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Filmes de Plástico - Viver e Ouvir as Periferias

por Julia Gimenes

 

Julia Gimenes, da Mnemocine, entrevista Maurilio e Gabriel Martins, da produtora Filmes de Plástico. Na entrevista, a dupla fala das origens da produtora, dos primeiros contatos com o audiovisual, além de refletirem sobre a condição da periferia e do cinema periférico.

Maurilio e Gabriel Martins se conheceram na faculdade. Nessa época, Gabriel já tinha exibido seu primeiro curta-metragem na Mostra de Tiradentes (aos 18 anos) e Maurilio chegava para apresentar seu primeiro roteiro de faculdade, já registrado na biblioteca nacional. A agilidade e determinação dos dois em realizar seus projetos chamou a atenção um do outro e a partir daí eles trabalharam juntos em todos os seguintes, criaram a Filmes de Plástico com mais dois amigos (André Novais e Thiago Macêdo) e seguiram de curtas premiados em festivais até o alcance massivo da Netflix com o longa-metragem Temporada (2019).

Filme de Sábado (2009) foi seu primeiro filme juntos, um curta-metragem caseiro que segundo Maurilio “claramente é um filme ruim, mas serviu para nos conectar”. Foi também essa a primeira experiência deles filmando no bairro onde cresceram e onde fariam todos os seus próximos filmes.

Para esse primeiro curta, a dupla conseguiu levantar R$600, com os quais alugaram uma câmera. Como coloca Maurilio, “já existia essa consciência, existia decupagem e na verdade esse é o processo que nos une bem até hoje”. O que uniu o quarteto, além da história similar e dos gostos em comum, foi o modo mais clássico de fazer cinema, pautado por uma decupagem e um planejamento cuidadosos.

No dia 1 de Agosto, o quarteto lança outro longa-metragem: No Coração do Mundo. Trata-se de mais uma obra rodada em Contagem, com aquele sotaque inconfundível de cadência mineira, como o de Maurílio e Gabriel. Nesse filme, atores e atrizes que já tinham trabalhado com a produtora em outros projetos voltam para mais uma parceria, como Grace Passô, de Temporada, e Bárbara Colen, de Bacurau (2019).

Então, para entender um pouco melhor todo o processo que os trouxe até aqui, depois de 10 anos da criação da produtora, conversamos um pouco sobre a gênese da Filmes de Plástico:

Julia (Mnemocine): Como começou a produtora?

Maurilio: Tudo começou quando eu e o Gabriel nos conhecemos em 2006 na faculdade e tivemos a feliz surpresa, a feliz descoberta, de que éramos quase vizinhos. Morávamos em bairros que eram colados um no outro: o Milanês e o Laguna.

Eu e o Gabriel, a gente tem quase dez anos de diferença de idade, então mesmo morando muito próximo, 10 minutos caminhando, a gente nunca tinha se visto. Foi se ver na faculdade, no curso de cinema, e aí nessa descoberta ficamos muito empolgados com essa ideia, acho que rolou uma identificação natural, instantânea, e desde esse momento começamos a falar em ter uma produtora, sem ter nem ideia do que significava isso, mas a palavra “produtora” nos soava bem.

Enfim, fomos fazendo coisas juntos, até 2008 filmamos um curta, o Gabriel escreveu um roteiro, me chamou pra atuar e me disse que tinha chamado outros conhecidos dele para atuar também, ele chamou o André, ele pode contar isso melhor, mas ele chamou o André, que tinha conhecido na Escola Livre de Cinema, para fazer o som do filme e o Thiago Macêdo foi o diretor de produção. É um filme todo rodado na casa onde o Gabriel cresceu no Milanês.

Então, a produtora nasceu com os 4 sócios fazendo um curta caseiro, mas a produtora se constitui mesmo em 2009 quando a gente vai lançar esse filme, tanto que a data que a gente comemora que abriu a produtora, e que fez agora dez anos, é primeiro de abril, que foi o dia que o filme foi finalizado. Olha, agora nós temos uma produtora... porque aí nesse ínterim eu fiquei amigo do André… conheci mais o André e fomos descobrindo uma série de coisas em comum, não só o fato de morar na periferia, mas que a gente gostava de algumas bandas… torcíamos pro Cruzeiro os três, então era uma série de coisas… o André também é morador de Contagem mas do outro lado da cidade..

