ENSAIOS PUBLICADOS

Ensaio publicado na Revista Qualis, Ano 3 , Ed. 16
1993

Nota: Este ensaio foi depois revisado e ampliado, estando disponível uma versão mais completa, intitulada 'Trilha Sonora no cinema: Breve Histórico', em www.mnemocine.com.br/cinema/cinetecindex.htm

A ORIGEM DA TRILHA

"O samba quis dizer 'eu sou o cinema"', exclamam Gilberto Gil e Caetano Veloso na música "Cinema Novo", que homenageia os trinta anos do gênero inaugurado por Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos. Neste ensaio inédito, QUALIS aborda a história da trilha sonora cinematográfica, sua derivação da música programática européia do final do século XIX e as implicações estéticas e técnicas em seus primórdios.

FILIPE W, SALLES
ILUSTRAÇÃO: PAULO VON POSER

O cinema nunca foi "totalmente" mudo. Só não tinha fala. Som, sempre teve. É natural para o homem associar sons a imagens e vice-versa. No cinema, a imagem calada sempre causou estranhamento. Para contorná-lo, havia um pianista nas salas de exibição encarregado de "aclimatar" as cenas. Nos ambientes mais afortunadas, podíamos até encontrar orquestras inteiras, muitas vezes com partituras originais para o filme. Então, veio o cinema sonoro, a grande guinada da própria linguagem cinematográfica: a partir dali, a música poderia ter uma função dramática ao mesmo tempo mais sutil e profunda que a mera "ilustração" musical que havia no cinema mudo.

No século XIX, a música caminhava em duas vertentes, apontadas pelos críticos mais ativos: a absoluta e a programática. A primeira seria toda a música feita "por ela mesma", ou seja, sem nenhuma base literária, teatral, ou qualquer que fosse. É o caso das sinfonias de Brahms ou Bruckner, por exemplo. A música absoluta descendia da mais fiel tradição européia, resumida na figura de Bach. Já música programática é um conceito tipicamente romântico. A essência da música do século XIX reside no poema sinfônico e na sinfonia descritiva, onde a música se apoia em elementos extra-musicais.

Baseado em um sonho, Berlioz compôs a "Sinfonia Fantástica", o primeiro exemplo concreto de sinfonia descritiva. Muitos outros compositores então seguiram o caminho da música programática, baseando-se nas mais diversas fontes, de Dante e Shakespeare a Nietzsche e Byron. O poema sinfônico foi o grande responsável por uma crescente liberdade na expressão sinfônica que só chegaria à sinfonia tradicional com Mahler. Mas, antes disso, inúmeros compositores dedicaram-se ao livre gênero do poema sinfônico, como Liszt, Saint-Saëns, Smetana, Grieg, Korsakov, Tchaikovsky, e, principalmente, Richard Strauss. Todos eles levaram a música sinfônica a uma inevitável associação de imagens, construindo uma verdadeira escola, iniciando uma tradição tão espessa quanto a música tradicional -- porque, antes de mais nada, a música programática tinha público, e mais público que a absoluta. Muito por ser mais versátil, curta, em muitos casos espontânea, e por unir a literatura à música, algo que fascinou toda a geração de jovens artistas da segunda metade do século XIX. Debussy chegou a comentar, já no início deste século, que Richard Strauss era um compositor cinematográfico, por ser sua obra uma infinita fonte de imaginação cinemática, gerando uma cadeia de imagens estimuladas pelo som da grande orquestra.

