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Italia o Italia: A Construção de Um Território Através da Fotografia

Por Felipe Abreu

O fotolivro Italia o Italia de Federico Clavarino explora  uma Itália em ruínas e inabitada e narra-a fazendo dela um labirinto.

 Para experienciar o fotolivro de maneira integral, assista: https://www.youtube.com/watch?v=c_YfnVoiuRY

As publicações acompanham quase toda a história da fotografia. Os primeiros livros com ensaios fotográficos datam da metade do século XIX e não houve um período em que a imagem fotográfica e os livros não caminhassem lado a lado. Apesar desta longeva parceria, que se fortalece e complexifica desde a última década do século passado, os esforços dedicados ao entendimento da construção narrativa destas obras só parece ter se consolidado no século XXI. Estas publicações, em sua maioria chamadas de fotolivros, possuem especificidades de organização visual que justificam uma análise dedicada não às imagens em si, mas às conexões criadas por elas. Mais do que debruçar-se sobre fotografias, é necessário observar o que se constrói entre elas.

O sequenciamento ou edição de imagens pensado para fotolivros vai beber de diversas fontes: há elementos da música, da poesia, da literatura e do cinema. Este último, aliás, me parece um dos melhores caminhos para entender este processo criativo, especialmente se nos concentrarmos nas criações do cinema russo do início do século XX e seus esforços de montagem. Privados de som e com ambiciosos desejos narrativos, estes filmes construíram associações visuais complexas, lidando com o tempo e o espaço fílmico de uma maneira que ressoa em uma série de projetos fotográficos contemporâneos.

O livro Italia o Italia, que será comentado a seguir, tem em sua organização visual elementos que podem ser ligados à construção temporal utilizada pelo cinema e uma sensação de território construída através de imagens que pode ser igualmente conectada a esforços cinematográficos. Federico Clavarino, fotógrafo italiano que realizou parte considerável de sua formação fotográfica na escola Blank Paper em Madrid, lida em seu terceiro livro com sua terra natal, suas idiossincrasias e uma sensação de vazies e imobilidade de uma território em que as ruínas do passado parecem mais próximas do que as construções de seu presente.

Para criar este ambiente, as fotografias do trabalho são tomadas de uma estaticidade marcante, com passagens e caminhos que sempre parecem levar a mais uma parede de tijolos. Este labirinto construtivo, que pouco a pouco toma as páginas do livro, cerca o espectador que se vê envolvido por este espaço habitado e ao mesmo tempo extremamente vazio. Ao restringir seu olhar fotográfico e direcioná-lo para estas quinas, paredes e caminhos fechados, Clavarino assume como narrador uma postura cerceadora, que transmite ao observador a sensação de um espaço congelado no tempo, como é a Itália apresentada neste livro.

Além desta organização territorial, a sequência criada para este fotolivro também faz uso de pequenas repetições, indicando uma passagem de tempo que não se completa, não leva seus personagens e espaços a nenhum novo estado. Estes movimentos, como micro-metragens, sugerem uma transformação inacabada, uma ilusão na quebra de estaticidade destas imagens, porém que não leva estes espaços a nenhum novo estado ou significação.

As repetições não estão apenas presentes como estes falsos transformadores, mas também ajudam a construir o leque de símbolos aproveitados pelo autor para este livro. Estes motifs podem atravessar imagens de diferentes ambientes, como uma organização de pontos que aparece entre paredes, estátuas e construções abstratas, ou ser o símbolo central em uma série de imagens, como as mãos que atravessam o livro, apontando para locais que não se pode ver, em gestos escultóricos ou altivos. 

A sequência visual de Clavarino não tem como objetivo final construir uma narrativa linear, que transporte seu espectador de um ponto A até B, mas são suas associações visuais, recortes espaciais e motifs muito bem utilizados que terminam por construir esta atmosfera que coloca o autor não só como um criador de imagens, mas como um exímio construtor de espaços e sensações. Sua simbologia visual e a maneira com que elementos são transportados de uma imagem a outra produzindo singelas conexões o aproxima de um pensamento cinematográfico que consegue construir um território apesar dos extensos hiatos presentes dentro de sua criação, dando uma ilusão de continuidade a esta narrativa visual.

Italia o Italia é um dentre muitos fotolivros que se propõe a utilizar a sequência como forma primordial de construção narrativa e conceitual. Dentro deste mundo rico de técnicas e experimentações, o cinema pode ser um dos caminhos para se entender este processo criativo. Mais do que isso, o estudo da sequência fotográfica em publicações ainda é um campo a ser profundamente explorado, permitindo a busca constante por novos entendimentos, associações e construções visuais.