Gabriel: É… essa ideia de que… era longe, né? A faculdade pra gente, apesar de a distância em quilômetros não ser tão grande, o percurso de ônibus ficava muito longe porque o ônibus dava muita volta…

M: São 18 quilômetros, né? 17?

G: É. E eram inclusive dois ônibus, não tinha ônibus direto lá pro nosso bairro. Então era um tempo grande de ficar conversando, ficar pensando coisas, então era o momento de fato que a gente tinha pra ficar tendo um monte de ideias, ficar trocando ideias, né? Nisso também teve um processo de ter ficado mais fácil filmar, começar a ter acesso a alguns equipamento que…. é uma coisa que também faz parte da nossa geração, né? A gente tinha começado a filmar e de repente começava a ter DSLR, essas câmeras que foram ficando mais acessíveis e fazem imagens cinematográficas e bonitas, então a gente começou a ter acesso a isso e começou a ser possível fazer filmes com pouca grana e com poucas pessoas.

J: Antes de entrar na faculdade, como espectadores comuns, o que vocês gostavam de assistir? Com que tipo de audiovisual vocês conviviam mais? O que alimentou essa vontade de fazer audiovisual?

M: Aí eu acho que as histórias se dividem, de formas muito interessantes em ambos os casos. O Gabriel tem inclusive registro pictográfico disso, tem desenho disso, mas no meu caso eu tenho uma relação diferente com o cinema e com o próprio vídeo.

Na minha casa não tinha televisão e eu tinha que ir na casa das pessoas pra assistir filmes. Isso me fez criar uma relação diferente com o cinema e o audiovisual em geral e aí eu inventava filmes na minha cabeça pra contar pros meninos, filmes que eu não tinha condições de assistir, porque eram filmes passados em outros horários, então comecei em um certo momento a inventar esses filmes e percebi que tinha público, as pessoas realmente se interessavam pelos filmes que eu criava e eu fiz isso até os 14 anos, até minha irmã um dia me desmascarar com a famosa frase: “Seu filme é bom pra caralho, eu sei que ele não existe, mas é bom!”.

Eu falava sempre que o filme tinha passado em algum horário impróprio tipo 3 da manhã e que eu tinha assistido sempre na casa de um primo, esse primo nunca existiu, óbvio! Daí eu descobri que eu tinha essa capacidade, então com 14 anos eu assisti na escola Ilha das Flores (1989) e achei genial, não só pelo filme mas também pela metragem, eu pensei: “isso eu posso fazer!”.

Contando assim parece até que foi uma ideia estabelecida e tal, mas não era, era só um devaneio, eu encarava como um devaneio. Ficava lá viajando, sonhando com versões de filmes…

G: É, pra mim tinha essa coisa do acesso, o que chegava mais eram os filmes mesmo de sessão da tarde, blockbuster, assim. E uma coisa que foi muito importante pra mim… o Maurílio tem essa coisa de lembrar do Ilha das Flores e eu não tenho nada assim, de lembrar de um momento, mas eu já queria fazer isso desde muito novo, desde que eu me lembro mesmo, não sei por quê. Não tinha uma câmera por perto, então tinha uma coisa de desenhar muito, desenhar os pôsteres dos filmes que eu gostava. Daí minha mãe, vendo essa vontade, me levou na 4 a mostra de Tiradentes, e lá eu fiz uma oficina de brinquedos ópticos, que foi o meu primeiro contato mesmo com o fazer, produzir filmes. Eu lembro de sentar na praça pra assistir Bicho de Sete Cabeças (2000) e estar lotado, muito lotado, o dobro de gente que tem hoje.

J: E como era a relação do bairro de vocês com o cinema? Quando vocês chamaram as pessoas pra atuar por exemplo, como elas reagiram? O que a palavra “cinema” queria dizer pra elas?

G: A gente começou a produzir no nosso bairro e nas nossas casas por questões de produção mesmo, não foi uma coisa assim pensada pra ser filosófica, foda, política. Essa coisa do Maurílio, que não tinha um histórico de ter feito teatro, ser ator profissional ou querer ter uma carreira, o fato de ele ter atuado no nosso filme, e ter atuado bem, abriu nossa cabeça pra achar que a gente mesmo poderia atuar ou que a gente podia chamar gente sem uma formação assim de atores. Então a gente entendeu que pessoas próximas também poderiam atuar, e seria massa, mas era muito isso de fazer e aí começar a partir do resultado a entender como uma coisa muito maior do que só prática.

