A TRILHA SONORA NO CINEMA
BREVE HISTÓRICO
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I- OS PRIMÓRDIOS
O
cinema nunca foi "totalmente" mudo. Só não tinha
fala. Som, sempre teve. É quase que instintivo, natural, do homem
associar som à imagens e vice-versa. No cinema, só imagem
ou só som causavam estranhamento, e assim como hoje, causa-nos
desconforto assistir a uma projeção muda, a não que
seja pelo interesse histórico. Acompanhar imagens sem música
é incômodo, mas, que fique claro, isso não se justifica
pelo costume que hoje temos em assistir filmes sonoros, televisão
ou teatro; já na tragédia grega, o desenrolar da narrativa
dramática não se dava sem acompanhamento de ditirambos e
intervenções de um coro cantado (sobre a tragédia,
consultar Aristóteles, Poética), assim como no teatro
clássico e até o atual, seria inconcebível imagem
sem som em produções normais. O mesmo ocorreu no cinema,
desde sua criação pelos irmãos Lumière em
1895. O fato é que o som no cinema sempre foi importante, enfatizando,
criando ou até redundando climas narrativos na imagem. No cinema
mudo, havia um pianista nas salas de concerto encarregado de criar estes
climas nas cenas, improvisando sobre um repertório próprio
conforme sentia as imagens, e que geralmente cumpriam uma função
meramente ilustrativa. Nas salas mais afortunadas podíamos até
encontrar orquestras inteiras tocando, muitas vezes com partituras originais
para o filme.
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Acima: O
Sistema VITAPHONE, um projetor com uma vitrola acoplada
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Mas
então veio o sistema de sonorização no cinema,
o famoso VITAPHONE, uma enorme e desajeitada máquina de projeção
lançada em 1927 (que imortalizou o filme The Jazz Singer,
com Al Jolson) que sincronizava o filme a um disco de 78 rotações,
um pouco melhor que aquele usado no fonógrafo de Edison. Suas
inconveniências eram grandes, a baixa qualidade da amplificação
da época, o chiado do disco e a eminente possibilidade do disco
riscar com o tempo e tirar o filme de sincronismo. Mas foi um sistema
pioneiro que, prescindindo do músico in presentia, fez com
que toda a conquista dos músicos até aquele momento
precisasse recuar aos primórdios do som para o cinema, repensar
a função dramática do som, que agora poderia
incluir não só música, mas também diálogos
e ruídos. A simples "ilustração" musical
redundante passou a ser vista como um terreno promissor de possibilidades.
Técnicos surgiram; os que já trabalhavam tiveram que
reaprender, de acordo com os novos padrões estéticos,
o som. No que diz respeito à trilha sonora propriamente dita,
ou àquilo que chamamos "música para o cinema",
o processo foi dos mais interessantes, que merece ser analisado detalhadamente.
À esquerda: Cartaz do primeiro filme sonoro
lançado comercialmente, "O Cantor de Jazz" (1927)
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II- A MÚSICA
No
séc. XIX, a música tinha duas vertentes, apontadas pelos
críticos mais envolvidos: A absoluta e a programática. A
primeira seria toda a música feita "por ela mesma", ou
seja, sem nenhuma base literária, teatral, ou qualquer outra; tratava-se
de música que não dependia de nenhum outro fator de apreciação
senão a própria narrativa musical, sustentada por formas
coerentes de arquitetura sólida, como por exemplo a forma-sonata,
o rondó, a fuga, etc... (sobre formas musicais, consultar Roy Bennett,
Forma e estrutura da Música, Jorge Zahar Editores, RJ).
É o caso das sinfonias de Brahms ou Bruckner, por exemplo. A música
absoluta descendia da mais fiel tradição européia,
que podia ser resumida na figura de Bach. Mas música programática
é um conceito tipicamente romântico, cuja essência,
principalmente da metade do séc.XIX em diante, reside no poema
sinfônico e na sinfonia descritiva, gêneros nos quais a música
apoia-se em elementos extra-musicais. Este tipo de música tem suas
raízes na própria música absoluta, cujos exemplos
podem vir desde As Quatro Estações de Vivaldi até
a Sexta Sinfonia de Beethoven, a Pastoral. Em outras palavras,
em seu início a música descritiva se valia da arquitetura
das formas absolutas, mas conduzindo uma narrativa que permitia interpretações
fora da própria música. Mas como a inspiração
era geralmente a natureza, não havia ainda uma "narrativa",
no sentido de se contar uma história.
