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Nós, de Jordan Peele

Nós (2019), o segundo longa de Jordan Peele, consolida tanto os trunfos quanto as fraquezas do diretor.

Uma família caminha pela praia e a sombra gigantesca de cada membro feita na areia parece envolvê-los, num claro movimento de ânsia pela tomada de lugar dos corpos de carne e osso. Talvez seja esse o plano capaz de captar o espírito da encenação que Jordan Peele promove em Nós (2019), cujos simbolismos podem servir tanto para alimentar os potenciais criativos de Peele quanto para evidenciar seus lugares comuns.

Acompanhamos Adelaide (Lupita Nyong’o), uma mãe que decide passar as férias numa cidade litorânea com seu marido (Winston Duke) e seus filhos (Shahadi Wright Joseph e Evan Alex). A família passa a ser assombrada por uma outra, idêntica a eles, que deseja matá-los. Em pouco tempo descobrem que duplos de todos os cidadãos americanos estão transformando os Estados Unidos no inferno.

Jordan Peele decide, antes de tudo, por inserir seus personagens numa espécie de mundo terrário — tudo obedecerá a regra de um jogo de coincidências simbólicas, que se desenrolarão no espaço de um Estados Unidos hermético, um parque de diversões livre paro o caos. O trovão que ressoa pelo céu noturno assim que a pequena Adelaide entra na tenda do salão de espelhos é a indicação de que alguém irá, após anos de preparo, jogar com os destinos dos pobres estadunidenses.

O destino, claro, será aterrorizante. Peele já nos provou que ama e tem talento para o terror, e Nós abraça o gênero em seus primeiros 30 minutos. É nesse período em que o diretor será capaz de expor suas referências, como a citação direta a Funny Games de Haneke, e reutilizar elementos frequentes do gênero, como o salão de espelhos, o invasor misterioso, o monstro e colocá-los sob nova perspectiva, já que os duplos não são necessariamente um terceiro ser dentro da trama, mas uma manifestação deturpada da família, uma face oculta de nós.

A partir de seu segundo ato, o filme deixa um pouco de lado sua natureza de terror e traça caminhos mais amplos. Entram em cena ação, suspense e comédia. O grande mérito de Peele é justamente o de conseguir mesclar gêneros com seus comentários políticos. Vemos na família protagonista do filme, negra e de classe média, já incorporada à lógica consumista norte-americana, a aspiração pela imagem da família branca que os acompanha na praia — o desejo pelo mesmo carro, pelo mesmo barco e até pela mesma estrutura familiar que permite as belas férias. Logo depois, a mesma família branca estará sendo assassinada por seus respectivos duplos e a mãe pede que sua assistente virtual chame a polícia, o robô não entende o grunhido da mulher quase morta e decide tocar FUCK THA POLICE, do grupo de gangsta rap N.W.A.: a identidade negra de Peele ocupando espaços antes quase exclusivos aos brancos.

O filme nos revela mais tarde que há um grande mundo subterrâneo onde os duplos viveram por anos no escuro, imitando suas contrapartes de cima. A dupla de Adelaide, chamada de Red, é a líder da insurgência e deseja ter um lugar ao sol também, mas nada será pacífico: a violência e a morte são necessárias para a criação de um novo mundo. A revolução dupla será essencialmente anárquica, não há novo sistema que surja depois disso, apenas clones sem alma de mãos dadas por todo território americano.

Alguns recursos do filme são pouco inspirados ou chegam a lugares comuns. Há a referência gratuita a Jeremias 11:11, digna da mente de um adolescente de 15 anos e todo o jogo de coincidências que parte de tal citação. É impossível evitar a previsibilidade do fim ao qual levarão esses dispositivos. Talvez esse seja o grande problema de Peele, sua dificuldade em entrelaçar organicamente os elementos que apresenta durante o filme, a grande falha de seu mundo terrário.

Nós ainda é capaz, assim como seu antecessor, de possibilitar as mais diferentes leituras, sobretudo psicológicas e sociológicas, acima de suas simbologias, e procura evitar associações finais e toscas. As potenciais leituras surgem antes da força das situações — uma rebelião de duplos recalcados —, do que dos supostos enigmas espalhados pelo filme, nem tão enigmáticos assim, apenas elementos pobres da já mencionada falta de organicidade de Peele — como os coelhos que servem de alimento para os duplos ou a origem do mundo subterrâneo. Pior ainda é a tentativa explicar tais elementos, um exercício que logo se revela infrutífero e digno das especulações de Internet que tentam explicar até o final de um Vingadores, quando visivelmente não há nada ser explicado.

Nós aparece como boa continuidade na ainda jovem obra de Jordan Peele, que anda junto com outros diretores rumo a novas possibilidades dentro do gênero de terror. Se há algo com o que se preocupar é se tão refrescante qualidade será mantida: embora o segundo filme seja assustador para todo cineasta que inicia sua carreira com um grande sucesso, é sobre o terceiro que recairão as cobranças mais duras. Só esperemos que Peele não apresente sinais de esgotamento tão cedo assim.

 

Enrico Alchimim