"It's
show time folks!". Esta é a primeira frase que o protagonista
de All That Jazz, Joe Gideon, fala de manhã antes de sair de
casa. E Joe Gideon não é ninguém além
do próprio diretor do filme, Bob Fosse, interpretado pelo ator
Roy Scheider.
Bob
Fosse, pouco reconhecido no meio cinematográfico, mas de importância
considerável para a dança e o teatro musical do final
do século XX, começou sua carreira artística
muito cedo, pois seu pai trabalhava em uma vaudeville, e desde os
13 anos já se apresentava com um pequeno grupo de dança.
Coreografou e atuou em vários filmes musicais e criou versões
de filmes para o palco, como The Pajama Game (1957) Sweet Charity,
Pippin (1972), e Chicago (1975, inspirado no filme homônimo
dirigido por Frank Urson em 1927).
Embora
All That Jazz seja classificado com um "musical" (termo
que desde sua origem traz a idéia de escapismo), como todos
os filmes dirigidos por Fosse, apresenta forte crítica ao mundo
da mídia e do entretenimento norte-americano, sugerindo uma
reflexão. Por mais que um filme, peça de teatro ou programa
de televisão seja 100% entretenimento, deve fazer o espectador
pensar em alguma coisa, refletir.
Sweet
Charity, uma adaptação de Noites de Cabíria (1957),
de Federico Fellini, embora não seja um ótimo filme
pelo simples fato de que a interpretação de Shirley
McLaine não se compare à de Giullieta Masina, possui
alguns traços interessantes para a história do cinema
musical. Aqui, diferentemente dos musicais tradicionais, a trama central,
a história da prostituta Charity que, da mesma forma que Cabíria,
é ingênua e acredita que todos são bons, é
firme durante o filme todo. Na maioria dos típicos musicais
hollywoodianos, de The Jazz Singer a Chorus Line, o eixo principal
da ação não é a narrativa ou a linguagem
cinematográficas, mas a dança. Em Sweet Charity, há
grandes cenas de dança mas estas são tão importantes
quanto a história que se quer contar. Em Cabaret (1972), Bob
Fosse trabalha bem a narrativa embora tenham muitos números
musicais que são bem relevantes, até porque o filme
se passa dentro de um cabaré, não estando as cenas "performáticas"
deslocadas da trama.
Mas
é com All That Jazz que Fosse consegue, na minha opinião,
realizar um musical realmente cinematográfico. A narrativa
não é completamente linear, os temas abordados são
muito pertinentes e as cenas de dança, além de excelentes,
se encaixam perfeitamente no roteiro.
O
filme começa com um toca-fitas sendo ligado. Poderia ser uma
cortina de um palco abrindo, ou a tecla "play" de um vídeo-cassete
sendo apertada. É anunciado, assim, o início. Logo percebemos
que é o início de mais um dia na vida do personagem
Joe Gideon. Ele liga o toca-fitas, pinga colírio nos olhos,
toma alguns comprimidos de dexedrina, entra no banho, se olha no espelho
e diz: "It's show time folks!". Na primeira vez que esta
seqüência é mostrada no filme, é intercalada
com uma cena de Joe num lugar escuro, que parece um circo, andando
numa corda bamba. Ele diz "A vida é estar na corda bamba.
O resto é só espera". Vemos então, de longe,
uma mulher toda de branco (Jessica Lange) que conversa com ele. Esta
mulher de fisionomia angelical, com um véu e um vestido branco,
neste ambiente escuro e onírico, aparece durante o filme inteiro
e vamos percebendo que Joe está falando sobre os acontecimentos
de sua vida para ela.
Em
seguida, em um teatro, centenas de dançarinos estão
num enorme palco fazendo um teste para um musical. Esta cena é
muito semelhante às cenas de testes de dançarinos do
filme A Chorus Line (1985). O protagonista Joe é apresentado.
É um coreógrafo um pouco nervoso. Sua filha Michelle
e ex-esposa Audrey estão lá. Notamos que a relação
familiar de Joe não é das mais tradicionais.
Depois,
Joe está numa sala de projeção vendo um filme
por ele dirigido sendo finalizado. Este filme era sobre um pop-star.
Ele fala sobre vida e morte - temas principais de All That Jazz. Outro
tema muito (bem) abordado é a fama e a indústria cinematográfica.
Joe mesmo diz "É uma indústria muito estranha".
Porém, a crítica feita aqui é diferente à
feita, por exemplo, por Woody Allen em boa parte de seus filmes. É
interessante o fato de ambos tratarem a mesma questão metalinguisticamente,
embora a semelhança não seja tão evidente.
A
metalinguagem, como já disse, é muito presente neste
filme. Não só por ser um filme que fala sobre o fazer
um filme, mas por ser quase uma autobiografia de seu diretor. Eu digo
que é quase uma autobiografia, porque Fosse, vivo, mostra sua
morte. E esta não é uma morte qualquer, mas uma cena
de um musical, muito alegre.
Se
Sweet Charity teve influência de Noites de Cabíria, All
That Jazz apresenta vários traços de Fellini 8 e meio
(1963). Há quem diga que o personagem Guido Anselmi, de Oito
e meio, representa o próprio Fellini, assim como Joe Guideon
é Bob Fosse. Em ambos os filmes o espectador penetra na alma
do personagem principal, um diretor que vive cercado de produtores,
aspirantes a atores, críticos, e amantes. E além de
tudo isso têm o passado se cruzando com o presente. Em All That
Jazz, é no decorrer da narrativa que o espectador vai se situando
nos dois tempos apresentados. O presente seria a "corda bamba"
sobre a qual está Joe à beira da morte. A conversa de
Joe com a mulher angelical naquele ambiente onírico se passa
no limiar entre a vida e a morte. Aliás, todo o surrealismo
de All That Jazz remetem muito à estética felliniana.