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Acima: O
compositor francês Hector Berlioz
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A
primeira inclusão da forma sinfônica numa "narrativa",
no sentido dramático mesmo, foi a Sinfonia Fantástica
do francês Hector Berlioz (1803-1869), considerado por muitos
como o primeiro exemplo concreto de sinfonia descritiva, pois
ele se baseou nada menos que num sonho, em que vive um personagem
idílico tipicamente romântico (descrito no primeiro
movimento, Rêveries et Passions), que se apaixona
por uma jovem num baile (segundo movimento, Un Bal), enamoram-se,
e deliram tomando ópio. Tomado pela droga, Berlioz sonha
que a mata (terceiro movimento, Scène aux Champs),
é condenado ao cadafalso (quarto movimento, Marche au
Supplice), decapitado e enterrado. No túmulo, sua amada
convoca toda a sorte de bruxas e fantasmas para atormentá-lo,
culminando numa verdadeira orgia sobrenatural (descrita no quinto
e último movimento, Songe d'une nuit du Sabbat).
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A idéia, fascinante por si só, foi musicalmente um marco
da vanguarda de seu tempo, aumentando o tamanho da orquestra (Berlioz
é considerado o pai da orquestração moderna) e
incluindo elementos puramente narrativos, como sinos, influenciando
praticamente toda a geração musical seguinte, ainda que
tenha sido considerada pela crítica de sua época como
um atentado ao bom gosto.
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Muitos outros compositores então seguiram o caminho da música
programática, baseando-se nas mais diversas fontes, de Dante, Shakespeare
a Nietzsche e Byron. Hoje a distinção entre a música
absoluta e a programática é apenas para fins didáticos,
não se discute mais, como antes, o valor de uma sobre a outra, já
que, com o advento da psicologia e da psicoacústica, sabe-se que
todos os tipos de música causam efeitos nos sentidos de maneira similar,
variando apenas a forma de manifestação destes sentimentos.
Em outras palavras, é possível achar narrativa numa sinfonia
de Brahms, assim como é possível ouvir uma obra descritiva
sem saber do que se trata a história narrada. O suporte musical é
soberano e certas leis inerentes à sua arte devem ser respeitadas
em ambos os casos. Assim, coube a Franz Liszt (1811-1886) criar, a partir
de Berlioz, o Poema Sinfônico, gênero cuja estrutura musical
é aparentemente mais "livre", mas que, numa análise
pormenorizada, revela-se tão rígido quanto a música
absoluta, pois deve-se considerar que a condução das idéias
musicais não são regidas pelos princípios de harmonia,
variação temática e linha melódica que caracteriza
a narrativa de uma obra absoluta, mas sim regidas pela estrutura da idéia
extra-musical escolhida.
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Exemplo
disso é a Sinfonia Dante, de Liszt, cujos três
movimentos descrevem emocionalmente as impresões do Inferno,
Purgatório e Paraíso, respectivamente. A simetria entre
as seções é condicionada pela narrativa, e que,
no caso do Poema Sinfônico, geralmente se resumiam em um só
movimento, curto, dando origem a uma outra tradição
paralela à música absoluta. O poema sinfônico
foi o grande responsável por uma crescente liberdade na expressão
sinfônica que só chegará à sinfonia tradicional
com Gustav Mahler (1860-1911). Mas, antes disso, inúmeros compositores
dedicaram-se ao livre gênero do poema sinfônico, como,
além de Liszt, também Camille Saint-Säens (Dança
Macabra, sobre Henry Cazalis), Smetana (O moldávia,
baseado em um rio de sua terra natal), Grieg, Korsakov, Piotr Tchaikovsky
(1840-1893) (Romeu e Julieta, sobre Shakespeare), e, principalmente,
Richard Strauss (1864-1949) (Macbeth, sobre Shakespeare, Don
Quixote, sobre Cervantes e Assim falou Zarathustra, sobre
Nietzsche, entre outros).
