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Autores, diretores e técnicos em entrevistas exclusivas para Mnemocine

Priscila Tapajoara - Por Um Cinema Indígena

 

Priscila nasceu em Santarém no Pará. De família formada por Tapajós e Tupinambás, apesar de só ter tido contato com a primeira metade, a cineasta de 26 anos começou a desbravar o audiovisual ainda nas primeiras câmeras digitais, que usava para registrar a biodiversidade e os costumes de sua região.

 

Formada em engenharia ambiental pelo seu estado natal, ela veio a conhecer a história do cinema e se apaixonar pela Nouvelle Vague já em São Paulo, onde estudou produção audiovisual. Hoje, trabalha com cineastas como Carlos Magalhães e Luis Bolognesi, além de ser colaboradora da página Mídia Índia, de notícias sobre a causa. Apesar do alcance que já conseguiu, seu sonho ainda é produzir um cinema cem por cento indígena:

 

Julia: Hoje se fala muito nas diferenças entre indígenas urbanos e aldeados, de que contexto você e a sua família vêm?

Priscila: Eu nasci na cidade, meus avós que nasceram nas comunidades, em lugares diferentes da região de Santarém. Devido à questão histórica e tal, eles saíram e foram morar na cidade. Eles moraram em comunidades, tanto indígena quanto não indígena, que não se reconhece como indígena, né? Moraram lá um tempo e depois foram pra cidade.

 

Julia: Você falou que eles moraram em comunidades que não se reconhecem como indígena…

 

Priscila: Então, é porque lá no Tapajós o que que acontece? De alguns anos pra cá, aquelas comunidades que se reconheciam como ribeirinhas passaram a se reconhecer como indígenas. Os antropólogos costumam chamar de um movimento de ressurgimento, mas não é um processo de ressurgimento… ali na região do baixo Tapajós, ali na nossa região, sempre foram comunidades indígenas que viveram ali, só que por muito tempo essas pessoas mais velhas tiveram que se esconder e negar suas origens pra que elas não morressem e não sofressem tanto preconceito assim. Mas o dia-a-dia da comunidade, a questão cultural, tudo é indígena! Então, nos anos 90, o CITA [Conselho Indígena Tapajós Arapiuns] fez um trabalho junto com antropólogos indígenas de conscientização, e a partir daí, muitas comunidades que não se reconheciam como aldeias passaram a se reconhecer.

 

Julia: E qual é a primeira experiência com o cinema que você lembra de ter na sua vida?

 

Priscila: Então… eu assistia na televisão os filmes, mas na verdade…. eu acho que eu não gostava muito de cinema quando eu era criança. Eu gostava mais de sair pra brincar do que ficar na frente da televisão. Eu não tinha muita curiosidade de saber como era feito e tudo mais, eu sei que quando fui ter um celular (na minha adolescência foi isso), tive um celular que tirava foto e não era de boa qualidade, era um celular de péssima qualidade, aí comecei a tirar foto de plantas e de flores, que era o que eu adorava, do rio…

 

Teve uma época que eu tive um namorado que tinha uma camerazinha digital, e aí eu ia tirando foto com ela pra todo lugar que eu ia. Meu pai que me estimulou, ele falou: Ah, tu gosta disso, né? Tu gosta de fotografia. E eu: É… eu gosto…

 

Eu me lembro que… assim, a minha família é bem pobre. O meu avô era pescador, a minha família é de pescador uma parte e a outra parte…. uma avó era tacacazeira e minha outra avó era empregada doméstica, lavadeira, né, na verdade. Daí, teve uma vez que algum amigo da minha avó levou lá em casa umas máquinas dessas que ainda eram de filme, e me deu pra tirar fotos. Eu adorei, tirei várias fotos…

 

Meu pai tinha um amigo que era fotógrafo e ele ia dar um curso em Santarém de fotografia básica, meu pai pediu uma bolsa pra ele e ele me deu. Foi aí que eu fiz o curso, mas não tinha câmera, não tinha nada… ia pegando emprestado dos outros, tirando foto, fui aprendendo e estudando. Comecei a fazer uns trabalhos de foto lá em Santarém, sempre gostei mais de registrar coisas da minha região, o dia-a-dia, a paisagem…

