O QUE É MÚSICA CLÁSSICA
Por Filipe Whitaker Salles

A idéia de escrever um livro em que se tenta definir um estilo ou gênero específico da música surgiu, neste caso, pela enorme confusão com que este termo - música clássica - é tratado por instâncias, linguagens e público os mais diversos. Não é uma tarefa fácil, mas, mesmo que fosse, não poderia deixar de enunciar categoricamente que não tenho aqui a menor intenção de 'enquadrar' este ou qualquer outro estilo musical ou artístico dentro de uma prisão estética cuja definição limitaria seu potencial criativo. Isso, me parece, é justamente o que torna esta uma tarefa tão árdua, não do ponto de vista retórico, mas sim do filosófico, pois qualquer definição, para que tenha validade, em si não pode conter o objeto definido. Uma definição que seja abrangente o suficiente para não limitar sua extensão, e que ao mesmo tempo possa dar ao leigo a dimensão real de seus limites, o que pode sem dúvida colocar o autor numa bela enrascada retórica; um paradoxo eminente na idéia de procurar o limite de uma possibilidade ilimitada.
Felizmente, as ciências físicas, quando tiveram que enfrentar semelhante problema na derrubada dos dogmas da mecânica newtoniana, deixaram, através de grandes cientistas, exemplos que para nós são da mais alta contribuição: poupa-nos ter o trabalho de reinventar a roda. No início do século XX, um time de cientistas do mais alto gabarito, como Max Planck, James Clerk Maxwell, mas principalmente, Albert Einstein, nos abriram vastos campos inexplorados de idéias quanto à percepção e funcionamento do mundo físico. Estes cientistas souberam, com uma boa dose de imaginação, mas também com muito conhecimento, traduzir o funcionamento do mundo através de representações matemáticas, modelos e equações que tornam o mundo inteligível ao cérebro. Assim, Einstein nos coloca, pela primeira vez de maneira consciente e explícita, que matéria é energia desacelerada, sendo tudo energia em essência. As conseqüências de suas conclusões são vastas; arriscaria infinitas, mas podemos citar entre elas a relatividade do tempo e do espaço, ou ainda o enigmático postulado de que o universo é finito, porém sem fronteiras . Tais contribuições, se verdadeiras, devem servir a todas as instâncias perceptíveis ou detectáveis em nosso mundo, pois do contrário, seriam falsas em alguma medida. Sendo a música uma percepção física (ondas mecânicas), porém carregadas de um significado, um sentimento, é, em última análise, energia. Portanto, deve estar sujeita às ações das leis de energia, tanto quanto a matéria palpável. Assim, procurarei, no decorrer deste trabalho, estabelecer parâmetros para diminuir a confusão que o termo música clássica acarreta, procurando seguir o teorema de Einstein, isto é, não limitando o que não tem fronteiras. Para isso vou me utilizar de um artifício metafórico: A astronomia
Ora, se a física, quer newtoniana, quer quântica, se utiliza de modelos matemáticos de representação para o entendimento do universo, as artes, por sua vez, também não se apresentam como representações, mimese de sentimentos, emoções e comportamentos, tanto do homem quanto da natureza que o cerca? Assim, teríamos, por analogia, uma mecânica, uma ciência física na relatividade das artes.
Como fica este conceito aplicado à música?