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Acima: Caricatura
crítica fazendo referência "às suaves
harmonias da música moderna", o poema sinfônico
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Todos
eles levaram a música sinfônica a uma inevitável associação
de imagens, construindo uma verdadeira escola, iniciando uma tradição
tão espessa quanto a música tradicional, por unir a literatura
à música, algo que fascinou toda a geração
de jovens artistas da metade do séc.XIX em diante. Debussy chegou
a comentar, já no início deste século, que Richard
Strauss era uma compositor cinematográfico, por ser sua obra uma
infinita fonte de imaginação cinemática, gerando
uma cadeia de imagens estimuladas pelo som da grande orquestra. E, claro,
a pedra de arremate desta grande influência de associação
entre idéias musicais e extra-musicais, que até hoje exerce
influência sobre as produções de cinema e TV: Richard
Wagner (1813-1883), cujos dramas musicais (Lohengrin, O Navio Fantasma,
Tannhauser, Tristão e Isolda, Os Mestres Cantores, Parsifal e
o ciclo do Anel dos Nibelungos, só para citar os mais importantes)
guiavam-se narrativamente pelo leitmotiv, o motivo condutor derivado
da idéia-fixa das sinfonias programáticas de Berlioz, onde
um tema musical caracteriza determinada ação ou personagem.
Até hoje as novelas de televisão seguem este princípio.
III-
A MÚSICA ENCONTRA O CINEMA
Se,
entre 1900 e 1910 Mahler une a tradição sinfônica
à esta associação de imagens, entre 1915 e 1920 Arnold
Schoenberg (1874-1951)acaba com ambas as coisas, criando o dodecafonismo,
baseado no atonalismo. Cria então um conceito totalmente novo de
imaginação musical. Harmonias dissonantes, acordes sem hierarquia
tonal, estrutura formal sutil e sem aparente relevância, enfim,
sons estranhos. As imagens formadas pareciam sempre desoladoras. Contudo,
a saturação da música européia, em especial
alemã, chamou os compositores mais ativos, a vanguarda, para este
novo e inexplorado campo, que parecia ser promissor, na medida em que
era inédito na história da música. Mas nem todos
os compositores gostaram dos ares modernos da música atonal. Preferiram
ficar no campo tradicional, em plenos anos 30, escrevendo sinfonias e
concertos. Apenas os antigos mestres, já consagrados, como Rachmaninov,
Sibelius, Shostakovich e Stravinsky conseguiam manter seu repertório
tradicional em composições novas. Então, toda uma
geração de compositores dos anos 10 e 20 simplesmente não
sabiam o que fazer. Explorar os rumos apontados por Schoenberg e seus
discípulos ou continuar escrevendo música "ultrapassada"?
Não era só o fato de ser ultrapassada, mas também
por força do comércio fonográfico, em que a música
popular se desenvolveu de forma a deixar elitizado o consumo da música
erudita, mas estes consumidores ou preferiam uma sinfonia de Beethoven
ou uma estranhíssima peça de Webern. Haviam os conservadores
que olhavam para trás e os modernos que estavam nas vanguardas.
Não havia público, portanto, para conservadores em época
de modernos. Muitos não tinham mais saída senão deixar
de compor, quando, finalmente, inventaram o som no cinema. O que aconteceu
com os compositores que trabalhavam numa linha conservadora, preservando
a sinfonia e o poema sinfônico tradicional em suas obras? Foram
todos para o cinema. Toda a tradição de música programática,
por ser mais propícia, desembocou na trilha sonora cinematográfica.
O
cinema por sua vez tinha, ao descobrir o sincronismo entre som e imagem,
a capacidade de exibir filmes sem orquestra ou pianistas; o próprio
projetor teria condições para reproduzir a imagem e o som,
a princípio pelo vitaphone, mas que depois foi aperfeiçoado
pelo sistema Movietone, que imprimia o som na própria película,
acabando com o problema do chiado e falha no sincronismo. Mas, como em
toda inovação, não foram poucos os problemas que
o som trouxe ao cinema. O principal talvez tenha sido o de ordem estética:
O que fazer com o som? Onde ele pode ajudar na narrativa? Até onde
ele é apenas mais um elemento decorativo, como a cenografia? Tudo
isso foi respondido na prática. Uma lenta evolução
levou o cinema a encontrar uma forma ideal de utilizar o som de maneira
apropriada à sua linguagem.
Assim, começou-se a utilizar o som de duas maneiras: Como elemento
climático e como foco da ação (os musicais). Os primeiros
são justamente os que darão emprego aos compositores eruditos,
e os segundos são aqueles em que a música conduz a narrativa,
ou está subordinada à música. Os musicais cinematográficos,
famosos na década de 50, podem ser comparados a ópera, cuja
ação também se desenrola em função
da música. Aliás, a derivação mais popular
da ópera, a opereta, irá ter uma grande influência
na própria composição das músicas e na concepção
geral do argumento destes musicais. Mas o outro caso é particularmente
mais interessante, pois é nele que o cinema encontrar as bases
da utilização do som para formar o ambiente.