Então eu pensei: “Acho que eu quero aprimorar isso, quero aprender a fazer vídeo”. Só que lá em Santarém não tinha, não tinha contato, não tinha nada assim. Eu já fazia faculdade na cidade, um curso que integrava quatro cursos: engenharia sanitária e ambiental, engenharia de pesca, biologia e gestão ambiental. Nesse tempo eu trabalhei, juntei dinheiro e comprei uma câmera básica. E aí eu vim pra cá [São Paulo] e foi onde eu conheci o curso que eu ia fazer, que era de produção audiovisual. Me inscrevi no FAPCOM e ganhei uma bolsa.

 

Julia: E agora você mora entre São Paulo e Santarém?

 

Priscila: Não, eu moro em São Paulo, vou pra Santarém de vez em quando só pra visitar mesmo.

 

Julia: Você gosta, então, desse cinema mais clássico? No sentido de filme narrativo ou não, mas dos que passam em cinema, que fogem dessa estética de vídeo de internet.

 

Priscila: Gosto!

 

Julia: E o que você gosta? O que você assistiu e pensou: Ah, agora sim eu gosto de cinema?

 

Priscila: Quando eu mudei pra cá, passei a gostar mais de assistir filmes, e quando comecei a estudar, abri mais a minha visão. Eu sempre gostei muito de documentário e acho que a minha área no cinema é a fotografia, é com o que eu me identifico, quando assisto é nisso que eu presto atenção. Depois que aprendi a olhar pra isso, tanto no cinema quanto na TV, nas novelas e tal, é o que mais me chama a atenção.

 

Depois que comecei a estudar, fui vendo os movimentos que aconteceram na história do cinema, fui gostando mais ainda. Eu sou apaixonada pela Nouvelle Vague, que é o movimento francês, gosto muito! Acho que se eu fosse fazer cinema de ficção, seria mais nessa vibe. Assim como o cinema que teve aqui, o Cinema Novo, eu acho muito bonito os filmes do Nelson Pereira, que são filmes que estão mais próximos do real. Acho que eu gosto do trabalho mais documental, gosto de vivenciar, gosto de estar lá com as pessoas, de conversar, de sentir o que elas estão falando e o que elas estão vivendo, eu gosto mais disso do que da ficção em si.

 

Julia: Porque é tudo muito artificial, é isso?

 

Priscila: É. Eu acho incrível o mundo da ficção, acho muito bonito, gosto, mas não é o que me move.

 

Julia: E dos filmes de temática indígena, tem algum que te interessa? Que você assistiu e gostou? Ou você acha que o filme que você gostaria de ver ainda não foi feito?

 

Priscila: O filme que eu gostaria de ver seria um filme totalmente produzido por indígenas, seria uma coisa totalmente diferente. Os filmes que existem hoje são interessantes, são legais, mas acho que é isso, chegou o momento em que a gente tem que ocupar esse espaço e produzir filmes pra cinema mesmo, pra vender. Só que assim, ainda estamos nesse processo de nos capacitar, né? Porque o mercado do audiovisual, do cinema, é um mercado muito preconceituoso, muito elitista, então é difícil conseguir trabalho em grandes produções, ganhar bem como você tem que ganhar… então meu sonho é fazer um filme que seja inteiro produzido por indígenas porque acho que vai ser bem diferente e bem mais legal do que os que tem por aí. Não que sejam ruins! Acho que são muito bons os filmes que tem, muitas das pessoas que trabalham com esse tipo de filmes são pessoas que estão ali pela causa e tudo mais, mas é isso, acho que chegou o momento de ocupar esse lugar e falar por nós mesmos.

