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O
QUE É MÚSICA CLÁSSICA
Por Filipe Whitaker
Salles
A idéia
de escrever um livro em que se tenta definir um estilo ou gênero
específico da música surgiu, neste caso, pela enorme confusão
com que este termo - música clássica - é tratado
por instâncias, linguagens e público os mais diversos. Não
é uma tarefa fácil, mas, mesmo que fosse, não poderia
deixar de enunciar categoricamente que não tenho aqui a menor intenção
de 'enquadrar' este ou qualquer outro estilo musical ou artístico
dentro de uma prisão estética cuja definição
limitaria seu potencial criativo. Isso, me parece, é justamente
o que torna esta uma tarefa tão árdua, não do ponto
de vista retórico, mas sim do filosófico, pois qualquer
definição, para que tenha validade, em si não pode
conter o objeto definido. Uma definição que seja abrangente
o suficiente para não limitar sua extensão, e que ao mesmo
tempo possa dar ao leigo a dimensão real de seus limites, o que
pode sem dúvida colocar o autor numa bela enrascada retórica;
um paradoxo eminente na idéia de procurar o limite de uma possibilidade
ilimitada.
Felizmente, as ciências físicas, quando tiveram que enfrentar
semelhante problema na derrubada dos dogmas da mecânica newtoniana,
deixaram, através de grandes cientistas, exemplos que para nós
são da mais alta contribuição: poupa-nos ter o trabalho
de reinventar a roda. No início do século XX, um time de
cientistas do mais alto gabarito, como Max Planck, James Clerk Maxwell,
mas principalmente, Albert Einstein, nos abriram vastos campos inexplorados
de idéias quanto à percepção e funcionamento
do mundo físico. Estes cientistas souberam, com uma boa dose de
imaginação, mas também com muito conhecimento, traduzir
o funcionamento do mundo através de representações
matemáticas, modelos e equações que tornam o mundo
inteligível ao cérebro. Assim, Einstein nos coloca, pela
primeira vez de maneira consciente e explícita, que matéria
é energia desacelerada, sendo tudo energia em essência. As
conseqüências de suas conclusões são vastas;
arriscaria infinitas, mas podemos citar entre elas a relatividade do tempo
e do espaço, ou ainda o enigmático postulado de que o universo
é finito, porém sem fronteiras . Tais contribuições,
se verdadeiras, devem servir a todas as instâncias perceptíveis
ou detectáveis em nosso mundo, pois do contrário, seriam
falsas em alguma medida. Sendo a música uma percepção
física (ondas mecânicas), porém carregadas de um significado,
um sentimento, é, em última análise, energia. Portanto,
deve estar sujeita às ações das leis de energia,
tanto quanto a matéria palpável. Assim, procurarei, no decorrer
deste trabalho, estabelecer parâmetros para diminuir a confusão
que o termo música clássica acarreta, procurando seguir
o teorema de Einstein, isto é, não limitando o que não
tem fronteiras. Para isso vou me utilizar de um artifício metafórico:
A astronomia
Ora, se a física, quer newtoniana, quer quântica, se utiliza
de modelos matemáticos de representação para o entendimento
do universo, as artes, por sua vez, também não se apresentam
como representações, mimese de sentimentos, emoções
e comportamentos, tanto do homem quanto da natureza que o cerca? Assim,
teríamos, por analogia, uma mecânica, uma ciência física
na relatividade das artes.
Como fica este conceito aplicado à música?
1. UNIVERSO
Consta que,
na física quântica, o Universo que percebemos não
é o único existente. Ele é apenas uma representação
material de energia segundo determinadas freqüências que nossos
sentidos são capazes de captar e registrar. Há uma infinidade
de outras freqüências que nào conseguimos ver e nem
ouvir, algumas nem tampouco captar através de aparelhos (basta
lembrar que a luz visível é menos de 1% de todo o espectro
eletromagnético conhecido). Analogamente, sendo as artes igualmente
representações, podemos considerar a música também
um Universo, e, para tanto, será necessário recorrer à
imaginação: Imagine que todas as músicas de todo
o mundo e de todas as épocas formem um grande Universo; um Universo
de sons. Este grande Universo não é vísível
a todos, ele se mostra sempre parcialmente, assim como, na música,
não se pode conhecer todos os gêneros musicais existentes.
