logo mnemocine

vertigo.png

           facebookm   b contato  

Ilha de Cachorros - Uma Fábula Política

Por Maria Fernanda de Sá
 
Ilha de Chacorros (2018), de Wes Anderson, utiliza-se de fábula pós-apolcalíptica sobre cachorros para falar de política e intolerância.
 
 
Num globo frio, cinza e cheio de intolerância, quem diria que o que o mundo do cinema precisava era de um conto sobre cachorros, dotado de sentimentos pós-apocalípticos e cores quentes?
Ilha de Cachorros (2018), dirigido pelo sempre brilhante e impecável Wes Anderson, é a primeira obra cinematográfica do diretor desde O Grande Hotel Budapeste (2014) e o segundo longa animado que lança, o primeiro sendo O Fantástico Sr. Raposo (2009).
Logo de início, o público é avisando que, por mais que os latidos estejam renderizados em inglês, todos os demais personagens apenas conversam em sua língua natal, dessa forma, é apenas com as traduções de uma estudante estrangeira – dublada por Greta Gerwig – e uma intérprete dublada por Frances McDorman, que alguns momentos do filme são traduzidos. A intenção nisso é minimizar o valor das palavras que, muitas vezes, são usadas de formas distorcidas (principalmente na política) e dar mais atenção a intenções e sentimentos. O que de fato acontece.
O filme começa num ambiente, claramente oriental, tomado por gatos e, depois de um pequeno ritual – tomado, inclusive de uma sonografia admirável -, um painel se abre, revelando traços de desenhos tradicionais japoneses e dando espaço para duas figuras carismáticas de cachorros, narrarem os fatos que os levaram ao contexto atual da película, chamado por eles de “A Era da Obediência". Os animais tomam aqui a figura de um sábio, pronto para contar uma lenda repleta de mensagens importantes.
Descobre-se que anos atrás, uma população governada por ignorância e cega pelo ódio a cachorros lutou bravamente para que a espécie fosse extinta. Contudo, às vésperas dessa possibilidade, uma criança guerreira se dispôs a lutar pelos excluídos, traindo sua própria espécie, derrubando o governante. No final da batalha canina, os cachorros foram domesticados e adestrados, para eles, desprezados. Mas, sobreviveram, se multiplicaram e ganharam seus espaços. A família do governante, contudo, jamais cedeu à aceitação canina e nunca se esqueceu dos ocorridos na guerra.
A história do longa começa de fato diversos anos no futuro, numa cidade fictícia – Megasaki – no arquipélago japonês, quando ainda repleto por ódio a cachorros, o prefeito (herdeiro do da dinastia Kobayashi que quase aniquilou os animais) se aproveita de um surto de "gripe canina” e propõe isolar os infectados numa ilha repleta de lixo ("A Ilha do Lixo”) e, como sinal de solidariedade aos que amam suas mascotes, o político é o primeiro a mandar o cão-de-guarda do sobrinho para o local. Não é sequer necessário dizer que tudo sempre se parece perfeitamente armado do início ao fim.
Seguindo o desenvolvimento do roteiro, conhecemos uma matilha de cachorros isolada no lugar: Duke, King, Boss e Rex, todos animais de grande importância quando ainda pertenciam a sociedade, liderados por Chefe, o intimidador alfa: um cachorro de rua. A rotina de perambular sem rumo, dentro de uma existência fria e vazia e de brigar por comida muda quando o grupo percebe a queda de um pequeno avião não muito longe dali. Investigando, descobrem que é uma criança em busca de seu cachorro perdido, Spots, e (quase) todos decidem ajudar. O menino logo é dito ser o sobrinho do prefeito Kobayashi e, por ser contrário às ideias da família, causa diversos problemas para o governante, junto com o novo grupo de amigos que fez.
A dose extra de conflito e confusão vem com a teimosa e instigante estudante de intercâmbio, mais do que preparada para militar à favor de seus ideais – entre eles a causa pró-cachorros – e provar suas teorias da conspiração.
Wes Anderson é uma das maiores figuras no cinema quando o assunto é qualidade estética: a direção simétrica persiste na obra, a paleta de cores limitada e selecionada que trabalha cada personagem individualmente – dando mais personalidade e mais vida para todos eles dessa maneira, inclusive os cachorros – e, claro, a exuberância de cenários devidamente creditada às suas parcerias.
Como de costume do diretor, ele optou por trabalhar com o mesmo responsável pela direção de fotografia de Sr. Raposo, Tristan Oliver.
A cinematografia é repleta de texturas, dos personagens aos cenários, e conversa perfeitamente com o conceito de exílio e maus tratos ao usar elementos como garrafas sujas para criar lugares importantes para a história, como o abrigo dos cachorros na Ilha do Lixo. A maioria dos tons na ilha são quentes, muito por causa do lixo e da terra, mas também refletindo um calor e conforto que os cachorros conseguem levar ao lugar, em contraste com a sempre tomada de tons frios – ou vermelhos de urgência - cidade de Megasaki, em seus lugares públicos e políticos.
Todo o trabalho da equipe de animação possui um visual rústico e cru, mas delicioso de ver em tela, brincando com o ar vintage que os próprios tons proporcionam em vários momentos e que, interessantemente, contrasta e combina com as animações tradicionais nos pequenos televisores vistos em cena durante o filme. É tudo claramente trabalhado cuidadosamente e com muita minúcia. Os filmes de Anderson sempre foram um deleite estético à parte de suas histórias (que também costumam ser sensacionalmente roteirizadas), e esse com certeza não foge à regra.
Falando especificamente sobre a história, é fácil dizer que essa obra conversa com vários públicos porque possui mais de um nível de interpretação. Por um lado, é um trabalho sobre ignorância, intolerância e seus efeitos exponenciais dentro de uma sociedade vulnerável e as pessoas que são as responsáveis por quebrar esses paradigmas negativos e reerguer a nação, normalmente jovens. Por outro, é um conto simples sobre amizade, amadurecimento e persistência, sobre um menino e cachorros.
O roteiro possui seus momentos de humor muito bem colocados e aproveitados, brincando com metáforas e concretismo para dar graça e carisma aos personagens e à própria história. Wes também se aproveita da percepção absurda e surreal da população japonesa e leva isso a outro extremo, usando Taikos (tambores tradicionais) para criar tensão, comida como arma e a famosa ética japonesa vista em outro nível.
Ilha de Cachorros é um filme divertido, interessante, instigante e repleto de minúcias admiráveis que tornam a experiência de assisti-lo extremamente prazerosa.
 
 
Maria Fernanda de Sá Graduada em Design Gráfico - e graduanda em Arquitetura -, apaixonada por cinema e todo tipo de arte, é integrante do Coletivo Elviras de Mulheres Críticas de Cinema e Designer.