se um mestre em cinema. Apesar de The Adventures of Dollie (1908)
ser uma mistura incongruente de realismo e melodrama clichê, há
uma instintiva fluidez e simetria na narrativa. Griffith o compôs
cuidadosamente de forma a usar todo o quadro, além de frequentemente
trabalhar com campos focais mais profundos e planos longos para reforçar
a carga dramática. Ele cortava durante toda a ação,
permitindo que o contexto narrativo determinasse a colocação
da câmera e o instante do corte, como também usou os salvamentos
na última hora que, além de virem a se tornar marca registrada,
foram particularmente notáveis por seu ritmo e consistência
em composição de tela.
A carga pesada de trabalho de Griffith deu a ele amplas oportunidades
para experimentalismos com gramática e retórica cinematográfica.
Além de explorar o potencial dos "flashbacks", dos
ângulos planos e das distâncias da câmera; seus primeiros
filmes também mostravam que planos individuais eram frases cinematográficas
que poderiam ser editadas em sequências lógicas sem, no
entanto, haver uma lógica dramática concreta a uni-las.
O filme The Lonely Villa (1909), por exemplo, contém 52 planos
separados que em apenas 12 minutos injetam ritmo e tensão ao
cenário de Mark Sennet. Quando os chefes da Biograph perguntaram
a Griffith se as platéias se familiarizariam com esta técnica
narrativa, ele respondeu: "mas Dickens não escreve deste
jeito?". Sua representação de eventos paralelos e
emoções em termos puramente cinematográficos foi
precursora da "montagem por atrações" de Eisenstein
e da "câmera subjetiva" de Murnau. Do mesmo modo, suas
metáforas visuais anteciparam as teorias de Soviet sobre "montagem
associativa ou intelectual".
Cada filme trazia uma nova sofisticação. Em A Corner in
The Wheat (1909) proclamou-se uma crescente preocupação
com o conteúdo de cada fotograma, com sua mise-en-scene. Para
complementar seus ambientes naturalistas, Griffith lançou mão
de fundos pintados e de objetos de cena domésticos a fim de criar
ângulos, moldar e aprofundar o quadro. Trabalhando próximo
ao diretor de fotografia G.W.Billy Bitzer (1872-1944), ele transformou
os movimentos verticais e/ou horizontais de câmera e as pistas
cênicas de Porter em formas decifráveis de expressão,
mesmo ao alternar com planos alinhados como em The Lonedale Operator
(1911). Iluminação artificial foi usada para simular luz
de fogo em The Drunkard's Reformation (1909), mas em Pippa Passes (também
de 1909, porém 68 filmes depois) Griffith empregou o que veio
a ser chamado de "iluminação Rembrandt" como
um recurso narrativo e dramático. Técnicas gráficas
como fusões , fades, etc., eram usadas com finalidades narrativas,
enquanto que divisões de quadro e "desfocamentos" eram
usados parcamente para se atingir impacto adicional.
Griffith também transformou a arte de representar para a tela,
instituindo ensaios. Ciente de que a câmera poderia potencializar
mesmo o mais leve gesto ou expressão, ele insistia em restringir-se
em a uma série de movimentos e maneirismos que denotavam claramente
certas emoções, traços de personalidade e estados
emocionais. Ele invariavelmente montava seu elenco de modo a servir
a tipos físicos específicos, além de ter montado
um time que contava com os maiores nomes da era muda do cinema, incluindo
Lilian e Dorothy Gish, Mary Pickford, Blanche Sweet, Lionel Barrymore,
Donald Crisp, Henry B. Walthall e Wallace Reid.
Normalmente se faz vista grossa à versatilidade de Griffith em
seus filmes de curta metragem (1 rolo). Além de melodramas, thrillers
e adaptações literárias, ele dirigiu alegorias
religiosas (The Devil, 1908), Èpicos (1776,1909), contos morais
(The way of The World, 1910), romances rurais (A Country Cupid, 1911),
comentários sociais (The Musketeers of Pig Alley, 1912), sátiras
(The New York Hat, 1912) e westerns (The Battle of Elderbush Gulch,
1913). Todo esse processo criativo deu ao cinema um novo respeito social
e intelectual, mas apesar destas realizações, Griffith
permaneceu desconhecido.
