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Westworld – Temporada 2: Do que somos capazes?

Por Ettore R. Migliorança

Novo ano da série entrega novas revelações e novas expansões e mantém status de melhor série de ficção cientifica na televisão atual.

Desde os primórdios da ficção científica, um dos conflitos centrais desse gênero foi o dilema existencial do ser humano, muitas vezes representado através da figura dos robôs. Exemplo máximo disso é a literatura de Isaac Asimov, que utilizava essas figuras tecnológicas para debater os conflitos internos do homem durante a sua existência. Esse debate é complexo e difícil de se inserir no meio coletivo do entretetenimento.

Mas o que surgiu em 2016 foi lançamento da série Westworld, remake em formato de série de um longa-metragem lançado em 1973 e dirigido e escrito por ninguém menos que Michael Crichiton, que anos mais tarde se tornaria mundialmente conhecido por ser o autor do livro que originaria em 1993 o filme de Steven Spielberg, Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros. O diretor e roteirista Jonathan Nolan, irmão e parceiro de produção de Christopher Nolan, junto com sua esposa Lisa Joy, entregou uma série de ficção científica entrelaçada ao gênero clássico de faroeste e cheia de mistérios a serem resolvidos por personagens interpretados por grandes atores como Anthony Hopkins, Ed Harris, Evan Rachel Woods, Thandie Newton e entre outros.

Em seu retorno tão esperado, depois de uma temporada tão elogiada por público e crítica, Westworld traz a resolução para o que ocorreu depois do fechamento sangrento da primeira temporada, em que acompanhamos a narrativa de Robert Ford (Anthony Hopkins), que resultava na rebelião dos anfitriões, os robôs do parque título da série, e que passaram a assassinar os humanos remanescentes do parque.

O que essa segunda temporada sugere é um desprendimento da fonte base da série, que foi o filme de Michael Crichton, para focar-se em sua forte vontade de aprofundamento na temática central, pois nessa temporada fomos iniciados nos segredos obscuros do parque em questão, diferente da temporada anterior em que muitos dos mistérios ligavam-se a personagens protagonistas até mesmo para que pudéssemos conhecê-los melhor.
Nessa nova temporada fomos apresentados ao real motivo da empresa Delos adquirir o parque Westworld, e também a qual é o propósito de se permitir que os visitantes do parque possam violentar os robôs tão desenfreadamente, elementos muito bem explorados no quarto episódio dessa temporada “The Riddle of the Sphinx”, primeiro dirigido por Lisa Joy e que ganha destaque pelo clima sombrio e obscuro na caracterização trazida pela criadora da série, além de contar com a revelação assustadora de que Delos deseja alcançar a imortalidade, por meio da exploração desenfreada do homem pelas máquinas.

Novamente a série segue a estrutura da primeira temporada, em que o público testemunha a história por meio de cronologias fragmentadas, levando o espectador a discutir sobre quais relações elas possuem, e assim juntá-las como ocorre num quebra-cabeça. Nessa temporada vemos tudo pelos olhos de Bernard (Jeffrey Wright) que - perdoe o trocadilho - assume as rédeas dessa temporada. Desta forma, poucas são as certezas que temos, uma vez que a mente de Bernard pode enganar e, além disso, nunca devemos esperar soluções diretas vindas de Westworld. Essa característica sútil permite que a série prossiga a história e mantenha, com domínio total, a linguagem que escolheu adotar.

Como contraponto a Bernard, vemos a figura da protagonista da primeira temporada, Dolores (Evan Rachel Woods), que segue por um caminho sóbrio e muito diferente do ano anterior, quando ela se encontrava dominada pelo ódio aos humanos e encaminhava-se para se tornar a grande vilã ou, se possível, anti-heroína da história. Dolores, agora transformada, deixa de lado o ódio e o caos que dominam a primeira temporada para se dirigir rumo à libertação da repressão sofrida pelos robôs, uma espécie de redenção para a qual a icônica e enigmática figura da Porta pode ser símbolo.

Voltando a mencionar a expansão de universo que esta temporada buscou, vemos a introdução de novos parques, algo que fora mencionado no final da temporada anterior e que finalmente surge para nós, pois somos, enfim, introduzidos ao Shogunworld, um parque ambientado no mundo feudal japonês, e ao The Raj, parque que reconstitui a Índia colonial. Porém estes parques se mostram um pouco gratuitos e soltos na história, uma vez que não acrescentam muito à narrativa. Isso é especialmente válido para o quinto episódio “Akane No Mai”, no qual por um lado vemos uma ousadia de produção e caracterização do universo oriental na série, com direito a diálogos extensos em japonês, atitude corajosa para uma produção americana de alto orçamento, mas que por outro traz a sensação de interrupção da história central chegando mesmo a quebrar o ritmo da temporada, fazendo o episódio soar como um filler desnecessário. A introdução desse parque é "crucial", apenas se considerarmos que desempenha um papel relevante na construção da jornada da personagem Maeve (Thandie Neyton), que possui um caráter forte e um terreno fértil para se revelar uma personagem extremamente poderosa no futuro.

Contudo, se podemos chegar a dizer de um filler que ele traz algo de “crucial” nessa temporada, vale antes exaltar o oitavo episódio “Kiksuya”, episódio totalmente focado na Nação Fantasma, a tribo indígena misteriosa, cujos reais propósitos dentro do parque são revelados, trazendo em seu bojo a trágica história de amor de Akecheta (Zahn McCarnon), fazendo desse, sem dúvida, o episódio mais emocionante da série.

Ainda se somando ao passado obscuro do personagem de Ed Harris, a nova temporada de Westworld parece seguir o rumo correto para atingir um patamar de ficção científica jamais visto na televisão atual. Mesmo com alguns tropeços, que na verdade podem ser facilmente corrigidos, vemos acumular ao final dessa temporada, especialmente se consideramos a cena pós-credito do último episódio, elementos que dão margem à criação de um mundo novo e cheio de possibilidades para a próxima temporada. Seguindo um caminho mais épico ou um caminho mais sombrio, sabemos que Jonathan Nolan e Lisa Joy têm mais truques na manga, mas também sabemos que apresentá-los ao público não será tarefa fácil.

 

Ettore R. Migliorança é estudante de Cinema, com ênfase em roteiro e análise de filme, e já produziu dois curtas universitários