ALL THAT JAZZ
O Show Deve Continuar - Dir. Bob Fosse - 1979

Por Patricia Alegre *


"It's show time folks!". Esta é a primeira frase que o protagonista de All That Jazz, Joe Gideon, fala de manhã antes de sair de casa. E Joe Gideon não é ninguém além do próprio diretor do filme, Bob Fosse, interpretado pelo ator Roy Scheider.

Bob Fosse, pouco reconhecido no meio cinematográfico, mas de importância considerável para a dança e o teatro musical do final do século XX, começou sua carreira artística muito cedo, pois seu pai trabalhava em uma vaudeville, e desde os 13 anos já se apresentava com um pequeno grupo de dança. Coreografou e atuou em vários filmes musicais e criou versões de filmes para o palco, como The Pajama Game (1957) Sweet Charity, Pippin (1972), e Chicago (1975, inspirado no filme homônimo dirigido por Frank Urson em 1927).

Embora All That Jazz seja classificado com um "musical" (termo que desde sua origem traz a idéia de escapismo), como todos os filmes dirigidos por Fosse, apresenta forte crítica ao mundo da mídia e do entretenimento norte-americano, sugerindo uma reflexão. Por mais que um filme, peça de teatro ou programa de televisão seja 100% entretenimento, deve fazer o espectador pensar em alguma coisa, refletir.

Sweet Charity, uma adaptação de Noites de Cabíria (1957), de Federico Fellini, embora não seja um ótimo filme pelo simples fato de que a interpretação de Shirley McLaine não se compare à de Giullieta Masina, possui alguns traços interessantes para a história do cinema musical. Aqui, diferentemente dos musicais tradicionais, a trama central, a história da prostituta Charity que, da mesma forma que Cabíria, é ingênua e acredita que todos são bons, é firme durante o filme todo. Na maioria dos típicos musicais hollywoodianos, de The Jazz Singer a Chorus Line, o eixo principal da ação não é a narrativa ou a linguagem cinematográficas, mas a dança. Em Sweet Charity, há grandes cenas de dança mas estas são tão importantes quanto a história que se quer contar. Em Cabaret (1972), Bob Fosse trabalha bem a narrativa embora tenham muitos números musicais que são bem relevantes, até porque o filme se passa dentro de um cabaré, não estando as cenas "performáticas" deslocadas da trama.

Mas é com All That Jazz que Fosse consegue, na minha opinião, realizar um musical realmente cinematográfico. A narrativa não é completamente linear, os temas abordados são muito pertinentes e as cenas de dança, além de excelentes, se encaixam perfeitamente no roteiro.

O filme começa com um toca-fitas sendo ligado. Poderia ser uma cortina de um palco abrindo, ou a tecla "play" de um vídeo-cassete sendo apertada. É anunciado, assim, o início. Logo percebemos que é o início de mais um dia na vida do personagem Joe Gideon. Ele liga o toca-fitas, pinga colírio nos olhos, toma alguns comprimidos de dexedrina, entra no banho, se olha no espelho e diz: "It's show time folks!". Na primeira vez que esta seqüência é mostrada no filme, é intercalada com uma cena de Joe num lugar escuro, que parece um circo, andando numa corda bamba. Ele diz "A vida é estar na corda bamba. O resto é só espera". Vemos então, de longe, uma mulher toda de branco (Jessica Lange) que conversa com ele. Esta mulher de fisionomia angelical, com um véu e um vestido branco, neste ambiente escuro e onírico, aparece durante o filme inteiro e vamos percebendo que Joe está falando sobre os acontecimentos de sua vida para ela.

Em seguida, em um teatro, centenas de dançarinos estão num enorme palco fazendo um teste para um musical. Esta cena é muito semelhante às cenas de testes de dançarinos do filme A Chorus Line (1985). O protagonista Joe é apresentado. É um coreógrafo um pouco nervoso. Sua filha Michelle e ex-esposa Audrey estão lá. Notamos que a relação familiar de Joe não é das mais tradicionais.

Depois, Joe está numa sala de projeção vendo um filme por ele dirigido sendo finalizado. Este filme era sobre um pop-star. Ele fala sobre vida e morte - temas principais de All That Jazz. Outro tema muito (bem) abordado é a fama e a indústria cinematográfica. Joe mesmo diz "É uma indústria muito estranha". Porém, a crítica feita aqui é diferente à feita, por exemplo, por Woody Allen em boa parte de seus filmes. É interessante o fato de ambos tratarem a mesma questão metalinguisticamente, embora a semelhança não seja tão evidente.

A metalinguagem, como já disse, é muito presente neste filme. Não só por ser um filme que fala sobre o fazer um filme, mas por ser quase uma autobiografia de seu diretor. Eu digo que é quase uma autobiografia, porque Fosse, vivo, mostra sua morte. E esta não é uma morte qualquer, mas uma cena de um musical, muito alegre.