Assim, nunca podemos nos esquecer que observamos um universo a partir
de um referencial (a própria relatividade de Einstein nos dá
este parâmetro), de um ponto de vista, que é, neste caso,
ocidental no espaço e contemporâneo no tempo.
Dentro deste grande Universo há infinitos outros universos menores,
que são estes gêneros, ou escolas. Tendências estéticas
que se traduzem em particularidades específicas, que seguem razões
segundo as quais podem ser agrupadas num mesmo gênero musical, com
todas as suas subdivisões. Esses universos, gêneros musicais,
são todos completos: Têm galáxias, sistemas solares
com sóis, planetas, luas; alguns têm também cometas,
asteróides, nebulosas e até buracos negros. Cada gênero,
sendo um universo, possui infinitas possibilidades, seus estilos e variantes,
mas dentro de sua razão, assim como o nosso universo visível.
E aí temos a resolução do paradoxo: finito, pela
razão que o rege, mas sem fronteiras, pois na sua razão
é de possibilidades ilimitadas.
Assim é exatamente aquilo a que chamamos música clássica.
Dentro deste grande Universo de sons, a música clássica
é mais um universo, regida por uma razão que a qualifica
como tal, e que, para que possamos estabelecer o que ela é, basta
que procuremos sua razão de existência.
Da mesma maneira como o átomo é a base de toda a matéria
no universo que conhecemos, este universo também tem sua base,
e é bom estabelecer, desde já, que base, ou bases, são
essas, uma vez que assim saberemos mais sobre a constituição
deste universo, o que muito facilita para achar sua razão de existência.
Pois bem: Este universo, que tem como base o som, possui um átomo
que é a nota musical, e esta nota é constituída de
4 elementos:
Altura
- é a que define sua freqüência, e, portanto, permite
distinguir a nota
Intensidade - é o que define a força da nota, mais
intensa e enérgica (forte), mais suave e doce (piano, do italiano,
fraco)
Duração - define por quanto tempo uma nota soa, a
partir de seu ataque.
Timbre - define a origem da nota, ou seja, quem foi o seu emissor
(instrumento, voz, etc...)
Reunidos
estes elementos, em qualquer proporção, costumam ser reconhecidos
como músicas neste universo.
2. GALÁXIAS
Se a razão
de existência de algo pode ser verificada através de sua
constituição e utilidade, devemos procurar conhecer do que
são constituídas as várias galáxias que formam
este universo. Vamos, portanto, escolher dentre vários universos
existentes, o universo da música clássica, e adentrar seus
domínios para conhecê-lo melhor. Primeiramente encontramos
suas galáxias, seus estilos específicos. As galáxias
distinguem-se uma das outras pela maneira com que organizam e dispõe
seus 4 elementos (altura, intensidade, duração e timbre),
pois há infinitas maneiras de combiná-los sucessivamente.
Por esta razão, maneiras semelhantes são agrupadas como
sendo de mesmo estilo. E cada autor, em cada estilo, por ser também
um alquimista dos 4 elementos, mantém um sistema com suas obras.
Estes sistemas contém fontes de energia, sóis, que são
os compositores. Cada compositor forma seu sistema, com planetas, luas,
asteróides, etc.., suas obras. Um conjunto de autores de mesmo
gênero e estilo, com seus sistemas, estão agrupados numa
mesma galáxia, por afinidade, apesar de coincidentemente serem
contemporâneos.
Entretanto, algumas galáxias, por sua magnitude e complexidade,
por vezes são confundidas com o próprio universo que as
contém. Portanto, de início, não podemos deixar de
considerar aspectos etimológicos: "Música Clássica"
é um termo que gera diversas interpretações, e também
alguns equívocos, e para isso devemos situá-lo em tempo
e espaço: Especificamente na língua portuguesa, música
clássica diz respeito a um período historicamente datado
e preciso, em que se produziu um determinado estilo de música segundo
padrões estéticos muito particulares. É o chamado
'estilo clássico', que vigorou de 1750 a 1827 (ano da morte de
Beethoven), e que possui como principais porta-vozes Joseph Haydn, Wolfgang
Amadeus Mozart, Ludwig van Beethoven e Franz Schubert. Destarte, qualquer
compositor fora deste período, como Chopin, Bach, ou Tchaikovsky,
não podem ser considerados 'clássicos' no mesmo sentido.
