Ludwig van Beethoven (1770-1827)
   
Uma das mais poderosas figuras no mundo das artes, é Beethoven mais do que um grande compositor, é um estigma, um signo-sinal, um arquétipo atualizado do Grande Artista, do grande alquimista da arte, aquele que transforma metais de qualquer natureza em ouro dos mais valiosos.
Todos conhecem sua biografia, cheia de infortúnios e contratempos, desde a embriagez do pai, que o obrigava a estudar violentamente, a saída de Bonn até o mundo da luxúria vienense, a morte de sua mãe, a surdez precoce, a briga com o irmão pela tutela do sobrinho...
Alguém que, tendo tudo para dar errado, revolta-se contra sua própria condição, agarra a fatalidade pelo pescoço e vence a vida, vence o mundo.
Apesar de solitário, algo misantropo, foi Beethoven um grande vencedor, que transformou seus infortúnios em música da mais profunda e grandiosa.
Só por isso sua vida já valeria a pena como um grande exemplo; mas, como se não bastasse, conta com uma das mais abençoadas inspirações musicais de todos os tempos, ao ponto de não ter sido divisor de águas, como foi Wagner, mas sim ter dado curso ao rio. Através de Beethoven é que a música clássica abriu suas fronteiras para unir a rígida estrutura formal da sonata ao universo da sensibilidade romântica: nasce, enfim, a música romântica
A arte de Beethoven, segundo um de seus mais entusiastas admiradores, Otto Maria Carpeaux, 'só desaparecerá quando desaparecer também a humanidade sobre a face da Terra'.

Beethoven escreveu praticamente para todos os gêneros musicais, mas suas principais obras são: 32 sonatas para piano, 17 quartetos, 5 concertos para piano, um concerto para violino e um concerto tríplice, 11 aberturas, uma ópera (Fidélio) e dois oratórios, além das 9 mais famosas sinfonias da história da música, referência e influência para todas as gerações posteriores e ainda vindouras. A Deutsche Grammophon lançou recentemente uma Complete Beethoven Edition, contendo 87 Cds com toda a obra do compositor. Estes Cds podem ser encontrados separadamente, e possuem os intérpretes mais refinados que já gravaram pela Deutsche, sendo garantia de sucesso na compra. Entretanto, há muitas outras leituras que também merecem citação, e, portanto, vamos classificá-las:

Sinfonias
 
Sinfonia no.4
Sinfonia no.7
Sinfonia no.8
Sinfonia no.9

Sinfonia no. 1 em Dó maior op.21

A primeira sinfonia de Beethoven é uma obra de juventude (notar que, ao falarmos de juventude para Beethoven estamos nos referindo à idade de 30 anos!), que ainda apresenta um caráter eminentemente clássico, sendo inteira moldada segundo a estrutura formal das últimas sinfonias de Haydn. Embora outras sinfonias do mestre também sigam tal padrão, nesta é que notamos o quanto Beethoven dominava a composição acadêmica, pois mesmo seguindo a rígida forma-sonata, ainda nos dá alguns indícios de sua rebeldia (com muita causa) que faria, mais tarde, expandir a forma até os coros da Nona Sinfonia.
Por se tratar de uma sinfonia clássica, há poucas divergências nas leituras, em geral seguem padrões mais ou menos fixos de andamento e dinâmica. O que costuma variar de uma gravação para outra, e isso faz muita diferença em se tratando de Beethoven, é a qualidade sonora. Uma orquestra bem balanceada, uma gravação minuciosa e uma boa masterização fazem muita diferença.
As gravações clássicas desta sinfonia são geralmente encontradas em coletâneas ou caixas do conjunto inteiro das 9, sendo as mais famosas de Herbert von Karajan, Leonard Bernstein (ambos pela Deutsche, embora exista uma versão de Karajan pela EMI e de Bernstein pela Sony, qualquer uma vale), Otto Klemperer (EMI) e Eugen Jochun (Deutsche). Destas clássicas, a mais recomendada é a de Bruno Walter, pela espontaneidade da leitura, jovial e intensa (Sony).
Entretanto, mais recentemente, tem havido uma onda para gravar estas obras segundo a instrumentação original, e segundo estudos aprofundados para reproduzir os andamentos tal qual no tempo de Beethoven se entendia; a este tipo, recente, dá-se o nome de interpretação autêntica, reconhecível com os dizeres no encarte: 'com instrumentos de época'.
Essa nova tendência gerou pelo menos duas gravações de ótimo nível: a de Nikolaus Harnoncourt e a Chamber Orchestra of Europe (Teldec), e John Eliot Gardiner, com a Orchestre Revolutionaire et Romantique (Archiv). Ambas são tocada nestas condições, e para quem já está cheio da overdose Karajan, vale a pena conferir. Há opção de comprá-las avulso ou numa caixa com as 9. voltar ao topo


