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A Alma de Trama Fantasma

Alguns fantasmas do passado estão sempre à espreita, num canto escondido de nossas cabeças. Alguns nos atormentam mais, outros menos, alguns incomodam apenas pela insistência, são ideias fixas.

Em entrevista, Paul Thomas Anderson sugeriu que um dos motivos que o levou a realizar Trama Fantasma (2018) foi a possibilidade, que também atormentou tantos outros cineastas, de realizar seu próprio Rebecca (1940), romance gótico do diretor inglês Alfred Hitchcock.

De fato, as semelhanças entre Rebecca e Trama Fantasma são notórias. Mas também o são as diferenças. PTA toma de Rebecca a premissa de um inglês grã-fino atormentado por uma perda e que, no auge de seu tormento, apaixona-se por uma garota simples, mas encantadora. Alguns outros elementos de Trama Fantasma são claramente emprestados de Rebecca, mas PTA relê todos esses elementos através de sua forma muito particular de estruturar roteiros, e os desenvolve tematicamente de maneira completamente diversa do clássico de Hitchcock. Por conta desta vinculação aos clássicos das décadas de 1940 e 1950, o novo filme de PTA não é tão críptico como Vício Inerente (2014) ou O Mestre (2012), mas seu suspense sutil parece envolvê-lo num mistério ainda maior.

Trama Fantasma se passa durante a década de 1950, e tem por protagonista Reynolds Woodcock (Daniel Day Lewis), um estilista renomado que veste as mulheres da alta sociedade inglesa e cuja Maison (espécie de casa-ateliê) é gerida com mão de ferro por sua irmã Cyrill (Lesley Manville), com quem Reynolds guarda uma relação simbiótica bastante peculiar. Um dia, atormentado pelas lembranças de sua falecida mãe, Reynolds resolve ir à sua casa de campo, e numa parada para uma refeição extremamente inglesa, ele conhece a encantadora Alma (Vicky Krieps), a garçonete que o serve. A partir daí, Alma se torna musa, amante e assistente do estilista, o que faz com que o casal desenvolva uma relação simbiótica e bastante peculiar.

O que mais chama atenção em Trama Fantasma é como PTA consegue explorar e estender o significado do título às várias camadas e dimensões do filme. A primeira associação que podemos fazer diz respeito aos dados mais brutos do enredo do filme. Logo no início, quando Reynolds conhece Alma, ele explica à jovem que herdou seu ofício de sua mãe, uma costureira muito hábil. Foi para sua mãe também que ele, aos 16 anos e com a ajuda de Cyrill, costurou seu primeiro vestido. Temos então a trama de fios que constitui os vestidos de Reynolds sob constante influência da mãe morta, que foi tanto a mestra quanto a primeira musa do estilista. Assim, é como se o fantasma da mãe de Reynolds estendesse, do além, uma trama de fios que o enreda o tempo todo.

Mas logo fica claro que o estilista faz questão de enredar todos que o cercam na mesma trama em que ele está preso. E aqui temos uma segunda associação com o título, que vai se revelando conforme a história se desenvolve. As manias e obsessões de Reynolds vão no sentido de permitir que seu trabalho flua sempre e melhor, sem interrupções. É isso que dá à Maison Woodcock um aspecto de sociedade secreta: todas as mulheres da casa (as costureiras, assistentes, Cyrill, e até mesmo as clientes) estão lá para garantir que o Sr. Woodcock possa realizar seu culto ao feminino, ou, em última instância, a sua mãe.

A associação mais interessante que se pode fazer com o título, porém, é de ordem metalinguística. Não sei se ela foi calculada por Paul Thomas Anderson, mas não duvido que tenha sido, e gosto de pensar que foi. O roteiro e a forma como a direção o conduz demora bastante tempo a deixar claro o que está em jogo. Todas as peças estão ali sendo jogadas desde o primeiro minuto de filme, mas elas só começam a se encaixar de verdade lá pela metade da exibição. O roteiro, ou a trama, também vai nos enredando sem que nos demos conta disso, ela se delineia sem ser vista. Mais ou menos como a influência da mãe de Reynolds sobre todo o universo retratado pelo filme.

A despeito de toda a redoma construída pelo estilista e sua irmã, Alma, com sua aparente simplicidade e implacável candura, surge para transgredir a ordem da seita. A paixão entre ela e Reynolds emerge em pouco tempo e numa intensidade muito profunda. Mas esse dado, que em Rebecca era apenas um romantismo piegas, é transformado por PTA em mais uma camada do filme e de seus personagens. Não é difícil adivinhar que o estilista entrevê em Alma a pureza que ele atribui à eternidade da memória de sua mãe. Alma, por sua vez, vista pela sociedade como uma indigente, vê na entrega daquele homem a si a manifestação de um sentido para uma vida até então sem propósitos. A verdade, porém, é que os dias de glória de Reynolds Woodcock estão próximos do fim, afinal as modas são ainda mais efêmeras do que a vida humana. Isto faz com que tanto Alma como Woodcock se tornem outsiders, relegados apenas ao amor um do outro. A partir disso, as coisas apenas se complicam, tanto para os personagens, como para os espectadores, pois as camadas de significado, como é usual em filmes de PTA, acumulam-se de maneira quase incontável.

Não seria justo terminar este texto sem fazer menção a trilha musical de Johnny Greewood, parceiro de longa do diretor, mas mais conhecido por ser guitarrista da banda inglesa Radiohead. Greenwood é um dos músicos contemporâneos mais completos de que tenho notícia, transita entre o popular e o erudito com uma versatilidade quase sobre-humana. A verdade é que a música de Greenwood praticamente guia o filme, fazendo-se presente durante boa parte da exibição e pontuando momentos sublimes, momentos de tensão, de mistério e até de humor. Tudo isso mantendo uma unidade etérea e misteriosa que constitui a aura do filme. Este elemento de linguagem de uma trilha quase onipresente é também algo que se vê em Rebecca, e em muitos outros clássicos das décadas de 1940 e 1950. O que se pode dizer é que Greenwood fez jus a essa tradição, e a atualizou  despojando-a de sua inocência, assim como PTA fez no campo do roteiro e das imagens.

Se me perguntava se Mãe! (2017), de Darren Aronofsky (filme que, aliás, guarda semelhanças temáticas com Trama Fantasma), seria um jovem clássico, gostaria de afirmar que o novo filme de Paul Thomas Anderson já é um jovem clássico. Não apenas por portar-se como um em termos estéticos, mas por possuir a alma dos clássicos.

 

João Victor Nobrega  é estudante de cinema, ex-colaborador da revista online O Grito! e diretor e roteirista de três filmes universitários