M: Por isso que eu acho que o Filme de Sábado é um divisor de águas. Tem uma autoria ali, foi quando a gente começou a entender o que a gente queria fazer e a fazer do nosso jeito, não só transpor ideias que tinham sido feitas em outros lugares lá pro nosso bairro. O eletricista do filme era o eletricista do bairro mesmo, a gente chamou ele e confiou que ele podia ligar uma luz HMI, ele nunca tinha visto uma lâmpada de cinema na vida! E a gente com um material alugado que nem tinha condições de pagar... a cozinheira do filme é cozinheira mesmo! Então ele é um filme que tem uma verdade. Claro que olhando esse filme hoje, a gente enxerga essas coisas. Naquele momento, a gente não enxergava, mas havia uma predisposição e acho que é por isso que a produtora surge de fato nesse momento.

Os filmes dos diretores da produtora são muito distintos, mas eles têm uma comunicação que eu acho que passa por isso. Essa é a marca da Filmes de Plástico. Nesse momento, a gente começou a pensar em como fazer cada filme de acordo com o que cada projeto pedia e não só fazer porque nos ensinaram assim.

J: Mas digo, as pessoas que eram convidadas a participar dos filmes, o que elas achavam de estar fazendo cinema?

G: É difícil dizer, porque foram tantas pessoas, tantos momentos, pessoas mais velhas, mais novas…. acho que a resposta mais simples é que isso levou a uma percepção de como o cinema é afastado das pessoas, principalmente das mais pobres. Porque é uma arte que sempre foi muito elitizada, e ainda é. Naquele momento ninguém tinha câmera, então acho que essa distância, ela nem pode mais ser afirmada, só no cinema enquanto uma instituição, mas enquanto imagem em movimento é muito mais acessível hoje, na nossa época não era.

Mas ainda esse cinema nos moldes que a gente faz com estrutura, com equipe, é um cinema grande, e o cinema é um grande encontro, né? Tem uma imponência, tem um encantamento, isso é muito bom pra auto estima de todo mundo que participa, é todo mundo junto fazendo uma coisa que a gente acredita. Então é muito bonito.

Antes tinha um certo estranhamento, porque era estranho mesmo! Até porque os filmes eram muito diferentes dos que passavam na televisão, eram outras propostas, algumas um pouco estranhas assim pra um público comum. Mas depois também as pessoas que já conhecem a gente e sabem que a gente filma no bairro começam a ter uma relação diferente com isso também.

M: E tem um fator, Julia, que eu acho muito interessante, que é a construção do imaginário, do imaginário desse cinema periférico, e isso eu estou falando só do nosso caso, não estou entrando no mérito de ninguém mais que produz. Essa construção se dá em duas instâncias, a primeira no macro, que é quando os nossos filmes passam a chegar pras pessoas e elas passam a identificar uma produção muito distinta, que vai do Fantasmas ao Dona Sônia. Ainda assim, todo mundo se identifica com eles porque os criadores são daquele lugar, então o modo de identificação é a origem, não a forma, porque a forma é muito distinta, a gente produz desde filmes com muita estrutura até filmes sem estrutura nenhuma.

E depois a gente vai se reforçando nesse campo maior da crítica, da academia, do público e a construção do imaginário que eu acho mais foda é a do lugar que a gente vem. As pessoas foram não só se acostumando, mas tomando gosto por aquilo! Eles pensam: “Os caras tão no Netflix e fazendo filme na periferia!”. Então eu acho que conforme nós somos validados fora, mais as pessoas daqui valorizam o nosso trabalho e se identificam, percebem que poderiam fazer filmes também.

J: E o que vocês acham que mudou na representação da periferia no cinema nacional desde a Retomada?

G: Eu não sinto que teve uma mudança muito grande. Acho que se renovaram as formas de exotismo mas aumentou o número de realizadores que vem de lugares como o nosso. Era uma grande raridade, pra não dizer quase nulo, e agora se vê muito mais, bastante gente não chegou ainda no longa-metragem mas tem uma produção grande de curtas. E se diversificou muito, né? Porque não existe só uma maneira de falar sobre isso, se aqui na produtora, que a gente vem todo mundo de um lugar próximo, os filmes já são tão diferentes…

M: Mas esse despreparo pra se falar das periferias, ele não é só do cinema, na verdade existe uma defasagem na produção de pensamento mesmo, na produção acadêmica, ou até mesmo ensaísta e filosófica, sobre a periferia que é triste. A gente tá falando de uma parcela da população que é imensa, essas periferias elas se parecem muito, pelo Brasil todo e …. falta produção.