Apesar de tantos flashbacks, a narrativa é linear no sentido
de ter "começo, meio e fim".
Um
elemento que exerce papel fundamental na construção
deste filme é a edição. São muito bem
feitas as inserções de certas imagens que estão
aparentemente deslocadas da ação principal. Alguns exemplos:
Em
cenas em que Joe está muito nervoso, são inseridas rápidas
imagens dele no hospital, sendo isso um prenúncio à
sua morte;
Os
diálogos de Joe com a personagem de Jessica Lange intercalados
com os acontecimentos "reais";
Há
uma cena em que Joe está, após sofrer um enfarte, sendo
operado e ao mesmo tempo, os produtores do musical que ele faria estão
discutindo quanto dinheiro ganharão ou perderão dependendo
do sucesso da cirurgia - a ironia presente neste trecho é fortíssima,
e é talvez a cena na qual a crítica ao sistema capitalista
e à indústria cinematográfica é mais intensa.
Esta crítica, também apresentada em Cabaret com a canção
que diz "Money makes the world go around", é completada
no filme de um jeito sutil e irônico nos créditos finais,
com a música "there's no business like showbusiness".
Outra
seqüência extremamente marcante e que nos faz realmente
entrar dentro do personagem Joe é aquela que, durante um ensaio,
ele se irrita profundamente com as risadas dos atores e vemos que
há muito barulho no ambiente, mas este vai sendo minimizado
até ficar totalmente mudo. Ouvimos somente os passos de Joe
e o som de seu sapato apagando um cigarro. Em seguida, mais uma vez
um prenúncio da morte, a mulher angelical aparece revelando
seu rosto sem o véu.
Ou
seja, todas essas inserções de imagens durante as cenas
trazem um significado a mais, dando um novo sentido à seqüência,
enriquecendo a estética do filme.
A
fotografia de All That Jazz, assinada por Giuseppe Rotunno, possui
aspectos relevantes para a construção do roteiro. Os
enquadramentos utilizados na primeira seqüência são
bastante fechados, vemos as mãos, olhos e boca de Joe, depois
o seu reflexo no espelho anunciando o começo do "show".
Quando a ação se passa no tempo presente, nos diálogos
de Scheider e Jessica Lange, a iluminação é diferente
das outras cenas, é tudo mais teatral, e esfumaçado,
remetendo mesmo ao sonho, à fronteira vida-morte. Há
diversos planos de contra-luz, elemento presente nas peças
teatrais coreografadas por Fosse.
A
textura e iluminação da imagem dessas lembranças
surreais que aparecem nesse lugar estranho e surreal com certeza inspiraram
Rob Marshall em Chicago (2002).
Como
já disse acima, os dois principais temas abordados e analisados
por Bob Fosse em All That Jazz são a morte e o mundo do espetáculo,
que, de certa maneira estão fortemente interligados. Pensemos
no seguinte: quantos filmes já feitos no mundo inteiro desde
a invenção do cinema, falam direta ou indiretamente
sobre a morte? Quantas pessoas no mundo inteiro têm como maior
medo a morte de amigos, parentes ou delas próprias? Quantas
vezes aparecem nos jornais notícias de morte? Tudo isso porque,
afinal de contas, como diz o ditado popular, assim que nascemos começamos
a morrer. A morte, embora (em princípio) nenhum indivíduo
vivo já a tenha experimentado é um dos assuntos que
mais encantam e assustam as pessoas, seja na ficção
ou na realidade.
Voltando
ao filme de Fosse, o significado da morte para o personagem Joe Gideon
era muito maior do que para qualquer outra pessoa. Ela é, digamos,
o último "ato" do espetáculo da vida. É
o último número musical do filme, "Bye Bye Life".
O protagonista vê tudo, até a própria morte, como
espetáculo. (O mesmo acontece com a personagem Roxie Hart,
de Chicago.) Haveria, portanto, dois filmes dentro do filme: o filme
realizado por Joe Gideon e a sua vida. Inclusive, no final, Joe, diretor,
pergunta para si mesmo, moribundo, como acha que devem ser as cenas
do filme de sua vida.
Mas
a idéia central de All That Jazz é a idéia de
que vivemos no mundo do espetáculo. Tudo é espetáculo.
Até a própria morte. E esta idéia continua, 25
anos após a realização do filme, permitindo grande
reflexão sobre o assunto. As barreiras entre ficção
e realidade, "show" e vida, são cada vez mais diluídas.
(De onde será que vem a expressão "reality show"?)
Cabe a nós, espectadores, que vivemos imersos nessa sociedade
do entretenimento e do espetáculo refletirmos sobre estas questões
abordadas no filme.
FONTES:
DVD
All That Jazz - O show deve continuar.
GOTTFRIED, Martin. All his jazz - The life and dead of Bob Fosse.
DeCapo Press 1998.
http://www.contracampo.he.com.br/41/allthatjazz
* Patricia Alegre cursa o 5o. semestre do curso de cinema da Faap