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O emprego da música já existente

Quem se dedica ao estudo da música cinematográfica logo se dá conta de instâncias em que o diretor dispensa o trabalho do compositor, e elabora sua trilha sonora a partir de material musical já existente, com vida autônoma. Nesta prática (da qual a história do cinema é pródiga em exemplos, alguns já clássicos), o diretor pode ou não recorrer à colaboração do músico (a primeira alternativa, porém, é muito menos comum que a segunda), pode ou não valer-se de música gravada, ou seja, pode utilizar a obra musical em gravações ou fazer gravá-la especialmente para a finalidade (e neste caso, a segunda hipótese é muito mais remota que a primeira).

A experiência indica que, grosso modo, pode-se empregar esta modalidade de música de duas maneiras, radicalmente diferentes quanto às finalidades e, principalmente, aos resultados a que conduzem.
A primeira, infinitamente mais comum, é consequência de necessidades práticas, ou seja, ocorre quando o diretor deseja musicar alguma cena já filmada e montada, e procura a música que, em seu entender, cumprirá satisfatoriamente a função por ele imaginada, e é fácil deduzir que, nestas circunstancias, a música pode assumir todas as características anteriormente estudadas (de fundo, de preenchimento, incidental, de ligação, música-personagem, contrária à cena, etc.); como a música incidental é, segundo vimos, a variedade mais corrente, compreende-se que o emprego da música pronta com esta finalidade também seja mais frequente (e é interessante notar que, nestas condições, o trabalho do diretor aproxima-se ao do "sonoplasta").

A utilização da música já existente, segundo esta primeira maneira, pode levar a resultados mais ou menos felizes (e é inegável que, por vezes, o diretor os obtêm muito bons, conseguindo que a cena ganhe em expressividade e eficácia); por outro lado, é instrutivo observar que, quando nos referimos mais acima a "necessidades práticas", incluímos ai considerações de ordem econômica, ou seja, o que muitas vezes leva ao emprego da música pronta é a falta de recursos para a produção de música própria.

Quando se considera a segunda maneira, as coisas são inteiramente diferentes.

A opção por esta alternativa é, na quase totalidade dos casos, iniciativa do diretor, e fornece índice seguro do alcance de sua sensibilidade e conhecimento musicais. Neste caso, o mecanismo anterior se inverte: o diretor conhece uma obra musical determinada e algum trecho lhe sugere ao espírito a concepção de uma cena ou sequência (em outras palavras, filma a partir da música). Se considerarmos a ação que a música pode exercer sobre a imagem adaptando-se a ela fica fácil imaginar o quanto se multiplica essa força expressiva se o processo se inverter (imagem construída a partir da música).

Observe-se, porém, que o risco não é pequeno; esta opção pressupõe imensa cautela, mão segura e intuição infalível, pois se não se logra resultado satisfatório, acaba-se transformando cena e música em caricaturas, e a título de confirmação de tudo isto, estudem-se os imortais exemplos, antigos e modernos, que esta maneira de empregar a música já proporcionou.

Em resumo, seja qual for a alternativa escolhida, é preciso ressaltar que o fator mais importante no sucesso do emprego de música já existente é o conhecimento e a sensibilidade musicais do diretor, assunto que, pela importância, merecerá considerações mais extensas quando mais adiante tratarmos do relacionamento diretor-compositor.


Mauro Giorgetti é compositor e professor de Trilha Sonora no Curso de Cinema da FAAP