Há portanto, uma cronologia de estilos, tal como se segue:
| Período
(Galáxia) |
Idade |
Local |
Representantes
(Principais
Sistemas) |
| Pré-História
|
|
|
|
| Antiguidade |
|
|
|
| Idade
Média |
|
|
|
| Renascença |
1500 |
Itália;
França |
Palestrina,
Monteverdi |
| Barroco |
1600
- 1750 |
Alemanha,
It. Fr. |
Bach,
Vivaldi, Haendel |
| Clássico |
1750
- 1827 |
Al.
Fr. It. Esp. |
Haydn,
Mozart, Beethoven, Schubert |
Romântico
(incluindo Nacionalismo e
Pós-Romantismo)
|
1827
- 1911 |
Europa
e Américas |
Schumann,
Chopin, Brahms, Tchaikovsky, Strauss, Dvorak, Wagner, Verdi, Mahler |
| Moderno |
1911-1950 |
Europa,
Américas |
Schoenberg,
Berg, Stravinsky, Debussy, Ravel |
| Contemporâneo
|
1950
- 2000 |
Mundo |
Messiaen,
Boulez, Stockhausen |
Como vemos,
há duas maneiras de nos referirmos a este universo: o primeiro
deles é chamá-lo de música clássica, tal como
outras línguas admitem, sem confundir o universo com uma de suas
galáxias: musique classique (francês), classical
music (inglês). A outra é diferenciar os termos, usando
música clássica para o estilo, a galáxia, e música
erudita para o gênero, o universo. É uma acepção
possível e muitas vezes preferida nos meios acadêmicos e
também por quem a pratica. Como músicos e instrumentistas
se referem constantemente a esta música, é mais fácil
diferenciá-las com termos, pois evita muita confusão no
dia-a-dia profissional. Claro está, este livro não é
sobre este estilo específico dentro de um universo maior, e sim
sobre este universo, a música erudita (que até podemos chamar
de clássica, mas que se saiba de qual se está falando).
Galáxias
mais longínquas: os confins do universo
Cada uma
destas galáxias possui uma característica particular, estruturas
que as mantém organizadas e coesas; diferencia cada uma delas das
demais, embora compartilhem muitas semelhanças extraordinárias.
As galáxias mais distantes, em termos de tempo/espaço, possuem
sóis que não nos chegam com luz suficiente, ao ponto de
podermos classificá-las ou mesmo diferenciá-las. São
as galáxias da pré-história, da antigüidade,
e grande parte da música medieval. Poucos sóis são
identificáveis, apesar de sabermos de sua existência, pois
sua energia, conforme o que nos chega, tem características apenas
detectáveis. Assim, como não podemos tratá-las segundo
seus sistemas solares específicos, temos que considerá-las
em seu conjunto. Portanto, sua análise é um pouco genérica,
é um mesmo tratamento para toda a galáxia.
De fato, se considerarmos que as galáxias mais distantes são
as mais antigas para nós (pois sua luz demora mais tempo para chegar
à Terra), analogamente, a música antiga, da pré-história
ao início da idade média é também muito obscura.
Poucos documentos escritos sobre ela (e até ela própria)
chegaram até nós, de tal maneira que sua fonte de pesquisa
é baseada em textos muito diversos, como dramatúrgicos,
poéticos e religiosos.
Consta que, ao que parece, o princípio de criação
musical, ou àquilo que se pode chamar de música como organização
sonora com uma intenção específica, sempre existiu
nas sociedades humanas. Primeiramente, através de sua função
religiosa, e depois, por seu desdobramento estético, a música
sempre fez parte da humanidade.