1. UNIVERSO

Consta que, na física quântica, o Universo que percebemos não é o único existente. Ele é apenas uma representação material de energia segundo determinadas freqüências que nossos sentidos são capazes de captar e registrar. Há uma infinidade de outras freqüências que nào conseguimos ver e nem ouvir, algumas nem tampouco captar através de aparelhos (basta lembrar que a luz visível é menos de 1% de todo o espectro eletromagnético conhecido). Analogamente, sendo as artes igualmente representações, podemos considerar a música também um Universo, e, para tanto, será necessário recorrer à imaginação: Imagine que todas as músicas de todo o mundo e de todas as épocas formem um grande Universo; um Universo de sons. Este grande Universo não é vísível a todos, ele se mostra sempre parcialmente, assim como, na música, não se pode conhecer todos os gêneros musicais existentes. Assim, nunca podemos nos esquecer que observamos um universo a partir de um referencial (a própria relatividade de Einstein nos dá este parâmetro), de um ponto de vista, que é, neste caso, ocidental no espaço e contemporâneo no tempo.
Dentro deste grande Universo há infinitos outros universos menores, que são estes gêneros, ou escolas. Tendências estéticas que se traduzem em particularidades específicas, que seguem razões segundo as quais podem ser agrupadas num mesmo gênero musical, com todas as suas subdivisões. Esses universos, gêneros musicais, são todos completos: Têm galáxias, sistemas solares com sóis, planetas, luas; alguns têm também cometas, asteróides, nebulosas e até buracos negros. Cada gênero, sendo um universo, possui infinitas possibilidades, seus estilos e variantes, mas dentro de sua razão, assim como o nosso universo visível. E aí temos a resolução do paradoxo: finito, pela razão que o rege, mas sem fronteiras, pois na sua razão é de possibilidades ilimitadas.
Assim é exatamente aquilo a que chamamos música clássica. Dentro deste grande Universo de sons, a música clássica é mais um universo, regida por uma razão que a qualifica como tal, e que, para que possamos estabelecer o que ela é, basta que procuremos sua razão de existência.
Da mesma maneira como o átomo é a base de toda a matéria no universo que conhecemos, este universo também tem sua base, e é bom estabelecer, desde já, que base, ou bases, são essas, uma vez que assim saberemos mais sobre a constituição deste universo, o que muito facilita para achar sua razão de existência.
Pois bem: Este universo, que tem como base o som, possui um átomo que é a nota musical, e esta nota é constituída de 4 elementos:

Altura - é a que define sua freqüência, e, portanto, permite distinguir a nota
Intensidade - é o que define a força da nota, mais intensa e enérgica (forte), mais suave e doce (piano, do italiano, fraco)
Duração - define por quanto tempo uma nota soa, a partir de seu ataque.
Timbre - define a origem da nota, ou seja, quem foi o seu emissor (instrumento, voz, etc...)

Reunidos estes elementos, em qualquer proporção, costumam ser reconhecidos como músicas neste universo.

2. GALÁXIAS

Se a razão de existência de algo pode ser verificada através de sua constituição e utilidade, devemos procurar conhecer do que são constituídas as várias galáxias que formam este universo. Vamos, portanto, escolher dentre vários universos existentes, o universo da música clássica, e adentrar seus domínios para conhecê-lo melhor. Primeiramente encontramos suas galáxias, seus estilos específicos. As galáxias distinguem-se uma das outras pela maneira com que organizam e dispõe seus 4 elementos (altura, intensidade, duração e timbre), pois há infinitas maneiras de combiná-los sucessivamente. Por esta razão, maneiras semelhantes são agrupadas como sendo de mesmo estilo. E cada autor, em cada estilo, por ser também um alquimista dos 4 elementos, mantém um sistema com suas obras. Estes sistemas contém fontes de energia, sóis, que são os compositores. Cada compositor forma seu sistema, com planetas, luas, asteróides, etc.., suas obras. Um conjunto de autores de mesmo gênero e estilo, com seus sistemas, estão agrupados numa mesma galáxia, por afinidade, apesar de coincidentemente serem contemporâneos.
Entretanto, algumas galáxias, por sua magnitude e complexidade, por vezes são confundidas com o próprio universo que as contém. Portanto, de início, não podemos deixar de considerar aspectos etimológicos: "Música Clássica" é um termo que gera diversas interpretações, e também alguns equívocos, e para isso devemos situá-lo em tempo e espaço: Especificamente na língua portuguesa, música clássica diz respeito a um período historicamente datado e preciso, em que se produziu um determinado estilo de música segundo padrões estéticos muito particulares. É o chamado 'estilo clássico', que vigorou de 1750 a 1827 (ano da morte de Beethoven), e que possui como principais porta-vozes Joseph Haydn, Wolfgang Amadeus Mozart, Ludwig van Beethoven e Franz Schubert. Destarte, qualquer compositor fora deste período, como Chopin, Bach, ou Tchaikovsky, não podem ser considerados 'clássicos' no mesmo sentido. Há portanto, uma cronologia de estilos, tal como se segue:

Período (Galáxia) Idade Local Representantes (Principais Sistemas)
Pré-História      
Antiguidade      
Idade Média      
Renascença 1500 Itália; França Palestrina, Monteverdi
Barroco 1600 - 1750 Alemanha, It. Fr. Bach, Vivaldi, Haendel
Clássico 1750 - 1827 Al. Fr. It. Esp. Haydn, Mozart, Beethoven, Schubert
Romântico
(incluindo Nacionalismo e
Pós-Romantismo)
1827 - 1911 Europa e Américas Schumann, Chopin, Brahms, Tchaikovsky, Strauss, Dvorak, Wagner, Verdi, Mahler
Moderno 1911-1950 Europa, Américas Schoenberg, Berg, Stravinsky, Debussy, Ravel
Contemporâneo 1950 - 2000 Mundo Messiaen, Boulez, Stockhausen

Como vemos, há duas maneiras de nos referirmos a este universo: o primeiro deles é chamá-lo de música clássica, tal como outras línguas admitem, sem confundir o universo com uma de suas galáxias: musique classique (francês), classical music (inglês). A outra é diferenciar os termos, usando música clássica para o estilo, a galáxia, e música erudita para o gênero, o universo. É uma acepção possível e muitas vezes preferida nos meios acadêmicos e também por quem a pratica. Como músicos e instrumentistas se referem constantemente a esta música, é mais fácil diferenciá-las com termos, pois evita muita confusão no dia-a-dia profissional. Claro está, este livro não é sobre este estilo específico dentro de um universo maior, e sim sobre este universo, a música erudita (que até podemos chamar de clássica, mas que se saiba de qual se está falando).