Por volta de 1913, Griffith se convenceu que sua expressão da
verdade só poderia ser satisfatoriamente exposta em filmes de
maior duração. Outra vez, construiria sobre os alicerces
firmados por outros. O primeiro longa metragem, The Story of Kelly Gang
foi feito na Austrália em 1906 por Charles Tait, mas a ambição
de Griffith foi impulsionada pelo "filme de arte" francês
Queen Elizabeth (1912) e pelo Èpico italiano Quo Vadis? (1913).
Furioso com o fato de seu Enoch Arden de 1911 ter sido lançado
em partes separadas, Griffith pôs-se a trabalhar secretamente
nem espetáculo bíblico de quatro rolos, Judith of Bethulia
em 1913.
Com um custo sem precedentes de US$ 18.000, o filme ressalta todas as
forças e fraquezas de Griffith como diretor. Cenários
e figurinos eram cuidadosamente autênticos, o desenvolvimento
da narrativa, bem amarrado e as atuações excepcionais.
A edição, principalmente a das cenas de batalha, onde
a ação da massa nunca suprimia a dramaticidade do indivíduo,
colaborou poderosamente com o que Eisenstein chamaria como "o valor
chocante de imagens contrastantes". Uma vez na luta por reconhecimento
e posição, Griffith descartou experimentalismos e, consequentemente,
expôs sua falta de profundidade intelectual. Sua visão
limitava-se a seus preferidos melodramas planejados, que ele considerava
"grande arte". Logo, sentimentalismo, preciosismo e ingenuidade
política permeariam muito do seu trabalho posterior, incluindo
seus filmes mais conhecidos The Birth of a Nation (1915)5 e Intolerance
(1916).
Tudo o que Griffith aprendeu durante seu noviciado no cinema esteve
em The Birth of a Nation, sua adaptação para os romances
sobre a Guerra Civil de Thomas Dixon, em The Leopard's Spots e em The
Clansman; cinematograficamente há muito a se admirar: a reconstituição
de época, a precisão histórica, a fotografia noturna,
o uso de matizes de cor e o pioneiro controle poderoso da edição,
que uniu 1544 planos separados em uma narrativa bem amarrada. Acima
de tudo, no entanto, pairava a intolerância racial do filme, que
colaborou para a ressurreição da moribunda Ku Klux Klan
e gerou uma tempestade de protestos. The Birth of a Nation foi ainda
um enorme sucesso comercial, cobrindo seus custos em apenas dois meses.
Griffith investiu boa parte dos lucros na sua magoada resposta às
reações adversas, Intolerance.
Entrelaçando quatro narrativas ao longo de 2500 anos, Griffith
procurou mostrar como que a verdade foi sempre ameaçada pela
hipocrisia e injustiça, mas ele acabou frustrado pela inconsistência
temática e pelo idealismo de suas soluções. Entretanto
lá estavam muitos destaques cinematográficos: o plano
sequência do enorme cenário babilônico, as cenas
de batalha, os momentos de detalhismo íntimo entre grandes movimentos
majestosos de câmera - abstratos ou figurativos - e montagem,
que unificava as sequências individuais. As platéias, no
entanto, ficaram confusas com o estilo, alheias as suas exortações
e Griffith passou o resto de sua carreira pagando por seu fracasso.
Sufocado pelo studio system seu trabalho foi tornando-se convencional,
antiquado e apesar de bons filmes como Broken Blossoms (1919) a Orphans
of The Storm (1922), surgiram tendências à repetição
e sentimentalismo. O último filme de Griffith, The Struggle (1931),
foi um fracasso, o que o forçou a se exilar de Hollywood por
17 anos. Afrontado pela mídia mesmo tendo contribuído
tanto para a conformação dos costumes da época.
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Carla Miucci Ferraresi é produtora e pesquisadora de documentários;
é bacharel em História e Ciências Sociais, e doutoranda
em História Social (FFLCH/USP).