Em muitos países que conservam a tradição oral, principalmente
no oriente próximo e extremo, é possível detectar
formas musicais primárias que nos chegam quase intactas de uma
idade imemorial, músicas de rituais hindus, chineses, persas, que
os pais aprenderam dos avós, dos avós, dos bisavós
dos bisavós. O célebre violinista Yehudi Menuhin, produziu
uma série para a televisão inglesa na década de 80,
chamada 'A Música do Homem'. Nestes programas, escritos e comentados
por ele mesmo, investigava não só a história da música
ocidental, mas também suas raízes do oriente, bem como suas
profundas tradições arquetípicas. Num dos programas,
Menuhin visita uma tribo africana, e depara-se com o que poderia ser um
antepassado do violino, rústico, de uma só corda, feito
com bambus, cordas de tripa e uma cabaça como caixa de ressonância,
além do arco, mas cujo princípio era idêntico ao violino
ocidental. Uma tradição oral, muito antiga, que perdurou
por séculos, no coração das sociedades mais diversas.
Muito da música mais antiga do mundo pode ser conhecido graças
a esta tradição, desde que saibamos separar as influências
modernas.
Para o ocidente, a única fonte escrita da participação
sonora nos antigos rituais é a Bíblia, que em várias
passagens descreve não apenas cantos e instrumentos, mas também
alguns sons específicos cuja função ritualística
era proeminente.
Entretanto, uma das fontes mais citadas de toda a antigüidade é
a Grécia, por ter deixado registros escritos de várias naturezas,
entre elas a natureza estética. O grande filósofo e matemático
Pitágoras é de importância fundamental para a música:
é dele o conceito de Harmonia. E Harmonia, em música, é
o princípio de combinação entre dois ou mais sons.
Acredita-se que, antes de Pitágoras, as combinações
entre vários sons simultâneos, conjuntos instrumentais variados,
eram feitos segundo bases intuitivas, segundo conceitos de que era agradável
ou desagradável a determinada sociedade. Apesar de não ter
deixado documentos escritos, Pitágoras foi o primeiro que descobriu
ser esta Harmonia, a sensação de agradável, desagradável,
conforto, desconforto, descanso, movimento, uma relação
matemática de freqüências, e que tais freqüências,
ao se combinarem, produzem resultantes cujas razões matemáticas
nos causam determinadas impressões sensíveis.
Pitágoras fez vibrar uma corda e obteve um som. Prendeu a corda
na exata metade de sua extensão e a fez vibrar de novo. Obteve
uma aquilo que conhecemos por Oitava, ou seja, a mesma nota anterior,
só que com o dobro de freqüência (o que seria a mesma
nota oitava acima). E, se ele obteve isso dividindo a corda ao meio, concluiu
que a oitava era uma relação de 2:1. Repetindo esta mesma
experiência em várias razões (subdividindo mais a
corda em relação à oitava obtida), Pitágoras
chegou ao intervalo de Quarta (razão 4:3) e o intervalo de Quinta
(3:2). Na música popular, até hoje é muito comum
harmonizar melodias com a Oitava, a Quarta e a Quinta, alternando estes
intervalos. Ao descobrir as razões matemáticas das freqüências
entre as notas, Pitágoras nos legou a razão pela qual dividimos
os intervalos, no ocidente, em 12 semitons (as notas dó, dó#,
ré, ré#, mi, fá, fá#, sol, sol#, lá,
lá# e si), e outras culturas, como a hindu, ou a chinesa, dividem
em outras razões, com mais ou menos notas, dependendo da harmonia
que cada sociedade almeja criar. As notas são freqüências,
cuja razão entre duas dará seu intervalo. O menor intervalo
utilizado no ocidente é o semitom. Assim:
Entre dó - dó# temos um intervalo de ½ tom (o semitom),
e entre dó - ré temos 1 tom inteiro, e dizemos que de dó
a ré é um intervalo de Segunda maior, de dó a mi,
Terça maior, e assim por diante. A sucessão de intervalos
ascendentes ou descendentes (quando aumentamos ou diminuímos numa
determinada razão as freqüências sucessivamente), temos
o que chamamos escala musical. Por exemplo, dó, ré, mi,
fá , sol, lá, si e dó é uma escala.
