Hiroshima Mon Amour
Os labirintos da memória


Por Natasja Berzoini*

Alain Resnais nasce em Vannes, na França, em 1922. Sua filmografia é composta por mais de 13 longas e diversos documentários. O cineasta começou sua carreira fazendo filmes independentes, o que o condenou a um certo isolamento. Estes trabalhos eram, em sua maioria, estudos de artistas plásticos - Van Gogh, Max, Ernst, Gauguin, Picasso e o seu 'Guernica', entre outros. Na década de 50, Resnais se envereda para o movimento Novelle Vague e passa a filmar documentários baseados em roteiros literários - Nuit et Brouillard, Toute la Memórie du Monde. É desta época que surge o tratado da memória e Resnais se dedica aos assuntos infinitos do tempo, das lembranças perdidas em nós mesmos, perseguindo no passado um elo constante com o presente em dissolução.

Alain Resnais mantém uma carreira que se estrutura em cima de algumas contradições e características marcantes, como a impessoalidade, seriedade e até mesmo a frieza com que trata os assuntos da existência humana. O questionamento distante e sistemático impresso em seus filmes revela um enfoque mais intelectual e filosófico que dramático. Seus filmes são difíceis de serem absorvidos em sua aura; apresentam um obstáculo consciente de diálogo com o público. Os filmes mais marcantes do cineasta francês são, talvez, os mais complexos e, portanto, carregados de significados e interpretações. Hiroshima Mon Amour, Providence, Muriel, Ano Passado em Marienbad são exemplos da ruptura de Resnais com a narrativa clássica, saindo do convencionalismo do realismo ilusionista e manipulador para construir um cinema que transgride todas as normas e padrões. Um cinema de poesia.

Em 1959, Resnais mostra ao mundo sua mais importante película: Hiroshima Mon Amour. O cineasta, com uma eloqüência comovente, nos transporta impetuosamente para outras dimensões do cinema. Este filme é um marco revolucionário, mas despretensioso, na história do cinema; de um conteúdo filosófico-existencial e poético-dramático inigualável. A narrativa imagética nos sugere diferentes interpretações, os significados são múltiplos e infinitos. Hiroshima já foi exaustivamente analisado, criticado e contemplado. O que proponho aqui, no entanto, é uma análise simples que traduz muito mais as minhas impressões auferidas pelo filme que um estudo analítico.

Hiroshima Mon Amour apresenta uma narrativa complexa para desenvolver uma trama que aborda sentimentos e recordações inconscientes que condicionam comportamentos conscientes. O filme narra a história de dois amantes - uma atriz francesa (Emmanuelle Riva) e um arquiteto japonês (Eiji Okada) - que se conhecem em Hiroshima no infindo e recente pós-guerra, final dos anos 50. A cidade atingida pela bomba atômica ainda se encontrava submersa por uma nuvem sufocante de tristeza que tortura seus sobreviventes, os filhos de Hiroshima.

Hiroshima Mon Amour é uma reflexão sobre a questão da memória. É um filme de reminiscências de Resnais. No início do filme é apresentado um documentário de guerra narrada pelas impressões da atriz francesa que se encaminha para a ficção. A atriz francesa está em Hiroshima participando de um filme sobre a paz, enquanto sustenta uma frágil relação amorosa com um japonês. A idéia a ser discutida por Resnais é a persistência da memória e a possibilidade do esquecimento sustentados pelos paradoxos - vida e morte, silêncio e palavra.

O desenvolvimento dramático dos personagens principais se confunde a medida em que são cúmplices de um mesmo momento e de um possível destino juntos. A ação principal que trata do casal que inicia um romance em Hiroshima é entrecortada por flashbacks que remetem a fatos ocorridos com a atriz em Nevers, França, durante a II Guerra Mundial. Assim, a estrutura da ação dramática se divide entre passado e presente. As memórias de Nevers se diluem na ação que se desenrola no presente - Hiroshima.

