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Duas de Mim – Uma Receita de Família em que Faltou uma Pitada de Sal

Quem nunca se pegou falando algo como “o dia deveria ter 48h” ou “eu tinha que ter um clone pra conseguir fazer tudo o que eu tenho pra fazer”?

É disso que se trata o filme Duas de Mim (2017), dirigido por Cininha de Braga, pela primeira vez como diretora nos cinemas, mas já consagrada na TV por sucessos como Cobras e Lagartos (2006) e Toma Lá, Dá Cá (Agosto de 2007 - Dezembro de 2009).

O filme é mais uma comédia brasileira, gênero que se tornou o mais recebido pelo grande público nacional nos cinemas. Suryellen (Thalita Carauta) é uma batalhadora, mãe solteira que mora e sustenta a mãe e a irmã caçula. Para isso, ela trabalha em um restaurante - lugar onde seu talento na cozinha não é valorizado - e para ganhar dinheiro extra, faz marmitas durante a madrugada para vendê-las de manhã, de porta em porta. Até este ponto o roteiro entrega possibilidades ótimas para a continuação da história: temos uma personagem forte, que luta pelo que acredita, personagens secundários que o público cria empatia ou antipatia - como a chefe má ou o galã amigo - e ganchos para a vitória da protagonista - o programa inspirado no real Masterchef. Apesar de estereótipos e uma trajetória aparentemente previsível, os ingredientes dessa receita combinam bem juntos.

Depois de um dia ruim, Suryellen encontra uma boleira mágica que faz seu pedido virar realidade, transformando-a em duas: Suryellen e a cópia. Porém, sua cópia tem uma personalidade muito diferente da de Suryellen, e o que a cópia realmente deseja é ser independente, o que a torna uma vilã do filme, já que o trabalho de dividir tarefas não é bem cumprido pela cópia. É aí que o roteiro começa a escorregar. A ideia de uma dupla personalidade, apesar de já vista diversas vezes, é uma ideia boa e, se bem executada, provoca boas risadas e uma liçãozinha de moral no final, mas, se bem executada.

A cópia de Suyellen tem uma personalidade muito mais extrovertida, ousada e audaciosa - pode-se dizer que ela luta por seus direitos e vive a vida como bem quer -, mas isso a torna uma pessoa ruim, pois estaria “sujando” a visão que Suryellen criou para si mesma. A diretora, em entrevista à imprensa, disse que o filme bebe muito do empoeiramento feminino na sociedade - e é possível ver o ponto que ela quis chegar - mas que empoeiramento é esse onde uma mulher para ser heroína e respeitada deve ser absolutamente responsável e a mulher que é segura de si e gosta de festejar se torna a vilã? Há um pequeno paradoxo nessa visão.

Apesar disso, sim, há uma forte visão do feminino no filme e que deve ser exaltada, começando, é claro, pelo protagonismo de Thalita Carauta, que deu luz à personagem de forma muito boa, conduzindo a história com suavidade. Thalita que ficou conhecida por seu trabalho em Zorra Total (Março de 1999 - Maio de 2015) mostra que tem potencial para papéis maiores, inclusive papéis que não envolvem comédia, pois seu desempenho como Suryellen em momentos críticos foi bastante agradável.

 Suryellen não corre atrás de Chicão (Latino), corre atrás de seus sonhos: ser uma cozinheira de sucesso e poder dar uma boa vida para sua família. Além disso, apesar de se tornar um fato secundário no decorrer da história, tanto a chefe direta de Suryellen quanto a dona do restaurante em que ela trabalha são mulheres. Carolina Castro (Se Eu Fosse Você, de 2006; Linda de Morrer, de 2015) é coautora e divide a produção com Iafa Britz (Se Eu Fosse Você; Nosso Lar, de 2010; Casa Grande, de 2014). É parte do engatinhar que o cinema brasileiro está dando para a inclusão das mulheres nas produções, um engatinhar lento, mas efetivo.

Depois que a cópia surge, dezenas de confusões acontecem, de modo que deixa a história um pouco confusa; os focos de relacionamento familiar e sucesso profissional se perdem meio às situações de comicidade e enfrentamento colocadas ali. Como dito anteriormente, são ingredientes certos, misturados na ordem errada, chegando ao ponto de o espectador estar ligeiramente cansado no ápice do filme - a final do programa culinário - onde Suryellen consegue fazer a receita do bolo mágico que fará com que tudo volte ao normal.

O roteiro dá base para um filme que trata de questões sociais importantes atualmente no Brasil – feminismo, exploração da mão de obra, educação na periferia (a cena de Suryellen na escola do seu filho mostra uma realidade triste e pouco comentada) -, porém a direção escolheu por focar na comédia, criando situações que tiram o espectador da reflexão e o colocam num mero programa de entretenimento - o que às vezes é muito bom, mas quando se tem pano para a manga, por que não aproveitá-lo? A massa do bolo é boa, mas o recheio deixa a desejar.

 

Natália Marques é estudante de Cinema; escritora; roteirista e assistente de direção de dois curtas universitários e roteirista de quatro episódios do programa História POP da TV FAAP.