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A estética da sombra – estilos de iluminação

A iluminação no cinema será o tema da retrospectiva da 64ª edição do Festival de Berlim. Intitulada Estética da Sombra, a Mostra dará às audiências a oportunidade de descobrir estilos de iluminação, em décadas e gêneros específicos, da história do cinema no Japão, Estados Unidos e Europa.

 Ao fazer o anúncio da Mostra, Dieter Kosslick, diretor da Berlinale, expressou a importância dessa Retrospectiva.

“Nós admiramos filmes como, por exemplo, Rashomon, de Akira Kurosawa, mas na maior parte das vezes, não sabemos os nomes dos operadores de câmera e os técnicos de iluminação que, junto com o diretor, criaram esses maravilhosos mundos de luz e sombra para nós”, declarou Kosslick.

Influenciado pelo Expressionismo europeu dos anos 20, bem como pela iluminação utilizada em Hollywood, tipos ocidentais de iluminação começaram a ser usados também no Japão naquela época. Ao mesmo tempo, trouxe também à tona uma discussão teórica no cinema mundial sobre a forma de lidar com as sombras de forma criativa.

No Japão, algumas pessoas estavam fascinadas com a estética do diretor F. W. Murnau em filmes como A Última Gargalhada e Nosferatu e admiravam igualmente o mágico mundo de luz e sombras de Josef von Sternberg em Docas de Nova York (1928) e O Expresso de Shanghai (1932).

Tudo isso levou a que o fotógrafo japonês Henry Kotani, que havia vivido nos Estados Unidos, fosse convidado pelo Estúdio Shochiku para modernizar a cinematografia e os efeitos de luz e refletores.

Ao longo dos anos seguintes, estilos altamente contrastantes e efeitos de luz começaram a serem usados no Japão, Estados Unidos e Europa, em substituição ao uso de luz natural.

Um exemplo disso é o filme The Revenge of Yukinojo (1935), de Teinosuke Kinugasa, que mostra espadas brilhando no escuro da noite. O protagonista Kazuo Hasegawa se transformou numa grande estrela do cinema japonês, também devido à sofisticada iluminação especialmente criada para o seu rosto.

A mútua influência de outros gêneros pode também ser observada. Filmes de guerra japoneses e americanos mostravam, em iluminação de luzes e sombras, os atos heroicos praticados por seus soldados e tropas.

Uma mudança no sentido do realismo pode ser vista no uso de locações em eventos reais de guerra. Essa tendência é também refletida em clássicos como As Vinhas da Ira, de John Ford (1940), Cidadão Kane, de Orson Welles (1941) e Cidade Nua, de Jules Dassin (1948), filmes que exploraram os limites entre realidade e a ficção.

O ponto de partida para a realização da Retrospectiva na Berlinale foi o livro The Aesthetics of Shadow. Lighting and Japanese Cinema (2013), de Daisuke Miyao.

“As fascinantes inspirações de Daisuke Mioyao, na arte de iluminação e na história do cinema japonês, foram pouco estudadas e nos impressionam tanto que estamos fazendo a curadoria no nosso programa de filmes em estreita cooperação com ele”, conta Rainer Rother, organizador da mostra e Diretor artístico da Cinemateca Alemã.

“Nós também estávamos em dívida com as sugestões de Miyao para diversas premières alemãs de filmes japoneses, tais como o musical samurai Singing Lovebirds, de Masahiro Makino, Japão (1939), um filme que atingiu um status de culto no Japão”, complementa Rother. 

A Mostra será constituída de 40 filmes mudos e sonoros, focalizando estilos de iluminação para diversos gêneros, incluindo filmes de rua e de guerra.

Entre os destaques, estão também alguns títulos recentemente restaurados como Under the Lantern, de Gerhard Lamprecht, (Alemanha, 1928); A Marca do Zorro, de Fred Niblo e A Máscara de Ferro, de Allan Dwan, ambos de 1920 e dos EUA. 

Os títulos mudos serão acompanhados de trilhas executadas especialmente por artistas internacionais.