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‘'Shame’' e a Pornografização da Vida

Por Leonardo Passeti

Shame (2010), de Steve Mcqueen, problematiza a prática do sex menu, ao mergulhar na vida de um homem que vive a pornografia.

filme Shame (2011)estrelado por Michael Fassbender e dirigido por Steve Mcqueen, narra a história de Brandon, um publicitário solitário por volta dos 30 anos viciado em sexo e tudo que o envolve, que tem a dinâmica de sua vida abalada por uma visita súbita de sua irmã, Sissy. Brandon constantemente seduz mulheres em bares, transa com prostitutas e consome muita pornografia. Ao se ver impotente diante de uma mulher com quem está ficando íntimo (e em seguida transar com uma prostituta em um significativo jump cut), uma coisa fica clara: Brandon não é viciado no sexo, mas sim na experiência pornográfica, e não se conecta com ninguém, nem com a moça do escritório, nem com sua irmã.

A experiência erótica difere-se da experiência sexual em um aspecto: o mistério. O erotismo não carece de mistério, incerteza, é típico da vivência humana, enquanto a pornografia é explícita e objetiva, uma criação humana. A pornografia está a favor da lógica de consumo e do Espetáculo, ela é a responsável por vender uma imagem, um ideal de sexo apenas concretizado em sí mesma. Segundo Byung Chul Han, autor de “A Agonia do Eros”, ela é, então, “mais sexual que o sexual”, e grande responsável pela frustração no âmbito sexo-amoroso. Tamanha é mediação das imagens em nossas relações, que o próprio sexo tornou-se pornográfico. As relações eróticas, agora, passam a ser enxergadas através da lógica de consumo, como visto com um dos mais recentes pós-modernismos: o Sex Menu.

Sex Menu é uma prática pós modernista que consiste na criação de uma lista (alguns sugerem até uma planilha de Excel) de todas as práticas sexuais que um indivíduo gosta, com o objetivo de ser entregue a seu atual parceiro. Alguns “especialistas em relacionamentos” afirmam que isso pode fazer bem a uma relação, “reascender o fogo”, “impulsionar a relação”, e outros clichês do tipo. Acontece que tais especialistas, ou pelo menos sua maioria, agem como gurus fajutos: apresentam uma nova fórmula (que carrega um peso pelo uso intencional da palavra “especialista”) que promete revolucionar os relacionamentos sexuais, tal fórmula fracassa, seu autor some do mapa, e depois de um tempo voltam com uma nova fórmula. O erro desses especialistas (ou devo dizer gurus?) está justamente em vender algo que não existe: uma fórmula para fazer com que as relações deem certo. Além disso, essa prática torna, ou ao menos tenta, a interação humana objetiva, eliminando justamente aquilo que a torna humana.

Tanto Shame quanto as práticas do Sex Menu convergem em exemplicar tal fenômeno. Ambos mostram a transformação do erotismo em pornografia e a objetivação das relações pessoais. Brandon não consegue mais criar laços nem conexões humanas genuínas, é preciso que sua irmã passe por uma experiência de quase morte para que ele perceba a própria negligência, e mesmo assim, ao final da tragédia, continua assombrado pelo próprio vício. Não é só o sexo que está inserido numa idealização doentia da lógica de consumo, são também as relações humanas. Cada vez mais as pessoas buscam menos o outro mas sim uma extensão de sí mesmas. Por isso a prática do Sex Menu é uma demonstração da pornografização da vida.

 

Leonardo Passeti