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IV- DE CHAPLIN A EISENSTEIN
Charlie
Chaplin foi o primeiro que, ainda no cinema mudo, se preocupou com a música
certa para a ação corrente, compondo ele mesmo partituras
para acompanhar seus filmes. Eram um tanto pobres, exigiam do pianista
do cinema uma dose de variações temáticas, mas funcionavam
na medida em que seus filmes também não eram complexos.
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Acima: Esboços
de Sergei Eisenstein para seu épico Alexander Nevsky, comparado
às imagens do filme
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Sob
este aspecto, Serguei Eisenstein teria que se preocupar bem mais,
como realmente o fez, pois uma vez que seus filmes trabalhavam numa
teoria complexa de montagem dramática, a música deveria
responder de maneira equivalente, e já não cabia a filmes
como Alexander Nevsky, Outubro ou Ivan o Terrível
a incumbência de um repertório de pianistas de bar. Por
isso, Eisenstein encomendou trilhas originais para seus filmes a compositores
consagrados, Prokofiev e Shostakovich. Imagine-se então, antes
da invenção do movietone, os problemas que um empreendimento
deste tipo causaria, pois por ser um filme mudo, precisaria da orquestra
inteira em cada sessão. Afinal, nestes casos arranjos para
piano empobreceriam demais o impacto da música e da imagem.
Pode-se dizer, portanto, que o advento do som ao filme foi crucial
para o desenvolvimento da narrativa cinematográfica (para maiores
detalhes sobre esta passagem, consultar Eisenstein, O Sentido do
Filme e A Forma do Filme, Jorge Zahar, RJ).
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V- FANTASIA
Entretanto,
as geniais teorias de Eisenstein ficariam durante muito tempo relegadas
a círculos intelectuais fechados na Europa e pouco influenciaram
a indústria americana, fazendo com que a trilha sonora propriamente
dita precisasse de dez anos a mais nos Estados Unidos até que
se tomasse consciência de seu poder enfático na imagem.
Durantes os anos que se seguiram ao Jazz Singer, o cinema americano
caminhou muito lentamente do ponto de vista musical, para alcançar
a significação que é hoje inerente a todas as produções.
"O que fazer com a música?", era o que, afinal, os
produtores se perguntavam, pois na mesma proporção em
que antes só podiam contar com ela, agora, podendo incluir ruídos
e diálogos, acabaram por deixá-la nos bastidores do som
no cinema. Afora algumas produções mais ambiciosas, a
música acabou sendo relegada novamente a um plano ilustrativo,
pois seu uso caiu em detrimento da descoberta dramática dos diálogos,
que poderiam exaltar a interpretação do ator. A música
nesta fase servia mais para tapar buracos sem diálogos do que
propriamente construir um clima e enfatizar a situação
dramática. Usava-se música de compositores conhecidos,
de Schumann, Chopin, Tchaikovsky eJohann Strauss Jr., para dar apenas
uma ilustração audiovisual. A grande guinada pós-Eisenstein
(que já havia teorizado minuciosamente sobre a questão
do som sobre a imagem) foi dada nada menos que pela produção
de Walt Disney de 1939, Fantasia. No mesmo ano em que Orson Welles
trabalhava no seu Cidadão Kane, e que iria da mesma forma
revolucionar a narrativa do cinema americano, Fantasia complementa
a vanguarda mostrando a todos a imensa capacidade significante da música,
fazendo, talvez pela primeira vez no cinema, com que a ação
dos personagens animados no desenho seja subordinada à narrativa
da música. Em outras palavras, o roteiro de Fantasia é
a própria música.
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Embora
isso já desponte, ainda que de forma apenas conseqüente,
nas teorias de Eisenstein, é em Fantasia que este
aspecto da música fica evidenciado, pois no filme Disney
se utiliza de música absoluta (a Toccata e Fuga em ré
menor de Bach, a Ave Maria de Schubert), música
puramente descritiva (O Aprendiz de Feiticeiro, de Paul
Dukas, a Noite no Monte Calvo de Mussorgsky) e música
para balé (O Quebra-Nozes de Tchaikovsky, A Sagração
da Primavera de Stravinsky e a Dança das Horas
de Ponchielli), que, embora conte uma história, uma narrativa
coreográfica, teve seus argumentos modificados livremente,
traduzindo outros aspectos da música que, embora extremamente
compatíveis com ela, não faziam parte, até
então, da gama de significados possíveis para estas
músicas. A equipe de Disney ampliou a significação
de formas já existentes, tendo seu exemplo de maior maestria
a versão da Sinfonia Pastoral de Beethoven, episódio
em Fantasia que encontra, numa sinfonia que se propõe
unicamente a traduzir sentimentos da vida no campo, uma linha
narrativa perfeitamente harmônica com o espírito
da obra, passando a vida rural da Áustria do início
do século XIX para a Grécia mitológica atemporal.