Se Sweet Charity teve influência de Noites de Cabíria, All That Jazz apresenta vários traços de Fellini 8 e meio (1963). Há quem diga que o personagem Guido Anselmi, de Oito e meio, representa o próprio Fellini, assim como Joe Guideon é Bob Fosse. Em ambos os filmes o espectador penetra na alma do personagem principal, um diretor que vive cercado de produtores, aspirantes a atores, críticos, e amantes. E além de tudo isso têm o passado se cruzando com o presente. Em All That Jazz, é no decorrer da narrativa que o espectador vai se situando nos dois tempos apresentados. O presente seria a "corda bamba" sobre a qual está Joe à beira da morte. A conversa de Joe com a mulher angelical naquele ambiente onírico se passa no limiar entre a vida e a morte. Aliás, todo o surrealismo de All That Jazz remetem muito à estética felliniana. Apesar de tantos flashbacks, a narrativa é linear no sentido de ter "começo, meio e fim".

Um elemento que exerce papel fundamental na construção deste filme é a edição. São muito bem feitas as inserções de certas imagens que estão aparentemente deslocadas da ação principal. Alguns exemplos:

Em cenas em que Joe está muito nervoso, são inseridas rápidas imagens dele no hospital, sendo isso um prenúncio à sua morte;

Os diálogos de Joe com a personagem de Jessica Lange intercalados com os acontecimentos "reais";

Há uma cena em que Joe está, após sofrer um enfarte, sendo operado e ao mesmo tempo, os produtores do musical que ele faria estão discutindo quanto dinheiro ganharão ou perderão dependendo do sucesso da cirurgia - a ironia presente neste trecho é fortíssima, e é talvez a cena na qual a crítica ao sistema capitalista e à indústria cinematográfica é mais intensa. Esta crítica, também apresentada em Cabaret com a canção que diz "Money makes the world go around", é completada no filme de um jeito sutil e irônico nos créditos finais, com a música "there's no business like showbusiness".

Outra seqüência extremamente marcante e que nos faz realmente entrar dentro do personagem Joe é aquela que, durante um ensaio, ele se irrita profundamente com as risadas dos atores e vemos que há muito barulho no ambiente, mas este vai sendo minimizado até ficar totalmente mudo. Ouvimos somente os passos de Joe e o som de seu sapato apagando um cigarro. Em seguida, mais uma vez um prenúncio da morte, a mulher angelical aparece revelando seu rosto sem o véu.

Ou seja, todas essas inserções de imagens durante as cenas trazem um significado a mais, dando um novo sentido à seqüência, enriquecendo a estética do filme.

A fotografia de All That Jazz, assinada por Giuseppe Rotunno, possui aspectos relevantes para a construção do roteiro. Os enquadramentos utilizados na primeira seqüência são bastante fechados, vemos as mãos, olhos e boca de Joe, depois o seu reflexo no espelho anunciando o começo do "show". Quando a ação se passa no tempo presente, nos diálogos de Scheider e Jessica Lange, a iluminação é diferente das outras cenas, é tudo mais teatral, e esfumaçado, remetendo mesmo ao sonho, à fronteira vida-morte. Há diversos planos de contra-luz, elemento presente nas peças teatrais coreografadas por Fosse.

A textura e iluminação da imagem dessas lembranças surreais que aparecem nesse lugar estranho e surreal com certeza inspiraram Rob Marshall em Chicago (2002).

Como já disse acima, os dois principais temas abordados e analisados por Bob Fosse em All That Jazz são a morte e o mundo do espetáculo, que, de certa maneira estão fortemente interligados. Pensemos no seguinte: quantos filmes já feitos no mundo inteiro desde a invenção do cinema, falam direta ou indiretamente sobre a morte? Quantas pessoas no mundo inteiro têm como maior medo a morte de amigos, parentes ou delas próprias? Quantas vezes aparecem nos jornais notícias de morte? Tudo isso porque, afinal de contas, como diz o ditado popular, assim que nascemos começamos a morrer. A morte, embora (em princípio) nenhum indivíduo vivo já a tenha experimentado é um dos assuntos que mais encantam e assustam as pessoas, seja na ficção ou na realidade.

Voltando ao filme de Fosse, o significado da morte para o personagem Joe Gideon era muito maior do que para qualquer outra pessoa. Ela é, digamos, o último "ato" do espetáculo da vida. É o último número musical do filme, "Bye Bye Life". O protagonista vê tudo, até a própria morte, como espetáculo. (O mesmo acontece com a personagem Roxie Hart, de Chicago.) Haveria, portanto, dois filmes dentro do filme: o filme realizado por Joe Gideon e a sua vida. Inclusive, no final, Joe, diretor, pergunta para si mesmo, moribundo, como acha que devem ser as cenas do filme de sua vida.

Mas a idéia central de All That Jazz é a idéia de que vivemos no mundo do espetáculo. Tudo é espetáculo. Até a própria morte. E esta idéia continua, 25 anos após a realização do filme, permitindo grande reflexão sobre o assunto. As barreiras entre ficção e realidade, "show" e vida, são cada vez mais diluídas. (De onde será que vem a expressão "reality show"?) Cabe a nós, espectadores, que vivemos imersos nessa sociedade do entretenimento e do espetáculo refletirmos sobre estas questões abordadas no filme.


FONTES:

DVD All That Jazz - O show deve continuar.
GOTTFRIED, Martin. All his jazz - The life and dead of Bob Fosse. DeCapo Press 1998.
http://www.contracampo.he.com.br/41/allthatjazz


* Patricia Alegre cursa o 5o. semestre do curso de cinema da Faap