Galáxias mais longínquas: os confins do universo

Cada uma destas galáxias possui uma característica particular, estruturas que as mantém organizadas e coesas; diferencia cada uma delas das demais, embora compartilhem muitas semelhanças extraordinárias. As galáxias mais distantes, em termos de tempo/espaço, possuem sóis que não nos chegam com luz suficiente, ao ponto de podermos classificá-las ou mesmo diferenciá-las. São as galáxias da pré-história, da antigüidade, e grande parte da música medieval. Poucos sóis são identificáveis, apesar de sabermos de sua existência, pois sua energia, conforme o que nos chega, tem características apenas detectáveis. Assim, como não podemos tratá-las segundo seus sistemas solares específicos, temos que considerá-las em seu conjunto. Portanto, sua análise é um pouco genérica, é um mesmo tratamento para toda a galáxia.
De fato, se considerarmos que as galáxias mais distantes são as mais antigas para nós (pois sua luz demora mais tempo para chegar à Terra), analogamente, a música antiga, da pré-história ao início da idade média é também muito obscura. Poucos documentos escritos sobre ela (e até ela própria) chegaram até nós, de tal maneira que sua fonte de pesquisa é baseada em textos muito diversos, como dramatúrgicos, poéticos e religiosos.
Consta que, ao que parece, o princípio de criação musical, ou àquilo que se pode chamar de música como organização sonora com uma intenção específica, sempre existiu nas sociedades humanas. Primeiramente, através de sua função religiosa, e depois, por seu desdobramento estético, a música sempre fez parte da humanidade.
Em muitos países que conservam a tradição oral, principalmente no oriente próximo e extremo, é possível detectar formas musicais primárias que nos chegam quase intactas de uma idade imemorial, músicas de rituais hindus, chineses, persas, que os pais aprenderam dos avós, dos avós, dos bisavós dos bisavós. O célebre violinista Yehudi Menuhin, produziu uma série para a televisão inglesa na década de 80, chamada 'A Música do Homem'. Nestes programas, escritos e comentados por ele mesmo, investigava não só a história da música ocidental, mas também suas raízes do oriente, bem como suas profundas tradições arquetípicas. Num dos programas, Menuhin visita uma tribo africana, e depara-se com o que poderia ser um antepassado do violino, rústico, de uma só corda, feito com bambus, cordas de tripa e uma cabaça como caixa de ressonância, além do arco, mas cujo princípio era idêntico ao violino ocidental. Uma tradição oral, muito antiga, que perdurou por séculos, no coração das sociedades mais diversas. Muito da música mais antiga do mundo pode ser conhecido graças a esta tradição, desde que saibamos separar as influências modernas.
Para o ocidente, a única fonte escrita da participação sonora nos antigos rituais é a Bíblia, que em várias passagens descreve não apenas cantos e instrumentos, mas também alguns sons específicos cuja função ritualística era proeminente.
Entretanto, uma das fontes mais citadas de toda a antigüidade é a Grécia, por ter deixado registros escritos de várias naturezas, entre elas a natureza estética. O grande filósofo e matemático Pitágoras é de importância fundamental para a música: é dele o conceito de Harmonia. E Harmonia, em música, é o princípio de combinação entre dois ou mais sons. Acredita-se que, antes de Pitágoras, as combinações entre vários sons simultâneos, conjuntos instrumentais variados, eram feitos segundo bases intuitivas, segundo conceitos de que era agradável ou desagradável a determinada sociedade. Apesar de não ter deixado documentos escritos, Pitágoras foi o primeiro que descobriu ser esta Harmonia, a sensação de agradável, desagradável, conforto, desconforto, descanso, movimento, uma relação matemática de freqüências, e que tais freqüências, ao se combinarem, produzem resultantes cujas razões matemáticas nos causam determinadas impressões sensíveis.
Pitágoras fez vibrar uma corda e obteve um som. Prendeu a corda na exata metade de sua extensão e a fez vibrar de novo. Obteve uma aquilo que conhecemos por Oitava, ou seja, a mesma nota anterior, só que com o dobro de freqüência (o que seria a mesma nota oitava acima). E, se ele obteve isso dividindo a corda ao meio, concluiu que a oitava era uma relação de 2:1. Repetindo esta mesma experiência em várias razões (subdividindo mais a corda em relação à oitava obtida), Pitágoras chegou ao intervalo de Quarta (razão 4:3) e o intervalo de Quinta (3:2). Na música popular, até hoje é muito comum harmonizar melodias com a Oitava, a Quarta e a Quinta, alternando estes intervalos. Ao descobrir as razões matemáticas das freqüências entre as notas, Pitágoras nos legou a razão pela qual dividimos os intervalos, no ocidente, em 12 semitons (as notas dó, dó#, ré, ré#, mi, fá, fá#, sol, sol#, lá, lá# e si), e outras culturas, como a hindu, ou a chinesa, dividem em outras razões, com mais ou menos notas, dependendo da harmonia que cada sociedade almeja criar. As notas são freqüências, cuja razão entre duas dará seu intervalo. O menor intervalo utilizado no ocidente é o semitom. Assim:
Entre dó - dó# temos um intervalo de ½ tom (o semitom), e entre dó - ré temos 1 tom inteiro, e dizemos que de dó a ré é um intervalo de Segunda maior, de dó a mi, Terça maior, e assim por diante. A sucessão de intervalos ascendentes ou descendentes (quando aumentamos ou diminuímos numa determinada razão as freqüências sucessivamente), temos o que chamamos escala musical. Por exemplo, dó, ré, mi, fá , sol, lá, si e dó é uma escala.
Temos então o seguinte quadro:

