1_kane_site.png

          

Os Contos da Aia

 "a diferença entre ficção científica e especulativa é que a primeira é algo que nós ainda não podemos fazer. E que a segunda, é sobre assuntos que já estão na nossa frente, e que acontecem na Terra."- MARGARET ATWOOD

Com a estréia da série do Hulu, no original The Handmaid’s Tale, tem-se agora três versões disponíveis do Livro de Margaret Atwood, sendo duas delas em formatos audiovisuais diferentes: um longa-metragem e uma série.

Na história concebida por Atwood em um futuro não tão distante os Estados Unidos se transformaria em uma república totalitária e religiosa chamada Gilead. Esse novo estado estaria constantemente em guerra e teria sofrido gigantescas catástrofes ambientais, fazendo com que a maioria das mulheres se tornassem inférteis.

E assim, com a desculpa de que os índices demográficos estariam em queda, esse novo estado religioso implantaria uma rígida estrutura social, na qual a hierarquia entre as mulheres, divididas de acordo com a sua utilidade para o Estado, seria central.

Nessa organização político-social as mulheres férteis de classe média virariam escravas sexuais com o objetivo não de satisfazer os desejos de um homem, mas sim de parir para o casal rico aos quais passariam a pertencer, numa espécie de barriga de aluguel arcaica. Essas seriam as Aias, como a protagonista da história, que nos leva a viver Gilead a partir de sua nova (im)posição social.

Estruturas de poder:

No livro as relações de posse são muito bem trabalhadas. Cada uma dessas mulheres de classe média, que foram separadas de suas famílias e cujos filhos foram entregues ao Estado, passariam a obedecer às Esposas, ou seja, as mulheres dos Comandantes, funcionários de alta patente do governo e os “chefes de família” das casas mais ricas.

E assim como acontece na realidade com a maioria das donas-de-casa, embora haja uma encenação de que o poder sobre a casa e todos que moram lá esteja na mão das mulheres do topo da hierarquia (as Esposas), no decorrer do livro percebe-se que elas são apenas administradoras e que a palavra final é sempre do homem.

Por isso mesmo, embora as Aias tenham que obedecer às Esposas, elas carregam como identificação não o nome que lhes foi dado por seus pais, mas o nome do chefe de sua nova família. Como a protagonista que é chamada de “DeFred” , sendo Fred o nome do comandante de sua casa.

Fica bem claro quem tem o real domínio da situação.

As Castas:

A sociedade de Gilead passa então a separar as mulheres de acordo com as características que consideram importantes para a nova estrutura social e política. E para caracterizar essa divisão implantam o uso de uniformes diferentes para cada casta de mulheres.

O vestido azul, referente à Virgem Maria, para as Esposas, as mulheres dos comandantes; Vestidos vermelhos, como os de Maria Madalena, para as Aias e Vestidos verdes, como o de santa Martha, para as Marthas, as cozinheiras e empregadas domésticas.

Existem no livro também, apesar de não aparecerem em nenhuma das obras audiovisuais, as Econosposas, mulheres da classe trabalhadora que usam vestidos listrados de azul, vermelho e verde e servem todas as funções femininas ao mesmo tempo. Além das castas masculinas, bem menos exploradas, que parecem se dividir apenas em: Comandantes, Soldados, Olhos (polícia secreta religiosa) e alguns trabalhadores comuns como açougueiros.

Questão racial:

Para além de todas essas castas, às quais pertenceriam aparentemente apenas pessoas brancas, existiria uma sociedade paralela da qual sabemos muito pouco e não fica claro se é de fato uma outra sociedade ou apenas uma desculpa para levar pessoas negras para uma espécie de campo de concentração.

Essa casta paralela é chama de “filhos de Cam” fazendo referência ao filho de Noé que foi amaldiçoado por seu pai a ser servo de seus irmãos.

Tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos do século XIX a desculpa de que negras, negros e indígenas poderiam ser escravizados porque eles pertenceriam à linhagem de Cam foi amplamente usada e continua a ser por grupos cristãos racistas.

Esse tema é tratado de maneira bem sutil no filme. Caminhões cheios de pessoas negras passam atrás das personagens principais e fica claro que eles estão sendo levados para longe dos olhos da nova sociedade instaurada, mas não se fala muito à respeito, assim como no livro.

Já na série os filhos de Cam não só não aparecem como existem pessoas negras e de outras etnias integradas à sociedade de Gilead. E o que isso quer dizer?

Por um lado a série tem uma boa representatividade negra sendo dois dos personagens principais negros: Luke e Moira (sem contar a filha de Luke e June, a Hanna). Mas por outro a série anula o questionamento levantado pelo livro com relação ao racismo americano e iguala a condição da mulher branca de classe média com a da mulher negra da mesma classe.

Isso é preocupante já que a obra de Atwood soa o tempo todo como um apelo às opressões sofridas pelas mulheres brancas especificamente: o cativeiro doméstico, o sanitarismo, a lavagem cerebral de que as mulheres dessa etnia devem parir para a comunidade como forma de manter dominante essa etnia; tudo isso se encaixa perfeitamente no que Angela Davis descreve como os apelos do feminismo branco.

Então colocar as mulheres negras e asiáticas na mesma situação pode ser como dizer que todas as mulheres de classe média hoje em dia sofrem um mesmo tipo de opressão, mas também quer dizer apagar questionamentos específicos de outras etnias.

O controle reprodutivo:

Se levarmos em conta que, ao menos no ocidente, Mary Shelley é considerada a mãe da ficção científica com seu livro Frankenstein e que a partir daí quase todos os grandes questionamentos sobre o futuro passaram a girar em torno de quem é ou pode ser considerado humano, o que é a vida como a conhecemos, o que é a consciência, etc.

Levando em conta que esse outro em geral é algo ou alguém construído ou criado pelo humano através do avanço tecnológico, talvez devêssemos nos questionar de onde vem essa ânsia por separar a vida da concepção.

O que Margareth Atwood entendeu tão bem em meio ao mar de produções robóticas das ficções científicas foi que, o maior desejo de governos e empresas em nossa sociedade hoje em dia não é mais apenas o controle, mas a criação da vida.

Não importa se em um futuro tecnologicamente avançado, ou religiosamente retrasado, o caminho continua sendo em direção à uma sociedade patriarcal na qual os homens enfim conseguem talvez o único domínio ao qual ainda não tinham completo acesso: o da concepção.

Já no começo do século passado Karen Horney apelava para a "ïnveja do útero" e foi por isso expulsa da Sociedade Psicanalítica de Nova York, aonde apenas o conceito de "ïnveja do pênis",cunhado por Freud, era aceito, como ainda o é em todo o mundo ocidental.

Talvez o grande apelo da história de Atwood, quando ela a define como uma ficção especulativa, seja esse retorno à uma compreensão maior de como a opressão patriarcal funciona, desde o velho testamento até o prometido universo dos ciborgues.

O feminismo sempre se preocupou em definir como as regras políticas, sociais e econômicas se aplicam ao corpo e essa preocupação se torna mais urgente em um mundo de mutações genéticas e avançadas criações robóticas.

E o audiovisual como principal expressão artística da sociedade industrial não podia deixar de se apossar desse discurso à sua própria maneira e criar uma representação digna da época de cada uma das produções, o filme dos anos 90 e a série dos anos 2010.

 

Julia Gimenes é  formada em cinema e trabalha como montadora e fotógrafa desde então. Apesar do amor por fazer cinema, pensar sobre ele também sempre a encantou.