Temos então o seguinte quadro:
Notas
Naturais:
Dó Ré Mi Fá Sol Lá Si
Notas alteradas em 1 semitom para cima:
Dó #, Ré#, Fá#, Sol #, Lá#
Notas alteradas em 1 semitom para baixo:
Réb (=Dó#), Mib (=Ré#), Sol b (=Fá#), Láb
(=Sol#), Sib (=Lá#)
Repare que
não temos Mi sustenido (#), porque é equivalente a Fá
natural (entre mi e fá há um semitom natural) nem Si #,
pois é equivalente a Dó (entre si e dó também
há um semitom natural).
Agora, quando nos referimos à igualdade entre duas notas (chama-se
Enarmonia), como por exemplo Ré bemol igual a Dó sustenido,
falamos do chamado sistema temperado, que só foi desenvolvido a
partir do séc. XVIII. Antes, havia uma diferença entre estas
duas e as demais notas enarmônicas, mas cujo ajuste de afinação
devemos a J.S.Bach.
Graças
a Pitágoras é que hoje sabemos que esta divisão entre
os tons e semitons que formam a escala musical não é arbitrária,
pois ela está intimamente ligada à freqüência
resultante que se quer criar na harmonia musical, e, portanto, suas variações
decorrem justamente de uma intenção harmônica. A sensação
de agradável para um intervalo de Quinta ou desagradável
para um intervalo de Segunda menor (dó - dó#) é causada
pela sobreposição das freqüências e sua resultante
em relação à freqüência do nosso corpo,
razão pela qual sociedades de cultura milenar, como a hindu ou
a árabe, são capazes de harmonizar suas músicas com
intervalos menores que o semitom, pois têm uma percepção
harmônica mais sutil que a nossa.
Ainda na Grécia, Platão, também conhecedor deste
princípio e, sabendo ser a constituição humana sujeita
a modulações de freqüência (hoje sabemos que
o átomo vibra, e portanto está sujeito à influência
de outras vibrações, mas no tempo de Platão...),
postulou, em sua obra A República, que, para a educação
de jovens para o governo de uma sociedade ideal, era imprescindível
três disciplinas: a matemática, para o desenvolvimento da
mente, a ginástica, para o bem-estar do corpo, e a música,
para a elevação do espírito. Mas qualquer música?
Não, pois se sabemos que as vibrações sonoras são
capazes de alterar estados de ânimo, Platão sugere um tipo
de harmonia (ou um tipo de escala musical) para cada ocasião necessária,
justamente para que não sejamos influenciados negativamente quando
não for conveniente tal harmonia. Para fazer uma imagem mais moderna
deste ensinamento platônico, imagine que tipo de música você
acharia mais propício que seu filho recém-nascido ouvisse
para crescer forte em caráter e bom gosto, e qual tipo você
nunca recomendaria para tal.
Na Grécia, cada tipo de harmonia tinha uma escala que lhe dava
origem. As escalas são classificadas segundo a distribuição
de tons e semitons. Em palavras simples, sabendo que entre dó e
ré temos um tom inteiro, mas de mi a fá temos um semitom,
conforme começamos a escala em uma ou outra nota, teremos uma distribuição
diferente de tons e semitons. Essa distribuição faz toda
a diferença na harmonia, pois quando se muda uma escala, se muda
uma função. Uma mesma nota exerce funções
diferente dependendo da escala em que se encontra. Assim, conforme esta
função vai sendo exercida por uma determinada nota (freqüência),
temos um resultado, mas quando essa mesma função é
exercida por outra freqüência, temos outro resultado, outra
harmonia, outra intenção.
Os gregos tinham 7 modos, ou 7 escalas, cada uma começando numa
nota, que eram assim chamados:
| Dó |
Jônio |
| Ré |
Dórico |
| Mi |
Frígio
|
| Fá |
Lídio
|
| Sol |
Mixolidio |
| Lá |
Eólio |
| Si |
Lócrio |
Este sistema
de modos, ou sistema Modal, perdurou durante muitos anos, da Grécia
antiga (aprox. 500 a.C.) até o fim da idade média (aprox.
1350-1400 d.C.)