Sinfonia no. 2 em Ré maior op.36
Esta já é uma sinfonia da qual merece que se diga um pouco mais. Durante muito tempo (e ainda hoje em muitos casos), esta foi a sinfonia de Beethoven menos executada em todo o mundo. Mesmo entre os habituais ouvintes de Beethoven, tem sido a Segunda uma obra sistematicamente negligenciada. Talvez por que ela tenha sido escrita num período muito difícil para Beethoven, a época em que tomou consciência de que sua surdez era progressiva e inexorável, escreveu o famoso Testamento de Heiligestadt, pensou em suicídio, mas, segundo ele próprio, 'a arte que me deteve'. A segunda é fruto, portanto, de um período muito conturbado, e de certa maneira, ela espelha esta indisposição, ainda que de forma sutil; muito velada.
Ela também está escrita numa rígida forma sonata, mas cujo desenvolvimento parece muito mais forçado, menos natural que as demais. Acrescenta-se a isso o fato dela explorar combinações instrumentais, harmônicas e rítmicas que, à primeira vista, tendem a parecer desordenadas, sem muito nexo, fazendo dela uma sinfonia realmente impopular.
Mas, muita atenção: com um pouco de paciência, ao entender o espírito desta obra, revelar-se-á nela uma das mais originais e contagiantes obras do mestre, que nada deve a nenhuma das demais. Essa sinfonia representa, mais do que qualquer outra, a maior luta que um homem pode empreender, a luta consigo mesmo pela Vida. Beethoven ganhou a batalha, e há nesta sinfonia um quê de vitória que será mais tarde ampliado em sua Eroica e na Quinta.
Se considerarmos este aspecto, a segunda também tem grandes intérpretes, pois todos os mencionados na Primeira regem igualmente bem a Segunda. Mas, se eu puder recomendar especificamente uma gravação, que, para mim, vai direto a este sentimento, indicaria com todo o entusiasmo, a leitura de Erich Leinsdorf com a Boston Symphony, numa gravação da RCA Victrola (60130-2-RV) de 1967. É impressionante a vitalidade com que Leinsdorf imprime esta intenção de vida; muito sutil, mas muito clara. Pela sua idade, é uma gravação invejável, tanto pela qualidade sonora quanto pela sua atualidade. A remasterização preservou as freqüências originais da gravação analógica sem 'filtrar' demasiadamente os chiados, que, além de imperceptíveis, fazem o resultado ganhar um corpo sonoro dificilmente encontrado em gravações mais recentes. Imperdível (ganha grátis seleções das 'Criaturas de Prometeus' op. 43) voltar ao topo