Primeiro há uma confusão entre favela e periferia porque são configurações diferentes. Você tem muitas dessas favelas, falando aqui de BH por exemplo, que elas são centrais, então a condição de vida é muitas vezes mais precária, mas os acessos são distintos. É uma discussão longa, não tô dando consultoria sobre periferia, mas é isso a periferia, ela é fora do centro, tá na palavra, né? Então, tem uma dificuldade de transporte, uma ausência do Estado, que também há na favela, mas, enfim, essas condições criam formas de vivência que são muito pouco estudadas ou pouco entendidas.

Há um rosário de mal entendidos, a palavra “evangélico” por exemplo…. cunharam uma expressão que não condiz com o povo que essa palavra quer representar, então há poucos estudos sobre isso, há pouco movimento pra tentar entender quem são essas pessoas… como funciona essa configuração social. E aí o audiovisual enquanto antena do mundo vai pegar algo que já é defasado. Essa mesma classe média que produz o conhecimento, a mesma classe média que produz a maior parte dos textos acadêmicos, que produz os ensaios, essa mesma classe média é que vai pras artes, então a arte ela não é distinta, nesse sentido, desse olhar confuso, vou dizer confuso pra não dizer coisa pior, que a classe média tem sobre a periferia.

Então essas pessoas olham pra essas pessoas não-católicas com o olhar enviesado, sem ter a menor noção do papel que essas igrejas pentecostais e neopentecostais tem nessa configuração social. Pra eles, na visão deles, evangélico é o Edir Macedo carregando dinheiro. Eles não tem ideia de que, primeiro que não tem só essas igrejas, existem muitas configurações, mas eles não tem ideia também do processo dos presidiários e ex-presidiários…. do comércio próprio que se cria, porque é difícil chegar no centro… da falta de iniciativas públicas de cultura que daí óbvio, se você não tem acesso à cultura você vai procurar algo pra se socializar e vai procurar o quê? Igrejas, movimentos…

E isso não quer dizer que a gente seja os arautos da verdade, que a gente também não tenha nossos olhares enviesados, porque esse lugar é mais complexo até do que a gente quer! Talvez a gente só olhe… na verdade o Gabriel usou uma expressão no lançamento de Temporada em São Paulo que eu nunca vou esquecer: “a gente escuta melhor”. E porque a gente escuta melhor talvez a gente consiga fazer filmes com mais verdade sobre esses lugares.

O que o rap já faz há muito tempo talvez o cinema esteja agora vagarosamente fazendo. Por isso, eu me sinto muito privilegiado de fazer parte da Filmes de Plástico e de talvez poder ser lembrado no futuro por ter feito parte desse processo de desconstruir uma imagem e reconstruir outra nova sobre o que é ser periférico.

G: Uma palavra que eu gosto muito é a palavra “vivência”. Porque quando a gente vive aquilo, seja por ser negro, mulher, pobre, rico, a nossa experiência sobre aquilo é mais nuançada. O exemplo que o Maurílio deu sobre a religião talvez seja onde isso fica mais claro, essas pessoas não entendem mesmo, seja por preguiça de pesquisar mais a fundo, má-fé ou por de fato não ter vivência daquilo.

J: E é curioso porque a cultura “evangélica”, vou chamar assim para generalizar, é muito forte na classe média também.

M: Pois é! Aí entra um ponto maravilhoso! Porque a igreja que os meus pais frequentam, por exemplo, tem nos bairros de classe alta de São Paulo, nos Jardins, Sumaré, dependendo do lugar tem carro de luxo estacionado na porta, agora… quando que você viu uma família evangélica representada como branca e de classe alta? Não tem!

G: É, isso já mostra os limites desse preconceito.

J: Isso ficou muito claro nas eleições, eu acho. Muita gente colocou a culpa do que aconteceu nas eleições em cima da classe evangélica de classe mais baixa ou em acusações de que as fake news se espalharam por conta do anafalbetismo, sendo que boa parte dos eleitores ultra conservadores pertence às classes mais altas.

M: Exato!

G: É… acho que esses tempos desafiam a gente a olhar com mais profundidade essas coisas, né? Por isso também a importância das pessoas que vêm de vivências diferentes, para poder olhar as coisas com profundidade.

 

Julia Gimenes é  formada em cinema e trabalha como montadora e fotógrafa desde então.