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A Forma Da Água: uma fábula cinematográfica

Um tema recorrente em qualquer arte é a relação entre o ser humano e o mundo em que ele vive.A maioria das obras retrata essa relação com características sombrias e obscuras, nem sempre da maneira mais evidente e óbvia. E o cinema, pela necessidade visual e sonora, também seguepor esse caminho.

Um dos diretores que mais apela a esse tema é o cineasta mexicano Guillermo Del Toro, conhecido por sua paixão pelos filmes de monstro. Essa paixão já se manifestou em obras com aspectos muito diferenciados, com um veio mais “pop”nos dois Hellboy (2004 e 2008) e em Círculo de Fogo (2013), ecom um veio mais autoral, como nos filmes  O Labirinto do Fauno (2006) e A Espinha do Diabo (2001). Agora, o cineasta retoma o seu lado mais íntimo, no sentido de querer retornar aos seus anseios, paixões e desejos cinematográficos, ao dirigir e roteirizar (ao lado de Vanessa Taylor) seu novo filme A Forma Da Água, uma história que possui uma premissa que parece ter saído de alguma fábula de amor clássica como A Bela e A Fera.

Passando-se durante o início da Guerra Fria, o filme acompanha Elisa Esposito (Sally Hawkins), uma zeladora muda e solitária que trabalha num laboratório do governo americano, que se vê movimentado com a chegada de uma criatura aquática e exótica vinda da América do Sul. Imediatamente, ambos começam a estabelecer uma conexão muito forte.

A premissa é na verdade uma homenagem: o enredo, que parte da relação entre uma criatura aquática e uma moça inocente, e o aspecto da criatura remetem propositalmente ao clássico O Monstro da Lagoa Negra, icônico filme de 1954, dirigido Jack Arnold, e parte da importante franquia de Monstros da Universal Studios. Mas não só, o filme também está cheio de homenagens a musicais da era de ouro de Hollywood (ocorrida na década de 1950) que são reprisados no cotidiano de Elisa.

Entretanto, o mais notório que Guillermo Del Toro apresenta com o seu novo filme é sua direção, cheia de sensibilidade e aptidão para fazer com que o espectador sinta-se comovido com a história de amor entre Elisa e a criatura, criando uma sensação de deja vù. Quanto ao estilo de narrativa, o diretor segue uma linha próxima ao que havia feito em seu grande e cultuado O Labirinto do Fauno, já que desde o início até o final, o narrador sugere uma sequência poética de singelo sentimento, que soa quase como um conto de fadas, em que de um lado vemos a beleza da relação do casal protagonista e, do outro,  a crueldade proposta pelo cenário de América pós-Segunda Guerra, representado pela figura do vilão Strickland (Michael Shannon).

Para criar esse enredo, o diretor se utiliza da trilha musical de Alexandre Desplat, que remete ao cinema italiano clássico, para transmitir uma sensação de magia nostálgica, principalmente nas cenas que se passam no cinema localizado abaixo do apartamento de Elisa, evidenciando ainda mais a homenagem de Guillermo Del Toro à sétima arte. Além disso, o excelente trabalho de Direção de Fotografia de Dan Laustsen, que realizou complicados planos embaixo d’agua, nos propiciou uma das cenas mais belas e emocionantes da filmografia do diretor.

É impossível classificar este filme em um único gênero cinematográfico, nele é possível enxergar aventura, drama, terror e até mesmo comédia, sendo que o tom de humor advém da coadjuvante Zelda Fuller (Octavia Spencer), responsável por comentários afiados e engraçados. Além de apresentar diferentes gêneros, o novo filme pode estabelecer um território fértil para se debater um tema permanente na filmografia de Guilermo Del Toro, que é a relação das minorias com o mundo que as cerca e as segrega. Não somente a criatura do filme se sente deslocada no Mundo “Humano”, como também Elisa se sente deslocada do mundo da fala, sua amiga negra se sente apartada dos privilégios brancos e seu vizinho e narrador da história, Giles (Richard Jenkins), que é homossexual, sente-se inadequado num mundo com rígidos padrões de masculinidade. Todos querem apenas se sentir completos interiormente, como se quisessem ser parte de algo, e não ser um “nada” como a própria Elisa sugere ao seu vizinho.

Resultado de crescente evolução e amadurecimento na forma de narrar histórias, A Forma da Água comprova o talento de Guillermo Del Toro em criar universos fantásticos por meio de criaturas exteriormente assustadoras, mas internamente sensíveis, chegando perto de superar O Labirinto do Fauno, com uma história que remete a um teor clássico de fábulas sombrias, feitos para o público adulto, além de escancarar sem pudor seu carinho e dedicação à sétima arte, encantando o público com uma trama simples e tradicional sobre amor e preconceito recheada por criaturas fantásticas.

 

Ettore R. Migliorança é estudante de Cinema, com ênfase em roteiro e análise de filme, e já produziu dois curtas universitários