Sinfonia no.3 em Mib maior op.55 <Eroica>
Uma das mais belas e conhecidas sinfonias do mestre, que a escreveu pensando em dedicá-la a Napoleão Bonaparte. Embora conhecida, é uma história que merece ser recontada. Beethoven, como cidadão preocupado com o mundo à sua volta, comprou com todas as forças os ideais de justiça, fraternidade e igualdade pregados pela Revolução Francesa. Ele própio considerava a liberdade um bem supremo, um dos maiores tesouros de um homem, e ficou muito admirado ao verificar estes ideais personificados em Napoleão. Entretanto, quando a notícia de que Napoleão havia se auto-coroado, tornando-se Imperador, imediatamente Beethoven rasgou a dedicatória, considerando-o ambicioso, traidor dos princípios pela qual havia jurado, e em seu lugar escreveu 'À Memória de um Grande Homem'.
Há muitas coisas interessantes, além do fato em si, ligados à composição desta sinfonia, mas por agora, basta, além de acrescentar que a Eroica, a despeito do espírito com que Beethoven começou a escrevê-la, é o maior grito de liberdade que o homem vitorioso poderia dar.
Não devemos nos esquecer que, pouco antes, Beethoven havia enfrentado cara-a-cara o maior desafio de um músico: perceber o sentido que deveria ser para ele 'o mais perfeito', a audição, falhar até o diagnóstico da eminente surdez. Vencida esta etapa, Beethoven desfrutou da sensação de liberdade musical e espiritual; nada o prendia mais às regras, ele as dominava todas. Assim, a Eroica é um marco de revolução formal: sem introdução lenta, o tema é impelido a começar depois de dois fortes e decididos acordes; expandiu a forma (uma sinfonia clássica dura de 20 a 30 minutos, a Eroica dura quase 1 hora), substituiu definitivamente o Minueto pelo Scherzo, aumentou a orquestra e, pela primeira vez no gênero sinfônico, uma impressão de sentimentos extra-musicais era notadamente colocada em prática, principalmente no segundo movimento, a Marcia Funebre.
Desta sinfonia, tão especial, há muito pouco que se pode acrescentar com palavras: recomendo ardorosamente as leituras que Leonard Bernstein fez dela pela Deutsche e pela CBS (hoje Sony), ambas disponíveis no mercado com um pouco de paciência para procurar.
Gravações mais recentes são por vezes muito técnicas, e acabam por não transmitirem todo o entusiamo espiritual de todas as emoções ali impressas. Harnoncourt e Gardiner são, neste contexto, os menos interessantes, apesar das leituras de época. Bernard Haitink gravou uma Eroica bem ao seu estilo, mais reflexiva, uma alternativa a Karajan, e Claudio Abbado também gravou uma excelente Eroica pela Deutsche. A melhor, entretanto, fica ainda com o velho beethoviano nato, Kurt Masur e a Gewandhaus de Leipzig (RGE), que sabe extrair o melhor equilíbrio entre todas as vertentes aqui descritas, e que perde apenas para as gravações de Bernstein pela qualidade sonora. voltar ao topo

