Primeiros Passos:
Reconhecendo um CD de Música Erudita


Todo o CD de música erudita tem algo que o diferencia basicamente de todos os demais gêneros (com raríssimas exceções): O nome do Compositor está sempre em destaque. É importante mencionar isso pelo fato de que na música popular, por exemplo, muitas vezes não conhecemos o autor das melodias e/ou letras, e compramos tal gravação em função de um intérprete (como por exemplo, Marisa Monte, Elis Regina, etc.). No Rock, o compositor também não está destacado. Embora o compositor geralmente faça parte do grupo, a compra é em função de um conjunto, de uma banda. Sabemos que a maioria das músicas dos Beatles foram compostas por John Lennon e Paul McCartney, mas nunca íamos atrás de seus nomes, eles eram Os Beatles, e seu conjunto era soberano.
No caso do Jazz, idem, uma vez que muitas gravações são improvisações, compramos por seu intérprete, ou ainda por um músico específico, por sua original criação de improviso registrada (que não deixa de ser, em última análise, uma composição - o que aproxima neste quesito o jazz da música erudita)
Em outras palavras, é muito comum, quando pensamos em música popular, confundir o intérprete com o o autor (por exemplo, em Desafinado, nos referimos como 'aquela música de João Gilberto'), justamente pelo intérprete estar sempre em destaque, e o compositor relegado a letrinhas miúdas no interior do encarte.
Na música erudita é o contrário, o compositor é que está em destaque. Mas nunca na mesma razão em que na música popular o nome do autor por vezes nem é citado, porque na erudita o intérprete é um dos elementos diferenciais, e deve constar numa proporção equilibrada com o compositor. Sem dúvida, não há outro gênero em que o compositor é tão venerado como na música erudita. Por esta razão, por vezes nos esquecemos que há um intérprete, e ele é fundamental (cf. já citado nos textos 'O Intérprete' e 'Solos') para uma leitura relevante de determinada obra. Por quê?
Porque uma obra erudita é (ou pelo menos era há algum tempo atrás) composta no papel, com notas dispostas numa pauta antes de virar som (é muito comum na música popular o processo inverso: antes o som, depois a anotação), e como não podemos saber como Beethoven, Mozart, Brahms, etc. interpretavam sua música, tudo o que nos resta sao as indicações da partitura, que precisam ser lidas com propriedade; quanto mais, melhor para a apreciação da obra.
Por isso existem diversas classificações qualitativas para CDs de música erudita, e 99% delas são em função da interpretação. É assim: quando um grupo de Rock tipo Menudo grava um novo CD (no tempo deles era LP), há uma crítica a respeito deste disco, se as músicas são boas, se está equilibrado, se é inovador, etc. No caso da música erudita, quando lançam um CD, não há razão para dizer o mesmo de uma obra como a Quinta Sinfonia de Beethoven, primeiro porque sua qualidade é notória, segundo porque é de uma outra época e já sabemos qual foi seu impacto, terceiro porque as pessoas têm direito de gostar de compositores bons e ruins, e está apenas ao alcançe do crítico situar a interpretação da obra para o gosto do ouvinte, sem julgá-la (pelo menos é o que se espera). Assim, a não ser em casos de obras pouco gravadas, inéditas descobertas ou música moderna, a crítica recai apenas sobre o intérprete.
Assim, como julgar se uma gravação é boa ou ruim, mesmo sem conhecer sua crítica (seria necessário assinar umas duas revistas especializadas para tal)? É simples:
Podemos notar que a gravadora vem acima de tudo, discretamente, apenas dando o crivo da qualidade da gravação. Depois, claro, o compositor, que é a razão de 90% das compras adquiridas. Reparem que, embora o nome do maestro esteja embaixo, ele está impresso com o mesmo tamanho e as mesmas características que o nome do compositor. Sendo a gravadora notória, o maestro em evidência (abaixo mas destacado pelas letras) e a solista colocada logo abaixo da obra, devemos concluir logo de cara que trata-se de uma excelente versão da obra 'Haroldo na Itália' op.16 de Hector Berlioz. Se você a estiver procurando e deparar-se com esta, não hesite! Todas as informações são claras, o design do CD é belo (entretanto não basta, há CDs muito bonitos por fora que são gravações horríveis), o maestro é conhecido e está em condições de dar a cara para bater. Então, mesmo que não conheça a solista (nem sabe que Nobuko Imai é mulher), e talvez nem a obra, todos estes elementos dão indícios de que é uma gravação de qualidade, e pode ser comprada sem delongas.
E, de fato, este CD faz parte do Colin Davis Berlioz Cicle, o ciclo completo das obras de Berlioz que sir Colin Davis gravou na década de 70, recebendo inúmeros prêmios por isso. Sem dúvida um registro primoroso.
No caso deste CD, a contracapa exibe também informações relevantes e merece ser analisada:

Como se observa, um CD de qualidade prima não só pela gravação, mas também por todo o tipo de informação que venha a se configurar numa referência a este registro. Todos os detalhes, número de Opus, tonalidade da obra, número de movimentos com respectivos tempos, além de solistas específicos (no caso, maestro do coro na obra de Bonus), bem como data e local da gravação, traduzem o prestígio com que esta leitura se apresenta. Quem, afinal, teria interesse em denunciar tantas informações se a leitura fosse medíocre, pirata, remasterizada inadvertidamente ou ainda com intérpretes fictícios (acreditem, há exemplos disso!)

E, para contrabalançar esta excelente gravação, um outro exemplo, desta vez de um registro que NÃO se deve comprar:
Desconfiamos logo de cara desta gravação: Não está claro o nome da gravadora, e, depois de uma olhada geral, descobrimos que se trata de um CD reunindo 3 concertos de Mozart. Ora, concertos são obras para um (ou mais) solista, com acompanhamento de orquestra. Procuramos, procuramos e... nada! Tudo bem não haver o nome do maestro, ou da orquestra, mas do solista não dá! O que atesta a qualidade de uma gravação senão a presença marcante do solista logo na capa, no nome em destaque ou na própria foto?
Mesmo que o ouvinte esteja ávido pelos concertos para flauta de Mozart (e esta é uma gravação tentadora, que reúne os 2 para flauta mais o para flauta e harpa num único CD), deve hesitar por não verificar na frente o nome da gravadora e de nenhum intérprete. Ou a gravação é muito ruim, ou os intérpretes são medíocres. No caso feliz deste registro, ambos.
Portanto, cuidado! Embora barata, este tipo de gravação não representa nem de longe a melhor opção. Existem, nos catálogos de qualquer grande gravadora, uma seleção Mid e Budget-price, ou seja, preços médios e barganhas. Geralmente são gravações mais antigas, de catálogo, que são relançadas a preços menores, mas contam com a qualidade da gravadora e/ou do intérprete, e são infinitamente preferíveis a esta.
Como se pode notar, comprar CDs de música erudita é fácil. Procure sempre uma gravadora confiável, de preferência uma que você já conheça, e um intérprete cujo nome esteja em destaque logo na capa, quanto mais, melhor.
Há até mesmo gravações em que o intérprete está em maior evidência que o compositor. São gravações históricas, ou edições especiais de certos grandes músicos, e sempre serão uma boa pedida (só tome cuidado para verificar se o registro não é muito antigo, pois a sonoridade pode não ser das melhores - de 1963 em diante todas são boas).
próxima