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Monsieur & Madame Adelman – Non, non, au contraire

A pergunta pode ser clichê, mas é um mistério do cerne da indústria cultural: a arte imita a vida ou a vida imita a arte? No funeral de Victor (Nicolas Bedos), um importante escritor francês, sua esposa Sarah (Doria Tillier) conta a história de seu marido, a partir do seu ponto de vista, para um jornalista que pretende publicar uma biografia sobre o escritor.

Sarah relata os 45 anos de casamento cheios de reviravoltas, com um ar cômico, direto e empático. Essa é a trama de Monsieur & Madame Adelman (2017), primeiro longa dirigido pelo próprio Nicolas Bedos. No longa há um entrelaçamento de diversas manifestações artísticas, como literatura, música, artes plásticas e, é claro, cinema. O diretor escolhe a narração de Sarah para introduzir cada capítulo do filme - que é dividido como se fosse uma obra literária -, nada mais conveniente para um protagonista escritor. O roteiro, também escrito por Bedos, em parceria com Tillier, faz de Monsieur & Madame Adelman um romance nada delicado e nada idealizado: traição, verdades cruéis, erros, acertos e mortes fazem parte dessa história que não se baseia apenas no amor, mas em uma parceria. São dois jovens que se conhecem em um bar, Victor está num abismo criativo e profissional e dois velhos à beira do penhasco, Victor, à beira do penhasco da sanidade e da vida. Sarah, em ambos os momentos, age como em um ato de bondade, para com si mesma e para com o amor da sua vida.

Uma história repleta de ciclos, internos e externos, cenários que se repetem na lembrança dos personagens e do espectador, ações e momentos que lembram outras épocas das vidas dos protagonistas: o diretor escolhe por priorizar esses ciclos e a memória, a ponto de na última sequência do casal, os insertes das personagens quando mais jovens causarem surpresa e emoção no espectador, esta é uma das sequências mais bonitas e bem montadas de filmes românticos nos últimos anos.

O modo de mostrar a passagem do tempo, concentrando-se também no que estava acontecendo culturalmente no contexto mundial, remete bastante a Um Dia (2011), de Lone Scherfig, e é possível notar uma provável influência de Lars Von Trier na divisão de capítulos e no fato de intitulá-los. As passagens de Victor por psicólogos - principalmente a mudança de uma psicóloga antes de começar a se relacionar com Sarah, para um psicólogo depois do início do seu relacionamento - são momentos cômicos, mas que nos permitem entender de fato a personagem, ali ele se abre assim como se abre ao escrever uma obra - fato que causa reboliços de diversas maneiras.

Se a mensagem que acompanha o filme é que por trás de um grande homem existe uma grande mulher, conclui-se que por trás de uma grande mulher, existe uma mulher maior ainda. Sarah Adelman é uma personagem extremamente forte e decidida. Ela decide conquistar aquele homem que conheceu no bar e para isso sai com o melhor amigo dele, namora com seu irmão e causa tumulto na casa de seus pais durante a ceia de Natal, sem nunca deixar escondido o seu lado intelectual. Ele se apaixona por ela do jeito que ela é, e ela não muda nada em seu modo de ser para manter o relacionamento; faz críticas aos trabalhos de Victor - ao final descobrimos que ela inclusive, escreve trechos para ele -, rabisca em seus manuscritos, diz as verdades que Victor deve ouvir e faz o que bem entende, quando bem quer. Sim, ela é feminista e não, não há vergonha em mostrar isso.

A direção de arte de Stéphane Rosenbaum e a direção de fotografia de Nicolas Bolduc foram impecáveis, refletindo cada fase do casal, os momentos quentes, os frios, os obscuros e os felizes. É possível perceber como a luz natural é bastante presente em momentos bons e os ruins são marcados pela noite e luzes artificiais - com algumas exceções, claro. A mudança de maquiagem em Victor e Sarah para a passagem do tempo ficou muito natural.

Apesar dos clichês e da história de amor narrada diversas vezes, dessa vez é contada de uma forma diferente e inusitada, de modo que a ida ao cinema não será um deja-vu, será até mesmo uma libertação. Nicolas Bedos e Doria Tillier mostram uma química incrível em frente às câmeras e, apesar do ponto de vista de Sarah, o espectador sente empatia por Victor e às vezes se sente confuso para qual dos lados do muro tombar.

O romance francês é intrigante, divertido e inteligente, e amantes desse gênero não podem perder a obra de Bedos, o qual espera-se ver mais vezes nas telonas. Monsieur & Madame Adelman - ou seria Madame & Monsieur Adelman? - é um compilado do que é o amor e o romance na contemporaneidade, além de ser uma forma astuta e inovadora de mostrar essa nova condição dos relacionamentos.

 

Natália Marques é estudante de Cinema; escritora; roteirista e assistente de direção de dois curtas universitários e roteirista de quatro episódios do programa História POP da TV FAAP.