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41ª Mostra - Eros e Tânatos em A Trama, de Laurent Cantet


A crise de refugiados e o crescente refluxo conservador e xenófobo que se assiste na Europa talvez tenham sido, não sem razão, os temas mais recorrentes dos filmes presentes na 41ª Mostra Internacional de Cinema.

Diante de temas tão complexos, poucos filmes se colocam tão lucidamente quanto A Trama (2017), de Laurent Cantet, mais conhecido por Entre Os Muros da Escola (2008). A Trama se concentra, fazendo uso de uma linguagem bastante naturalista, numa oficina literária dada a jovens moradores de um vilarejo francês. A maior parte dos jovens é de baixa renda e todos carregam más experiências com o ambiente escolar. Além disso, cada um deles pertence a uma etnia diferente, de modo que Cantet recria o multiculturalismo francês – e seus desafios – no microcosmo que examina. A oficina é ministrada pela escritora parisiense Olivia (Marina Foïs) e seu objetivo é desenvolver um romance policial que será publicado futuramente.

Conforme a oficina evolui, os jovens criam a trama de um assassinato cujos cenários são marcos da cidade, como a marina ou o estábulo. Como o filme advoga, a criação artística é um modo de conhecer sua própria identidade e é por esse caminho que o grupo segue, relembrando o passado comunista e grevista do vilarejo, ou inserindo a xenofobia como deixa do assassinato que dispara os acontecimentos do romance que tecem. Aos poucos, porém, o filme vai dando especial atenção a um jovem problemático que parece fazer questão de estar em constante desacordo com seus colegas: ele é o único a preferir a marina como cenário – detalhe peculiarmente relevante para o desenvolvimento do filme-, ele faz questão de estetizar a violência em seus escritos, além de ofender seus colegas gratuitamente, sobretudo os muçulmanos.

O jovem problemático é Antoine (Matthieu Lucci), um rapaz solitário que se vê sem perspectivas satisfatórias na vida que leva em seu vilarejo. Quando o filme se atém a figura controversa de Antoine, ele passa a investigar como o discurso xenófobo e racista ganha a mente dos jovens. Sem demonizar o garoto, o filme demonstra que a propagação desse tipo de discurso se dá sobretudo através de garotos inseguros, solitários e desiludidos de seus futuros.

O filme vai delineando, conforme cruza a trama do romance criado na oficina com a realidade de Antoine, questionamentos importantes sobre o que significa a criação artística e o quão importante e/ou problemática ela pode ser. A certa altura, Antoine, que leu um dos livros de Olivia, questiona a escritora sobre a artificialidade de sua literatura, sobretudo no modo como ela retrata a violência. Do ponto de vista estético, e em especial pelo modo como o garoto coloca seu questionamento, Antoine faz uma crítica sofisticada a sua professora. Entretanto, como tudo leva a crer que ele é na verdade um psicopata, a fala do garoto fica desacreditada e patologizada pelos colegas. É aqui, porém, que o público, junto de Olivia, percebe que Antoine desperdiça toda sua inteligência através de uma violência sem objetivos.

Olivia, que está trabalhando em um novo romance, acaba por entrever em seu aluno mais problemático a inspiração para o protagonista de sua nova história. Segundo ela, seu protagonista Yann deveria ser “sexy como um demônio”. O paralelo entre violência e erotismo, que nos é revelado como elemento central da obra de Olivia, é também central na psicologia de Antoine. Cantet parece sugerir uma leitura bastante psicanalítica de seu filme, como se o protagonista encarnasse especialmente a oposição entre Eros e Tânatos, entre criar e destruir. De fato, é nesses termos que muitos autores explicaram psicossocialmente fenômenos como o fascismo e o nazismo. De alguma forma, é como se o diretor buscasse estender a mão para os “Antoines” da vida real e lhes dissesse que suas energias podem ser canalizadas para atos criativos em vez de destrutivos.

O ponto é que, ainda que essa possa ser uma leitura gasta para muitos, a identificação que o filme nos leva a ter com Antoine, junto à precisa atuação de Matthieu Lucci, cria um personagem muito real que, creio eu, é capaz de dialogar com um jovem que se encontre numa situação semelhante à do protagonista. E se há um público com o qual é preciso dialogar nesse momento, é o desses jovens desesperançados, em grande parte homens facilmente seduzidos pela fantasia de uma falsa superioridade étnica, pelo resgate de uma virilidade e de um heroísmo arquetípico, que o Ocidente busca enterrar sem antever a criação de sua própria derrocada.

No último ato do filme, é impressionante como a ficção se mistura á realidade sem criar a necessidade de abandonar, de todo, a linguagem naturalista do início, demonstrando que a vida pode ser tão absurda quanto qualquer narrativa policial. Este é também um belo modo de demonstrar como a arte pode moldar a vida, liberando o espírito rimbaudiano de figuras tão aparentemente medíocres e retrógradas como Antoine.

 

João Victor Nobrega  é estudante de cinema, ex-colaborador da revista online O Grito! e diretor e roteirista de três filmes universitários