A atriz francesa, Nevers - como o arquiteto a chama no final -, interpretada belissimamente por Emmanuelle Riva, conduz o eixo de ação, já que é sobre o seu passado que discorre o tratado da memória. Quando jovem, em Nevers, ela mantém um caso com um soldado alemão e, numa nação em que um sentimento de vergonha, advindo do período de guerra, reina nas relações sociais, é condenada como uma espécie de traidora da pátria. As memórias do passado vagueiam incessantemente por sua mente e, por vezes, chega a controlar suas atitudes. O objetivo de Nevers é libertar-se do seu passado, assim tenta amar o arquiteto japonês, Hiroshima. Sua consciência lhe conduz ao caminho do esquecimento pela tortura da memória e materializando suas lembranças reinventa o presente. Nevers nega, irrefutavelmente, o amor presente não se entregando a Hiroshima. Ao mesmo tempo em que vê nele um confidente ao compartilhar o seu passado.
Hiroshima - como Nevers o chama - é um filho da bomba atômica. Assim, nega o passado, a memória, as lembranças como forma de esquecimento de construir o novo, o presente. Ele representa a possibilidade de esquecimento para Nevers, através da concretização do presente. Como Nevers, Hiroshima precisa esquecer o passado, sua história pessoal e social destruídas pela bomba. Ele está passivo à ação dramática desenvolvida por Nevers.


Emmanuelle Riva em Hiroshima Mon Amour

Os obstáculos enfrentados pelos personagens não são físicos, mas de cunho existencial. O presente jamais se afirma como possibilidade real. Nevers é incessantemente atingida pela persistência da memória e sua constante reconstrução. A realidade do presente fica enevoada, cedendo à impressão do passado ininterrupto. Ela quer desaprender pela reminiscência, olvidar tudo aquilo que, um dia, permeou a sua memória. Perder suas lembranças de uma história que ficou retida no passado e repousar no tempo presente, no real.

Os conflitos do passado se manifestam pelo trauma. A impossibilidade do esquecimento como afirmação de sua identidade e memória legitima o conflito maior vivido pelo casal. Nevers e Hiroshima estão condenados ao passado e à sua reconstrução pela memória.

Nevers é atriz e, assim, discursa através da mimese, da repetição, da reconstrução pela memória. Tenta resolver seu trauma através da repetição de suas lembranças a fim de condená-las ao esquecimento. O arquiteto lida com a construção, com o novo. Hiroshima vê em Nevers a possibilidade de esquecer o passado e manter-se no presente.

A ação do filme se desenvolve através do silêncio. O discurso do silêncio revela a essência da narrativa, através da negação das palavras. O dizer do silêncio se manifesta a partir da expressão corporal dos atores - o andar agitado e tenso, os movimentos repentinos e inconstantes. O discurso, a retórica de Nevers, desvela a verdade e a inverdade pelas vias do inefável.

Após o jogo corporal de expressões agonizantes e a viagem pelos palácios da memória através da negação e redenção ao amor, Nevers e Hiroshima se entregam ao fracasso da tentativa de esquecer. Esquecer suas identidades, seus passados nebulosos. A desilusão da reconstrução da memória como caminho para o esquecimento se confirma pela aceitação e pela incorporação da dor e do sofrimento como marca de suas memórias pessoais. Percorre-se a memória pela angústia e desespero até a impossibilidade conformada do esquecimento.

Hiroshima Mon Amour é um olhar trágico sobre a condição humana, condenada ao fracasso do esquecimento, do entorpecimento da mente, da memória. Uma visão apocalíptica sobre a condição do ser. Uma meditação sobre a censura imposta ao esquecimento pela tortura dos labirintos da memória, pelos vestígios do passado. Uma reflexão sobre a visão agonizante do homem moderno, sobre sua relação particular com o passado, com o presente e com o futuro, incerto; imerso num desamparo absoluto e indissolúvel.

"Hi-ro-shi-ma... Hi-ro-shi-ma.
C'est ton nom"

"C'est mon nom. Oui.
Tom nom a toi est Nevers.
Ne-vers-en-Fran-ce".


*Natasja Berzoini é aluna de cinema da FAAP

Data de publicação: 05/08/2002