E ninguém pode dizer que Beethoven não está
lá, ainda que considerando os cortes feitos na música
por Leopold Stokowski.
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Acima: Cartaz
original por ocasião de lançamento de Fantasia
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VI- O CINEMA ENCONTRA A MÚSICA
O impacto de Fantasia, em termos de público, foi um fracasso.
Mas nenhum criador da área cinematográfica ficou alheio
ao que viu. O primeiro som estereofônico (ainda que simulado),
gravado com a maior tecnologia disponível, criou um efeito tão
extraordinário que os produtores começaram a repensar
o som, acrescentando a música como elemento primordial. Tanto
que durante os 20 anos seguintes, quase todas as grandes produções
se utilizaram de compositores de formação erudita, a maioria
europeus. Haviam duas necessidades: O cinema explorar a música
e os músicos explorarem o cinema. O que se tornou a música
erudita nos anos 30 estava longe de ser absorvido pelo grande público,
levando compositores de teatro e opereta a tentarem a sorte no cinema.
Indo de encontro ao que os produtores queriam, foram recebidos de braços
abertos nos estúdios, e, por essa razão, os primeiros
grandes autores de trilhas são europeus: A tradição
da música sinfônica era um elemento de peso, e sem dúvida
eles sabiam construir climas, como o cinema queria.
O primeiro dos mestres de um grande time é Max Steiner (1888-1971).
Começou com a trilha sonora de um clássico dos filmes
B: King Kong, de 1933. Seu trabalho foi tão bem apreciado
que logo em seguida começou a ser um dos mais cogitados compositores
do cinema. Escreveu, entre outros, ...E o vento levou, Jezebel
e Casablanca, para citar os mais famosos. O fato é que
este tipo de trilha ainda eram poemas sinfônicos pós-românticos
que pareciam na maioria das vezes mais eloqüentes que o próprio
filme. Tinham uma tradição européia muito profunda,
que, se serviam para épicos ou romances, eram grandiloqüentes
demais para gângsters ou filmes noir. Mas a coisa funcionava em
ambiente europeu.
Outro grande compositor, de quem na infância Richard Strauss elogiou,
Erich Korngold (1897-1957) era austríaco e não se dedicou
apenas ao cinema. É autor de óperas, sinfonias, quartetos,
e também de respeitáveis trilhas como Captain Blood,
The Sea Hawk, Adventures of Robin Hood, Devotion, etc.. Como Steiner,
que era compositor de operetas na Áustria, Korngold veio para
Hollywood levando toda uma bagagem de tradição européia
que serviu não só para mostrar o que a música incidental
era capaz de fazer como aprimorar as técnicas musicais sobre
os gêneros que o cinema explora. O que escrever para um drama,
uma comédia ou um policial? E um western? Compositores europeus
não sabem o que é um western. Era preciso criar uma geração
de músicos americanos para suprir este tipo de necessidade, o
quê autêntico do país produtor do filme. Esta "nova
geração típica" irá surgir apenas no
final dos anos 40, concomitante com a hegemonia dos europeus. Victor
Young (1900-1956), Alfred Newmann, Elmer e Leonard Bernstein, e Bernard
Herrmann (1911-1975), um dos mais bem-aventurados compositores de trilhas
do cinema. Mas mesmo tendo, por exemplo, Elmer Bernstein em westerns,
Herrmann em Hitchcocks e Newmann em romances, os épicos continuaram
muito a dever para europeus, justamente por terem uma experiência
sinfônica muito mais refinada. Miklos Rozsa (1907), húngaro,
foi um destes casos, de competência musical que o levaram a glória
da trilha para Ben-Hur de Wyler. Mesmo Victor Young, que assinou
a trilha de Sanson and Delilah, Around the world in 80 days
e Greatest Show on Earth, estudou no conservatório de Varsóvia
antes de começar a compor para cinema.
