É possível analisar discursos, depoimentos, documentos?

Malgrado o fato das ciências sociais aplicaram a um objeto humano ou produto da atividade humana como um filme, ferramentas também humanas, uma atitude científica é possível e desejável. Ela implica

 

- em um procedimento de trabalho intelectual
- em um método no melhor sentido do termo
- em metodologias, a saber: etapas no trabalho e sobretudo as maneiras de fazer que, mesmo não sendo manuais, regrupam técnicas pelo rigor das atitudes que implicam.

Estas técnicas são diversas segundo o objeto ao qual elas se aplicam e não se excluem. É necessário escolher a(s) mais adequada(s) e também utilizá-la(s) convenientemente

É, assim, necessário acabar com algumas ilusões. Notadamente:

1) A ilusão da facilidade ==> Ao nível concreto das técnicas, há que saber que sobre o plano da preparação e da execução, elas exigem em primeiro lugar, paciência: a análise de conteúdo implica a leitura de numerosos documentos, um trabalho enorme para contabilizar as unidades. Fazer entrevistas e/ou analisar documentos significa, na maior parte do tempo, investir muito tempo.

As técnicas exigem ainda o controle e, as vezes, a modificação de nós mesmos. Em uma pesquisa, o instrumento de observação é um homem que deve perturbar o menos possível o objeto humano observado. Há que se aprender a não julgar mas a analisar, o que implica uma verdadeira contra-educação oposta ao maniqueísmo implícito à toda socialização.

Estas condições preenchidas, temos ainda que saber que para bem levar ao cabo um trabalho (pesquisa, monografia, tese...) é necessário saber o que fazemos e porque fazemos. Isso significa checar nossos próprios pressupostos, efetuar uma ruptura epistemológica mas também questionar as técnicas.

2) A ilusão da neutralidade ==> Parece-me que continuamos muito freqüentemente a interrogar-nos sobre a ideologia implícita do pesquisador sem se dar conta que, sob uma forma menos aparente, o inimigo já se infiltrou nas fileiras daqueles que deviam combatê-los: os instrumentos supostamente objetivos de conhecimento científico.

Temos então que tomar consciência do perigo: as técnicas, símbolos do espírito científico pelo rigor são não somente suscetíveis de camuflar ideologias mas, de maneira ainda mais inocente, de traduzir os pressupostos, de recortar a realidade por antecipação, ou seja: de ser inspiradas pelos a priori que ela têm por função combater.
Para aqueles que lutam para atingir a objetividade científica, o uso sério de instrumentos técnicos representa uma garantia. Porém alguns autores se empenharam em mostrar que o antídoto pode ser um álibi.
Por neutralidade, não compreendemos somente a supressão dos pressupostos ideológicos ou afetivos do analista mas, em um sentido mais amplo, o fato que a técnica não influencia a pesquisa, este último ponto mais particularmente nos estados de escolha e de utilização.

a) A escolha das técnicas: escolher técnicas, dado suas particularidades e seus limites, é selecionar, antecipadamente, os materiais que elas colherão. Como diz Bourdieu, é "perguntar-se o que elas fazem aos objetos e os objetos que elas fazem." (Métier du sociologue, 1986).

O domínio de uma técnica, após um aprendizado mais ou menos longo, conduz à crença em suas possibilidades donde o risco de exagerar suas virtudes. Kalan dizia: Dê um martelo a uma criança e você verá que tudo parece merecer uma martelada.

b) A utilização das técnicas: a influência da maneira de usar as técnicas sobre os resultados é mais conhecida, em particular no que tange aos questionários. Encontramos aí o problema da formulação das questões mas insistimos sobre a necessidade de conhecer, em cada caso, os limites da técnica empregada e, sobretudo, o que ela supõe. Ainda segundo Bourdieu: toda vez que um sociólogo (ou analista) é inconsciente da problemática que ele engaja em suas questões, ele se impede de compreender a problemática que os sujeitos engajam em suas respostas. (Ex: categorias de idade, sexo...)

Todo recorte implica a aplicação de um esquema habitual não verificado (pressuposto), ou de uma escolha, logo de uma teoria mais ou menos inconsciente. Nada é gratuito, nem neutro nos recortes tradicionais, resultados de circunstâncias históricas, utilitárias (ex: necessidades fiscais), produtos culturais que, desta maneira, veiculam ideologias. (Ex: computadores).


*Cristina Panella - Doutora em Sociologia pela Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales - Consultora e Professora Universitária.

 

 

 

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