Sinfonia no. 5 em Dó menor op.67

Dispensa comentários esta que é talvez a obra mais conhecida de todo o repertório da música erudita, a seqüência de 4 notas mais famosa de todos os tempos. Apesar de Beethoven ser alemão, seu caráter universal ficou patente quando seu motivo rítmico (três notas curtas e uma longa) foi usado pelos aliados (Inglaterra e EUA) na Segunda Guerra, como código de vitória em telégrafo.
Há muito nesta sinfonia que ultrapassa a visão clássica, podemos dizer que aqui já estamos diante de um autêntico romantismo, apesar de ainda isolado.
Como é extremamente conhecida, a Quinta possui um sem número de interpretações, a maioria muito boa, mas que apenas segue determinados paradigmas, padronizados por leituras já antológicas. Um bom exemplo é a célebre interpretação de Arturo Toscanini (RCA), que sem dúvida gerou inúmeros adeptos, similares, do qual não podemos nem deixar escapar Karajan. Neste mesmo paradigma estão, em maior ou menor grau, Abbado, Barenboim, Mehta, Ozawa e até o grande Masur (este mais refinado). Agora, se quisermos explorar leituras pouco convencionais, que nos abram visões originais de uma obra (infelizmente) tão executada, teremos que nos desviar da tentação comercial que é Karajan, oferecido atualmente a preços irrisórios, com bela embalagem, selo de garantia e tudo.
Comecemos pelos maestros clássicos, Bruno Walter (Sony), Otto Klemperer (EMI) e Wilhelm Furtwängler (Deutsche). Apesar de que, neste último (assim como Toscanini), só há disponível versões monaurais, vale a pena experimentar a regência solta, inesperada e autêntica deste grande beethoviano, muitas vezes criticado duramente por variar tanto o andamento durante uma execução. A leitura de Walter, por sua vez, é cheia de imaginação, é feita com um esmero tal no cuidado com os instrumentos que por vezes somos tentados a achar que estamos ouvindo pela primeira vez. Já a versão de Klemperer é dotada de um certo quê wagneriano, um pouco pesada, com certa ênfase nos trombones do último movimento (que acrescenta graves extraordinários), e dá à sinfonia um ar épico inigualável.
A mais estranha de todas as leituras é a que Pierre Boulez fez para a CBS (hoje no catálogo da Sony) com a NYPO. Extremamente lenta, com ênfase nas cordas graves, abre o primeiro movimento com a sensação de que é uma obra inédita de Beethoven. Apesar de estranha, renova os ares do repertório convencional.
Das modernas, a leitura mais equilibrada é a de Bernstein pela Sony (com a NYPO), e, para contrabalançar a de Boulez, que faz a sinfonia em mais de 40 minutos, temos a de Gardiner (Archiv), que percorre as mesmas notas em menos de 30 minutos. Há gosto para tudo. voltar ao topo


Sinfonia no. 6 em Fá maior op.68 < Pastoral>

A Pastoral é, de todas as sinfonias do mestre, a mais difícil de interpretar. Há uma eterna disputa entre seus maestros sobre a hegemonia da leitura 'mais correta'; uns preferem privilegiar o caráter bucólico, pastoral segundo seu apelido; outros ainda reforçam sua identidade narrativa, seus aspectos extra-musicais, como uma autêntica sinfonia descritiva. Há ainda os que ignoram sistematicamente estes aspectos e passam por ela como uma sinfonia clássica como tantas que Haydn escreveu. Quem está com a razão?
Todos, obviamente. A Pastoral é uma sinfonia heterodoxa, inovadora mas, não obstante seus atributos técnicos, uma das mais belas, profundas e autênticas do mestre. Os sentimentos de Beethoven afloram como que por encanto, e são tão claros, explícitos, puros até, que é muito difícil estragar sua beleza natural, apesar das inúmeras tentativas.
Assim, de certa maneira, os aspectos que tendem a nortear uma escolha da Pastoral são mais subjetivos que os demais. A mais recente e conhecida versão de Karajan (Deutsche), que vem junto com a Quinta, é muito rápida, de tal maneira que passamos muitas vezes por ela sem nos dar conta de suas sutilezas. O mesmo vale para as leituras de Gardiner e Harnoncourt, que seguem uma linha exagerada de Toscanini.
Abbado (Deutsche) a trata como um poema sinfônico, vindo da tradição de leituras romantizadas, o que não deixa de ser interessante em muitos aspectos. A Pastoral de Neville Marriner com a ASMF (Philips) é uma típica leitura de sinfonia clássica, um pouco chapada e de emoções contidas, apesar de rigorosamente correta na marcação da partitura.
No fim das contas, pesando todos estes aspectos, duas gravações nos saltam como primorosas da Pastoral: a de Bruno Walter (selo CBS MYK36720, hoje relançado pela Sony), e a de Kurt Masur com a Gewandhaus de Leipzig (Philips), leituras cuja sensibilidade está à flor da pele, mas preservando a força e o vigor das nobres e decididas notas do mestre.