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"Amores Brutos" de Alejandro Iñárritu

O Cinema mexicano volta a surpreender

por Myrna Silveira Brandão 


É bom começarmos a prestar mais atenção nos filmes que estão saindo do México. De uns tempos para cá, eles têm sido uma sucessão de obras cinematográficas com um estilo muito próprio e ao mesmo tempo de um apelo universal surpreendente.

 

No Festival de Sundance, por exemplo, há pelo menos uns dois ou três anos que o cinema mexicano tem levado para casa todos os prêmios destinados ao cinema latino-americano, com filmes da qualidade de Santitos, A Lei de Herodes e Ninguém Escreve ao Coronel.

Agora é a vez de Amores Brutos (Amores Perros), finalmente lançado por aqui um ano depois de Cannes 2000 ter dado a ele o Prêmio Especial da Crítica, apesar das suas quase três horas de duração, coisa que geralmente os críticos não morrem de amores. Na sessão especial para a imprensa no último Festival de Nova York as reações mostraram que Amores Brutos poderia ser até mais longo e continuaria agradando mesmo assim.

Dirigido por Alejandro Gonzalez Iñárritu, o filme é composto por três histórias que se entrecruzam na Cidade do México: a primeira mostra Otávio, um jovem perdedor sem eira nem beira, obcecado pela cunhada Susana ; ela é casada com Ramiro, um marginal sádico que adora abusar das pessoas, especialmente da própria Susana. Otávio está mesmo é afim que o irmão morra para ficar com a cunhada.

Logo somos apresentados a Daniel, um editor de muito sucesso que abandona casa, mulher e filhos e vai viver num apartamento incrementado com uma top model imbecilóide e profundamente neurótica. É aí que Iñárritu nos apresenta a El Chivo, um ex-guerrilheiro tornado matador de aluguel, contratado para matar um empresário muito rico e farrista.

Como num videogame, os destinos de toda essa gente vão se cruzar nas ruas da capital mexicana com os destinos de cachorros de lutas de rinha. Aliás, cabe aqui um parêntese para dizer que quem treinou os cachorros que aparecem lutando neste filme é um gênio nesse negócio: os bichos estão ótimos como feras assassinas, mas diz o diretor (leia abaixo) que era tudo de mentirinha. Todas essas histórias se juntam e são deflagradas por uma violentíssima batida de carro num cruzamento da capital mexicana, aparentemente acidental, mas que vai afetar a vida de todos, inclusive do simpático (?) Cofi, um Rottweiller imenso, herói canino da história.

Apesar da roupagem de violência explícita, Amores Brutos é um filme como poucos hoje em dia: trata com surpreendente sensibilidade o lado triste do amor e da condição humana, os amores impossíveis e os sonhos que os acompanham. Uma fotografia excelente e uma trilha competente completam esse filme gostoso de se ver.

Na entrevista coletiva após a exibição, Iñárritu teve que defender o seu filme, acusado de imitar os filmes de Quentin Tarantino: "Amores Brutos não tem nada a ver com Tarantino. O problema é que hoje em dia qualquer filme que mostre violência é logo chamado de tarantinesco.

Além disso, Tarantino utiliza a violência para divertir; para mim, o que interessa é a violência real, a violência com um rosto", afirmou. Demonstrando uma certa irritação quando comparam seu filme a outras obras de Tarantino, Iñárritu assume, no entanto, muitas influências na sua carreira e nos seus filmes: "Amores Brutos tem referência em outras fontes e não em Tempo de Violência. O filme está muito mais perto de O Som e a Fúria e de Rashomon", disse ele complementando que os diretores que mais o influenciaram foram Buñuel, Bergman e Coppola. A seguir, surpreendeu a platéia com a afirmação de que a sua grande motivação para fazer filmes veio do rádio e não do cinema: "Eu fui DJ e foi o rádio que despertou em mim o desejo do cinema. Led Zeppelin e David Bowie tiveram uma grande influência para que eu quisesse dirigir filmes".

Provocado por um jornalista a respeito da declaração do "Cahiers du Cinema" de que Amores Brutos trata os personagens de forma desapiedada, Iñárritu, que é conhecido por sua aversão aos críticos, não deixou por menos: "gostaria que eles saíssem do seu mundinho parisiense e viessem para a cidade do México", provocou.

Para ele, viver na cidade mais populosa do mundo é como fazer parte de um experimento antropológico: "são 21 milhões de pessoas com suas diversidades e disparidades sociais. Mas a história de Amores Brutos poderia acontecer em qualquer outra cidade como Tóquio, Los Angeles ou Nova York", disse o diretor que, talvez por isso, em nenhum momento do filme mostra uma panorâmica da cidade do México como um todo. Iñárritu utilizou técnicas diferentes para cada narrativa. São três histórias em estilos diversos falando de amor, morte e redenção:

"Amores Brutos é também um experimento estético e eu estava consciente dos riscos. A minha grande preocupação é que no final o meu longa acabasse se transformando em três curtas. Mas felizmente isso não aconteceu e eu estou muito satisfeito com o resultado", afirmou.

As lutas de rinha de cachorros, chocantes pela violência e pelo grafismo, preocuparam alguns jornalistas que quiseram saber se os animais foram feridos. Sobre essas cenas, o diretor explicou que, além de usarem focinheiras disfarçadas, eles foram muito bem treinados: "nenhum deles se machucou", disse Iñárritu fazendo questão de tranqüilizar a platéia muito preocupada se o filme tinha sido politicamente correto com os animais.

Indagado sobre a possibilidade de ir trabalhar em Hollywood, Iñárritu foi enfático: "só considerarei a hipótese de ir para lá se puder levar o México junto", encerrou o assunto.


* Myrna Brandão é presidente do Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro