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Tradução do real: de Cortázar a Antonioni

“Algumas vezes, a realidade é a mais estranha de todas as fantasias”. Era com essa instigante frase que o trailer do filme Blow up estampava as telas de cinema em 1966. Dirigido pelo cineasta italiano Michelangelo Antonioni, Blow up é o que se chama, popularmente, de adaptação cinematográfica; ou como teorizou Renato Cunha, “cinematização”, a qual é caracterizada pela tradução de uma linguagem para outra. Antonioni, no longa citado, tomou por base a idéia central do conto Las babas del Diablo, do escritor argentino Júlio Cortázar.

Em ambos os meios de expressão artísticas em questão (literário e cinematográfico), podemos notar a presença de uma, ainda que implícita, dicotomia real/imaginário, ou até mesmo concreto/abstrato. Tanto na obra fílmica de Antonioni, quanto na literária de Cortázar há marcas de signos carregados de múltiplas significações, fato esse que gera uma grande expansão de possibilidades interpretativas; em outras palavras, ambigüidade proposital artística.

Blow up e Las babas del Diablo demonstram o poder da ilusão ao explorar, de maneira não óbvia, o conceito do real. A realidade no contexto dessas obras é exposta como o fruto de uma construção social coletiva; ou seja, os desdobramentos inerentes à construção do real pelo homem podem se entrelaçar também ao imaginário, formando assim uma dualidade extremamente representativa para essas obras.

O conto se reveste de diversas camadas no que se refere ao foco narrativo: “Nunca se saberá como se deve contar isto, se na primeira pessoa ou na segunda, usando a terceira do plural ou inventando continuamente forma que de nada servirão”. O meio literário permite ao autor utilizar-se dessa maneira quase que esquizofrênica de se contar uma história, para botar em pauta a própria concepção do que é tido como existência. O alastramento da mente, ao se deparar com o conto, provoca em seu leitor um fenômeno que o direciona a certos desdobramentos do próprio texto. A representação do real por meio de campos simbólicos, expressos por palavras, torna-se algo abstrato, o qual é decodificado e ampliado na mente de quem se propõe a desvendar esses símbolos através da leitura.

No caso cinematográfico, o estado mental de paranóia, incerteza e desorientação do protagonista quando se depara com aquilo que julga ser a realidade é o fator a dar o tom da trama. Cabe, em muitos casos, ao espectador decidir se o que passa na tela trata-se de representação fiel da realidade, ou não. Ao fazer isso, o cineasta italiano tece árduas críticas ao que chama de “sociedade das aparências”. Mostra um homem o qual não é mais senhor absoluto daquilo sente ou vê, é apenas um escravo dos códigos e convenções criados pela própria sociedade na qual está inserido.

Concluindo, temos que ambas as obras não têm como fio condutor a incessante busca pelo que é, verdadeiramente, a realidade. Temos, sim, duas obras de caráter bastante subjetivo, nas quais os jogos de linguagem, próprios de cada meio artístico, se constituem como o elemento principal no contexto narrativo. Mais do que originais, Blow up e Las babas del Diablo são obras que podem-se dizer interativas, uma vez que ao signos dados são atribuídas significações diversas, as quais se tornam dependentes de quem consome essa arte, seja literária ou cinematográfica.