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Lady Bird: Ser mulher em Hollywood

 Por Julia Gimenes

Lady Bird, que projetou definitivamente a diretora Greta Gerwig, apresenta os dilemas do feminino numa cidade pequena e conservadora e propõe uma libertação. Mas qual é o real alcance dessa libertação?

 Christine McPherson ou Lady Bird, interpretada por Saoirse Ronan, é uma adolescente aparentemente sem muitos talentos e cheia de sonhos que mal pode esperar para entrar em uma faculdade e fugir de sua terra natal: Sacramento.   

 Assim como Duas Irenes (2017), o filme é um coming of age tratado sobre a ótica do desenvolvimento de uma adolescente (ou no caso do filme nacional, duas) e sobre como se desenvolvem as mulheres nessa dura fase de transição.

As duas obras trazem para a superfície os assuntos que moldam profundamente a nossa forma de ver o mundo nesse momento de nossas vidas: família, amigos, classes sociais, a cidade onde crescemos... e por aí vai. No caso específico desses dois filmes a cidade aparece como elemento central das situações vividas pelas protagonistas, como elemento opressor e estagnante. As duas cidades, bastante pequenas e provincianas, são como uma prisão onde reina o patriarcado mais escancarado e de onde as protagonistas almejam escapar.   

Mas se em Duas Irenes essa vontade de escapar do provincianismo não está abertamente declarada como uma fuga da pequena cidadezinha goiana, em Lady Bird o desejo maior da protagonista se manifesta na fuga de Sacramento, cidade do interior da Califórnia.

Essa vontade desesperada de se mudar é um sintoma da falta de perspectivas de Christine. Não se trata apenas de que as faculdades de artes em outros estados sejam muito melhores (como defende todo o tempo a protagonista),  mas também do desespero de sentir que  a estrutura social em que ela vive é blindada.

Em Duas Irenes, o encontro das duas personagens favorece a destruição das muralhas machistas injetadas em suas cabeça e juntas elas podem se descontruir e reconstruir sem ter que mudar de espaço geográfico.

O que é angustiante em Lady Bird é justamente essa falta de perspectiva para a protagonista. Ainda que ela mantenha as esperanças, elas parecem sempre fora de propósito. E até mesmo esses sonhos alimentados por ela demonstram a prisão mental da qual não pode sair, já que seus dilemas são sempre moralistas e demonstram uma construção de mulher idealizada dentro dos padrões burgueses e católicos.

Algumas de suas rebeldias são reais, é claro! Mas ainda que perder a virgindade antes do casamento possa ser uma forma de libertação para alguém criado em um ambiente muito religioso, nada de realmente questionador parece estar sendo criado para a vida da personagem. Suas conquistas são tão banais como as de qualquer filme adolescente de sessão da tarde, como por exemplo chegar no baile de formatura sem um acompanhante e se divertir mesmo assim.

  O ponto alto do filme acaba sendo então a relação que Lady Bird estabelece com a sua mãe. O filme abre e termina com duas cenas muito marcantes sobre essa relação: o primeiro plano, em que mãe e filha dormem na mesma cama de frente uma para a outra (união) e a última cena quando a mãe volta para se despedir da filha no aeroporto mas ela já partiu (separação).

Todo o drama gira em torno dessa lenta e dolorosa separação de mãe e filha. A relação muita íntima da garota sem muitos amigos com a matriarca da família, agravada ainda pela necessidade da mãe em sempre relembrá-la de todos os problemas familiares (em especial o financeiro) e de o pai ser uma figura pouco participativa, faz com que seu temperamento adolescente exploda o tempo inteiro. Ela coloca para fora as angústias de um ser humano em formação, ávido por aventuras, mas ainda apavorado por sua falta de conhecimento de mundo, entrando em combate direto com os desejos e projeções da mãe em relação ao seu futuro.

O filme pode também ser descrito como um Mumblecore  pasteurizado, pois traz os mesmos dilemas e desilusões millenials do movimento, mas sem a improvisação, a iluminação barata ou o tempo mais arrastado de um Funny Ha Ha (2002) de Bujalski. Na verdade, apesar dos ombros sempre caídos de Christine e sua melhor amiga Julie e de sua insatisfação crônica, o filme não foge muito da gramática hollywoodiana clássica, com exceção talvez de alguns cortes abruptos em cenas mais cômicas, como a em que Lady Bird se joga do carro.

Não por acaso, Greta é talvez um dos rostos mais conhecidos da cena Mumblecore e certamente um dos mais amados. Mas se antes ela era apenas uma garota desajeitada que parecia interpretar sempre a si mesma e aos próprios fracassos, agora se torna expoente hollywoodiano e grande promessa feminina dentro da indústria.

Sem dúvida Lady Bird atingiu um sucesso de público enorme e lançou à luz uma cineasta que, ainda que nesse filme não tenha o seu melhor trabalho, com certeza é muito talentosa.

A única dúvida que fica é: por que de outras cineastas mulheres que produziram obras incríveis e questionadoras esse ano, como Certas Mulheres de Kelly Reichardt, no qual dilemas profundos e cotidianos do machismo se apresentam da maneira mais cruel e sutil possível, justamente o insosso Lady Bird foi tão aclamado e comentado como uma obra reveladora de uma poderosa artista do gênero feminino?

Não será justamente porque o filme apresenta uma feminilidade inofensiva e até moralista, apesar de toda a sua roupagem indie?

 

Julia Gimenes é  formada em cinema e trabalha como montadora e fotógrafa desde então. Apesar do amor por fazer cinema, pensar sobre ele também sempre a encantou