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Um Lugar Silencioso, ainda

Por Natália Marques

Um Lugar Silencioso (2018) enfoca em "enredo sonoro" imersivo e abre debate para as questões sobre acessabilidade no cinema.

Um lugar silencioso (2018), filme que estreou no último dia 12, dirigido e estrelado por John Krasinski (The Office) e por sua esposa, Emily Blunt, chama atenção para dois assuntos que costumam ficar à margem da conversa cinematográfica: o som e a acessibilidade. Tirando-os do ostracismo, o longa conta a história de um mundo distópico em que, para sobreviver a uma ameaça, deve-se viver em silêncio,  mas o que se destaca- na trama é a presença de uma personagem surda.

Primeiramente, falando do som, em Um Lugar Silencioso deve-se atentar ao silêncio no desenho de som cinematográfico e a mixagem de som que harmoniza a música, os diálogos e o próprio silêncio. "Mas o silêncio não tem som", tem sim. Depois de assistir ao filme, além de valorizar o silêncio, percebe-se o quanto o nosso dia a dia é barulhento, as pequenas coisas fazem um certo som antes imperceptível. Quanto à mixagem sonora, palmas. Há um sucesso no uso de foley (som não captado em estúdio) em sintonia com o som direto (captado no momento da filmagem), indicando o ponto de vista narrativo da cena e brincando com os nossos ouvidos. Os sustos se dão exatamente pelo barulho, já quando se entra na história, sabe-se que nada deve ser ouvido. É a regra. E é muito interessante como o público reage ao filme, tornando-se uma plateia cada vez mais silenciosa com o passar do longa.

Nos últimos anos, muitos filmes populares – os chamados blockbusters -, têm dado uma maior atenção aos seus “enredos sonoros” - enredos, porque o som, por si só, já desenvolve uma história. Filmes como Ritmo de Fuga (2017) e Gravidade (2013) foram filmes de sucesso de público e que possuem um desenho e uma mixagem de som espetaculares – a ponto de o som se tornar a estrela do filme – ambos, inclusive, foram indicados ao Oscar.

Quanto à personagem surda, filha mais velha do personagem de Krasinski e Blunt, ela é interpretada por uma atriz que ficou surda quando ainda bebê, Millicent Simmonds; esse é o segundo filme da garota de 15 anos, e ela mostra o seu potencial. Primeiramente, é uma personagem muito bem construída e colocada de maneira precisa - levando em conta o mundo no qual ela vive. A regra de sobrevivência é não fazer barulho, mas a partir do momento que ela não ouve, ela não sabe se está fazendo barulho ou não, colocando aqueles a sua volta e a si mesma em perigo. É possível entrar na agonia da personagem todas as vezes que o ponto de vista narrativo se transfere para ela - e o desenho sonoro passa a ficar em um silêncio abafado. Em segundo lugar, tal personagem traz à tona uma temática que é imprescindível para os dias atuais, a acessibilidade na comunicação.

Durante todo o filme vemos a presença da língua de sinais; os personagens se comunicam por meio dela. Por conta disso, para nós, ouvintes e/ou que não conhecemos a língua de sinais americana, há a legenda traduzindo o que está sendo falado (assisti ao filme legendado, nas sessões dubladas acredito que a opção de um intérprete seria mais adequada). A indústria do cinema tem dois pilares: a imagem e o som; imagine que você possui uma deficiência visual ou auditiva, por mínima que seja, que dificulte a sua experiência cinematográfica - quem usa óculos, possui uma ideia do que está sendo falado aqui, principalmente quando se assiste a um filme em 3D. Na ida ao cinema, é esperado que todos tenham oportunidade de assistir a um filme, porém não é isso que acontece.

Para nós, ouvintes, esse filme proporcionou uma experiência completa. Agora, e para os surdos, as sessões possuíam a acessibilidade correta? Ou para os cegos, havia sessões com áudio descrição? É importante refletir sobre o tema, já que, felizmente, a indústria audiovisual brasileira está cada vez mais investindo nesse quesito.

Nos canais de TV aberta já são obrigatórios 24 horas de closed caption (legenda oculta), além de 8 horas semanais de áudio descrição. Os recursos inclusivos e formas de acessibilidade de pessoas com deficiência têm sido cada vez mais instalados em cinemas de todo o Brasil – os cinemas do SESC, por exemplo, possuem diversos modos de acessibilidade, para quase todas as deficiências. Levando em conta tais pontos, Um lugar silencioso é um filme que tem potência para fazer muito mais barulho na indústria do que o seu título supõe.

 

Natália Marques é estudante de Cinema; escritora; roteirista e assistente de direção de dois curtas universitários e roteirista de quatro episódios do programa História POP da TV FAAP.