Assim como hoje, durante todo este período a música também
era dividida em gêneros, segundo determinadas intenções
que, por sua vez, determinavam escolhas de modos, instrumentos, por vezes
letras, etc.., assim como Platão descrevera em sua obra. Mas o
filósofo grego que mais exerceu influência nas artes medievais
não foi Platão, e sim seu discípulo Aristóteles,
através, principalmente, de sua obra Poética, em
que descreve estrutural e esteticamente todas as partes constitutivas
da Tragédia Grega. Nesta obra, Aristóteles deixa bem claro
que, para o mundo grego, não havia diferença entre um espetáculo
teatral, musical ou literário. Tudo era um grande conjunto estético
que propiciava ao espectador grego uma espécie de performance multimídia
em que se combinava a música com a poesia, a ação
dramática e com as artes plásticas. Dependendo da intenção
do conjunto da obra, uma determinada escala, um modo grego era escolhido,
para que a harmonia do conjunto suscitasse o êxtase, a catarse no
público.
Muito próximo deste conceito estava ( e ainda está ) a música
da Índia, a música hindu. Sua mitologia rica é extraordinária,
vale a pena referir-se a ela:
Para o hindu, o universo foi criado a partir de um som (OM), e este som
é e está em todas as coisas e todos os seres, sendo o som
essência do Universo. Cada deus hindu possui um som próprio
que lhe designa, uma espécie de 'assinatura' sonora, sendo que
muitos instrumentos da Índia foram trazidos, segundo a lenda, por
deuses. Os três deuses representantes máximos do universo
metafísico indiano são Brahma, deus da criação,
Vishna, deus da preservação, e Shiva, deus da destruição,
todos sendo representados por sons mântricos. Admitindo ser o universo
um grande ciclo, assim como toda a natureza, que compreende a vida e a
morte como processos contínuos (a morte dando lugar sempre à
nova vida), assim o som também se constitui : ataque (criação),
suspensão (preservação) e queda (destruição).
A decorrência disto é que o hindu trata a música com
respeito singular, sendo toda a manifestação sonora um signo
mimético do Universo, e, em conseqüência, de Deus. Toda
a música hindu é respeitada com tal proporção
divina, mas existe um gênero, que é, para o hindu, música
erudita, pois mimetisa diretamente o movimento do universo neste ciclo
de criação e destruição contínuas:
o Raga. O Raga indiana não é música popular, necessita
de uma predisposição do ouvinte em seguir os passos do executante
que improvisa sobre uma nota pedal contínua e ininterrupta, e que
vai acrescentando aos poucos outros elementos até uma complexidade
rítmica tal que decreta seu término. Os Ragas duram freqüentemente
mais de uma hora, são improvisadas e têm um efeito hipnótico
que nos remete mais a um ritual do que a uma execução de
concerto como as que conhecemos no ocidente. O início corresponde
à criação, onde durante muito tempo uma única
voz passeia pelos arredores da nota pedal, cantando apenas sílabas
soltas sem significação. Segue-se a preservação,
que é onde acrescenta-se uma célula rítmica ao canto
proferido (antes o canto não segue métrica nenhuma), e finda-se
na destruição, quando são acrescentados outros instrumentos
e marcações rítmicas diversas, chegando quase ao
caos, estágio em que fatalmente deve descompor-se, subitamente,
para se reestruturar numa nova criação. Esse ritual mântrico
passa por todas as fases do ciclo do universo, promovendo então
sua mimese e sendo ela muito mais direcionada ao estado reflexivo, e,
consequentemente meditativo, do que para o deleite físico da música.
É música para o espírito, e seu deleite advém
desta compreensão .
Como podemos observar, a música clássica da Índia
também se utilizava do potencial vibratório do som: dependendo
do estado de espírito que se queria criar, um tipo de harmonia
era utilizado. Realmente, a música das esferas de Pitágoras
encontra ampla ressonância na riqueza das antigas culturas!
Mas nosso conceito de música está bem mais próximo,
pela tradição ocidental, dos modos gregos, segundo os quais
estruturamos nosso próprio sistema tonal. Ainda que, na antiguidade,
o sistema grego encontrasse ampla correspondência com o sistema
hindu, o processo de ocidentalização tornou a influência
grega e indo-européia uma grande mistura, incluindo a cultura celta,
árabe, nórdica e demais povos bárbaros.
