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resenha: Screening Out the Past

 May, Lary. Screening Out the Past: the Birth of Mass Culture and the Motion Picture Industry.The University of Chicago Press. 1980 Resenha por Carla Miucci Ferraresi

Segundo destaca Lary May, no ano em que Screening Out the Past foi publicado, um fato sem precedentes ocorreu na América: um ex-astro de cinema tornou-se presidente dos Estados Unidos. Como sugerido por este ensaio, isto não deveria ser surpresa ao se considerar a conexão entre política e Hollywood, evidenciada ao longo de toda a década de setenta. A eleição de Ronald Reagan foi o resultado lógico de uma tendência persistente que misturou poder cívico e indústria cinematográfica, política e cultura popular.

O estudo das relações entre cinema e poder cívico, no entanto, veio através de uma inesperada convergência de interesses. Como é comum a historiadores, o pesquisador e autor deste livro chegou a esse assunto através de outras questões derivadas de investigações anteriores.

 

Tentando compreender como os conceitos populares de família e papéis sexuais evoluíram na era moderna, o autor procurou estudar a indústria cinematográfica como uma nova e influente maneira de entretenimento que emergiu com a queda do Vitorianismo. Logo ficou óbvio que as mudanças sexuais se sobrepunham as alterações culturais mais amplas e os produtores do novo teatro tornaram-se agudamente conscientes de que esse poderia ser um tema a ser explorado por eles.

 

A revolução moral não apenas formava o tema central de inúmeras produções, mas também as salas de exibição palacianas, o star system, as revistas para fãs e a corporação Hollywoodiana combinaram-se de forma a transpor o imaginário das telas para vida cotidiana de suas platéias.

 

Ainda a título da pesquisa prévia do autor, estas revelações levantaram algumas questões perturbadoras, uma vez que não havia referências a elas na literatura acadêmica disponível. Estúdios de cinema forneceram alguns artigos excelentes, biografias importantes e relatos sobre a indústria cinematográfica, mas seus autores tendiam a isolar estes assuntos entre si, analisando-os com frequência separadamente da experiência popular. Acertadamente, estes autores observaram que o cinema continha mais que um reflexo da realidade, mas eles ignoravam a interdependência entre forma e conteúdo, criatividade e sociedade. Eles ignoravam o fato de que a existência contínua da indústria cinematográfica exigia uma relação empática e tangível com os valores das platéias.

 

Há· pouco tempo, alguns historiadores começaram a transcender as divisões artificiais do academicismo e agregar aos seus estudos os movimentos causados pelas mudanças sociais Tais esforços, entretanto, não ofereceram uma análise independente dessas mudanças nem deram novas evidências de uma necessidade de se reinterpretar a ascensão da indústria cinematográfica. Todavia, a abundância de novos materiais publicados demonstra que uma relação dinâmica e essencial entre os criadores de filmes americanos e espectadores existe e que essa ligação oferece uma compreensão básica de como os filmes eram criados. Talvez a arte popular em geral, mas certamente a arte feita pelos cineastas norte americanos tem sido uma empresa cooperativa entre os artistas e seu público, entre aqueles que criam imagens e dão forma à cultura popular e aqueles que escolhem quais formas resistirão.

 

Outra dificuldade encontrada era compreender a estrutura institucional mais ampla onde tal criatividade acontecia. Se os estúdios trabalhavam em um contexto estreito, os acadêmicos, estudando a emergência da cultura e a comunicação de massa, erraram ao vê-la como passiva frente à sociedade. Escritores de linha liberal viam o assunto da problemática sobre a moderna cultura popular primariamente, como uma resposta às necessidades individuais de evasão; os filmes eram considerados desvinculados dos assuntos da vida cotidiana. Por outro lado, autores trabalhando de acordo com a metodologia marxista, intensamente interessados em como o capitalismo superava suas crises periódicas, reforçavam o poder dos grandes negócios como geradores de fantasias cujo objetivo era controle social.

 

Nenhuma destas interpretações faziam sentido frente as pesquisas do autor, que mostravam que produtores e seus patrocinadores viam o cinema como um dos mais importantes dentre os recém emergidos meios de lazer informal, como uma forma de inserir novas demandas na economia. Sob sua óptica, o fundamental é que os filmes, durante os seus primeiros anos, não eram entretenimento puro, nem simples mecanismos de manipulação controlados pelos industriais do cinema. Ao contrário, esses filmes eram importantes expressões independentes de desejos folclóricos canalizados para um ambiente de lazer radicalmente transformado.

 

Outra preocupação essencial da autor é ressaltar que, quando observado em um contexto que inclui os criadores e a preparação de uma instituição popular, esta experiência fornece também uma diferente visão da política do século vinte. Os novos meios de lazer interagiam com a revolução na vida sexual que, por sua vez, inseria os assuntos reformistas da época; uma descoberta que fez o autor rever os principais ensaios que influenciavam os historiadores da era Progressista. O primeiro passo foi constatar que as investigações anteriores, aparentemente separadas, estavam amarradas entre si. Sociólogos contemporâneos utilizaram-se de métodos inovadores para demonstrar que houve uma mudança mensurável na moral das classes médias urbanas entre 1900 e 1920. Mas, como destaca Lary May, a convergência desta mudança em assuntos ligados a poder ainda permanecia obscura.

Por exemplo, a ativa comunicação e as relações próximas entre líderes civis e cineastas, principalmente, as que dizem respeito a revolução sexual, eram superficialmente estudadas. Temendo que a ascensão de impérios industriais abalassem a ordem moral tradicional, acreditava-se necessário combater essa ameaça. No entanto, em 1920, a urbanidade havia erguido uma nova cultura suportada por todas as modernas instituições de lazer, esporte, nightclubs, música popular, parques de diversão, que incluíam cinemas, a fim de regenerar os conceitos populares de progresso e sucesso da classe média.

 

O autor esclarece que o resultado foi uma profunda alteração na identidade americana, iniciada na virada do século. O cinema foi um elemento chave neste processo, auxiliando a promover a substituição de uma democracia de produtor para uma democracia de consumidor. Centralizada em grandes cidades, a revolução cultural tinha uma vida independente. Claro, as elites tentaram controlar o processo, mas apesar de seus esforços, os cineastas ajudaram a reorientar o individualismo democrático de um modo organizado e criaram modelos para lazer que ajudaram a dissipar os temores de ruptura social. Apesar da promessa de uma vida mais rica ser frequentemente distorcida ao extremo, a maior necessidade era a geração de satisfação pessoal para conter uma sociedade quase sempre alienante e burocrática.

 

Devido ao fato de o consumismo ter suprido os ideais da política econômica, os produtores tentaram unir seus produtos à tradição democrática através de políticos que serviam à indústria. Os líderes políticos frequentemente aceitavam, esperando relacionar seus programas de governo às aspirações populares sustentadas pela mídia, suas instituições de lazer e personalidades. Muito desta simbiose vinha sendo um elemento obscuro que veio a se esclarecer em 1980. Na campanha presidencial daquele ano, Ronald Reagan prometeu regenerar o sonho americano moderno de consumo e crescimento econômico, um sonho que ele representou várias vezes, por mais de vinte anos, nas telas como um astro de cinema. A realidade política e artística por detrás desta síntese vem frequentemente nos iludindo, mas este estudo sugere que elas vem sendo uma poderosa e permanente parte de nossa cultura desde a virada do século.