VII- EVOLUÇÃO
Assim, aos poucos, a trilha sonora começou a ganhar forma. A
trilha dos anos 40 era extremamente eloqüente, digna de poemas
sinfônicos à la Richard Strauss, de caráter
naturalmente épico. O final da década 40 caracterizou
o domínio da trilha em função do gênero.
Os filmes noir, os suspenses e os romances são ambientados
musicalmente de formas mais sutis. Nos anos 50, esta sutileza chega
ao extremo: Algumas trilhas encaixam tão bem no espírito
de um filme que o diretor "adota" o compositor oficialmente
em todas as suas produções. Esta prática já
era natural para o cinema europeu, mas que os americanos só perceberam
quando abriram espaço para filmes de autor. Então caminham
lado a lado, a história e a música. É o caso de
Nino Rota com Fellini, Herrmann com Hitchcock, John Williams com Spielberg,
e, mais recentemente, Michael Nyman com Peter Greenaway. Nestes casos
o clima é substancialmente bem construído, pois o diretor
já sabe como trabalha o compositor antes mesmo da partitura estar
completa.
Os anos 60 trazem a música popular como trilha sonora, o que
nunca havia acontecido antes. Poderiam haver canções compostas
para o filme, mas sempre o clima era destacado por uma partitura orquestral.
Os anos 60 desmontam esta praxe, colocando a música orquestral
apenas em determinadas funções subjacentes, e então
começa o reinado dos compositores "populares", ou aqueles
que criam tanto formas orquestrais para alguns momentos como também
suaves e cativantes melodias, que, a exemplo da ópera, nos fazem
sair do cinema cantarolando o tema. É o caso de Burt Bacharach,
Lalo Schifrin e Henry Mancini.
Aos poucos as canções foram tomando o lugar da música
sinfônica, e nos anos 70 explodiu com musicais como Hair, Jesus
Christ Superstar, descendentes de West Side Story, mas com
a música pop e o rock'n roll pontuando a ação do
filme. Os anos 70 e 80 praticamente exploraram toda a vertente pop da
música, até como clima subjacente, devolvendo, no final
dos 80, com filmes como Amadeus e ET, a partitura orquestral
à narrativa do cinema, concomitante à música pop
e à canção-tema do filme. Assim, ambas coexistem
em muitas produções, mas cuja necessidade estética
varia de filme para filme.
Sobre esta questão, a estética do filme, os artigos escritos
pelo compositor Mauro Giorgetti para Mnemocine darão maiores
elementos práticos para a elaboração de uma trilha
sonora.
Alguns
compositores e suas trilhas:
-Sergei
Prokofiev - "Alexander Nevsky" (Eisenstein)
-Dmitri Shostakovich - "Outubro" (Eisenstein)
-Vaughan Williams - "Scott of the Antarctic"
-Georges Auric - "La Belle e la fere" / "Sang d'un poet"
(Cocteau)
-William Walton - "Henry V" / "Hamlet" / "Richard
III" (Olivier)
-Erich Korngold - "The Sea Hawk" / "The Adventures of
Robin Hood"
-Max Steiner - "Gone with the Wind" / "King Kong"
/ "Casablanca" / "Jezebel"
-Miklos Rozsa - "Ben-Hur" / "Spellbound"
-Bernard Herrmann - "Citizen Kane" / "Vertigo" /
"Psycho" / "Fahrenheit 451" / "Taxi Driver"
-Ennio Morricone - "Once upon a time in the west" / "The
Mission" / "Cinema Paradiso" / "The Untouchables"
-Nino Rota - "Amacord" / "La dolce Vita"
-Victor Young - "Johnny Guitar" / "Shane"
-Dmitri Tiomkin - "The Alamo" / "High Soon"
-Elmer Bernstein - "The Magnificent Seven" / "True Grit"
-Leonard Bernstein - "West Side Story" / "On the Waterfront"
-Henry Mancini - "Touch of Evil" / "The Pink Panther"
-Maurice Jarre - "Doctor Jhivago"
-John Williams - "ET" / "Star Wars" / "Raiders
of The Lost Ark" / "Empire of the Sun" / "Superman"
-James Horner - "Star Trek II" / "Krull" / "Willow"
-Jerry Goldsmith - "Star Trek - The Motion Picture"
-Vangelis - "Chariots of Fire" / "Blade Runner"
copyright©2000 Filipe Salles
*Filipe Salles
é fotógrafo, cineasta e músico; é professor de fotografia na
FAAP e mestre em Comunicação e Semiótica na PUC/SP.
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