Se, entre 1900 e 1910 Mahler une a tradição sinfônica à esta associação de imagens, entre 1915 e 1920 Schoenberg acaba com ambas as coisas, criando um conceito totalmente novo de imaginação musical. Repleta de sons estranhos, a música dodecafônica formava imagens que pareciam sempre desoladoras, mas abstratas. A saturação da música européia, em especial alemã, chamou os compositores mais ativos - a vanguarda - para este novo e inexplorado campo, que parecia ser promissor, na medida em que era inédito na história da música. Porém, nem todos os compositores gostaram dos ares modernos da música atonal, preferindo, em plenos anos 30, escrever sinfonias e concertos. Apenas os antigos mestres, já consagrados, como Rachmaninov, Sibelius, Shostakovich e Stravinsky conseguiam sair do impasse. Toda Lima geração de compositores dos anos 10 e 20 pareceu abalada: explorar os rumos apontados por Schoenberg e seus discípulos ou continuar escrevendo música "ultrapassada"? Finalmente, inventaram o som no cinema. O que aconteceu com os compositores que trabalhavam numa linha conservadora, preservando a sinfonia e o poema sinfônico tradicional em suas obras? Foram todos para o cinema. Toda a tradição de música programática, por ser mais propícia, desembocou na trilha sonora cinematográfica.

O cinema por sua vez tinha, ao descobrir o sincronismo entre som e imagem, a capacidade de exibir filmes sem orquestra ou pianistas; o próprio projetor teria condições para reproduzir a imagem e o som, a princípio pelo "vitafone" e depois pelo "movietone". Mas, como em toda inovação, não foram poucos os problemas que o som trouxe ao cinema. O principal talvez tenha sido o de ordem estética: O que fazer com o som? Onde ele pode ajudar na narrativa? Até onde ele é apenas mais um elemento decorativo, como a cenografia? Tudo isso foi respondido na prática. Uma lenta evolução levou o cinema a encontrar a forma ideal de utilizar o som, apropriado à sua linguagem.

De início, o som foi explorado de duas maneiras: como elemento climático e como foco da ação - caso dos musicais, em que a música conduz a narrativa, ou esta está subordinada à música. Analogamente à música erudita, os musicais podem ser comparados à ópera, cuja ação também se desenrola em função da música. Aliás, a derivação mais popular da ópera, a opereta, irá ter uma grande influência na própria composição das músicas e na concepção geral do argumento de musicais. Mas o outro caso é particularmente mais interessante, pois é nele que o cinema encontrará as bases da utilização do som para formar o ambiente.

Charlie Chaplin foi o primeiro que, ainda no cinema mudo, se preocupou com a música certa para a ação corrente, compondo ele mesmo partituras para acompanhar seus filmes. Eram um tanto pobres, mas funcionavam na medida em que seus filmes também não eram complexos. Sob este aspecto, o cineasta russo Sergei Eisenstein teria que se preocupar bem mais, como realmente fez, encomendando as trilhas de seus filmes aos consagrados Prokofiev e Shostakovich. Isto ainda no cinema mudo, que demandava a presença da orquestra toda em cada projeção - uma vez que arranjos para piano empobreceriam demais o impacto da música e da imagem. Este problema foi resolvido com o vitafone e o movietone.

A trilha sonora propriamente dita caminhou muito lentamente para alcançar a significação que é hoje inerente a todas as produções. Primeiro, a dificuldade residia em sincronizar adequadamente. Segundo, ela servia mais para tapar buracos sem diálogos do que propriamente construir um clima. Usava-se música de compositores conhecidos, de Tchaikovsky a Johann Strauss, apenas como ilustração audiovisual. A coisa foi melhorando com inovações técnicas, que permitiram um melhor resultado sonoro nos diálogos e no seu sincronismo, levando a uma natural independência da trilha sonora em relação ao resto dos sons que o cinema mostrava - incluindo ruídos de sala, som ambiente, diálogos e trilha sonora. Surgem duas novas perspectivas: o cinema explorar a música e os músicos explorarem o cinema. O que se tornou a música erudita nos anos 30 estava longe de ser absorvido pelo grande público, levando compositores de teatro e opereta a tentarem a sorte no cinema. Por essa razão, os primeiros grandes autores de trilhas são europeus: a tradição da música sinfônica era um elemento de peso, e sem dúvida eles sabiam construir climas, como o cinema queria.

