logo mnemocine

noite.png

           facebookm   b contato  

As vidas evaporadas em “O Século da Fumaça”

 

Screen Shot 2019-10-18 at 22.28.03.png

 

A cena de abertura do filme poderia ser um resumo da obra como um todo. Um homem fuma ópio deitado ao lado de duas crianças sem se importar com elas, a satisfação do seu vício não é ansiosa ou desesperada, mas absolutamente resignada. Sua esposa o observa com uma terceira criança no colo, desconsolada, sem qualquer agência. Já nesse momento entendemos o fantasma que paira sobre aquela comunidade.

 

Qualquer um que já tentou fazer uma entrevista, reportagem ou documentário sabe como é difícil mergulhar no universo de outra pessoa, especialmente quando ela é de um contexto muito diferente do seu. Por isso é impressionante como em “O Século da Fumaça” o diretor Nicolas Graux consegue acompanhar com tanta intimidade a vida dos moradores de uma vila no Laos.

 

Além disso, traz algum alívio ou prazer ser apresentado ao imaginário de um filme de forma tão poética, ainda que triste, sem um prólogo de explicação que já nos diga imediatamente o que pensar. Sem cortes bruscos que já determinem rapidamente os arquétipos do filme e suas funções narrativas. E se o filme não cai nas saídas fáceis do audiovisual mais comercial, também não força tempos mortos, como acontece em boa parte da produção independente. 

 

Cada cena, arrastada por um corte que parece nunca chegar, se justifica, nada parece gratuito. Essa é talvez a parte mais difícil de teorizar sobre uma obra, a parte irracional e mais poética. Não é fácil dizer o porquê de cada cena parecer ter o tempo certo, elas apenas têm e saímos da sala sentindo que de fato vivenciamos um pouco de cada emoção daquelas personagens.

 

Aliás, esse é um filme sobre emoções, emoções do tipo mais selvagem (se é que se pode dizer assim), do tipo não domesticado pela satisfação material ou pelo utilitarismo urbano. Supostamente o tema do filme seria o vício em ópio, mas por que alguém se viciaria? 

 

Não é só sobre vício, é sobre as múltiplas opressões que se pode sofrer e praticar cotidianamente. A opressão da mulher pelo homem, das crianças pelos adultos, a opressão do dinheiro, da morte, da saudade… o ópio é o alívio aparentemente fácil e rápido, mas destruidor. A procura por leveza frente ao peso intolerável daquela vida.

 

As pessoas da vila tem todo o direito de ir e vir, além de muito espaço e toda a natureza que qualquer morador de grandes centros desejaria, ainda assim todas parecem viver em cativeiro pela absoluta impotência e falta de perspectiva. 

 

A cena de uma mulher da vila chorando de saudades do seu filho, morto pelo mesmo vício em ópio em que ela caiu arrasada pela tristeza de perdê-lo, é de uma força humana rara. É de uma honestidade gigante. A profundidade do sentimento não está tanto no choro longo, quanto está na honestidade da entrega ao sentimento, tão forte que vira canto e quase se transforma em ritual.

 

Em outro momento do filme um dos protagonistas diz que o Estado deveria ir lá e queimar as plantações de ópio, conforme o governo havia prometido, e que era a única maneira de acabar com o vício na vila. Essa frase traz uma absoluta quebra de expectativa. 

 

Ouvir alguém chamar pelo Estado depois de experienciar por mais de uma hora a vida daquela população isolada no meio da selva soa quase surreal. Onde está esse Estado? Existe um Estado ali? Essa ideia parece não se encaixar com aquela realidade e talvez por isso mesmo outro conceito se estabeleça: o do abandono.

 

Da mesma maneira a cena do restaurante quebra com a rotina de lamentação, trabalho e vícios da comunidade. Já na imagem do ambiente interno do restaurante há uma quebra brutal com o imaginário da selva em que estávamos imersos, mas para aumentar o choque, a imagem da televisão ligada, que mostra uma clássica cena de felicidade histriônica do cosmos televisivo, em que muitas pessoas cantam juntas a felicidade do povo, além de uma quebra é também um deboche.

 

Como em uma distopia futurista a imagem do que é servido como entretenimento às massas em comparação à vida real da população parece uma cruel sátira revertida em que o oprimido é mais uma vez deslegitimado e ridicularizado. E assim como em uma clássica distopia, essa vida parece não oferecer nenhuma saída possível. 

Julia G.

Ana Key Andre Gatti Jose Inacio Maria Fernanda Curado

 

 

A vida é bela!

Como eu sei que há sempre aqueles que deixaram de ver filmes já lançados e badalados, sinto-me à vontade para, vez em quando, comentar algum realmente tocante. É o caso de “A Vida é Bela”, ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro de 1998 e concorrente direto do nosso “Central do Brasil”.

Tendo visto e revisto os dois, hoje posso dizer que o resultado foi muito justo, ainda que estivesse torcendo para a produção brasileira e tenha gostado muito dela.

“A Vida é Bela” segue a boa tradição deixada por Felini, que fez escola no cinema italiano; e tem ainda a excelente atuação de Roberto Benigne, que encarna o espírito de Charles Chaplin, sem que seja preciso imitá-lo. O filme é ambientado no período que antecede a Segunda Guerra, terminando justamente com o fim desta que foi uma das páginas mais tristes da história da humanidade. Guido, a personagem de Benigne, pode se passar como um ingênuo apaixonado pela vida, que consegue ver flores em tudo. Isso o coloca em situações de uma comicidade realmente contagiante.
O filme, no entanto, não é apenas uma leve comédia à italiana; até porque parte dele se passa dentro de um campo de concentração nazista e mostra o seu cotidiano de horrores. A diferença é que para Guido a vida é bela – ainda que isso seja um recurso desesperado para proteger o filho Giosué, de pouco mais de 4 anos, que também é levado para aquele lugar por ser judeu como o pai. Nós, do lado de cá, somos surpreendidos a cada momento por aquele homem, que a todo instante tira da manga os recursos mais inusitados para não deixar seu filho perceber onde realmente está, protegendo-o dos efeitos de uma guerra de motivos tão insanos.
Vale destacar a excelente atuação do ator mirim que interpreta Giosué, que rouba muitas cenas, tamanha é a sua participação na trama. A sua paixão pelo pai, em quem acredita cegamente, o livra não somente da morte certa (destino das crianças e velhos nos campos de concentração), como ainda o faz crer que saiu vencedor daquele jogo de faz-de-conta. Mesmo que tentasse aqui falar qualquer outra coisa no intuito de convencer alguém a assistir ao filme – que não é a minha intenção – não conseguiria abarcar a beleza de cada cena, a cuidadosa reconstituição de época ou os trejeitos e detalhes de Roberto Benigne para nos arrancar o riso... ou lágrimas.