Notas Naturais:
Dó Ré Mi Fá Sol Lá Si
Notas alteradas em 1 semitom para cima:
Dó #, Ré#, Fá#, Sol #, Lá#
Notas alteradas em 1 semitom para baixo:
Réb (=Dó#), Mib (=Ré#), Sol b (=Fá#), Láb (=Sol#), Sib (=Lá#)

Repare que não temos Mi sustenido (#), porque é equivalente a Fá natural (entre mi e fá há um semitom natural) nem Si #, pois é equivalente a Dó (entre si e dó também há um semitom natural).
Agora, quando nos referimos à igualdade entre duas notas (chama-se Enarmonia), como por exemplo Ré bemol igual a Dó sustenido, falamos do chamado sistema temperado, que só foi desenvolvido a partir do séc. XVIII. Antes, havia uma diferença entre estas duas e as demais notas enarmônicas, mas cujo ajuste de afinação devemos a J.S.Bach.

Graças a Pitágoras é que hoje sabemos que esta divisão entre os tons e semitons que formam a escala musical não é arbitrária, pois ela está intimamente ligada à freqüência resultante que se quer criar na harmonia musical, e, portanto, suas variações decorrem justamente de uma intenção harmônica. A sensação de agradável para um intervalo de Quinta ou desagradável para um intervalo de Segunda menor (dó - dó#) é causada pela sobreposição das freqüências e sua resultante em relação à freqüência do nosso corpo, razão pela qual sociedades de cultura milenar, como a hindu ou a árabe, são capazes de harmonizar suas músicas com intervalos menores que o semitom, pois têm uma percepção harmônica mais sutil que a nossa.
Ainda na Grécia, Platão, também conhecedor deste princípio e, sabendo ser a constituição humana sujeita a modulações de freqüência (hoje sabemos que o átomo vibra, e portanto está sujeito à influência de outras vibrações, mas no tempo de Platão...), postulou, em sua obra A República, que, para a educação de jovens para o governo de uma sociedade ideal, era imprescindível três disciplinas: a matemática, para o desenvolvimento da mente, a ginástica, para o bem-estar do corpo, e a música, para a elevação do espírito. Mas qualquer música? Não, pois se sabemos que as vibrações sonoras são capazes de alterar estados de ânimo, Platão sugere um tipo de harmonia (ou um tipo de escala musical) para cada ocasião necessária, justamente para que não sejamos influenciados negativamente quando não for conveniente tal harmonia. Para fazer uma imagem mais moderna deste ensinamento platônico, imagine que tipo de música você acharia mais propício que seu filho recém-nascido ouvisse para crescer forte em caráter e bom gosto, e qual tipo você nunca recomendaria para tal.
Na Grécia, cada tipo de harmonia tinha uma escala que lhe dava origem. As escalas são classificadas segundo a distribuição de tons e semitons. Em palavras simples, sabendo que entre dó e ré temos um tom inteiro, mas de mi a fá temos um semitom, conforme começamos a escala em uma ou outra nota, teremos uma distribuição diferente de tons e semitons. Essa distribuição faz toda a diferença na harmonia, pois quando se muda uma escala, se muda uma função. Uma mesma nota exerce funções diferente dependendo da escala em que se encontra. Assim, conforme esta função vai sendo exercida por uma determinada nota (freqüência), temos um resultado, mas quando essa mesma função é exercida por outra freqüência, temos outro resultado, outra harmonia, outra intenção.
Os gregos tinham 7 modos, ou 7 escalas, cada uma começando numa nota, que eram assim chamados:

Jônio
Dórico
Mi Frígio
Lídio
Sol Mixolidio
Eólio
Si Lócrio

Este sistema de modos, ou sistema Modal, perdurou durante muitos anos, da Grécia antiga (aprox. 500 a.C.) até o fim da idade média (aprox. 1350-1400 d.C.)
Assim como hoje, durante todo este período a música também era dividida em gêneros, segundo determinadas intenções que, por sua vez, determinavam escolhas de modos, instrumentos, por vezes letras, etc.., assim como Platão descrevera em sua obra. Mas o filósofo grego que mais exerceu influência nas artes medievais não foi Platão, e sim seu discípulo Aristóteles, através, principalmente, de sua obra Poética, em que descreve estrutural e esteticamente todas as partes constitutivas da Tragédia Grega. Nesta obra, Aristóteles deixa bem claro que, para o mundo grego, não havia diferença entre um espetáculo teatral, musical ou literário. Tudo era um grande conjunto estético que propiciava ao espectador grego uma espécie de performance multimídia em que se combinava a música com a poesia, a ação dramática e com as artes plásticas. Dependendo da intenção do conjunto da obra, uma determinada escala, um modo grego era escolhido, para que a harmonia do conjunto suscitasse o êxtase, a catarse no público.
Muito próximo deste conceito estava ( e ainda está ) a música da Índia, a música hindu. Sua mitologia rica é extraordinária, vale a pena referir-se a ela:
Para o hindu, o universo foi criado a partir de um som (OM), e este som é e está em todas as coisas e todos os seres, sendo o som essência do Universo. Cada deus hindu possui um som próprio que lhe designa, uma espécie de 'assinatura' sonora, sendo que muitos instrumentos da Índia foram trazidos, segundo a lenda, por deuses. Os três deuses representantes máximos do universo metafísico indiano são Brahma, deus da criação, Vishna, deus da preservação, e Shiva, deus da destruição, todos sendo representados por sons mântricos. Admitindo ser o universo um grande ciclo, assim como toda a natureza, que compreende a vida e a morte como processos contínuos (a morte dando lugar sempre à nova vida), assim o som também se constitui : ataque (criação), suspensão (preservação) e queda (destruição). A decorrência disto é que o hindu trata a música com respeito singular, sendo toda a manifestação sonora um signo mimético do Universo, e, em conseqüência, de Deus. Toda a música hindu é respeitada com tal proporção divina, mas existe um gênero, que é, para o hindu, música erudita, pois mimetisa diretamente o movimento do universo neste ciclo de criação e destruição contínuas: o Raga. O Raga indiana não é música popular, necessita de uma predisposição do ouvinte em seguir os passos do executante que improvisa sobre uma nota pedal contínua e ininterrupta, e que vai acrescentando aos poucos outros elementos até uma complexidade rítmica tal que decreta seu término. Os Ragas duram freqüentemente mais de uma hora, são improvisadas e têm um efeito hipnótico que nos remete mais a um ritual do que a uma execução de concerto como as que conhecemos no ocidente. O início corresponde à criação, onde durante muito tempo uma única voz passeia pelos arredores da nota pedal, cantando apenas sílabas soltas sem significação. Segue-se a preservação, que é onde acrescenta-se uma célula rítmica ao canto proferido (antes o canto não segue métrica nenhuma), e finda-se na destruição, quando são acrescentados outros instrumentos e marcações rítmicas diversas, chegando quase ao caos, estágio em que fatalmente deve descompor-se, subitamente, para se reestruturar numa nova criação. Esse ritual mântrico passa por todas as fases do ciclo do universo, promovendo então sua mimese e sendo ela muito mais direcionada ao estado reflexivo, e, consequentemente meditativo, do que para o deleite físico da música. É música para o espírito, e seu deleite advém desta compreensão .
Como podemos observar, a música clássica da Índia também se utilizava do potencial vibratório do som: dependendo do estado de espírito que se queria criar, um tipo de harmonia era utilizado. Realmente, a música das esferas de Pitágoras encontra ampla ressonância na riqueza das antigas culturas!
Mas nosso conceito de música está bem mais próximo, pela tradição ocidental, dos modos gregos, segundo os quais estruturamos nosso próprio sistema tonal. Ainda que, na antiguidade, o sistema grego encontrasse ampla correspondência com o sistema hindu, o processo de ocidentalização tornou a influência grega e indo-européia uma grande mistura, incluindo a cultura celta, árabe, nórdica e demais povos bárbaros.
E assim saímos da História Antiga, e passamos, segundo a divisão didática, à história medieval. Talvez pela grande influência que estes conceitos gregos tenham exercido ao homem medieval, a música era vinculada diretamente ao canto, não existindo propriamente o gênero instrumental puro, tal como conhecemos hoje.