O primeiro dos mestres de um grande time é Max Steiner (1888-1971). Começou com a trilha sonora de um clássico dos filmes B: "King Kong", de 1933. Seu trabalho foi tão bem apreciado que logo em seguida começou a ser um dos mais cogitados compositores do cinema. Escreveu, entre outros, " ... Gone With the Wind", "The Big Sleep", "Key Largo", "Jezebel" e "Casablanca", entre os mais famosos. O fato é que este tipo de trilha ainda era o poema sinfônico pós-romântico, que parecia, na maioria das vezes, mais eloqüente que o próprio filme. Vinha de uma tradição européia muito profunda que, se servia para épicos ou romances, era um pouco grandiloqüentes demais para gângsters ou filmes noir. Mas a coisa funcionava em ambiente europeu.

Outro grande compositor, o austríaco Erich Korngold (1897-1957), não se dedicou apenas ao cinema. É autor de óperas, sinfonias, quartetos, e também de respeitáveis trilhas como "Captain Blood", "The Sea Hawk", "Adventures of Robin Hood", "Devotion", etc... Como Steiner, que era compositor de operetas na Áustria, Korngold foi para Hollywood levando toda uma bagagem européia, que serviu não só para mostrar o que a música incidental era capaz de fazer, como para aprimorar as técnicas musicais sobre os gêneros que o cinema explora. O que escrever para um drama, uma comédia ou um policial? E um western? Compositores europeus não sabem o que é um western. Era preciso criar uma geração de músicos americanos para suprir este tipo de necessidade, o item autêntico do país produtor do filme. Esta "nova geração típica" irá surgir apenas nos anos 40, com Victor Young (1900-1956), Alfred Newmann, Elmer e Leonard Bernstein, e Bernard Herrmann (1911-1975), um dos mais bem-aventurados compositores de trilhas do cinema. Mas mesmo tendo, por exemplo, Elmer Bernstein em westerns, Herrmann em Hitchcocks e Newmann em romances, os épicos continuaram em desvantagem para com os europeus, que tinham uma experiência sinfônica muito mais refinada. Miklos Rozsa (1907), húngaro, foi um destes casos, de competência musical que o levou à glória da trilha para "Ben-Hur", de Wyler. Mesmo Victor Young, que assinou a trilha de "Sanson and Delilah", "Around the World in 80 Days" e "Greatest Show on Earth", estudou no conservatório de Varsóvia antes de começar a compor para cinema.

Assim, aos poucos, a trilha sonora começou a ganhar forma. Se a dos anos 30 é extremamente eloqüente, digna de poemas sinfônicos de caráter naturalmente épico, os anos 40 aprenderam a dominar a trilha em função do gênero. Os filmes noir, os suspenses e os romances são ambientados musicalmente de formas mais sutis. Nos anos 50, esta sutileza chega ao extremo: algumas trilhas encaixam tão bem no espírito de um filme que o diretor "adota" o compositor oficialmente em todas as suas produções. Caminham lado a lado, a história e a música. É o caso de Nino Rota com Fellini, Herrmann com Hitchcock, e, mais recentemente, John Williams com Spielberg e Michael Nyman com Peter Greenway. Nestes casos o clima é substancialmente bem construído, pois o diretor já sabe como trabalha o compositor antes mesmo da partitura estar completa.

Os anos 60 trazem a música popular como trilha sonora, o que nunca havia acontecido antes. Poderiam haver canções compostas para o filme, mas sempre o clima era destacado por uma partitura orquestral. Os anos 60 desmontam esta praxe. A trilha sonora cinematográfica que hoje conhecemos teve suas origens na tradição erudita da música européia, em especial da música programática ou descritiva. A partir disso, diversos elementos, desde filmes como "Fantasia" até compositores como Vaughan Williams ou Henry Mancini contribuíram para um refinamento na arte de associar música à imagem do cinema.