 

Os filmes que eu gosto são “Martíro” [Ernesto de Carvalho, Tatiana Almeida e Vincent Carelli] por exemplo, foi um filme que me fez chorar muito e tem indígenas na produção dele. Tem o “Ara Pyau” [Carlos Eduardo Magalhães], que foi o filme que eu participei, muito bom também. A série que estou fazendo agora [“Sou moderno, sou índio” de Carlos Eduardo Magalhães], que tá linda…

 

Julia: Você gostaria de fazer um filme sobre a sua região lá em Santarém ou você tem um interesse mais amplo sobre as causas indígenas no geral?

 

Priscila: Não, o meu interesse é mais amplo, é de fazer filmes com outros parentes que falem sobre as suas regiões. Mas sim, eu tenho vontade de fazer filmes que falem sobre a minha região e o que tá acontecendo lá. Por exemplo, esse projeto que eu estou participando [“Amazônia, a nova Minamata?”], que fala sobre o mercúrio, é um projeto que eu já queria fazer, então quando recebi o convite, fiquei muito feliz! Porque é algo que é muito relevante, acontece ali na Amazônia há muito tempo e as pessoas não sabem, as pessoas não tem muita consciência do que o mercúrio pode causar na nossa vida. Então eu gosto de falar da minha região, da nossa cultura, da nossa luta e da beleza dela, sempre que eu posso faço um videozinho curto de lá e jogo nas redes sociais, mas também gosto da diversidade da cultura indígena, dessa questão de a gente estar inserido nesse mundo que acham que não é da gente e é também.

 

Julia: Qual você acha que é a diferença estética entre filmes produzidos por indígenas e por não-indígenas?

 

Priscila: Acho que tem uma questão de sensibilidade, porque tem o tempo indígena, sabe? De você não sair cortando o filme, ter hora pra cortar, a pausa de sentir realmente o que está acontecendo ali, porque você vê que geralmente as pessoas picotam muito.

 

Julia: Você assiste vídeos na internet, vlogs, essas coisas?

 

Priscila: Não muito, eu só assisto vlogs sobre cinema e tutoriais.

 

Julia: E como é a sua atuação no Mídia Índia?

 

Priscila: Eu sou uma das colaboradoras, então quando vai ter um evento, a ATL [Acampamento Terra Livre] por exemplo, eu vou e cubro com fotos e vídeos, só que quando estou aqui em São Paulo e não tem eventos indígenas eu fico postando nas redes sociais.

Julia: E os indígenas que trabalham com o Mídia Índia são todos urbanos ou vêm de vários contextos?

 

Priscila: De vários contextos, tanto urbanos quanto aldeados. E são de várias etnias.

 

Julia: Quem formou esse grupo? Como vocês se organizaram?

 

Priscila: Quem formou foi o Erisvan e o Flávio Guajajara, vem de um projeto que eles tinham lá no Maranhão pra ensinar audiovisual na aldeia. O Erisvan é formado em jornalismo e ele tinha essa vontade de formar um canal totalmente indígena, assim nasceu o Mídia Índia. No começo, era mais regional, mas eles queriam ampliar  pra um projeto nacional e foi crescendo, eles foram conhecendo indígenas de outras regiões e chamando eles pra serem colaboradores. Hoje, se eu não me engano, tem dez colaboradores fixos, mas temos colaboradores em todas as regiões que mandam notícias pra gente e a gente joga nas redes.

 

Julia: E então, mesmo você gostando mais de cinema no sentido mais clássico, você também trabalha com vídeos pra internet, no fim.

 

Priscila: Sim! Porque as redes sociais têm essa coisa do alcance. A nossa página já tem mais de 20 mil curtidas, é muita gente! Se a gente coloca um conteúdo bom, viraliza muito rápido. E a gente consegue essas notícias diretamente com os nossos parentes nas suas regiões, não tem essa coisa de fake news.

 

Tem muita coisa que tá acontecendo hoje no Brasil, que as pessoas só vão saber porque tinha alguém ali na hora que a coisa aconteceu, gravando e fotografando. Por isso que a gente tem que fazer por nós mesmos, porque as grandes mídias nunca vão olhar pra gente.

 

 

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