2. SISTEMAS SOLARES

Dentro de cada galáxia há inúmeros sistemas solares. Estes sistemas são regidos, cada um, por um ou mais sóis, do qual emanam toda a energia que mantém vivo o sistema, que permite aos planetas manter seus ecossistemas e suas funções biológicas. Sóis são estrelas, brilhantes, cheias de energia, e que possuem classificação segundo sua ordem de grandeza. O nosso sol, por exemplo é estrela de 5a. grandeza, ou seja, há estrelas muito maiores. Neste universo de sons, há galáxias cujos sistemas possuem sóis tão grandes que chegam a iluminar outros sistemas, de outras galáxias, por vezes muito distantes em tempo e espaço. Estrelas de primeira grandeza. Um destes sóis, imenso, talvez o maior deles, está situado no centro da galáxia Barroca, uma das maiores. É o sistema de Johann Sebastian Bach. Muitos consideram este o sistema mais central de todo o universo. Outros dois sóis, que compartilham uma mesma galáxia, iluminam até os confins deste universo: Wolfgang Amadeus Mozart e Ludwig van Beethoven, ambos da mesma galáxia Clássica (e talvez por isso a confusão entre a galáxia e seu universo). Estes três sóis, juntos, são responsáveis por aproximadamente 60% de toda a energia deste universo. A grande maioria dos demais sóis, apesar de possuirem luz própria, refletem a luz daqueles, pois alimentam-se de sua imensa fonte de energia.
Na galáxia da música romântica, temos muitos sistemas. Alguns possuem características ainda mais específicas, e, por isso, foram agrupados em sub-galáxias, que, apesar de subordinadas à energia de sua galáxia principal, possuem certa autonomia, uma vez que haviam sóis suficientes para tal sub-divisão. As principais correntes da música romântica seguem de maneira concomitante, muitas vezes anacrônicas, e dividem-se da seguinte maneira: O alto romantismo, que é a conseqüência direta do classicismo, representado por Hector Berlioz, Robert Schumann e Felix Mendelssohn. Depois, temos o romantismo nacionalista, ou simplesmente nacionalismo, que despertou a consciência musical de muitos países que até então nunca se destacaram no cenário musical, como a Polônia, Hungria, Tchecoslováquia, Rússia e países nórdicos. Seus principais representantes são Fréderic Chopin, Franz Liszt, Bedrich Smetana, Antonin Dvórak, Piotr Tchaikovsky, e, ainda na rússia, o 'Grupo dos Cinco', composto por Mussorgsky, Rimsky-Korsakov, Borodin, Balakirev e Cui. Paralelamente, o romantismo teve uma vertente operística de imensa relevância, através de Richard Wagner, que criou o conceito de Drama Musical, e ainda nos apresenta o neo-classicismo na figura de Johannes Brahms, bem como o romantismo tardio e anacrônico de Johann Strauss Jr., Sibelius, Rachmaninov, Elgar e Holst. A última corrente romântica (ou que ainda apresenta características românticas) é o chamado pós-romantismo, que já uma transição para a música moderna. Seus representantes mais ilustres são Gustav Mahler e Richard Strauss. É interessante notar que esse grande número de correntes e tendências estilísticas são o produto de uma efervescência cultural de não mais que 80 anos, aproximadamente de 1830 até 1910. Enquanto que outras estéticas formais, como o barroco e o classicismo, perduraram por mais de um século, o romantismo foi muito mais diverso e durou muito menos tempo, talvez como um prenuncio da era moderna que estava por vir.

(Aguarde!! Texto ainda em desenvolvimento!)

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