E assim saímos da História Antiga, e passamos, segundo a
divisão didática, à história medieval. Talvez
pela grande influência que estes conceitos gregos tenham exercido
ao homem medieval, a música era vinculada diretamente ao canto,
não existindo propriamente o gênero instrumental puro, tal
como conhecemos hoje.
2. SISTEMAS SOLARES
Dentro de
cada galáxia há inúmeros sistemas solares. Estes
sistemas são regidos, cada um, por um ou mais sóis, do qual
emanam toda a energia que mantém vivo o sistema, que permite aos
planetas manter seus ecossistemas e suas funções biológicas.
Sóis são estrelas, brilhantes, cheias de energia, e que
possuem classificação segundo sua ordem de grandeza. O nosso
sol, por exemplo é estrela de 5a. grandeza, ou seja, há
estrelas muito maiores. Neste universo de sons, há galáxias
cujos sistemas possuem sóis tão grandes que chegam a iluminar
outros sistemas, de outras galáxias, por vezes muito distantes
em tempo e espaço. Estrelas de primeira grandeza. Um destes sóis,
imenso, talvez o maior deles, está situado no centro da galáxia
Barroca, uma das maiores. É o sistema de Johann Sebastian Bach.
Muitos consideram este o sistema mais central de todo o universo. Outros
dois sóis, que compartilham uma mesma galáxia, iluminam
até os confins deste universo: Wolfgang Amadeus Mozart e Ludwig
van Beethoven, ambos da mesma galáxia Clássica (e talvez
por isso a confusão entre a galáxia e seu universo). Estes
três sóis, juntos, são responsáveis por aproximadamente
60% de toda a energia deste universo. A grande maioria dos demais sóis,
apesar de possuirem luz própria, refletem a luz daqueles, pois
alimentam-se de sua imensa fonte de energia.
Na galáxia da música romântica, temos muitos sistemas.
Alguns possuem características ainda mais específicas, e,
por isso, foram agrupados em sub-galáxias, que, apesar de subordinadas
à energia de sua galáxia principal, possuem certa autonomia,
uma vez que haviam sóis suficientes para tal sub-divisão.
As principais correntes da música romântica seguem de maneira
concomitante, muitas vezes anacrônicas, e dividem-se da seguinte
maneira: O alto romantismo, que é a conseqüência direta
do classicismo, representado por Hector Berlioz, Robert Schumann e Felix
Mendelssohn. Depois, temos o romantismo nacionalista, ou simplesmente
nacionalismo, que despertou a consciência musical de muitos países
que até então nunca se destacaram no cenário musical,
como a Polônia, Hungria, Tchecoslováquia, Rússia e
países nórdicos. Seus principais representantes são
Fréderic Chopin, Franz Liszt, Bedrich Smetana, Antonin Dvórak,
Piotr Tchaikovsky, e, ainda na rússia, o 'Grupo dos Cinco', composto
por Mussorgsky, Rimsky-Korsakov, Borodin, Balakirev e Cui. Paralelamente,
o romantismo teve uma vertente operística de imensa relevância,
através de Richard Wagner, que criou o conceito de Drama Musical,
e ainda nos apresenta o neo-classicismo na figura de Johannes Brahms,
bem como o romantismo tardio e anacrônico de Johann Strauss Jr.,
Sibelius, Rachmaninov, Elgar e Holst. A última corrente romântica
(ou que ainda apresenta características românticas) é
o chamado pós-romantismo, que já uma transição
para a música moderna. Seus representantes mais ilustres são
Gustav Mahler e Richard Strauss. É interessante notar que esse
grande número de correntes e tendências estilísticas
são o produto de uma efervescência cultural de não
mais que 80 anos, aproximadamente de 1830 até 1910. Enquanto que
outras estéticas formais, como o barroco e o classicismo, perduraram
por mais de um século, o romantismo foi muito mais diverso e durou
muito menos tempo, talvez como um prenuncio da era moderna que estava
por vir.
(Aguarde!! Texto ainda em desenvolvimento!)
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